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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Respirando por Aparelhos: O Desafio Econômico e o Futuro de Itapira

 


Itapira enfrenta um momento de reflexão profunda sobre os rumos de seu desenvolvimento econômico e social. O cenário que se desenha não é apenas de desaceleração, mas de um distanciamento preocupante em relação ao ritmo de crescimento registrado pelo Estado de São Paulo e pelo restante do país.

O remédio para essa situação, longe de ser simples, depende acima de tudo da capacidade de reação da própria sociedade itapirense.

Os reflexos da perda de dinamismo da economia local tornaram-se cada vez mais evidentes. Os indicadores apontam para um cenário de crescente preocupação e acendem um importante sinal de alerta. Entre os principais deles, destacam-se:

A expressiva retração do Índice de Participação dos Municípios resultou em uma perda acumulada de aproximadamente R$ 42 milhões em repasses nos últimos dois anos. Esse recuo evidencia a perda de competitividade frente aos municípios vizinhos da Baixa Mogiana e ao cenário estadual.

A última atualização do Caged revelou um forte contraste. Desde junho de 2023, o número de trabalhadores com carteira assinada aumentou 9,8% no Brasil e 8,2% no Estado de São Paulo. Em Itapira, entretanto, o crescimento foi de apenas 3,9%, elevando o total de empregos formais de 23 mil para 24 mil vínculos ativos.

Enquanto o país e o estado aceleraram a criação de vagas, a evolução proporcional de Itapira ficou na metade do ritmo nacional, refletindo as dificuldades das empresas locais para expandir suas operações em um ambiente desafiador.

Se o desempenho das empresas já instaladas inspira cuidados, a análise da atividade empreendedora revela um quadro ainda mais sintomático. Os números comparativos entre 2023 e 2025 demonstram uma perda clara de ritmo na abertura de novos negócios:

Região

     Crescimento de Empresas Ativas (2023 a 2025)

Brasil

     Aproximadamente 20% (de 20,8 mi para 25 mi)

Estado de São Paulo

     Cerca de 27% (de 6,6 mi para 8,4 mi)

Itapira

     Inferior a 10% (de 10,1 mil para pouco mais de 11 mil)

Enquanto o estado ampliava sua base de negócios de forma expressiva, Itapira viu sua taxa de crescimento estacionar na metade da média brasileira.

Evidentemente, a administração pública municipal possui parcela significativa de responsabilidade nesse contexto. Cabe ao poder público fomentar um ambiente favorável aos investimentos, desburocratizar processos, estimular o empreendedorismo e criar condições estruturais para atrair novas empresas e reter as já existentes.

O mínimo esperado para uma cidade com o potencial de Itapira seria acompanhar, ainda que com moderação, o dinamismo econômico paulista e brasileiro.

Não será surpresa se Itapira reviver os anos 1970 e 1980, quando muitos jovens que concluíam o Ensino Médio e precisavam ingressar no mercado de trabalho eram obrigados a deixar a cidade em busca de oportunidades de emprego.

Quando essa distância econômica aumenta ano após ano, a sensação é de que o município caminha sob suporte artificial. A cidade continua respirando, mas com menos fôlego, distanciando-se do compasso de desenvolvimento de outras regiões.

Contudo, o sinal mais alarmante não é apenas o econômico, mas o comportamental. A redução da capacidade empreendedora transmite um sintoma de desânimo coletivo, como se parte da população estivesse deixando de acreditar no futuro do próprio município.

Quando uma comunidade perde a confiança em sua própria força, o perigo deixa de ser apenas financeiro e passa a ser a resignação — o risco silencioso de desistir de inovar, investir e crescer. A reação de Itapira, portanto, exige tanto políticas públicas assertivas quanto o resgate da autoestima e da crença no potencial local.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Rápida viagem a Itapira em dezembro de 2100

 


Quando menino, eu esperava ansiosamente pelas noites em que a TV Tupi exibia Túnel do Tempo. Depois vieram De Volta para o Futuro e tantas outras histórias que alimentaram uma velha mania: imaginar que o tempo pudesse ser percorrido como quem atravessa uma rua.

Talvez por isso eu nem tenha pensado duas vezes quando a Universidade de Connecticut abriu inscrições para uma experiência de viagem temporal como voluntário. Inscrevi-me mais por curiosidade do que por esperança. Contra todas as probabilidades, fui escolhido.

Recebi apenas uma recomendação: observar. Nada de conversar, interferir ou tentar melhorar o mundo — missão, aliás, que nunca deu muito certo nem para quem permaneceu no próprio tempo.

Poderia visitar qualquer época. Preferi o futuro. E, sendo livre para escolher qualquer lugar do planeta, fui direto para a Itapira de 2100.

Não me perguntem por quê. Quem nasce numa cidade do interior leva consigo um estranho vício: pode rodar o mundo inteiro, mas sempre acaba querendo saber como está a rua onde aprendeu a andar de bicicleta, o destino dos amigos de infância e o que restou das lembranças que o tempo insistiu em guardar.

Mal pisquei e já me encontrava no coração de Itapira, exatamente onde a cidade nasceu.

"A antiga praça central, onde outrora se localizava uma igreja suntuosa, está totalmente concretada, tendo como decoração alguns cubos e poliedros metálicos. Bem no centro da quadra, um estádio coberto e uma concha acústica de material transparente refratário à luz solar."

Subi ao edifício mais alto da cidade, erguido exatamente onde um dia existiu o Centrão. Do quadragésimo andar, Itapira parecia outra. Contei mais de uma centena de prédios, quase todos desafiando o céu com seus trinta e tantos andares.

Curiosamente, o trânsito havia desaparecido. Os automóveis já pertenciam aos museus. O transporte era feito por teletransporte: o cidadão desaparecia de um ponto e reaparecia em outro. A fumaça dos combustíveis fósseis tornara-se apenas um verbete nas enciclopédias.

Resolvi caminhar até o Parque Juca Mulato, que permanecia intacto, como se o tempo tivesse decidido respeitá-lo. Até os velhos paralelepípedos da Rua Ribeiro de Barros continuavam no mesmo lugar, talvez por terem adquirido a dignidade das coisas que sobreviveram às modas.

Segui pela Avenida dos Biris. À minha esquerda, uma cena jamais imaginada: "Toda a baixada dos antigos bairros do Cubatão e Prados está tomada por um imenso reservatório de água, previsão acertada para uma futura vida subaquática."

Procurei saber o destino dos antigos moradores. Descobri que todos haviam sido indenizados e reassentados antes da formação do reservatório. Enquanto pesquisava outras curiosidades, encontrei uma notícia alvissareira.

O Laboratório Cristália figurava entre as cinco maiores indústrias farmacêuticas do planeta. A polilaminina abrira caminho para tratamentos que transformaram doenças antes devastadoras — como a Esclerose Lateral Amiotrófica, o Parkinson, o Alzheimer e tantos cânceres agressivos e letais — em capítulos encerrados da história da medicina.

Foi aí que levei o maior susto da viagem: minha neta trabalhava ali como cientista. Pensei duas vezes. Depois, desobedeci à prudência e fui até o laboratório. Consegui chegar ao setor onde ela trabalhava. Conversamos por alguns minutos. Ela respondeu a todas as minhas perguntas com a serenidade que talvez só os cientistas e os avós consigam cultivar.

Não revelei quem eu era; as regras proibiam. Confesso que foi difícil. Também descobri que ela ainda estava longe da aposentadoria — aos 76 anos de idade, ainda lhe restavam nove anos de labuta. Foi justamente quando a conversa se tornava mais interessante que senti o mundo desaparecer outra vez. Meu tempo havia acabado. Voltei.

Ainda hoje penso naquela sexta-feira, último dia de dezembro de 2100, entrada para um novo século. Não vi fogos, nem festas, nem a velha ansiedade da virada. Talvez o futuro tenha descoberto que o calendário muda sozinho e que a esperança não precisa esperar a meia-noite.

Nota: Este texto foi inspirado em um artigo de Jácomo Mandato, publicado em junho de 1973 no JoJo, jornalzinho do IEEESO, sob o título "Rápida viagem à antiga Itapira em dezembro de 2000".

Se estivesse entre nós, Jácomo teria completado 93 anos neste mês. Os dois trechos entre aspas, extraídos de sua crônica, foram reproduzidos exatamente como ele os escreveu. Esta é uma singela homenagem a um dos grandes pesquisadores e escritores da história de Itapira que, nas horas vagas, também punha a imaginação a serviço da literatura, aventurando-se a projetar o futuro com admirável criatividade.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

O retorno do El Niño: Como Itapira está se preparando?


 


As primeiras projeções de que o El Niño retornaria neste ano começaram a ser traçadas por meteorologistas em março de 2026. Em maio, o fenômeno foi oficialmente confirmado, trazendo a expectativa de que poderá ser um dos mais intensos desde 1950. A probabilidade de sua persistência ao longo do segundo semestre supera 80%, podendo estender-se até o início de 2027.

O El Niño é um fenômeno climático cíclico que ocorre há milhares de anos, alternando entre o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e o seu resfriamento — fase conhecida como La Niña. Nos últimos anos, porém, passou a preocupar ainda mais o Brasil em razão do aquecimento global, que atua como um combustível adicional. Como a atmosfera e as águas oceânicas já estão entre 1°C e 1,5°C mais quentes em decorrência das mudanças climáticas, os episódios recentes do fenômeno começam em um patamar térmico muito mais elevado.

Esse ponto de partida mais quente potencializa os efeitos do El Niño, gerando secas severas, tempestades destrutivas e impactos diretos sobre a economia, a geração de energia e a agricultura, com efeitos que variam conforme a região do país.

Em nossa região, a tendência se traduz em ondas de calor mais intensas e prolongadas, além de estiagens severas e queda acentuada na umidade relativa do ar. Na agricultura, o desequilíbrio hídrico pode comprometer tanto o plantio quanto o desenvolvimento das lavouras.

A combinação do inverno seco com a fumaça proveniente de focos de incêndio — agravados pelo calor opressor — deteriora a qualidade do ar, ampliando problemas respiratórios, especialmente entre crianças e idosos. Contudo, há uma nuance para este ano: diante da previsão de chuvas históricas no Sul do país, meteorologistas estimam que frentes de umidade possam avançar para a nossa região. Isso poderá trazer dias mais úmidos ou precipitações acima da média, o que ajudaria a retardar ou atenuar a expansão de grandes queimadas.

O cenário exige seriedade. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, declarou nesta semana que a crise climática transcende a esfera da mera política pública, configurando também um dever jurídico do Estado. Essa postura reforça a necessidade de ações imediatas e concretas do poder público diante de eventuais omissões.

Em Campinas, apesar de a cidade já integrar a Operação SP Sem Fogo, a prefeitura apresentou nesta quarta-feira, dia 17, um robusto plano de contingência para reduzir os impactos do fenômeno, com o objetivo de proteger a população, a infraestrutura urbana e os serviços essenciais.

Itapira, que também participa do programa estadual, foi contemplada com um lote de equipamentos de combate a incêndios florestais, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e treinamentos especializados. Além disso, áreas de vegetação e rodovias locais já contam com a tecnologia Muralha do Fogo, que cruza dados de satélite e inteligência artificial para detectar focos de incêndio em tempo real.

Entretanto, o El Niño deste ano promete ser rigoroso, e o combate aos incêndios representa apenas uma face do problema. Para proteger a população de forma integral, Itapira pode — e deve — se preparar ainda mais.

Algumas medidas possíveis incluem a instalação de tendas com distribuição gratuita de água em pontos de grande circulação de pedestres e o reforço no acolhimento de pessoas em situação de rua durante as horas mais quentes do dia. Também seria importante o reforço imediato de soro, inaladores e medicamentos broncodilatadores na rede básica de saúde (UBSs e UPAs), a fim de suprir o aumento da demanda por atendimentos respiratórios.

Outras ações relevantes seriam promover campanhas de uso consciente da água e fiscalizar eventuais desperdícios; orientar escolas, canteiros de obras e serviços urbanos para limitar atividades físicas intensas ou trabalhos pesados ao ar livre entre 11h e 16h nos dias de calor extremo; além de realizar a poda preventiva de árvores localizadas próximas à fiação elétrica.

Itapira não deve esperar pelo pior. Precisa estar preparada.

domingo, 14 de junho de 2026

Pagar ou pagar: A Dívida da Sabesp que Assombra o Futuro de Itapira


  

Sem surpresa, a conta pela quebra de contrato com a Sabesp chegou aos R$ 88 milhões, em números redondos — o equivalente a quase um quinto de todo o orçamento previsto para o Poder Executivo de Itapira em 2026. Não há alternativa: é pagar ou pagar.

Para quem não acompanhou as origens desse imbróglio, uma breve retrospectiva dos últimos 25 anos do século XX ajuda a contextualizar o cenário.

A partir da década de 1970, Itapira passou por uma transformação visível que atraiu a atenção regional. O esgoto que corria a céu aberto passou a ser coletado, a água tratada chegou a todas as residências e as ruas de terra foram pavimentadas. Na área social, o atendimento gratuito de saúde alcançou os bairros, as vagas escolares foram ampliadas e um hospital municipal foi inaugurado. Atividades esportivas e culturais tornaram-se corriqueiras, e até o meio ambiente, tema então marginal na agenda nacional, passou a receber atenção.

Enfim, Itapira havia se tornado uma cidade mais digna de se viver. Persistia, contudo, o fantasma da baixa renda e da escassez de empregos. Algumas iniciativas, timidamente implantadas, não reagiam na proporção das necessidades, e o município caminhava para se tornar mais uma cidade-dormitório.

A virada veio em 1997, com a posse do prefeito Totonho Munhoz e seu ousado programa de desenvolvimento econômico. A implementação, no entanto, exigia recursos que o caixa municipal não tinha. Paralelamente, estudos técnicos já apontavam que a rede de água e esgoto, por sua antiguidade, demandava investimentos além da capacidade financeira do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE).

Foi então que a concessão onerosa à Sabesp se apresentou como solução: um contrato de 30 anos por R$ 14 milhões (em moeda da época), aprovado pela Câmara. O resultado prático foi a atração de cerca de 50 novas empresas que mudaram o panorama econômico local.

Naquele momento, porém, o sentimento antiprivatização ainda era forte na sociedade. A oposição, liderada por Toninho Bellini, capitalizou esse descontentamento e elegeu-se prometendo a reversão da medida. Cumprindo a promessa de campanha, Bellini decretou a anulação da concessão e moveu uma ação de reintegração de posse. Começava ali uma batalha jurídica que se arrastaria por duas décadas: a Prefeitura reaveria o serviço, mas não se livraria do dever de ressarcimento.

Resta, então, a pergunta: valeu a pena?

Quando se analisam indicadores alheios à disputa política, os números são reveladores. Para fins de análise, vale observar o período anterior e posterior ao programa desenvolvimentista, considerando que novas empresas demandam tempo para adequar a produção e que o repasse do ICMS, baseado no Índice de Participação dos Municípios (IPM), depende de declarações fiscais cujo processamento não é imediato.

Os repasses de ICMS saltaram de R$ 10.283.387,29, em 2000, para R$ 35.679.985,93, em 2010 — um crescimento de 247%, muito acima da inflação acumulada pelo IPCA no mesmo período, que foi de cerca de 100%.

Quanto ao emprego, o município contabilizava 25.088 pessoas ocupadas em 2000, o que correspondia a 62,6% da população com 18 anos ou mais. Em 2010, esse número subiu para 33.013 (67,4%), um aumento de 31%, enquanto a população total cresceu apenas 8,1% (de 63.377 para 68.537 habitantes). O rendimento médio do trabalhador também acompanhou o ritmo: segundo o Censo de 2000, era de R$ 601,00, saltando para R$ 1.345,00 em 2010, uma alta de 124%, também superior à inflação do período.

É verdade que correlação não implica causalidade. Mas o ritmo de crescimento de Itapira deu um salto significativo, sugerindo que o programa desenvolvimentista teve papel determinante. O aumento da renda e do emprego ampliou a circulação de dinheiro na economia local — e hoje é difícil estimar como a cidade estaria sem aquele impulso inicial.

Agora, a conta definitiva chegou: a Sabesp cobra exatamente R$ 87.950.053,61 pela ruptura contratual. Considerando a penúria financeira do município, o futuro imediato reserva um dilema orçamentário sem precedentes.

Ironicamente, duas décadas depois, cabe ao mesmo prefeito que liderou a reversão resolver a questão que ajudou a criar. As alternativas na mesa são claras: converter a dívida em precatório judicial, comprometendo milhões de reais anuais com juros e correção; negociar o parcelamento mais longo possível diretamente com a Sabesp; ou, caso haja interesse da companhia, reconceder o SAAE, livrando o futuro próximo de Itapira desse pesado fardo.

O desfecho dessa história prova que o discurso eleitoral funcionou para alternar o poder, mas não teve força para anular o progresso que Itapira precisava. Hoje, sob o peso de uma economia estagnada, o município carece de uma nova dose de ousadia: medidas urgentes que reativem o comércio local, atraiam investimentos e recuperem a arrecadação. É o que a cidade espera.

 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Além do Perigo Iminente: A força que Itapira precisa para duplicar a SP-352

 


 

A sequência de acidentes graves e as inúmeras mortes na estrada para Jacutinga me trouxeram à memória os tempos em que a rodovia entre Itapira e Mogi Mirim ainda era de pista simples. Durante boa parte da minha vida, convivi com a triste rotina de tragédias na SP-147, que chegou a receber o sombrio título de "estrada da morte". Muitas vidas foram ceifadas ali, grande parte delas de itapirenses.

 

As justificativas eram quase sempre as mesmas: variavam entre a suposta inabilidade dos motoristas e a pura imprudência. Também eram frequentes as frases usadas para confortar as famílias enlutadas, como: “era o destino” ou “quando chega a hora, não há o que fazer”. No entanto, após a duplicação da SP-147, os acidentes e as mortes despencaram. Mesmo com um fluxo atual de cerca de 12 mil veículos por dia, o número de ocorrências caiu drasticamente. Felizmente, graças à atenção que o deputado Barros Munhoz dedicou às rodovias que convergem para Itapira, muitas vidas foram preservadas.

 

A Rodovia Comendador Virgolino de Oliveira (SP-352), que liga Itapira à divisa com Minas Gerais, porém, continua sendo motivo de grande preocupação. Apesar das melhorias já realizadas, ela recebe um fluxo médio diário de aproximadamente 8 mil veículos, incluindo intenso tráfego de caminhões, carretas, bitrens e vans — veículos que, nos últimos dez anos, estiveram envolvidos em mais de 60% dos acidentes com vítimas fatais. Estimativas apontam que, nesse período, ocorreram cerca de 370 acidentes na via, dos quais aproximadamente 110 foram considerados graves, resultando em mais de 30 mortes.

 

Nos tempos da antiga "estrada da morte", entre Itapira e Mogi Mirim, muitos itapirenses desenvolveram uma espécie de temor coletivo: trafegar por aquela rodovia era quase sinônimo de colocar a própria vida em risco. Hoje, imagino que muitos usuários diários ou ocasionais tenham sensação semelhante ao percorrer a SP-352, que, além do perigo iminente, acaba violando um direito fundamental de todo cidadão: o de ir e vir com segurança.

 

Agora, com a repercussão — inclusive nacional — dos dois últimos acidentes fatais, a estrada de Jacutinga tornou-se o principal assunto nas rodas de conversa. Nos últimos dias, em pelo menos cinco ocasiões diferentes e com pessoas distintas, ouvi a mesma conclusão após os comentários sobre as tragédias recentes. E acredito que esse sentimento seja compartilhado por toda Itapira: é preciso que Totonho continue lutando pela duplicação da SP-352: só ele tem a força política necessária para transformar essa reivindicação em realidade.

 

O verdadeiro valor de uma estrada não está apenas em levar as pessoas aos seus destinos, mas em garantir que elas possam voltar para casa em segurança.

 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Queda de Itapira: um diagnóstico que não podemos ignorar

 



Nunca passou pela minha cabeça morar longe de Itapira. Afastei-me da minha terra em apenas duas ocasiões, exclusivamente por motivos de estudo. Ainda assim, raramente passava mais de uma semana sem retornar ao aconchego do meu lar. Sempre fui um torcedor entusiasmado da nossa cidade, desejando vê-la prosperar e oferecer cada vez mais qualidade de vida aos seus moradores.

Na semana passada, contudo, a realidade nos desferiu um golpe duro. O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, que desde 2024 mede a qualidade de vida nos 5.570 municípios do país por meio de 57 indicadores socioambientais, colocou Itapira na 855ª posição nacional. O resultado acendeu um sinal de alerta preocupante.

Daí pode surgir um argumento conformista: “Mas ainda existem mais de 4.700 cidades atrás de nós; não estamos no lucro?”. Não, não estamos. Quando estreitamos a análise para o Estado de São Paulo, ocupamos a amarga 411ª posição. Atrás de nós, restam apenas 234 municípios paulistas.

O que mais assusta é a velocidade do declínio. Em 2024, Itapira ocupava a 220ª posição nacional e a 130ª estadual. Em apenas dois anos, despencamos 635 posições no país e 281 no estado. O resultado de 2026 não foi um acidente de percurso; foi a confirmação de uma tragédia anunciada pelo boletim de 2025, que já nos rebaixava para a 660ª posição nacional e a 344ª estadual.

Para agravar o quadro, basta olhar para a nossa vizinha. Em 2024, Itapira e Mogi Mirim caminhavam praticamente lado a lado (220ª contra 230ª posição). Dois anos depois, a vantagem de apenas dez posições que tínhamos transformou-se em um abismo de 599 colocações contra nós, com Mogi ocupando a 256ª posição nacional. No ranking estadual, os mogimirianos permaneceram relativamente estáveis, passando da 136ª para a 158ª posição.

A pergunta que deve ecoar na mente de qualquer cidadão atento é inevitável: o que aconteceu com Itapira? O que será do nosso futuro?

Apontar o dedo para o prefeito é o esporte mais fácil do mundo. Evidentemente, o chefe do Executivo detém as rédeas da administração e carrega a maior parcela de responsabilidade pelos rumos do município, mas a população também não pode se eximir. Afinal, quem digita o voto na urna? Quem participa da vida cotidiana da cidade? Quem se posiciona diante dos desacertos?

Olhando para o passado, é possível identificar que o grande câncer local pode estar na velha e desgastante polarização do “nós contra eles”. O eterno embate entre “totonhistas” e “antitotonhistas” acabou cegando parte da cidade. Quando um lado tentava construir, o outro, movido por vaidade, ego ou mera rivalidade política, procurava sabotar. Quantas boas iniciativas deixaram de ser executadas? Quantas foram modificadas ou pioradas?

O mais irônico é que, do ponto de vista institucional, há sinais de que o ambiente político parece ter se acalmado recentemente. A oposição ao prefeito na Câmara, mesmo sendo maioria, não utilizou seu poder de voto para travar a máquina pública, como ocorreu em outros momentos. Se, mesmo com uma oposição mais moderada e responsável, a cidade caiu tanto e tantos problemas estão expostos, imagine se a escolha dos opositores tivesse sido pela paralisia da administração municipal.

É provável que a derrocada no IPS não seja culpa exclusiva de um único mandato; talvez seja o resultado acumulado de pequenas disputas históricas que sangraram a cidade ao longo dos anos, independentemente de quem estivesse no governo.

Agora, porém, não adianta chorar pelo leite derramado. Ouso arriscar que 2028 poderá representar uma virada de chave para Itapira. Talvez seja o fim da figura do candidato surpresa, apresentado apenas às vésperas do período eleitoral. Os prefeituráveis realmente competitivos tendem a ser aqueles que começarem a pavimentar seus caminhos desde já.

Além de demonstrar capacidade de diálogo e convivência respeitosa com pensamentos divergentes, esses futuros postulantes precisarão revelar uma visão genuína de cuidado para com o município e sua população. Também precisarão construir, desde cedo, pontes políticas consistentes, escolhendo aliados capazes de estabelecer conexões produtivas com as esferas estadual e federal. Afinal, uma andorinha só não faz verão.

Na política que se desenha, os espaços para o confronto tendem a diminuir. Os futuros governantes eleitos dependerão cada vez menos de grupos fechados e mais daqueles que se colocam como independentes e defendem projetos sólidos, capazes de oferecer melhores condições de vida nas áreas da saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana e cultura, em sintonia com as políticas públicas estaduais e federais.

Resumindo: será preciso somar esforços, abandonar velhos conflitos e construir caminhos transparentes, seguros e responsáveis rumo ao desenvolvimento que a nossa gente merece.

Em tempo: a construção de uma candidatura não acontece da noite para o dia. Entre inúmeras etapas, é necessário demonstrar liderança natural, atuar de forma ativa na comunidade, dialogar com as pessoas para compreender suas necessidades, construir apoios, atrair candidatos a vereador e, acima de tudo, manter-se acessível.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A Cor que nos Protege, o preconceito que nos fere

 



Se somos ramos de uma mesma raiz ancestral e compartilhamos o mesmo sangue, por que a humanidade floresceu em tantas gradações de tons de pele?

Estamos em plena Festa de São Benedito, a tradicional "Festa de Maio" ou "Festa do 13". Nela, unimos a devoção ao santo negro, protetor dos oprimidos, à memória da abolição da escravidão, ocorrida em 13 de maio de 1888.

Embora o Brasil reconheça que a escravidão é a mancha mais perversa de sua história, um sistema que explorou mais de 4 milhões de africanos por quase quatro séculos, a ferida ainda está longe de cicatrizar. Nas senzalas, sob jornadas exaustivas e castigos cruéis, a sobrevida de um adulto mal chegava aos dez anos após o início do trabalho forçado. Mesmo diante desse horror histórico, ainda testemunhamos o racismo e a ilusão da supremacia branca, como se a concentração de melanina fosse, de alguma forma, um marcador de valor humano.

O senso comum insiste em dividir o mundo em cores: preto para africanos, amarelo para asiáticos, vermelho para indígenas e branco para europeus, utilizando a pigmentação como justificativa para o conceito obsoleto de "raças". No entanto, a genética é categórica: somos 99,9% idênticos.

A ínfima variação de 0,1% é fruto exclusivo da adaptação evolutiva ao longo de milênios. O clima moldou nossa aparência: a pele escura protegeu nossos ancestrais da radiação solar intensa, enquanto a pele clara facilitou a síntese de vitamina D em regiões de baixa luminosidade. Em suma, o tom da pele nunca foi um degrau de hierarquia, mas um ajuste biológico para a sobrevivência em diferentes latitudes.

Como se vê, o racismo carece de qualquer base biológica ou científica; ele é uma construção alimentada por fatores históricos, culturais e psicológicos. Ele se manifesta no preconceito individual e se entranha em leis e instituições. Reconhecer nossa igualdade biológica é o primeiro passo para honrar a história daqueles que vieram antes de nós.

Salve São Benedito!


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Itapira: A Cidade que Reluz e o Olhar do Cuidador

 



Sou do tempo em que Itapira sofria com faltas de água durante o dia e cortes de energia à noite. Havia até uma quadrinha que a meninada da minha rua entoava: "Itapira, cidade que reluz: de dia falta água, de noite falta luz".

Hoje, felizmente, salvo exceções, o abastecimento de água e energia não sofre cortes sistêmicos. No entanto, a população reclama, com razão, do descuido generalizado. Basta um giro rápido e aleatório pelas ruas para detectar problemas que poderiam ser resolvidos com maior agilidade e eficiência.

A falta d’água da minha infância deu lugar a uma abundância irônica: os diversos vazamentos encontrados pelo caminho. O "precioso líquido", que poderá faltar nos tempos de seca, escorre pelo ralo sem cerimônia.

Já a escuridão daqueles tempos virou um "pisca-pisca" urbano. É difícil trafegar à noite sem notar postes cujas lâmpadas em fim de vida útil sinalizam a urgência de troca. Já presenciei casos em que a substituição excedeu duas semanas de espera.

Até os anos 70, a periferia era chão de terra; enfrentava-se pó, buracos, lama e as famosas "costelas de vaca". Hoje, com quase 100% das ruas pavimentadas, os buracos persistem e, em muitos pontos, o acúmulo de terra faz a poeira se levantar como antigamente.

Na era dos paralelepípedos, era comum ver servidores municipais com pequenos arrancadores retirando o mato entre as pedras. Hoje, mesmo com asfalto, ervas daninhas proliferam nas sarjetas e o mato passa do ponto em espaços públicos.

Não resta dúvida de que as atribuições de um prefeito vão além da zeladoria; sua função é, antes de tudo, cuidar das pessoas. Mas "tenho cá com meus botões" que, quando se cuida mal do básico, o complexo dificilmente recebe a atenção que merece.

Daqui a dois anos, escolheremos um novo prefeito. Tomara que os candidatos apresentem, acima de qualquer habilidade técnica, a disposição genuína de serem cuidadores. Afinal, a cidade deve ser agradável aos olhos e aos sentimentos. Em um ambiente limpo e organizado, nossa tendência é preservá-lo; diante da desordem, o impulso de muitos é desorganizar ainda mais.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Confusão: Festa de Maio e Festa de São Benedito



A Festa de São Benedito há muito se confunde com a nossa querida Festa de Maio.

 

Há 138 anos, a celebração religiosa reúne fiéis com novenas, missas e procissões, tendo seu ápice em 13 de maio. Com o tempo, ganhou novos elementos — parque de diversões, barracas, comércio popular e atrações culturais — e passou a acolher toda a população. Assim nasceu a Festa de Maio como a conhecemos: plural, viva e cheia de memória afetiva.

 

Quem é de Itapira sabe: é difícil não dar ao menos uma passada por lá. Nem que seja só para relembrar. É tradição.

 

Nos últimos anos, a Paróquia de São Benedito buscou, de forma legítima, separar a parte religiosa da festa, valorizando o espaço ao redor da igreja. Mais recentemente, a instalação de equipamentos de saúde na Rua Vitório Coppos — onde ficava o parque — trouxe um novo desafio: a falta de espaço para um dos principais atrativos da festa.

 

E fica a pergunta: estamos diante da possível ruptura de uma tradição centenária?

 

A Festa de Maio não surgiu por acaso. Foi construída ao longo do tempo, com a participação da Igreja, do poder público e, principalmente, do povo itapirense. Por isso, é justo refletir: não seria possível antecipar soluções que preservassem essa tradição tão importante para a nossa identidade?

 

Tradições não são apenas hábitos. São laços. São memória. São pertencimento.

 

Eu, por exemplo, guardo com carinho a lembrança dos meus pais me levando para brincar no “tomovinho”.

 

Que haja sensibilidade — e responsabilidade — para encontrar um caminho que mantenha viva essa parte tão especial da nossa história.

 

Você gosta da Festa de Maio ou quer o fim dela? Um assunto a ser discutido!

 


sábado, 21 de março de 2026

Juca tudo a ver: do Italianinho ao Cidadão de Itapira

  


A arte é um caminho para a eternidade — basta que encontre abrigo no gosto das pessoas. Então, permanece.

Juca de Oliveira, ator de primeira grandeza, partiu aos 91 anos, deixando uma trajetória memorável como ator, diretor e dramaturgo no teatro, no cinema e na televisão, ao longo de quase sete décadas. Consagrado pela crítica e pelo público, gravou seu nome entre os maiores artistas do Brasil.

Conheci Juca de Oliveira pela televisão, quando eu tinha quatorze anos. Nasci e logo recebi de meu pai o “Nino”, apelido que me acompanha até hoje. Era Nino daqui, Nino dali. Tão presente era, que, quando me chamavam pelo nome de batismo, eu demorava alguns segundos para perceber que era a mim que se dirigiam. Nino não era um apelido comum. Naquele tempo, conheci apenas outra pessoa que também o usava, mas de forma menos intensa: ora era chamada pelo apelido, ora pelo nome. No meu caso, era só Nino.

Foi então que a TV Tupi de São Paulo começou a anunciar uma nova novela: “Nino, o Italianinho”. Antes mesmo da estreia, vizinhos e parentes passaram a me chamar assim nos encontros. À medida que a novela ganhava audiência e conquistava o público, o apelido composto se espalhava com ainda mais força.

Encerrada a novela, por um bom tempo — talvez por hábito — o “Nino italianinho” continuou vivo na boca de muita gente. Até hoje, vez ou outra, alguém resgata esse apelido, nascido da interpretação marcante de Juca de Oliveira.

Nasci brasileiro, mas descendo de famílias italianas, tanto pelo lado paterno quanto materno. Anos depois, tornei-me também cidadão italiano. Assim, o “Nino italianinho” começou com Juca e, de certo modo, foi confirmado pela minha própria história.

O destino quis que, mais tarde, Juca de Oliveira adotasse Itapira. Comprou uma fazenda, caminhava pelas ruas da cidade, frequentava a Praça Bernardino, saboreava o badalado café  e desfrutava de conversas despretensiosas.

Ele se foi. Mas, assim como o “Nino italianinho” se incorporou à minha vida, Juca de Oliveira se inscreveu na memória cultural do país. Diante de tantos personagens e de uma obra tão vasta, deixou sua marca — e, como toda arte verdadeira, permanecerá.


sexta-feira, 13 de março de 2026

Como Devolver a Vida ao Mercadão de Itapira?

 



O Mercadão é mais que um prédio; é um marco histórico que remonta a mais de um século. O espaço consolidou-se como o coração pulsante da cidade, unindo a força do campo e do comércio à tradição dos encontros geracionais.

Contudo, o cenário atual é de estagnação. Celebramos, com pesar, o segundo aniversário de sua inoperância. Silenciado por uma reforma que, embora tenha consumido vultosos recursos públicos, parece carecer de um plano de ocupação claro, o retardo na finalização das obras gera uma incerteza inevitável: afinal, qual é o destino do nosso Mercadão?

A experiência de outras cidades demonstra que mercados municipais bem-sucedidos são motores de turismo e da economia local. Eles não sobrevivem apenas da venda de produtos, mas da oferta de experiência e qualidade. Um erro fatal seria transformar o prédio reformado em um mero "puxadinho" de lojas, competindo de forma predatória com os comerciantes da Rua José Bonifácio e arredores.

A alma do novo Mercadão reside no acolhimento ao pequeno produtor, aos artesãos da culinária e aos prestadores de serviços. Imagino espaços repletos de frutas, verduras e legumes frescos; queijos diversos, defumados, especiarias, mel, cafés especiais e doces finos — unindo os sabores da nossa região aos quitutes do Sul de Minas. Uma praça de alimentação vibrante seria o coração do projeto, com pastéis fritos na hora, bolinhos e petiscos irresistíveis. Além disso, o espaço abrigaria ofícios tradicionais, como amoladores de facas e pequenos consertos, além de flores, ervas, brechós e itens religiosos. Enfim, um lugar que abraça a população em quase todas as suas necessidades.

Para viabilizar essa retomada, a gestão municipal poderia implementar concessões financeiras temporárias, incentivando os comerciantes a oferecerem preços competitivos enquanto o público redescobre o espaço.

O primeiro passo é simples e urgente: a abertura de um cadastro de interessados, priorizando, em igualdade de condições, os moradores de Itapira. É hora de devolver ao cidadão o prazer de "ir ao Mercado", garantindo que aquele patrimônio volte a pulsar com a vida, os sabores e a identidade da nossa terra.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Carnaval: Amor & Ódio

 



Desde que me conheço por gente, o Carnaval é daqueles temas que despertam paixões positivas e negativas. Sem grandes alaridos, quem gostava, curtia; quem não gostava, fugia. Ultimamente, os avessos à folia criticam, apontam mil defeitos e tentam convencer os foliões a banirem o evento.

Da minha parte, não troco os carnavais das marchinhas e das pantomimas nos desfiles de rua de Itapira pelo Carnaval da atualidade. Nem poderia ser diferente; afinal, o hiato temporal alcança 50 anos. Mas reconheço que isso não me dá o direito de condenar a festa de hoje em dia.

Nos anos 70, com o Brasil sob ditadura militar, o Carnaval era uma "válvula de escape". Um período em que muitos desejos contidos e condenados pela sociedade recebiam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Hoje, vivemos em uma democracia e a hipocrisia social perdeu relevância. Mas, então, qual seria o motivo de tanta gente se sentir incomodada com a folia?

Eu diria que é difícil, para alguns, entender as mudanças geracionais. Antigamente, um estilo musical, uma moda ou um conceito duravam pelo menos um ano; hoje, dependendo do caso, não duram um mês. Por isso, o acompanhamento é difícil e gera perda de referência dos rituais que dão sentido às nossas vidas.

Há quem decrete que o Carnaval morreu. No entanto, quando comparamos o número de pessoas envolvidas dos anos 70 para cá, o público aumentou em 1.000%, enquanto a população apenas dobrou. Só a cidade de São Paulo deve reunir de 15 a 20 milhões de foliões. Se antes o Rei Momo reinava por quatro ou cinco dias, hoje o reinado dura quase um mês. Naquela época, os pontos altos eram a alegria, o sentimento de liberdade e o movimento. Agora, o retorno econômico ocupa o primeiro lugar na lista.

Queiramos ou não, o Carnaval é o espelho da sociedade brasileira. Como o Brasil mudou drasticamente de 1970 para cá, a maior festa popular do mundo não ficaria parada no tempo só para agradar à minha geração. Se antes era uma festa coletiva, mas de forte apelo individual, hoje é uma indústria de entretenimento.

O Carnaval continua "parando o país". A diferença é que, antes, a gente vivia; hoje, a gente também consome. De preferência, sem ódio!