segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ninguém Acima da Lei: O Dever do STF de Investigar a Si Mesmo

 





O Supremo Tribunal Federal vive sua maior crise desde sua instalação, em 1891. Ao longo de sua história, enfrentou diversos períodos turbulentos, quase sempre marcados por pressões externas, autoritarismo e tentativas de submeter o Judiciário ao poder de ocasião.

Em 1892, Floriano Peixoto mandou prender opositores e, diante da intenção dos advogados de recorrerem ao STF com pedidos de habeas corpus, ameaçou: se os ministros determinassem a soltura dos presos, não saberia quem concederia habeas corpus aos próprios ministros no dia seguinte. Diante da pressão, o STF recuou.

Em 1930, Getúlio Vargas reduziu o número de ministros do STF de 15 para 11 e afastou magistrados considerados contrários ao novo regime. Em 1937, com o Estado Novo, restringiu ainda mais a autonomia do Tribunal, pressionando ministros considerados inconvenientes.

A ruptura mais brutal viria com o regime militar. Em 1965, o AI-2 aumentou de 11 para 16 o número de ministros, ampliando a influência do governo sobre a Corte. Em 1968, com o AI-5, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal foram aposentados compulsoriamente por razões políticas. Em protesto, o então presidente do STF, Aliomar Baleeiro, renunciou.

A história mostra que o STF já foi atacado, pressionado, mutilado e, em determinados períodos, submetido de fora para dentro. Desta vez, porém, a crise tem uma característica diferente: nasceu e cresceu no próprio seio da instituição.

Pelo menos seis ministros tiveram seus nomes relacionados, em diferentes graus e circunstâncias, ao caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes.

Independentemente do que vier a ser comprovado, a situação exige transparência. Quando a mais alta Corte do país está sob suspeita ou questionamento, seus integrantes têm o dever de prestar à sociedade explicações claras e convincentes.

Uma coisa precisa estar acima de qualquer dúvida: ninguém pode estar acima da lei. Nem o cidadão comum, nem o empresário poderoso, nem deputado, senador ou presidente da República e, muito menos, um ministro do Supremo.

A democracia brasileira já resistiu a diversas tentativas de fragilização. Espera-se que o STF também atravesse esta tempestade. Para isso, precisa fazer aquilo que cobra dos demais: investigar, esclarecer, julgar com independência e, havendo responsabilidade comprovada, punir.

O STF não pode sobreviver em um mar de suspeitas. É o guardião da Constituição de 1988 e deve assegurar que os demais Poderes respeitem os direitos fundamentais, o devido processo legal e as liberdades garantidas aos cidadãos.

Na democracia, os Poderes são independentes e harmônicos. Ao STF cabe atuar como última instância constitucional, freando excessos do Executivo e do Legislativo e impedindo qualquer deriva autoritária.

Em uma sociedade polarizada, esse papel é ainda mais importante. Conflitos políticos precisam ser resolvidos dentro das regras constitucionais, pelo Direito e pelas instituições — não pela força, pela intimidação ou pela ruptura democrática.

Decisões firmes e coerentes também produzem segurança jurídica, essencial ao desenvolvimento econômico. Investidores precisam saber que contratos serão respeitados, que as regras não mudarão arbitrariamente e que conflitos serão resolvidos por instituições independentes.

Há ainda uma função essencial: proteger direitos fundamentais mesmo quando isso significa contrariar a vontade da maioria. Democracia não é apenas governo da maioria; é também respeito aos direitos que a maioria não pode simplesmente retirar das minorias.

Por tudo isso, o STF é indispensável à democracia brasileira. Mas, justamente por ser indispensável, precisa ser exemplar.

Sua autoridade não nasce apenas da Constituição, mas também da confiança da sociedade. A crise pode ser uma ameaça. Mas também pode ser a oportunidade de reconstruir a confiança.

No fim das contas, o STF só será verdadeiramente forte se tiver coragem de aplicar a mesma régua para todos — inclusive para si próprio.

Porque, sem um Supremo independente, imparcial e respeitado, nenhum brasileiro estará verdadeiramente protegido contra os abusos de quem quer que venha a ocupar o comando do país.

#14/09/2026#