A urna eletrônica é uma caixinha de plástico, com
uma tela preta e botões de borracha, mas, a cada dois anos, ganha o peso de um
confessionário urbano. Daqui a duas semanas, a liturgia se repete. Apertaremos
o botão verde para escolher presidente, senadores, governador e uma penca de
deputados. Promete-se o futuro ali, na ponta dos dedos, entre um pi-pi-pi
e a sensação passageira de dever cumprido. O problema é que a memória do
eleitor costuma durar menos que a fila da seção eleitoral, e o voto, que
deveria ser bússola, vira loteamento.
O itapirense, em especial, desenvolveu uma vocação
quase poética para a pulverização. Nas últimas eleições, a cidade distribuiu
dezenas de milhares de votos entre uma multidão de candidatos a deputado
estadual. Um desfile de nomes que, em sua grande maioria, jamais pisaram na
José Bonifácio ou tomaram um café na praça. Em 2018, os votos da terra ajudaram
a eleger 85 parlamentares; em 2022, foram 83. Se todos eles tivessem Itapira
como prioridade, o governador do Estado morreria de inveja.
Entre 2018 e 2026, menos de dez deputados estaduais
lembraram que o município existia para destinar uma emenda ou, ao menos,
estender a mão. O resto evaporou. É o mistério do voto proporcional: o cidadão
vota por simpatia, amizade, ideologia ou até pelo fígado e, no dia seguinte,
descobre que entregou uma procuração em branco a um estranho. Cerca de 20 mil
votos itapirenses foram dados a candidatos que, depois de eleitos, nunca
mandaram sequer um “obrigado”.
Enquanto isso, Barros Munhoz — figura carimbada,
que não tira Itapira da cabeça nem para dormir — colhe suas safras de pouco
mais de 13 mil votos, mostrando que a fidelidade local ainda resiste em alguns
nichos, embora dispute espaço com a dispersão irracional do restante do
eleitorado. Não se trata de monopolizar a preferência, mas de exigir
compromisso. Se não for ele, que seja outro. Mas que tenha CEP, rosto,
compromisso cobrável e, principalmente, chances reais de se eleger.
O deputado estadual é a ponte estendida até o
Palácio dos Bandeirantes, o sujeito que abre portas em São Paulo e cutuca
ministérios em Brasília. Com os ventos econômicos anunciando para Itapira anos
bicudos na arrecadação e no emprego, dar o voto a quem não tem raízes por aqui
deixa de ser apenas ingenuidade; passa a ser um luxo que a cidade não pode se
dar. Ter um representante com votação expressiva no município significa força
política real para defender nossas demandas.
Na hora de encarar a urna, talvez seja bom deixar a
torcida de lado e votar com um pouco mais de juízo territorial. O voto não pode
ser na base do “Uni, Duni, Tê”; pode até passar pelo coração, mas o essencial é
que a razão fale mais alto. Afinal, a escolha não termina quando a tela acende
“FIM”. Ela começa ali






