Se perguntássemos à população qual deve ser a postura do futuro prefeito — política ou administrativa? —, provavelmente a maioria optaria pela postura administrativa, com um discurso do tipo: “Chega de política! Queremos um bom administrador na prefeitura. E só.”
Esse desejo é tão evidente
que os dois postulantes ao cargo, antes das eleições, adotaram um discurso
administrativo em detrimento da postura política, oferecendo aos eleitores
exatamente aquilo que eles queriam ouvir.
Nesse ponto, ouso discordar da
maioria.
A postura administrativa cabe
aos auxiliares dos governantes. Ao chefe do Executivo cabe, antes de tudo, uma
postura política bem definida, capaz de nortear inclusive a escolha e a conduta
de seus auxiliares diretos.
Um prefeito corrupto, por exemplo,
dificilmente se cercará de auxiliares comprometidos com a honestidade e com o
bem público. Muito pelo contrário.
Os políticos brasileiros, com
honrosas exceções, são extremamente hábeis em promover a atividade política à
condição de “coisa feia”, “coisa de esperto”, “coisa com a qual gente decente
não se envolve”.
Esses políticos — e todos
aqueles que se locupletam às custas do erário público — passam a ideia de que,
ao assumir o poder, todos os governantes fazem a mesma coisa: roubam o dinheiro
público.
Que fique claro: política é
uma forma de conduta humana, uma atividade que se expressa em relações de
poder, de mando e de obediência. Quando a ação está relacionada ao fenômeno do
poder, estamos diante da política prática e aplicada, em que a arte política se
traduz na capacidade de adquirir, conservar e ampliar poder.
O conteúdo dessa atividade
tem como ideia central a luta pelo poder. Contudo, também se manifesta como
ação de governar, cujo objetivo fundamental é organizar e dirigir a comunidade,
buscando êxito em seus propósitos e metas.
Nesse sentido, o poder deixa
de ser um fim em si mesmo para transformar-se em instrumento de
institucionalização da própria ação política. Assim, o poder atua como antecedente
constante e indispensável da ação política.
Quando um prefeito, ainda que
bem-intencionado, opta no início de sua gestão por uma postura meramente
administrativa, logo perceberá que não terá base suficiente para orientar suas
decisões. Suas atitudes inevitavelmente buscarão fundamentos políticos,
critérios de prioridade e noções de justiça — valores que podem ou não estar
presentes.
A ausência desses valores,
total ou parcial, pode provocar a repetição do processo vivido nos últimos 28
anos em nossa cidade, quando o trabalho administrativo prevaleceu sobre o
político e criou as condições para um discurso dissociado da verdadeira
política: sem ideologia, amparado em slogans sobre o bem da população e na
lógica do “eu fiz, portanto estou certo”.
Foi por isso que, quando a
oposição discordava, votava contra ou denunciava atos administrativos, era
frequentemente classificada pelos prefeitos daquele período como inimiga do
povo de Itapira.
Muitos “políticos”
brasileiros, vestidos de bons administradores, encontraram nas grandes obras —
especialmente nas mais grandiosas — oportunidades para rechear contas
particulares em bancos nacionais ou em paraísos fiscais, além de acumular
patrimônio imobiliário.
Não precisamos de um bom
prefeito administrativo. Para isso bastariam um bom concurso, uma boa entrevista
e a apresentação de diplomas das melhores universidades. Não haveria sequer
necessidade de eleição.
Precisamos de um prefeito
político — preocupado com o bem público, atento ao bem comum, ao meio ambiente,
à higiene e limpeza da cidade, à saúde e à educação; consciente de seus acertos
e erros; aberto às críticas, sem esperar elogios por cada ato executado.
Um prefeito que tenha coragem
de admitir erros e corrigi-los.
O falso político transforma
cada ato seu em acerto absoluto. E, quando erra, tenta convencer todos os
discordantes de que os errados são eles. Quando não consegue, assume
superficialmente os erros, mas continua preso às mesmas convicções.
Isso não é política. Isso é
mera administração.
O verdadeiro político acerta na maioria das vezes
porque reconhece o erro como possibilidade. E, quando erra, tem sensibilidade e
grandeza para corrigir o rumo.