segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Itapirense, diz-me como votarás e te direi quem és.



Seremos 53.424 eleitores aptos a votar. A forma como cada um se comportará revelará cidadania - ou de alheamento — e produzirá consequências.

Se repetirmos o comportamento de eleições anteriores, cerca de 21 mil eleitores deixarão de comparecer às urnas ou votarão nulo ou em branco. Nesse grupo estarão, em maior proporção, jovens abaixo dos 24 anos, idosos acima dos 70, pessoas de menor renda e escolaridade e os descontentes com a política.

Quem adota essas práticas acaba contribuindo para a manutenção daquilo que tanto reprova. Ao não votar ou anular o voto, transfere o poder de escolha para quem votou. É gente que, em tese, perde até o direito de abrir o bico para reclamar dos eventuais malfeitos.

Cerca de 23 mil votos foram distribuídos entre 592 candidatos a deputado estadual, em 2018, e 630, em 2022. Gente que o eleitor nunca viu mais gordo nem mais magro — quiçá soubesse o que pensava. Boa parte desses votos se enquadra no chamado voto aleatório: nenhuma razão minimamente fundamentada orientou a escolha.

É o voto para cumprir a obrigação legal; pela aparência; porque o candidato é famoso; pela promessa de algum benefício; ou por indicação de familiares e conhecidos. Entre as distorções provocadas por esse comportamento está o comprometimento do próprio sistema de representação, fenômeno que também pode ser observado à luz do chamado Efeito Tiririca.

Todos os cargos em disputa merecem votos conscientes. Das nossas escolhas configuraremos os próximos quatro anos. Foco, entretanto, a análise nos deputados estaduais, por considerá-los especialmente importantes para Itapira. Candidatos conhecidos e comprometidos com a cidade podem ser cobrados pela destinação de recursos e pela defesa de nossos interesses.

Há, naturalmente, quem escolha pelo meio ambiente, pela saúde, pela educação, pela segurança ou por convicções ideológicas. São escolhas legítimas. Mas, para quem escolhe Itapira como prioridade, não faz sentido pulverizar o voto.

Da minha parte, apesar das naturais divergências, reconheço a importância de Barros Munhoz para Itapira e região. Lembro-me dos tempos em que não tínhamos representante na Assembleia Legislativa. Por isso, meu voto é 55855.

O voto é um espelho: revela muito mais de nós do que imaginamos.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Convicção ou prisão? O perigo de só ouvir o que nos agrada.

 



Você conhece alguém que evita informações que contradizem aquilo em que acredita, tratando-as como ameaça à sua própria identidade?

Em época de eleição, isso se intensifica ao agrupar crenças coletivas. O que uma pessoa pensa reflete o grupo e, assim, visões opostas deixam de ser convites à reflexão para virarem ameaças diretas. Mas essa resistência vai além da política: está presente no dia a dia, na religião, na saúde, no trabalho, nas finanças, na ciência e nas relações pessoais.

É um fenômeno humano antigo. Ele é alimentado pelo viés de confirmação (buscamos o que valida nossas ideias), pelo desconforto do conflito cognitivo e pela ilusão de saber mais do que realmente sabemos.

Escolaridade ou inteligência não nos imunizam contra o casulo da desinformação. Pesquisas mostram que raros indivíduos analisam visões contrárias com rigor; a maioria prefere o descarte imediato.

Eis a diferença entre ter convicções e ser refém delas. Ideias servem como guia, mas nada é imutável. Ao rejeitarmos evidências, nos tornamos prisioneiros das próprias certezas.

A história prova que seguir a maioria nem sempre é o melhor caminho. O consenso cego gerou desastres como o nazismo e a ilusão de estabilidade do sistema financeiro em 2008. Na Bíblia, a verdade raramente esteve com a multidão: Noé construiu a arca sob deboche geral, profetas confrontavam o senso comum e Jesus foi condenado pelo clamor popular.

Essa dificuldade de processar o contraditório ajuda a explicar por que tão poucos se destacam na Ciência, nas Artes, na Educação e nos Negócios. Se a tendência de seguir o rebanho já era prejudicial antes, o cenário atual é ainda mais preocupante com a bolha dos algoritmos.

Abertura intelectual não é aceitar passivamente o que nos agrada, mas ter disposição para consumir o que confronta nossa visão do mundo. Afinal, mesmo que nada mude, o exercício do pensamento crítico mal nenhum fará.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que Esperar do Futuro Mercadão de Itapira?



Está aberta, desde quinta-feira (17), a concorrência pública para a exploração comercial do Mercado Municipal de Itapira. O espaço, embora revitalizado, ainda está na fase final da reforma, iniciada no começo de 2023. Os interessados têm até o dia 20 de outubro para apresentar suas propostas.

 

Se tudo der certo, em 2027 teremos, finalmente, um mercadão para chamar de nosso.

 

O objetivo é claro: não se trata de recriar o mercado do passado, mas de concebê-lo nos moldes contemporâneos. A proposta deve ir além do comércio tradicional, oferecendo uma experiência diferenciada que combine diversidade, conforto e qualidade, transformando a visita em um programa de lazer. O edital prevê atividades como choperias, cafés, bares, restaurantes, rotisserias, sorveterias, adegas, docerias e empórios.

 

Contudo, o documento deixa lacunas importantes. Não há menção ao comércio de produtos religiosos, artigos populares, queijos, especiarias, pescados ou serviços de conveniência — nichos que enriqueceriam a oferta. Outra ausência relevante são os hortifrutigranjeiros. Seria desejável o acesso diário a produtos frescos, direto dos produtores, em contraste com o modelo atual de feiras limitadas a poucos dias da semana.

 

Há, ainda, duas palavras essenciais que o edital omite, mas que deveriam orientar o processo: criatividade e qualidade. O desafio é conceber um espaço que atraia pelo prazer, pela experiência e pela descoberta de algo único. Não interessa a Itapira que o novo mercado se transforme em um “cortiço comercial”, concorrendo de forma predatória com o comércio tradicional.

 

O verdadeiro desafio da administração pública é garantir que o local se sustente com excelência, fazendo jus ao vultoso investimento. Se bem gerido, o Mercado Municipal poderá se transformar em um polo de fomento econômico, atraindo turistas, aumentando a circulação de pessoas no centro da cidade, fortalecendo, inclusive, o comércio da região e, quem sabe, abrindo espaço para manifestações culturais. Quando todos ganham, o sucesso deixa de ser promessa e vira realidade.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Na hora do voto, pense em Itapira, também.

 


A urna eletrônica é uma caixinha de plástico, com uma tela preta e botões de borracha, mas, a cada dois anos, ganha o peso de um confessionário urbano. Daqui a duas semanas, a liturgia se repete. Apertaremos o botão verde para escolher presidente, senadores, governador e uma penca de deputados. Promete-se o futuro ali, na ponta dos dedos, entre um pi-pi-pi e a sensação passageira de dever cumprido. O problema é que a memória do eleitor costuma durar menos que a fila da seção eleitoral, e o voto, que deveria ser bússola, vira loteamento.

O itapirense, em especial, desenvolveu uma vocação quase poética para a pulverização. Nas últimas eleições, a cidade distribuiu dezenas de milhares de votos entre uma multidão de candidatos a deputado estadual. Um desfile de nomes que, em sua grande maioria, jamais pisaram na José Bonifácio ou tomaram um café na praça. Em 2018, os votos da terra ajudaram a eleger 85 parlamentares; em 2022, foram 83. Se todos eles tivessem Itapira como prioridade, o governador do Estado morreria de inveja.

Entre 2018 e 2026, menos de dez deputados estaduais lembraram que o município existia para destinar uma emenda ou, ao menos, estender a mão. O resto evaporou. É o mistério do voto proporcional: o cidadão vota por simpatia, amizade, ideologia ou até pelo fígado e, no dia seguinte, descobre que entregou uma procuração em branco a um estranho. Cerca de 20 mil votos itapirenses foram dados a candidatos que, depois de eleitos, nunca mandaram sequer um “obrigado”.

Enquanto isso, Barros Munhoz — figura carimbada, que não tira Itapira da cabeça nem para dormir — colhe suas safras de pouco mais de 13 mil votos, mostrando que a fidelidade local ainda resiste em alguns nichos, embora dispute espaço com a dispersão irracional do restante do eleitorado. Não se trata de monopolizar a preferência, mas de exigir compromisso. Se não for ele, que seja outro. Mas que tenha CEP, rosto, compromisso cobrável e, principalmente, chances reais de se eleger.

O deputado estadual é a ponte estendida até o Palácio dos Bandeirantes, o sujeito que abre portas em São Paulo e cutuca ministérios em Brasília. Com os ventos econômicos anunciando para Itapira anos bicudos na arrecadação e no emprego, dar o voto a quem não tem raízes por aqui deixa de ser apenas ingenuidade; passa a ser um luxo que a cidade não pode se dar. Ter um representante com votação expressiva no município significa força política real para defender nossas demandas.

Na hora de encarar a urna, talvez seja bom deixar a torcida de lado e votar com um pouco mais de juízo territorial. O voto não pode ser na base do “Uni, Duni, Tê”; pode até passar pelo coração, mas o essencial é que a razão fale mais alto. Afinal, a escolha não termina quando a tela acende “FIM”. Ela começa ali

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ninguém Acima da Lei: O Dever do STF de Investigar a Si Mesmo

 





O Supremo Tribunal Federal vive sua maior crise desde sua instalação, em 1891. Ao longo de sua história, enfrentou diversos períodos turbulentos, quase sempre marcados por pressões externas, autoritarismo e tentativas de submeter o Judiciário ao poder de ocasião.

Em 1892, Floriano Peixoto mandou prender opositores e, diante da intenção dos advogados de recorrerem ao STF com pedidos de habeas corpus, ameaçou: se os ministros determinassem a soltura dos presos, não saberia quem concederia habeas corpus aos próprios ministros no dia seguinte. Diante da pressão, o STF recuou.

Em 1930, Getúlio Vargas reduziu o número de ministros do STF de 15 para 11 e afastou magistrados considerados contrários ao novo regime. Em 1937, com o Estado Novo, restringiu ainda mais a autonomia do Tribunal, pressionando ministros considerados inconvenientes.

A ruptura mais brutal viria com o regime militar. Em 1965, o AI-2 aumentou de 11 para 16 o número de ministros, ampliando a influência do governo sobre a Corte. Em 1968, com o AI-5, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal foram aposentados compulsoriamente por razões políticas. Em protesto, o então presidente do STF, Aliomar Baleeiro, renunciou.

A história mostra que o STF já foi atacado, pressionado, mutilado e, em determinados períodos, submetido de fora para dentro. Desta vez, porém, a crise tem uma característica diferente: nasceu e cresceu no próprio seio da instituição.

Pelo menos seis ministros tiveram seus nomes relacionados, em diferentes graus e circunstâncias, ao caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes.

Independentemente do que vier a ser comprovado, a situação exige transparência. Quando a mais alta Corte do país está sob suspeita ou questionamento, seus integrantes têm o dever de prestar à sociedade explicações claras e convincentes.

Uma coisa precisa estar acima de qualquer dúvida: ninguém pode estar acima da lei. Nem o cidadão comum, nem o empresário poderoso, nem deputado, senador ou presidente da República e, muito menos, um ministro do Supremo.

A democracia brasileira já resistiu a diversas tentativas de fragilização. Espera-se que o STF também atravesse esta tempestade. Para isso, precisa fazer aquilo que cobra dos demais: investigar, esclarecer, julgar com independência e, havendo responsabilidade comprovada, punir.

O STF não pode sobreviver em um mar de suspeitas. É o guardião da Constituição de 1988 e deve assegurar que os demais Poderes respeitem os direitos fundamentais, o devido processo legal e as liberdades garantidas aos cidadãos.

Na democracia, os Poderes são independentes e harmônicos. Ao STF cabe atuar como última instância constitucional, freando excessos do Executivo e do Legislativo e impedindo qualquer deriva autoritária.

Em uma sociedade polarizada, esse papel é ainda mais importante. Conflitos políticos precisam ser resolvidos dentro das regras constitucionais, pelo Direito e pelas instituições — não pela força, pela intimidação ou pela ruptura democrática.

Decisões firmes e coerentes também produzem segurança jurídica, essencial ao desenvolvimento econômico. Investidores precisam saber que contratos serão respeitados, que as regras não mudarão arbitrariamente e que conflitos serão resolvidos por instituições independentes.

Há ainda uma função essencial: proteger direitos fundamentais mesmo quando isso significa contrariar a vontade da maioria. Democracia não é apenas governo da maioria; é também respeito aos direitos que a maioria não pode simplesmente retirar das minorias.

Por tudo isso, o STF é indispensável à democracia brasileira. Mas, justamente por ser indispensável, precisa ser exemplar.

Sua autoridade não nasce apenas da Constituição, mas também da confiança da sociedade. A crise pode ser uma ameaça. Mas também pode ser a oportunidade de reconstruir a confiança.

No fim das contas, o STF só será verdadeiramente forte se tiver coragem de aplicar a mesma régua para todos — inclusive para si próprio.

Porque, sem um Supremo independente, imparcial e respeitado, nenhum brasileiro estará verdadeiramente protegido contra os abusos de quem quer que venha a ocupar o comando do país.

#14/09/2026#


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que mudou entre o 7 de setembro de 1822 e o de 2026?



Ronda pela cabeça de muita gente a ideia de que o famoso grito do Ipiranga, em 1822, foi um grandioso ato de amor de D. Pedro I pelo Brasil: montado em seu cavalo, revestido de coragem e heroísmo, teria arrancado o país das garras de Portugal com um simples e retumbante “Independência ou Morte!”.

Em pleno ano eleitoral, não faltam candidatos tentando se apresentar como heróis, salvadores da pátria ou donos de soluções mágicas para os problemas nacionais. Uma sina que, ao que parece, nos acompanha desde os tempos do Império.

Durante décadas, a imagem que os brasileiros receberam da Independência foi aquela eternizada pela famosa pintura a óleo de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, exposta no Museu do Ipiranga. A obra foi encomendada e pintada décadas depois do episódio, não como um registro fotográfico da cena, evidentemente, mas como uma representação grandiosa destinada a ajudar a construir uma determinada identidade nacional.

Até hoje, nem tudo aquilo que aprendemos como verdade chega até nós no devido tempo — e, às vezes, chega convenientemente editado. Mas o tempo se encarrega de revelar a história.

A historiografia mais recente mostra que a separação de Portugal foi um processo político, econômico e social complexo, marcado por disputas, negociações, interesses de grupos dominantes e conflitos. Alguma semelhança com os dias de hoje?

O processo ganhou força a partir de 1820, quando as Cortes portuguesas queriam também recolocar o Brasil em uma posição subordinada a Lisboa. Em outras palavras, queriam que o Brasil voltasse a ser colônia.

Em nome da autonomia, parte das elites locais, comerciantes e outros grupos de interesse se articulou em torno de D. Pedro. A Independência, portanto, não nasceu apenas de um gesto heroico às margens do Ipiranga. Foi resultado de uma complexa disputa de poder.

Em 1822, o dilema central era a soberania nacional diante do domínio português. Em 2026, o desafio é outro: aperfeiçoar a soberania popular, preservar a estabilidade democrática, fortalecer nossas instituições e defender a autonomia do país diante de pressões e tentativas de interferência externa — inclusive dos Estados Unidos — em decisões que dizem respeito aos interesses brasileiros e às nossas relações com outros países.

Durante muito tempo, prevaleceu a narrativa de que a Independência brasileira ocorreu de maneira praticamente pacífica, sem derramamento de sangue. A realidade foi bem diferente. Fora do eixo Rio-São Paulo, várias províncias resistiram à autoridade de D. Pedro e permaneceram leais a Lisboa. Houve combates violentos e mortes na Bahia, no Piauí, no Maranhão, no Pará e na Província Cisplatina, território que posteriormente daria origem ao Uruguai.

Em 2026, a disputa também continua. Só mudaram as armas. A polarização política atravessa famílias, amizades, ambientes de trabalho e relações pessoais. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser alguém com quem se discorda para se transformar em alguém que se deseja derrotar, desqualificar ou até eliminar do debate público.

Depois da Independência, em 1824, foi outorgada a primeira Constituição brasileira. Com ela, surgiu o Poder Moderador, que conferia ao imperador uma autoridade extraordinária sobre os demais poderes do Estado.

Dois séculos depois, não faltam iniciativas e discursos, tanto no Executivo quanto no Legislativo e no Judiciário, que parecem flertar com a ideia de que a democracia funcionaria melhor se alguém tivesse poderes acima dos demais.

Em 1822, discutíamos quem mandaria no Brasil.

Hoje, deveríamos estar discutindo como fazer o Brasil pertencer, de fato, a todos os brasileiros.

E, convenhamos, para isso não precisamos de heróis montados em cavalos. Precisamos de instituições que funcionem, cidadãos que pensem e políticos que entendam que o Brasil não é propriedade de ninguém.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Um dia o PCC e o CV ainda colocarão o Brasil nos eixos. Duvida?



Dia desses, entre um café e outro, um amigo puxou assunto sobre o mais recente tsunami em Brasília: a crise no STF. Queria saber minha opinião. Soltei na lata: “Nesse altar, não tem santo. Para mim, quanto maior o estrondo desse escândalo, melhor.”

Ele me olhou de lado, sem entender. Tive de traduzir. É que, até ontem, a lama respingava no Executivo e no Legislativo, mas, no Supremo Tribunal Federal, chegava apenas uma arranhadinha de nada. O desenrolar dessa crise, quem sabe, finalmente colocará em prática um princípio elementar: “todos são iguais perante a lei”.

O Brasil é pródigo em oferecer impunidade aos poderosos: processos mofando nas gavetas até a prescrição, investigações que nascem capengas, malabarismos jurídicos e brechas legais cuidadosamente sob medida. Aqui, a Justiça parece enxergar muito bem quem está do outro lado da mesa. No país da corrupção institucionalizada, condenado de colarinho branco continua sendo uma espécie em extinção — protegida, curiosamente, pelo próprio sistema que deveria caçá-la.

Estima-se que a corrupção no Brasil consuma entre R$ 85 bilhões e R$ 300 bilhões por ano. E por que ela nos acompanha desde o Primeiro Reinado? Simples: nossa legislação, historicamente, nunca foi exatamente um muro contra a corrupção.

Aproveitei o embalo e arrisquei um palpite provocativo: “Sabe quem ainda vai acabar colocando este país nos eixos? O PCC, o Comando Vermelho e as outras facções.” O homem quase engasgou. Calma, expliquei.

A criminalidade no Brasil — seja a de fuzil, seja a de gabinete — floresce nas lacunas deixadas pelo nosso ordenamento jurídico. E o crime organizado percebeu, há muito tempo, que as leis brasileiras, em certos aspectos, são uma rodovia de seis faixas e sem radar.

Hoje, facções e milícias não vivem apenas do tráfico, do contrabando, da pirataria e da exploração das comunidades que dominam. Deram um passo adiante: deixaram de operar apenas à margem da economia e passaram a se infiltrar nela. Lavam dinheiro, diversificam negócios, compram influência e vestem o terno respeitável da legalidade. Estão na construção civil, no posto da esquina, nas empresas de ônibus, na mineração, nas fintechs, no futebol, nas apostas e até nos grandes eventos. O crime organizado descobriu que, no Brasil, o melhor esconderijo para o dinheiro sujo pode ser justamente um negócio com fachada limpa.

Estimativas apontam que o crime organizado movimenta entre R$ 350 bilhões e R$ 450 bilhões por ano. Essa máquina gira tão macia porque nossa legislação continua sendo um verdadeiro queijo suíço quando o assunto é lavagem de dinheiro.

Enquanto países que levam a sério o combate à corrupção e ao crime organizado procuram sufocar o patrimônio ilícito, o Brasil oferece um verdadeiro cardápio de facilidades. Empresas de fachada, offshores e laranjas transitam com surpreendente desenvoltura. A perda de bens enfrenta uma série de obstáculos jurídicos e, enquanto a Justiça não chega ao fim da linha, o patrimônio pode simplesmente evaporar.

Para completar, patrimônio incompatível com a renda declarada não constitui, por si só, crime autônomo para agentes públicos. A infinidade de recursos pode favorecer a prescrição; não há, em todos os casos, mecanismos suficientemente eficazes para impedir grandes movimentações de dinheiro em espécie; e erros formais podem se transformar em combustível para uma sucessão interminável de recursos e anulações.

No entanto, discursos contra a corrupção não faltam. Sobram. O problema aparece quando chega a hora de adequar a legislação aos mecanismos modernos e internacionais de combate ao crime organizado e à corrupção. Aí é necas de pitibiribas!

No fim das contas, só o Congresso Nacional pode fechar essas torneiras. Quem já combateu o crime organizado de verdade em outras partes do mundo aprendeu, há décadas, uma lição simples: prender pistoleiro é enxugar gelo. Cai um, entra outro. O que destrói o crime organizado é o asfixiamento financeiro. Nenhum negócio sobrevive quando a torneira fecha.

Se a água continuar subindo apenas até os joelhos dos agentes políticos e dos agentes públicos, nada mudará. O problema é que o crime organizado já não está apenas à espreita: além de avançar sobre a economia formal, finca raízes nos Três Poderes. Quando a água finalmente chegar ao pescoço de quem deveria combatê-lo, talvez já seja tarde demais. O futuro, nesse cenário, não é apenas preocupante. É assustador.

Acuados pelo próprio monstro que ajudaram a alimentar, eles aprenderão a nadar para se salvar — fechando, finalmente, as brechas que permitiram ao crime prosperar. Só então a corrupção e o crime organizado começarão a sofrer reveses dos quais não conseguirão se recuperar.

Resta uma ressalva: tudo isso pressupõe que o Brasil continue respirando democracia. Porque, se ela faltar, as trevas serão muito mais obscuras — e, nesse cenário, o PCC e o CV serão provavelmente o menor dos nossos problemas.