Pesquisas de grandes institutos
indicam que o eleitorado brasileiro se divide em três grupos de tamanho
semelhante: direita, esquerda e não alinhados. Isso significa que, por mais barulho
que os alinhados façam, nenhum dos dois tem votos suficientes para vencer uma
eleição majoritária sozinho.
O próximo presidente da
República será quem conquistar a maioria entre os não alinhados — eleitores
pragmáticos que se distanciam de disputas ideológicas. Esse grupo decide o voto
avaliando previsibilidade econômica, inflação, poder de compra, combate à
criminalidade, saúde e educação.
Desconfia de escândalos, condena
a corrupção e rejeita discursos radicais.
Por não ter amarras ideológicas,
esse eleitor flutua conforme os fatos e o noticiário.
Dificilmente um eleitor de
esquerda migra para a direita ou vice-versa, mas o eleitor pragmático muda de
lado com facilidade, várias vezes durante a campanha. Esse grupo é o terror das
pesquisas quando a disputa é acirrada.
No cenário atual, a esquerda é
majoritariamente representada pelos lulistas, e a direita, pelos bolsonaristas.
Um estudo recente da More in Common Brasil, em parceria com o Ipsos-Ipec
(realizado entre 6 e 10 de agosto de 2026 com 2.000 pessoas), revelou um dado
revelador: lulistas e bolsonaristas são mais parecidos — e menos radicais — do
que pensam uns dos outros.
A pesquisa mediu o “perception
gap” (o descompasso entre o que se imagina do outro e o que ele realmente
pensa) e constatou um erro médio de percepção de 20 pontos entre os grupos.
Ambos enxergam o lado oposto como muito mais intolerante e caricato do que a
realidade mostra:
Inclusão social: Bolsonaristas
deram nota 86 para a importância de pessoas pobres viajarem de avião e
frequentarem os mesmos espaços dos ricos. Lulistas achavam que a nota seria 69.
Igualdade salarial: A nota dos
bolsonaristas para salários iguais entre homens e mulheres na mesma função foi
94. A estimativa dos lulistas era 73.
Democracia: A rejeição ao
fechamento do Congresso obteve nota 71 entre bolsonaristas, ante a expectativa
lulista de 65.
Segurança: Lulistas deram nota
86 à afirmação de que a pobreza não justifica o crime. Bolsonaristas esperavam
67.
Autonomia financeira: A frase de
que todos devem trabalhar para ter renda própria sem depender do governo
recebeu nota 84 dos lulistas, contra a estimativa bolsonarista de 65.
Valores familiares: A afirmação
“A família é a base de tudo” obteve nota 95 entre lulistas. Os bolsonaristas
projetavam apenas 72.
A conclusão é clara: os
estereótipos políticos não são apenas exagerados, são falsos.
Isso não apaga as divergências
profundas nem aproxima totalmente as agendas econômicas e sociais. Contudo,
demonstra que a distância real entre os polos é muito menor do que a imaginada.
Discordar é um pilar saudável da
democracia. O perigo surge quando deixamos de debater com pessoas reais para
combater caricaturas. O adversário político raramente é o monstro que a
polarização inventa. Discordar faz parte do jogo; desumanizar o outro, não.
