quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Na hora do voto, pense em Itapira, também.

 


A urna eletrônica é uma caixinha de plástico, com uma tela preta e botões de borracha, mas, a cada dois anos, ganha o peso de um confessionário urbano. Daqui a duas semanas, a liturgia se repete. Apertaremos o botão verde para escolher presidente, senadores, governador e uma penca de deputados. Promete-se o futuro ali, na ponta dos dedos, entre um pi-pi-pi e a sensação passageira de dever cumprido. O problema é que a memória do eleitor costuma durar menos que a fila da seção eleitoral, e o voto, que deveria ser bússola, vira loteamento.

O itapirense, em especial, desenvolveu uma vocação quase poética para a pulverização. Nas últimas eleições, a cidade distribuiu dezenas de milhares de votos entre uma multidão de candidatos a deputado estadual. Um desfile de nomes que, em sua grande maioria, jamais pisaram na José Bonifácio ou tomaram um café na praça. Em 2018, os votos da terra ajudaram a eleger 85 parlamentares; em 2022, foram 83. Se todos eles tivessem Itapira como prioridade, o governador do Estado morreria de inveja.

Entre 2018 e 2026, menos de dez deputados estaduais lembraram que o município existia para destinar uma emenda ou, ao menos, estender a mão. O resto evaporou. É o mistério do voto proporcional: o cidadão vota por simpatia, amizade, ideologia ou até pelo fígado e, no dia seguinte, descobre que entregou uma procuração em branco a um estranho. Cerca de 20 mil votos itapirenses foram dados a candidatos que, depois de eleitos, nunca mandaram sequer um “obrigado”.

Enquanto isso, Barros Munhoz — figura carimbada, que não tira Itapira da cabeça nem para dormir — colhe suas safras de pouco mais de 13 mil votos, mostrando que a fidelidade local ainda resiste em alguns nichos, embora dispute espaço com a dispersão irracional do restante do eleitorado. Não se trata de monopolizar a preferência, mas de exigir compromisso. Se não for ele, que seja outro. Mas que tenha CEP, rosto, compromisso cobrável e, principalmente, chances reais de se eleger.

O deputado estadual é a ponte estendida até o Palácio dos Bandeirantes, o sujeito que abre portas em São Paulo e cutuca ministérios em Brasília. Com os ventos econômicos anunciando para Itapira anos bicudos na arrecadação e no emprego, dar o voto a quem não tem raízes por aqui deixa de ser apenas ingenuidade; passa a ser um luxo que a cidade não pode se dar. Ter um representante com votação expressiva no município significa força política real para defender nossas demandas.

Na hora de encarar a urna, talvez seja bom deixar a torcida de lado e votar com um pouco mais de juízo territorial. O voto não pode ser na base do “Uni, Duni, Tê”; pode até passar pelo coração, mas o essencial é que a razão fale mais alto. Afinal, a escolha não termina quando a tela acende “FIM”. Ela começa ali