segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Um dia o PCC e o CV ainda colocarão o Brasil nos eixos. Duvida?



Dia desses, entre um café e outro, um amigo puxou assunto sobre o mais recente tsunami em Brasília: a crise no STF. Queria saber minha opinião. Soltei na lata: “Nesse altar, não tem santo. Para mim, quanto maior o estrondo desse escândalo, melhor.”

Ele me olhou de lado, sem entender. Tive de traduzir. É que, até ontem, a lama respingava no Executivo e no Legislativo, mas, no Supremo Tribunal Federal, chegava apenas uma arranhadinha de nada. O desenrolar dessa crise, quem sabe, finalmente colocará em prática um princípio elementar: “todos são iguais perante a lei”.

O Brasil é pródigo em oferecer impunidade aos poderosos: processos mofando nas gavetas até a prescrição, investigações que nascem capengas, malabarismos jurídicos e brechas legais cuidadosamente sob medida. Aqui, a Justiça parece enxergar muito bem quem está do outro lado da mesa. No país da corrupção institucionalizada, condenado de colarinho branco continua sendo uma espécie em extinção — protegida, curiosamente, pelo próprio sistema que deveria caçá-la.

Estima-se que a corrupção no Brasil consuma entre R$ 85 bilhões e R$ 300 bilhões por ano. E por que ela nos acompanha desde o Primeiro Reinado? Simples: nossa legislação, historicamente, nunca foi exatamente um muro contra a corrupção.

Aproveitei o embalo e arrisquei um palpite provocativo: “Sabe quem ainda vai acabar colocando este país nos eixos? O PCC, o Comando Vermelho e as outras facções.” O homem quase engasgou. Calma, expliquei.

A criminalidade no Brasil — seja a de fuzil, seja a de gabinete — floresce nas lacunas deixadas pelo nosso ordenamento jurídico. E o crime organizado percebeu, há muito tempo, que as leis brasileiras, em certos aspectos, são uma rodovia de seis faixas e sem radar.

Hoje, facções e milícias não vivem apenas do tráfico, do contrabando, da pirataria e da exploração das comunidades que dominam. Deram um passo adiante: deixaram de operar apenas à margem da economia e passaram a se infiltrar nela. Lavam dinheiro, diversificam negócios, compram influência e vestem o terno respeitável da legalidade. Estão na construção civil, no posto da esquina, nas empresas de ônibus, na mineração, nas fintechs, no futebol, nas apostas e até nos grandes eventos. O crime organizado descobriu que, no Brasil, o melhor esconderijo para o dinheiro sujo pode ser justamente um negócio com fachada limpa.

Estimativas apontam que o crime organizado movimenta entre R$ 350 bilhões e R$ 450 bilhões por ano. Essa máquina gira tão macia porque nossa legislação continua sendo um verdadeiro queijo suíço quando o assunto é lavagem de dinheiro.

Enquanto países que levam a sério o combate à corrupção e ao crime organizado procuram sufocar o patrimônio ilícito, o Brasil oferece um verdadeiro cardápio de facilidades. Empresas de fachada, offshores e laranjas transitam com surpreendente desenvoltura. A perda de bens enfrenta uma série de obstáculos jurídicos e, enquanto a Justiça não chega ao fim da linha, o patrimônio pode simplesmente evaporar.

Para completar, patrimônio incompatível com a renda declarada não constitui, por si só, crime autônomo para agentes públicos. A infinidade de recursos pode favorecer a prescrição; não há, em todos os casos, mecanismos suficientemente eficazes para impedir grandes movimentações de dinheiro em espécie; e erros formais podem se transformar em combustível para uma sucessão interminável de recursos e anulações.

No entanto, discursos contra a corrupção não faltam. Sobram. O problema aparece quando chega a hora de adequar a legislação aos mecanismos modernos e internacionais de combate ao crime organizado e à corrupção. Aí é necas de pitibiribas!

No fim das contas, só o Congresso Nacional pode fechar essas torneiras. Quem já combateu o crime organizado de verdade em outras partes do mundo aprendeu, há décadas, uma lição simples: prender pistoleiro é enxugar gelo. Cai um, entra outro. O que destrói o crime organizado é o asfixiamento financeiro. Nenhum negócio sobrevive quando a torneira fecha.

Se a água continuar subindo apenas até os joelhos dos agentes políticos e dos agentes públicos, nada mudará. O problema é que o crime organizado já não está apenas à espreita: além de avançar sobre a economia formal, finca raízes nos Três Poderes. Quando a água finalmente chegar ao pescoço de quem deveria combatê-lo, talvez já seja tarde demais. O futuro, nesse cenário, não é apenas preocupante. É assustador.

Acuados pelo próprio monstro que ajudaram a alimentar, eles aprenderão a nadar para se salvar — fechando, finalmente, as brechas que permitiram ao crime prosperar. Só então a corrupção e o crime organizado começarão a sofrer reveses dos quais não conseguirão se recuperar.

Resta uma ressalva: tudo isso pressupõe que o Brasil continue respirando democracia. Porque, se ela faltar, as trevas serão muito mais obscuras — e, nesse cenário, o PCC e o CV serão provavelmente o menor dos nossos problemas.