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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Convicção ou prisão? O perigo de só ouvir o que nos agrada.

 



Você conhece alguém que evita informações que contradizem aquilo em que acredita, tratando-as como ameaça à sua própria identidade?

Em época de eleição, isso se intensifica ao agrupar crenças coletivas. O que uma pessoa pensa reflete o grupo e, assim, visões opostas deixam de ser convites à reflexão para virarem ameaças diretas. Mas essa resistência vai além da política: está presente no dia a dia, na religião, na saúde, no trabalho, nas finanças, na ciência e nas relações pessoais.

É um fenômeno humano antigo. Ele é alimentado pelo viés de confirmação (buscamos o que valida nossas ideias), pelo desconforto do conflito cognitivo e pela ilusão de saber mais do que realmente sabemos.

Escolaridade ou inteligência não nos imunizam contra o casulo da desinformação. Pesquisas mostram que raros indivíduos analisam visões contrárias com rigor; a maioria prefere o descarte imediato.

Eis a diferença entre ter convicções e ser refém delas. Ideias servem como guia, mas nada é imutável. Ao rejeitarmos evidências, nos tornamos prisioneiros das próprias certezas.

A história prova que seguir a maioria nem sempre é o melhor caminho. O consenso cego gerou desastres como o nazismo e a ilusão de estabilidade do sistema financeiro em 2008. Na Bíblia, a verdade raramente esteve com a multidão: Noé construiu a arca sob deboche geral, profetas confrontavam o senso comum e Jesus foi condenado pelo clamor popular.

Essa dificuldade de processar o contraditório ajuda a explicar por que tão poucos se destacam na Ciência, nas Artes, na Educação e nos Negócios. Se a tendência de seguir o rebanho já era prejudicial antes, o cenário atual é ainda mais preocupante com a bolha dos algoritmos.

Abertura intelectual não é aceitar passivamente o que nos agrada, mas ter disposição para consumir o que confronta nossa visão do mundo. Afinal, mesmo que nada mude, o exercício do pensamento crítico mal nenhum fará.


domingo, 9 de agosto de 2026

A mentira não precisa virar verdade. Basta parecer verdade.

 

É assim que sociedades inteiras podem ser enganadas. E ninguém está imune, nem os mais espertos!

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.” A frase é frequentemente atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A autoria exata é controversa, mas a lógica por trás dela é antiga: Não é preciso provar. É preciso tornar a mentira familiar. E existe uma explicação científica para isso.

Um estudo publicado na Nature Communications, coordenado pelo pesquisador Grégoire Borst, da Université Paris Cité, analisou dados de mais de 31 mil participantes, reunidos em pesquisas realizadas entre 1977 e 2025.

A conclusão é preocupante: Quanto mais uma informação é repetida, maior pode ser a percepção de que ela é verdadeira. É o chamado efeito da verdade ilusória.

O cérebro usa a familiaridade como um atalho. “Eu já ouvi isso antes.” E, sem perceber, podemos completar: “Então deve ser verdade.” Não. Não é! Mas é assim que a armadilha funciona.

E as redes sociais transformaram essa velha técnica em uma máquina de repetição: Uma mentira aparece. Alguém compartilha. Outro comenta. Um influenciador reproduz. Um grupo de militantes espalha. Um perfil falso reforça. Um bot multiplica.

E, de repente, aquilo que nasceu como uma mentira passa a parecer uma informação amplamente conhecida. A mentira já não precisa de um autor. Ela passa a caminhar sozinha. Pior: os algoritmos ajudam.

Conteúdo que provoca raiva, medo, indignação ou escândalo chama mais atenção. Mais atenção gera mais interação. Mais interação gera mais distribuição. Mais distribuição gera mais repetição. E mais repetição produz familiaridade. É um círculo vicioso.

Agora acrescente a inteligência artificial. Uma fotografia pode ser fabricada. Uma voz pode ser clonada. Um vídeo pode ser manipulado. Uma pessoa pode aparecer dizendo algo que jamais disse. A mentira ganhou imagem, voz e aparência de realidade. Mas ainda existe algo pior.

A mentira pode deixar de ser apenas uma mentira individual e se transformar em verdade coletiva. É nesse momento que o problema deixa de ser apenas desinformação. Passa a ser um problema social.

Instituições são desacreditadas. A ciência vira “opinião”. A imprensa vira “inimiga”. O adversário político vira “ameaça”. E fatos passam a ser rejeitados simplesmente porque incomodam aquilo em que alguém escolheu acreditar. Quando isso acontece, deixamos de discutir ideias. Passamos a disputar realidades.

E uma sociedade que não consegue concordar sobre os fatos básicos do presente dificilmente conseguirá construir um futuro comum.

Essa talvez seja a maior ameaça da desinformação. A mentira não precisa convencer todo mundo. Precisa apenas convencer gente suficiente. Não precisa destruir a verdade. Basta fazer com que ninguém mais saiba em quem acreditar.

E quando tudo vira “narrativa”... Quando qualquer evidência pode ser descartada como “opinião”...  Quando a realidade passa a depender do grupo ao qual pertencemos... a verdade deixa de ser o ponto de partida.

E aí começa o verdadeiro perigo. Porque quem não consegue enxergar a realidade... não consegue resolver os problemas que a realidade apresenta.

Uma sociedade pode sobreviver a muitas mentiras. O que ela não pode perder é a capacidade de reconhecer a verdade.


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Por que a MENTIRA atrai tanta gente e como a VERDADE resiste?

 



Se você saísse por aí perguntando às pessoas que encontrasse pelo caminho o que elas mais valorizam — a verdade ou a mentira —, a resposta provavelmente seria unânime: a verdade.

 

Essa resposta revela que temos consciência da importância da verdade como fundamento da confiança, da estabilidade emocional e do progresso social. A sinceridade é a base dos relacionamentos, sejam de amizade, amorosos ou profissionais, e também orienta nossas escolhas. Quando acreditamos em mentiras, escolhemos errado.

 

No entanto, basta observar a internet com um olhar crítico para perceber que, na prática, a verdade muitas vezes é colocada em segundo plano. Notícias falsas vencem de goleada quando comparadas aos conteúdos verdadeiros. Segundo estudo realizado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e publicado na prestigiada revista Science, em 2018, notícias falsas se espalham 70% mais rápido, de forma mais profunda e com maior alcance do que as verdadeiras. Uma postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto uma falsa pode alcançar até 100 mil.

 

No Brasil, 90% dos brasileiros admitem já ter acreditado em notícias falsas. O mais preocupante é que muitos, mesmo desconfiando da veracidade do conteúdo, o compartilham sem qualquer verificação ou peso na consciência, contribuindo, assim, para gerar milhões de reais em receita aos produtores desse tipo de conteúdo. Apenas 54 em cada 100 pessoas conseguem distinguir com precisão o que é verdadeiro do que é falso, o que coloca o país entre aqueles com menor índice de letramento digital em pesquisas globais.

 

O que explica essa forte atração pela mentira?

 

A mentira é sedutora porque oferece benefícios imediatos. Funciona como mecanismo de pertencimento a determinados grupos, serve para obter vantagens rápidas ou evitar sofrimentos e desconfortos. Cria a ilusão de controle. Evita punições, julgamentos precipitados e conflitos desagradáveis. Também ajuda a melhorar a imagem social de quem a utiliza. Em muitos casos, facilita a obtenção de benefícios materiais ou vantagens competitivas, seja nos relacionamentos pessoais, no campo comercial ou profissional, ou até em campanhas eleitorais.

 

Além disso, a mentira tem o poder de construir uma realidade artificial mais agradável do que os fatos. Dissemina ideologias de forma distorcida, destrói a imagem de artistas, esportistas, políticos e até de pessoas anônimas. Muitas pessoas acreditam mais em narrativas falsas quando estas confirmam seus preconceitos, crenças ou desejos.

 

Diariamente, mais de 3 mil portais de notícias falsas são rastreados por monitores de mídia. Muito desse material é gerado inteiramente por inteligência artificial, produzindo milhares de artigos fraudulentos para monetizar anúncios. Segundo levantamentos do Poynter Institute, com apoio do Google, quatro em cada dez brasileiros afirmam receber fake news todos os dias em seus celulares.

 

Como se isso não bastasse, a disseminação por robôs e contas inautênticas gera milhões de menções e postagens falsas diariamente, inflando artificialmente temas e manipulando algoritmos para ampliar o alcance da desinformação.

 

Enquanto a verdade ganha força com o passar do tempo, a mentira não se sustenta de forma permanente. Ela é temporária e depende de circunstâncias específicas para sobreviver. A falsidade se apoia em mecanismos sociais e psicológicos poderosos. Como a mente humana tende a acreditar em afirmações falsas quando elas são repetidas à exaustão, cria-se uma enganosa sensação de familiaridade.

 

Diz o velho ditado que mentira tem perna curta. A razão é simples: a falsidade exige a criação de novas mentiras para se sustentar, gerando contradições inevitáveis, nem sempre percebidas por aqueles que são enganados. A verdade, por outro lado, não necessita de manutenção: permanece idêntica a si mesma e pode ser verificada repetidamente por qualquer pessoa por meio de evidências e fatos.

 

Não resta dúvida de que estamos atravessando mais uma fase desafiadora, como tantas outras enfrentadas pela humanidade ao longo da história.

 

Com a prensa de Johannes Gutenberg, no fim da Idade Média, surgiu o temor de que a produção em massa de material impresso facilitasse a disseminação de ideias baseadas em desinformação, capazes de provocar rebeliões e difundir heresias. Durante a Revolução Industrial, quando os trens a vapor apareceram, boatos afirmavam que o corpo humano não suportaria viajar a 50 km/h. Alguns médicos diziam que o cérebro poderia “derreter” e que mulheres sofreriam complicações no útero. No final do século XIX, durante a transição da iluminação a gás para a energia elétrica, circularam boatos de que a eletricidade vazava pelas tomadas e atrairia raios.

 

Na trajetória da humanidade, boatos e desinformação sempre fizeram parte do cotidiano. Ainda assim, as mentiras não resistiram ao tempo. O mesmo tende a ocorrer com as falsidades que hoje assolam as redes sociais.

 

Embora as redes sociais tenham superado a imprensa tradicional como principal fonte de informação no mundo, a confiança nas notícias nelas veiculadas continua baixa. Segundo relatório do Reuters Institute, considerado uma das pesquisas mais respeitadas sobre o tema, a confiança geral nas notícias caiu para o menor nível já registrado: 37%. Quando se trata especificamente de conteúdos vistos nas redes sociais, o índice despenca para apenas 22%.

 

O receio do público em relação ao que é falso ou enganoso na internet subiu para 62% em nível global. No Brasil, levantamentos da Pyxys/Opinion Box e do DataSenado mostram que apenas 17% dos brasileiros afirmam confiar no conteúdo que consomem nas redes sociais.

 

A longevidade dos veículos que disseminam desinformação varia substancialmente. Há portais caça-cliques de curta duração, estruturados para monetização rápida via anúncios, tráfego viral ou campanhas sazonais, como eleições e crises. Contudo, quando respaldados por financiamento político, militância engajada ou nichos fiéis, esses canais conseguem operar por anos.

 

Nesse cenário, os veículos híbridos representam o desafio mais complexo no combate à desinformação. Ao intercalar notícias verídicas com manipulações, meias-verdades e enquadramentos distorcidos, preservam uma fachada de credibilidade que assegura sua permanência no ecossistema midiático.

 

Consolida-se, assim, um paradoxo: a falência desses canais raramente é motivada pela mentira, mas sim pela perda de relevância. O desmentido sistemático não necessariamente reduz o público; em muitos casos, atua como elemento de engajamento, reforçando o vínculo com seguidores que passam a interpretar checagens e críticas como perseguição política.

 

Embora os brasileiros utilizem as redes sociais como fonte de informação, 90% dos entrevistados ainda afirmam confiar em emissoras de TV, rádio e grandes portais de jornalismo para distinguir o que é real daquilo que é desinformação. Isso demonstra que as redes sociais tendem a ser usadas muito mais como espaço de entretenimento e relacionamento do que como ambiente de busca por informação de qualidade.

 

Com o tempo, a verdade resiste; a mentira caduca.

 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

A Cartilha do Descarte: Quando a Extrema Direita Ignora Riscos Sanitários



A extrema direita não desperdiça oportunidades para disseminar seus princípios, mesmo quando isso coloca em risco a saúde pública. Recentemente, sob o pretexto de defender uma gigante do setor de higiene e limpeza, o discurso radical ressurgiu com força. Entre os que abraçaram a causa, nota-se desde cidadãos desinformados até articuladores conscientes de uma agenda perigosa.

 

Na cartilha da extrema direita, idosos e doentes crônicos são frequentemente reduzidos a um "fardo econômico". Essa visão deturpada trata a deficiência como mera ausência de produtividade e flerta com a eugenia ao sugerir a segregação ou eliminação daqueles considerados "improdutivos" em prol de uma suposta "pureza e força" da população. Sob essa ótica, políticas públicas de saúde e segurança alimentar seriam apenas mecanismos para manter a pobreza viva, sem retorno financeiro ao Estado.

 

Essa retórica não é nova. Durante a pandemia de COVID-19, vimos postagens atrozes sugerindo que o vírus faria uma "limpeza" social. Assistimos a debates desumanos sobre a ocupação de leitos hospitalares, onde a lógica do "custo-benefício" propunha preterir idosos em favor de pacientes jovens. Atualmente, partidos de extrema direita na Europa e nas Américas reforçam essa ideia, defendendo que pensões e assistência médica sejam exclusivas para nativos considerados "produtivos".

 

Utilizando-se de falsos especialistas ou médicos alinhados à ideologia, esses grupos produzem conteúdos desinformativos, especialmente contra as vacinas. O resultado é trágico: o retorno de doenças outrora controladas ou erradicadas, como sarampo, poliomielite, coqueluche e rubéola.

 

O episódio recente envolvendo a Anvisa ilustra o ápice dessa distorção. A agência — reconhecida internacionalmente por seu rigor técnico comparável aos órgãos dos países mais desenvolvidos, determinou a suspensão de produtos de limpeza após identificar falhas graves de fabricação e risco de contaminação microbiológica.

 

A decisão fundamentou-se em fatos concretos: em novembro de 2025, a própria fabricante realizou um recall voluntário após detectar a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Entre 27 e 30 de abril de 2026, técnicos da Anvisa identificaram o descumprimento de Boas Práticas de Fabricação (BPF), incluindo corrosão em equipamentos e falhas no controle de qualidade.

 

Apesar dos riscos de contaminação por microrganismos patogênicos, a extrema direita mobilizou-se nas redes sociais para defender a continuidade do uso dos produtos, alegando "perseguição política".

 

É fundamental desmistificar a tese de viés partidário. A diretoria colegiada da Anvisa é composta por três diretores indicados pelo governo atual e dois pelo governo anterior, todos sabatinados pelo Senado. Mais relevante ainda: a nota técnica que fundamentou a suspensão foi assinada pelo diretor responsável pela área de fiscalização (GGFIS), indicado durante a gestão de Jair Bolsonaro. Isso esvazia qualquer narrativa de retaliação política.

 

O recado por trás dessas manifestações ideológicas é nítido e cruel: a manutenção de uma narrativa política vale mais do que a vida dos vulneráveis. Ao incentivar o uso de produtos condenados pela vigilância sanitária, a extrema direita sinaliza que o adoecimento ou a morte daqueles que não se encaixam em sua métrica de produtividade é um dano colateral aceitável. C.Q.D.

 

Para pensar na cama: quantas pessoas próximas que você conhece seriam consideradas como “fardo econômico” pela extrema direita?