quarta-feira, 29 de abril de 2026

Itapira: A Cidade que Reluz e o Olhar do Cuidador

 



Sou do tempo em que Itapira sofria com faltas de água durante o dia e cortes de energia à noite. Havia até uma quadrinha que a meninada da minha rua entoava: "Itapira, cidade que reluz: de dia falta água, de noite falta luz".

Hoje, felizmente, salvo exceções, o abastecimento de água e energia não sofre cortes sistêmicos. No entanto, a população reclama, com razão, do descuido generalizado. Basta um giro rápido e aleatório pelas ruas para detectar problemas que poderiam ser resolvidos com maior agilidade e eficiência.

A falta d’água da minha infância deu lugar a uma abundância irônica: os diversos vazamentos encontrados pelo caminho. O "precioso líquido", que poderá faltar nos tempos de seca, escorre pelo ralo sem cerimônia.

Já a escuridão daqueles tempos virou um "pisca-pisca" urbano. É difícil trafegar à noite sem notar postes cujas lâmpadas em fim de vida útil sinalizam a urgência de troca. Já presenciei casos em que a substituição excedeu duas semanas de espera.

Até os anos 70, a periferia era chão de terra; enfrentava-se pó, buracos, lama e as famosas "costelas de vaca". Hoje, com quase 100% das ruas pavimentadas, os buracos persistem e, em muitos pontos, o acúmulo de terra faz a poeira se levantar como antigamente.

Na era dos paralelepípedos, era comum ver servidores municipais com pequenos arrancadores retirando o mato entre as pedras. Hoje, mesmo com asfalto, ervas daninhas proliferam nas sarjetas e o mato passa do ponto em espaços públicos.

Não resta dúvida de que as atribuições de um prefeito vão além da zeladoria; sua função é, antes de tudo, cuidar das pessoas. Mas "tenho cá com meus botões" que, quando se cuida mal do básico, o complexo dificilmente recebe a atenção que merece.

Daqui a dois anos, escolheremos um novo prefeito. Tomara que os candidatos apresentem, acima de qualquer habilidade técnica, a disposição genuína de serem cuidadores. Afinal, a cidade deve ser agradável aos olhos e aos sentimentos. Em um ambiente limpo e organizado, nossa tendência é preservá-lo; diante da desordem, o impulso de muitos é desorganizar ainda mais.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempo Livre: O Verdadeiro Medo por Trás da Resistência

 


As reações contrárias à redução da jornada de trabalho não são uma novidade; são históricas. Mas quais seriam as bases que sustentam essa resistência?

Ainda persiste a crença de que o trabalhador que cumpre 12 horas diárias é mais comprometido do que aquele que alcança os mesmos resultados em seis. Cientificamente, porém, o cérebro humano não opera como uma máquina programada para a execução contínua de tarefas repetitivas. A mente funciona em picos de desempenho e exige períodos de desconexão para manter a eficiência e a criatividade.

Empresas presas a uma visão conservadora tendem a resistir à mudança porque a redução da jornada exige um foco rigoroso em resultados, e não apenas em processos. Manter o colaborador por 44 horas semanais, distribuídas em seis dias, oferece apenas uma ilusória sensação de controle para a gestão.

Para muitos, o emprego não é apenas um meio de subsistência, mas uma fonte primordial de status social. Nesse cenário, o aumento do tempo livre torna-se um problema existencial para quem não sabe lidar com a própria ociosidade ou com a vida fora do ambiente corporativo.

Em 1926, ao instituir a jornada de 40 horas semanais, Henry Ford foi duramente criticado e chamado de "traidor do capitalismo". Sua visão, contudo, era pragmática: trabalhadores exaustos e sem lazer não consomem. O resultado foi imediato: a suposta perda de produtividade deu lugar a um forte estímulo ao consumo e à eficiência industrial.

Historicamente, sempre que surgiram propostas de redução, os opositores repetiram discursos alarmistas. No entanto, a prática demonstra que, ao reduzir o tempo, as empresas são forçadas a investir em tecnologia e otimização, o que acaba elevando a produtividade global.

Atualmente, em diversos países desenvolvidos, o debate já avança para jornadas de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias.

Ao observarmos a trajetória histórica, das exaustivas 16 horas diárias nos primórdios da Revolução Industrial até os modelos atuais, percebe-se que o obstáculo real nunca foi a viabilidade econômica. O verdadeiro entrave sempre foi a resistência cultural e política em conceder autonomia e tempo livre à classe trabalhadora.

@ninomarcati

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Tempo Rei e os Passageiros do Agora


 

Você já reparou que, na sala de espera de um consultório, meia hora parece uma eternidade, mas, em uma boa conversa, o mesmo tempo voa? Onde reside, afinal, a “magia” do tempo?

 

Tive apenas dois relógios de pulso na vida. O último abandonei aos quinze anos e nunca mais o recuperei. Talvez eu quisesse que as horas corressem com mais liberdade. Notava algo curioso: sempre que eu consultava o relógio durante uma tarefa, a primeira metade do percurso parecia se arrastar; já a segunda, quando eu finalmente esquecia as horas, parecia encurtar.

 

Apesar da imensidão do universo, o tempo como o conhecemos, fatiado em segundos, minutos e anos, é uma convenção humana, moldada pelos ritmos de rotação e translação da Terra. Em outro planeta, sob outra cadência astral, nossa experiência cronológica seria radicalmente distinta.

 

Na filosofia, as perspectivas se dividem: há quem sustente que apenas o presente é real, pois o passado é memória e o futuro é projeção. Para outros, as três dimensões coexistem em um fluxo contínuo, como se o tempo fosse uma grande estrada e nós, meros passageiros atravessando paisagens já existentes.

 

Já a psicologia revela que nossa percepção está amarrada à forma como o cérebro processa novidades. Quanto mais experiências inéditas vivemos, mais o tempo se expande em nossa memória. Por outro lado, a rotina faz os dias evaporarem. É por isso que o caminho de volta de uma viagem parece sempre mais curto que o de ida: no retorno, o cérebro já reconhece o percurso e "economiza" atenção, acelerando a sensação do trajeto.

 

Como canta Gilberto Gil em Tempo Rei: “Não me iludo / Tudo permanecerá do jeito que tem sido / Transcorrendo, transformando / Tempo e espaço navegando todos os sentidos.”



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ah! Como este mundo é pequeno.

 


Quando eu era criança, Itapira era o meu mundo. Depois da minha primeira viagem a São Paulo com minha mãe, passando por Mogi Mirim e Campinas, meu mundo cresceu aos meus olhos.

Com as imagens captadas da Lua, tornou-se evidente o quão pequeno é o nosso planeta. Tão pequeno que, se um alienígena desavisado o avistasse à distância, dificilmente imaginaria que aqui vivem mais de 8 bilhões de pessoas, sem contar todas as que já passaram por aqui.

Quantas vezes ouvimos ou dizemos: “como este mundo é pequeno”? É a expressão de surpresa ao encontrarmos alguém conhecido em lugares distantes do nosso berço, fruto da nossa vocação para a convivência.

Mas, quando olhamos para a longa caminhada humana, percebemos que esse “mundo pequeno” é, na verdade, um palco imenso para o desejo humano de explorar e superar desafios.

Tudo começou na África há cerca de 300 mil anos. Foi ali que surgiram os primeiros Homo sapiens, que por cerca de 200 mil anos desenvolveram habilidades essenciais, especialmente a inteligência, marco do que se convencionou chamar de Revolução Cognitiva.

Entre todos os animais, o ser humano é o único que conseguiu, por seus próprios meios, alcançar todos os continentes. Outros, como ratos, baratas e moscas, também se espalharam pelo mundo, mas pegando carona.

Os deslocamentos começaram quando os grupos humanos perceberam que a convivência de muitos indivíduos em um mesmo território gerava tensões: disputas por recursos e conflitos de poder. Descobriram que esses grupos não podiam ultrapassar além de 150 indivíduos. No limite, parte do grupo, os mais jovens, partia em busca de novas terras. Assim teve início a grande migração humana, um processo que se estendeu por cerca de 100 mil anos.

Graças ao desenvolvimento da inteligência, esses desbravadores foram capazes de se adaptar aos mais diversos ambientes, superar adversidades e sobreviver com base na caça, na pesca e nos recursos naturais disponíveis. Esse modo de vida perdurou até a chamada Revolução Agrícola, há cerca de 10 mil anos, que possibilitou o surgimento das primeiras cidades e deu início ao processo civilizatório.

No fim das contas, não estamos aqui por acaso. E nada disso foi fácil.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Confusão: Festa de Maio e Festa de São Benedito



A Festa de São Benedito há muito se confunde com a nossa querida Festa de Maio.

 

Há 138 anos, a celebração religiosa reúne fiéis com novenas, missas e procissões, tendo seu ápice em 13 de maio. Com o tempo, ganhou novos elementos — parque de diversões, barracas, comércio popular e atrações culturais — e passou a acolher toda a população. Assim nasceu a Festa de Maio como a conhecemos: plural, viva e cheia de memória afetiva.

 

Quem é de Itapira sabe: é difícil não dar ao menos uma passada por lá. Nem que seja só para relembrar. É tradição.

 

Nos últimos anos, a Paróquia de São Benedito buscou, de forma legítima, separar a parte religiosa da festa, valorizando o espaço ao redor da igreja. Mais recentemente, a instalação de equipamentos de saúde na Rua Vitório Coppos — onde ficava o parque — trouxe um novo desafio: a falta de espaço para um dos principais atrativos da festa.

 

E fica a pergunta: estamos diante da possível ruptura de uma tradição centenária?

 

A Festa de Maio não surgiu por acaso. Foi construída ao longo do tempo, com a participação da Igreja, do poder público e, principalmente, do povo itapirense. Por isso, é justo refletir: não seria possível antecipar soluções que preservassem essa tradição tão importante para a nossa identidade?

 

Tradições não são apenas hábitos. São laços. São memória. São pertencimento.

 

Eu, por exemplo, guardo com carinho a lembrança dos meus pais me levando para brincar no “tomovinho”.

 

Que haja sensibilidade — e responsabilidade — para encontrar um caminho que mantenha viva essa parte tão especial da nossa história.

 

Você gosta da Festa de Maio ou quer o fim dela? Um assunto a ser discutido!

 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Da Lua aos ETs: o nosso desejo de sermos enganados.

 



Já reparou que muita gente prefere uma mentira confortável do que uma verdade complexa? Não é de hoje que a desinformação parece ter mais força que a realidade. Mas por que isso acontece?

Não é de hoje que muita gente acredita mais facilmente naquilo que não entende — ou naquilo que confirma o que sempre acreditou.

A verdade? Nem sempre importa. Quando o cidadão encontra dificuldades para processar mecanismos científicos complexos ou quando nutre uma desconfiança crônica em relação às instituições, qualquer teoria que reforce esses sentimentos é prontamente aceita como "a verdade que ninguém quer contar". Nesse processo, ignora-se solenemente — ou "dá-se uma banana" — para qualquer evidência em contrário.

Coincidência ou ironia: no dia 1º de abril, o Dia da Mentira, a NASA lançou uma missão com o foguete Space Launch System, levando astronautas para um sobrevoo da Lua.

Mesmo assim… Segundo o Datafolha, 33% dos brasileiros acreditam que o homem nunca foi à Lua. E não para por aí: Cerca de 60 milhões acreditam que discos voadores visitam a Terra há milhares de anos. Aproximadamente 11 milhões acham que a Terra é plana.

Por quê?

Porque a mentira é simples. A verdade exige esforço.

Mas não é só isso.

Existe também o desejo de pertencimento — aquela sensação de fazer parte de um grupo “especial”, que descobriu algo que o resto do mundo não enxerga.

E ainda há um fenômeno psicológico chamado Efeito Dunning-Kruger: quanto menos alguém sabe sobre um assunto, mais tende a achar que sabe. Resultado: qualquer especialista pode ser “refutado” em cinco minutos.

Estudos mostram que mentiras se espalham até 6 vezes mais rápido que a verdade.

Motivo? A mentira utiliza o combustível da indignação, do medo, do ódio e do senso de exclusividade.

Já a verdade — coitada — quase sempre é vista como "meio sem graça".

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Do Sacrifício ao Banquete: A Evolução da Abstinência na Semana Santa

 



Até pouco tempo — em uma tradição que vem desde os primeiros séculos do cristianismo — deixar de comer carne era mais do que um costume: era obrigação para os católicos.

 

A abstinência de carne vermelha, como forma de penitência em memória do sacrifício de Cristo, se estendia por muitos dias do ano: toda a Quaresma, vigílias e, claro, a Semana Santa. Peixe podia. Carne, não.

 

Essa regra só começou a ser flexibilizada há cerca de 60 anos. Hoje, a exigência oficial se concentra na Sexta-feira Santa — e, mesmo assim, com exceções.

 

Mas o mais curioso é que o hábito não ficou restrito aos religiosos.

 

Ele atravessou fronteiras.

 

Mesmo entre os não praticantes, pessoas de outras religiões, agnósticos e ateus, evitar carne vermelha nesse dia virou algo comum. Basta observar o mercado: na semana da Páscoa, o preço da carne tende a cair para estimular o consumo, enquanto o peixe sobe com a demanda. O bacalhau, então, dispara. E isso acontece em um país onde cerca de 55% se dizem católicos, mas apenas uma parcela menor — algo em torno de 20% — pratica ativamente a fé.

 

O que explica? A força da tradição. Com o tempo, o que era uma regra religiosa virou um traço cultural. Um hábito que se mantém não apenas pela fé, mas pela memória coletiva.

 

E há também a história por trás do prato mais simbólico dessa época. Em um tempo sem refrigeração, conservar peixe fresco era um desafio. Foi a técnica de secar e salgar o bacalhau — desenvolvida pelos povos nórdicos — que permitiu sua longa duração e ampla distribuição pela Europa. Assim, ele se tornou a solução ideal para cumprir as regras da Igreja.

 

Trazido pelos portugueses, o bacalhau atravessou o oceano e se firmou no Brasil como protagonista das celebrações da Semana Santa — dos grandes banquetes às mesas mais simples, onde a batata ajudava a dar sustância ao prato.

 

No fim das contas, mais do que religião, o que está em jogo é cultura. E tradição, como se sabe, também alimenta.