quarta-feira, 17 de junho de 2026

O retorno do El Niño: Como Itapira está se preparando?


 


As primeiras projeções de que o El Niño retornaria neste ano começaram a ser traçadas por meteorologistas em março de 2026. Em maio, o fenômeno foi oficialmente confirmado, trazendo a expectativa de que poderá ser um dos mais intensos desde 1950. A probabilidade de sua persistência ao longo do segundo semestre supera 80%, podendo estender-se até o início de 2027.

O El Niño é um fenômeno climático cíclico que ocorre há milhares de anos, alternando entre o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e o seu resfriamento — fase conhecida como La Niña. Nos últimos anos, porém, passou a preocupar ainda mais o Brasil em razão do aquecimento global, que atua como um combustível adicional. Como a atmosfera e as águas oceânicas já estão entre 1°C e 1,5°C mais quentes em decorrência das mudanças climáticas, os episódios recentes do fenômeno começam em um patamar térmico muito mais elevado.

Esse ponto de partida mais quente potencializa os efeitos do El Niño, gerando secas severas, tempestades destrutivas e impactos diretos sobre a economia, a geração de energia e a agricultura, com efeitos que variam conforme a região do país.

Em nossa região, a tendência se traduz em ondas de calor mais intensas e prolongadas, além de estiagens severas e queda acentuada na umidade relativa do ar. Na agricultura, o desequilíbrio hídrico pode comprometer tanto o plantio quanto o desenvolvimento das lavouras.

A combinação do inverno seco com a fumaça proveniente de focos de incêndio — agravados pelo calor opressor — deteriora a qualidade do ar, ampliando problemas respiratórios, especialmente entre crianças e idosos. Contudo, há uma nuance para este ano: diante da previsão de chuvas históricas no Sul do país, meteorologistas estimam que frentes de umidade possam avançar para a nossa região. Isso poderá trazer dias mais úmidos ou precipitações acima da média, o que ajudaria a retardar ou atenuar a expansão de grandes queimadas.

O cenário exige seriedade. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, declarou nesta semana que a crise climática transcende a esfera da mera política pública, configurando também um dever jurídico do Estado. Essa postura reforça a necessidade de ações imediatas e concretas do poder público diante de eventuais omissões.

Em Campinas, apesar de a cidade já integrar a Operação SP Sem Fogo, a prefeitura apresentou nesta quarta-feira, dia 17, um robusto plano de contingência para reduzir os impactos do fenômeno, com o objetivo de proteger a população, a infraestrutura urbana e os serviços essenciais.

Itapira, que também participa do programa estadual, foi contemplada com um lote de equipamentos de combate a incêndios florestais, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e treinamentos especializados. Além disso, áreas de vegetação e rodovias locais já contam com a tecnologia Muralha do Fogo, que cruza dados de satélite e inteligência artificial para detectar focos de incêndio em tempo real.

Entretanto, o El Niño deste ano promete ser rigoroso, e o combate aos incêndios representa apenas uma face do problema. Para proteger a população de forma integral, Itapira pode — e deve — se preparar ainda mais.

Algumas medidas possíveis incluem a instalação de tendas com distribuição gratuita de água em pontos de grande circulação de pedestres e o reforço no acolhimento de pessoas em situação de rua durante as horas mais quentes do dia. Também seria importante o reforço imediato de soro, inaladores e medicamentos broncodilatadores na rede básica de saúde (UBSs e UPAs), a fim de suprir o aumento da demanda por atendimentos respiratórios.

Outras ações relevantes seriam promover campanhas de uso consciente da água e fiscalizar eventuais desperdícios; orientar escolas, canteiros de obras e serviços urbanos para limitar atividades físicas intensas ou trabalhos pesados ao ar livre entre 11h e 16h nos dias de calor extremo; além de realizar a poda preventiva de árvores localizadas próximas à fiação elétrica.

Itapira não deve esperar pelo pior. Precisa estar preparada.

domingo, 14 de junho de 2026

Pagar ou pagar: A Dívida da Sabesp que Assombra o Futuro de Itapira


  

Sem surpresa, a conta pela quebra de contrato com a Sabesp chegou aos R$ 88 milhões, em números redondos — o equivalente a quase um quinto de todo o orçamento previsto para o Poder Executivo de Itapira em 2026. Não há alternativa: é pagar ou pagar.

Para quem não acompanhou as origens desse imbróglio, uma breve retrospectiva dos últimos 25 anos do século XX ajuda a contextualizar o cenário.

A partir da década de 1970, Itapira passou por uma transformação visível que atraiu a atenção regional. O esgoto que corria a céu aberto passou a ser coletado, a água tratada chegou a todas as residências e as ruas de terra foram pavimentadas. Na área social, o atendimento gratuito de saúde alcançou os bairros, as vagas escolares foram ampliadas e um hospital municipal foi inaugurado. Atividades esportivas e culturais tornaram-se corriqueiras, e até o meio ambiente, tema então marginal na agenda nacional, passou a receber atenção.

Enfim, Itapira havia se tornado uma cidade mais digna de se viver. Persistia, contudo, o fantasma da baixa renda e da escassez de empregos. Algumas iniciativas, timidamente implantadas, não reagiam na proporção das necessidades, e o município caminhava para se tornar mais uma cidade-dormitório.

A virada veio em 1997, com a posse do prefeito Totonho Munhoz e seu ousado programa de desenvolvimento econômico. A implementação, no entanto, exigia recursos que o caixa municipal não tinha. Paralelamente, estudos técnicos já apontavam que a rede de água e esgoto, por sua antiguidade, demandava investimentos além da capacidade financeira do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE).

Foi então que a concessão onerosa à Sabesp se apresentou como solução: um contrato de 30 anos por R$ 14 milhões (em moeda da época), aprovado pela Câmara. O resultado prático foi a atração de cerca de 50 novas empresas que mudaram o panorama econômico local.

Naquele momento, porém, o sentimento antiprivatização ainda era forte na sociedade. A oposição, liderada por Toninho Bellini, capitalizou esse descontentamento e elegeu-se prometendo a reversão da medida. Cumprindo a promessa de campanha, Bellini decretou a anulação da concessão e moveu uma ação de reintegração de posse. Começava ali uma batalha jurídica que se arrastaria por duas décadas: a Prefeitura reaveria o serviço, mas não se livraria do dever de ressarcimento.

Resta, então, a pergunta: valeu a pena?

Quando se analisam indicadores alheios à disputa política, os números são reveladores. Para fins de análise, vale observar o período anterior e posterior ao programa desenvolvimentista, considerando que novas empresas demandam tempo para adequar a produção e que o repasse do ICMS, baseado no Índice de Participação dos Municípios (IPM), depende de declarações fiscais cujo processamento não é imediato.

Os repasses de ICMS saltaram de R$ 10.283.387,29, em 2000, para R$ 35.679.985,93, em 2010 — um crescimento de 247%, muito acima da inflação acumulada pelo IPCA no mesmo período, que foi de cerca de 100%.

Quanto ao emprego, o município contabilizava 25.088 pessoas ocupadas em 2000, o que correspondia a 62,6% da população com 18 anos ou mais. Em 2010, esse número subiu para 33.013 (67,4%), um aumento de 31%, enquanto a população total cresceu apenas 8,1% (de 63.377 para 68.537 habitantes). O rendimento médio do trabalhador também acompanhou o ritmo: segundo o Censo de 2000, era de R$ 601,00, saltando para R$ 1.345,00 em 2010, uma alta de 124%, também superior à inflação do período.

É verdade que correlação não implica causalidade. Mas o ritmo de crescimento de Itapira deu um salto significativo, sugerindo que o programa desenvolvimentista teve papel determinante. O aumento da renda e do emprego ampliou a circulação de dinheiro na economia local — e hoje é difícil estimar como a cidade estaria sem aquele impulso inicial.

Agora, a conta definitiva chegou: a Sabesp cobra exatamente R$ 87.950.053,61 pela ruptura contratual. Considerando a penúria financeira do município, o futuro imediato reserva um dilema orçamentário sem precedentes.

Ironicamente, duas décadas depois, cabe ao mesmo prefeito que liderou a reversão resolver a questão que ajudou a criar. As alternativas na mesa são claras: converter a dívida em precatório judicial, comprometendo milhões de reais anuais com juros e correção; negociar o parcelamento mais longo possível diretamente com a Sabesp; ou, caso haja interesse da companhia, reconceder o SAAE, livrando o futuro próximo de Itapira desse pesado fardo.

O desfecho dessa história prova que o discurso eleitoral funcionou para alternar o poder, mas não teve força para anular o progresso que Itapira precisava. Hoje, sob o peso de uma economia estagnada, o município carece de uma nova dose de ousadia: medidas urgentes que reativem o comércio local, atraiam investimentos e recuperem a arrecadação. É o que a cidade espera.

 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Brasil versus Vorcaro: a torcida dividida pela "Copa” da delação

 



 

Na Copa do Mundo deste ano, os jogos não estarão no centro das atenções dos brasileiros como acontecia antes. Tradicionalmente, a maioria acompanhava a seleção e ignorava quase tudo o que acontecia no país.

 

Na maior "Copa" de todos os tempos, porém, estima-se que cerca de 140 milhões de brasileiros — 68%, fruto da polarização, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira — também estarão atentos a outro espetáculo: a expectativa de que Daniel Vorcaro resolva "jogar m* no ventilador". Para isso, haverá torcida dos dois lados: metade lulista, metade bolsonarista. O detalhe é que essa torcida estará, em tese, unida em favor do Brasil, mas por objetivos opostos. Cada lado espera que uma eventual delação atinja apenas o adversário.

 

Os bolsonaristas esperam que das revelações de Vorcaro surjam elementos capazes de atingir mortalmente as pretensões políticas de Lula, demonstrar a participação de integrantes do PT da Bahia no esquema e confirmar suspeitas envolvendo ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Já os lulistas desejam que a delação revele uma eventual participação de Bolsonaro na autorização, sem lastro, para o funcionamento irregular do Banco Master; esclareça se a destinação dos recursos solicitados por Flávio Bolsonaro teria sido para manter o irmão Eduardo nos EUA; e atinja grandes lideranças do Centrão. Caso o banqueiro "dê com a língua nos dentes", quais seriam as consequências?

 

Se as expectativas petistas forem confirmadas, o bolsonarismo sofrerá um duro golpe, pois isso atingiria o coração da bandeira anticorrupção que alimentou boa parte do sentimento antipetista. Seria um caso de "elas por elas". Muitos líderes do Centrão perderiam prestígio, embora o tradicional modus operandi de utilizar a máquina pública em benefício próprio continuasse fazendo parte de sua rotina.

 

Por outro lado, se o sonho bolsonarista se concretizar, pouca coisa mudará para o PT. Não seria nenhuma novidade, ou, como diz a expressão muito usada antigamente em Itapira, seria apenas "mais uma verruga para a Corola". O partido já enfrentou diversos escândalos de corrupção, e a reeleição de Lula continuará dependendo, sobretudo, do desempenho da economia e da aprovação de seu governo.

 

Entretanto, a possibilidade de uma delação com o alcance imaginado por ambos os lados parece cada vez mais distante. Ao criar uma teia de "amigos" influentes nos dois espectros políticos e no Poder Judiciário, Vorcaro tinha consciência das irregularidades e de que, em algum momento, poderia ser descoberto; por isso, construiu essas pontes para utilizá-las a seu favor no momento oportuno. Ao não entregar os ditos cujos ao cadafalso, ele pode estar apostando que Lula, caso seja reeleito e conte com o respaldo do STF, lhe conceda algum tipo de benefício que o livre do cumprimento integral da pena; ou que Flávio, se sair vitorioso, articule, com o apoio do Centrão, uma anistia ou algo semelhante. São hipóteses que alimentam as especulações nas rodas de cafezinho de Brasília.

 

O problema de Vorcaro, porém, estará na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República. Diante de documentos, transferências financeiras, registros eletrônicos e arquivos encontrados em diversos aparelhos celulares, seu futuro pode se tornar bastante complicado. Talvez seja difícil receber ajuda de quem quer que seja. Será que ele estaria mais preocupado com os anéis do que com os dedos? Eis a questão.

 

Afinal, o escândalo do Banco Master, atualmente estimado em cerca de R$ 60 bilhões, superaria a soma dos últimos grandes escândalos de corrupção do país: Mensalão (R$ 200 milhões), Petrolão/Lava Jato (R$ 43 bilhões) e fraudes no INSS (R$ 6,3 bilhões), que juntos totalizariam R$ 49,5 bilhões. Curiosamente, só não seria maior do que os R$ 61 bilhões em emendas parlamentares previstos para este ano. Em 2025, foram R$ 50 bilhões — recursos sobre os quais frequentemente recaem questionamentos quanto à transparência e à destinação.

 

Com tanta torcida organizada dos dois lados, existe apenas uma forma de o Brasil sair derrotado desse jogo: basta que tudo termine em pizza.

 

Em tempo: termina nesta sexta-feira o prazo concedido pelo ministro André Mendonça, do STF, para que a defesa de Daniel Vorcaro tenha acesso, das 9h às 17h, aos termos necessários para estruturar a delação premiada. A partir do dia seguinte, o contato dos advogados será limitado a 30 minutos, e há a expectativa de que ele seja transferido de volta para uma cela comum.

 

 

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Para Trump, o Pix não pode ser de graça. Você sabe por quê?

 


 

Por Nino Marcati #08/06/2026 O relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) cita o Pix brasileiro 20 vezes como exemplo de prática comercial desleal. Com base nessa investigação — na qual os argumentos da defesa brasileira foram sumariamente desconsiderados —, foi proposta uma tarifa de 25% sobre mercadorias vindas do Brasil.

 

Entre as preocupações apontadas por Washington está o suposto prejuízo causado às operadoras de cartão de crédito e às Big Techs. Para os Estados Unidos, a gratuidade reduz as margens de lucro de gigantes norte-americanas dos setores financeiro e tecnológico, como Visa, Mastercard, Apple Pay, Google Pay e WhatsApp Pay. Na visão do governo Trump, o sistema brasileiro obriga empresas estrangeiras a oferecer vantagens e visibilidade ao Pix sem que haja compensação de mercado ou concorrência em igualdade de condições. Em suma: no entendimento deles, o Pix não pode ser de graça.

 

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contesta veementemente as críticas e as ameaças de sanções comerciais. A entidade rebate as acusações em quatro pontos principais: primeiro, o Pix não é um produto comercial criado para competir com Big Techs ou bandeiras de cartão, tampouco para criar reserva de mercado; segundo, trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, que não impõe barreiras ao capital estrangeiro; terceiro, as críticas americanas baseiam-se em informações incompletas sobre as diretrizes do sistema; e, por fim, o Pix é um poderoso instrumento de inclusão financeira que reduziu drasticamente os custos transacionais, bancarizou milhões de pessoas e trouxe agilidade aos pequenos e grandes negócios, beneficiando toda a economia nacional.

 

Mas, afinal, as operadoras de cartão e as Big Techs americanas de fato sofreram prejuízos com a implantação do Pix?

 

Os dados mostram o contrário. O Pix movimentou R$ 35,3 trilhões no ano passado e nem sequer arranhou o volume operado pelos cartões de pagamento no Brasil. Em 2019, as transações por cartão somavam R$ 1,75 trilhão; em 2025, alcançaram R$ 4,27 trilhões — um crescimento expressivo de 144%, muito acima da inflação acumulada no período, que foi de aproximadamente 38%.

 

O que explica esse fenômeno? Graças ao Pix, milhões de brasileiros foram incluídos no sistema bancário, provocando uma queda drástica no uso de dinheiro em espécie. Em vez de canibalizar o mercado, o Pix o expandiu, aumentando a circulação total de recursos.

 

Se o sistema não prejudicou os negócios americanos, por que Trump insiste em atacá-lo?

 

Elementar, meus caros Flávios e Eduardos: a intenção é retirar o protagonismo do Banco Central e transferir o controle dos pagamentos eletrônicos para bancos privados, bandeiras de cartão e Big Techs, replicando o modelo americano. Nessas condições, as empresas passariam a cobrar pelo serviço. Em outras palavras: mais lucro para eles, mais custos para nós.

 

Além disso, o grande incômodo — aquele que de fato parece tirar o sono de Washington — é a soberania operacional. Ao reduzir a dependência de redes privadas estrangeiras e de carteiras digitais controladas por Big Techs, o Brasil se blinda. Isso enfraquece a capacidade de empresas e do próprio governo dos EUA de ditarem padrões, tarifas e formas de intermediação no mercado global de pagamentos.

 

E isso está longe de ser pouca coisa. Uma taxa aparentemente modesta de 2% sobre os R$ 35,3 trilhões movimentados pelo Pix teria gerado, apenas em 2025, algo próximo de R$ 700 bilhões em receitas. Seria uma transferência colossal de riqueza: dinheiro retirado do bolso de milhões de cidadãos para inflar o caixa de meia dúzia de corporações bilionárias. Bonito, né?



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Baratas no Hospital Municipal: O reflexo de um município no fundo do poço?

 


 

Nos últimos dias, a população itapirense foi surpreendida pela denúncia de uma infestação de baratas na cozinha do Hospital Municipal. Um vídeo anônimo, divulgado pelo portal Gazeta Itapirense, mostra diversos insetos circulando livremente pelos fogões, mesmo com várias bocas de gás acesas.

 

Especialistas em controle de pragas urbanas alertam que, para cada inseto visível, dezenas de outros estão escondidos. Quando os ninhos ficam superlotados, os indivíduos mais jovens ou fracos são forçados a sair em busca de alimento. Como a espécie costuma evitar a luz e a presença humana, agir em áreas movimentadas e iluminadas é o sinal mais claro de uma infestação severa. O registro em vídeo, portanto, reflete apenas a ponta do iceberg. Vale lembrar que uma única fêmea pode produzir de 30 a 50 filhotes por ciclo reprodutivo, multiplicando a colônia para milhares de indivíduos em poucas semanas se não houver combate eficaz.

 

O risco sanitário é indiscutível. Por transitarem em esgotos, lixeiras e caixas de gordura, as baratas carregam uma infinidade de microrganismos patogênicos. Em uma cozinha hospitalar, responsável pelas refeições de pacientes com a saúde já fragilizada, esse cenário assume contornos alarmantes.

 

É evidente que a culpa não pode ser atribuída aos servidores — do contrário, uma sindicância interna já teria sido aberta e amplamente divulgada. O controle de pragas em um ambiente hospitalar é complexo, exigindo normas rígidas e aplicação técnica para que os próprios produtos químicos não contaminem alimentos e utensílios. É um trabalho que exige orçamento, planejamento e profissionais qualificados. Quando feito de forma amadora ou ineficiente, o veneno pode ter o efeito inverso: em vez de eliminar, dispersa os insetos para outras alas, incluindo os setores de atendimento médico.

 

Diante da alardeada crise financeira que o município atravessa, a hipótese mais provável recai sobre o corte de despesas. A escassez de recursos pode ter sucateado as equipes de higienização e manutenção. Setores críticos, como a cozinha e o almoxarifado de alimentos, dependem de uma limpeza profunda e constante para eliminar gordura, umidade e resíduos orgânicos. Da mesma forma, os insumos que entram no hospital precisam de uma triagem rigorosa para evitar a entrada de novos vetores.

 

O corte de verbas compromete também o cronograma de monitoramento preventivo, que deve ser executado por empresas licenciadas e chancelado por certificados oficiais de desinfestação.

 

Por mais negligente que um gestor público possa ser, a saúde deveria ser blindada de cortes orçamentários, pois lida diretamente com a vida humana. Tomara que a asfixia financeira não sirva de justificativa e que este episódio tenha sido apenas fortuito, aleatório e passageiro. Caso contrário, a administração pública de Itapira estará bem perto do fundo do poço.

 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Além do Perigo Iminente: A força que Itapira precisa para duplicar a SP-352

 


 

A sequência de acidentes graves e as inúmeras mortes na estrada para Jacutinga me trouxeram à memória os tempos em que a rodovia entre Itapira e Mogi Mirim ainda era de pista simples. Durante boa parte da minha vida, convivi com a triste rotina de tragédias na SP-147, que chegou a receber o sombrio título de "estrada da morte". Muitas vidas foram ceifadas ali, grande parte delas de itapirenses.

 

As justificativas eram quase sempre as mesmas: variavam entre a suposta inabilidade dos motoristas e a pura imprudência. Também eram frequentes as frases usadas para confortar as famílias enlutadas, como: “era o destino” ou “quando chega a hora, não há o que fazer”. No entanto, após a duplicação da SP-147, os acidentes e as mortes despencaram. Mesmo com um fluxo atual de cerca de 12 mil veículos por dia, o número de ocorrências caiu drasticamente. Felizmente, graças à atenção que o deputado Barros Munhoz dedicou às rodovias que convergem para Itapira, muitas vidas foram preservadas.

 

A Rodovia Comendador Virgolino de Oliveira (SP-352), que liga Itapira à divisa com Minas Gerais, porém, continua sendo motivo de grande preocupação. Apesar das melhorias já realizadas, ela recebe um fluxo médio diário de aproximadamente 8 mil veículos, incluindo intenso tráfego de caminhões, carretas, bitrens e vans — veículos que, nos últimos dez anos, estiveram envolvidos em mais de 60% dos acidentes com vítimas fatais. Estimativas apontam que, nesse período, ocorreram cerca de 370 acidentes na via, dos quais aproximadamente 110 foram considerados graves, resultando em mais de 30 mortes.

 

Nos tempos da antiga "estrada da morte", entre Itapira e Mogi Mirim, muitos itapirenses desenvolveram uma espécie de temor coletivo: trafegar por aquela rodovia era quase sinônimo de colocar a própria vida em risco. Hoje, imagino que muitos usuários diários ou ocasionais tenham sensação semelhante ao percorrer a SP-352, que, além do perigo iminente, acaba violando um direito fundamental de todo cidadão: o de ir e vir com segurança.

 

Agora, com a repercussão — inclusive nacional — dos dois últimos acidentes fatais, a estrada de Jacutinga tornou-se o principal assunto nas rodas de conversa. Nos últimos dias, em pelo menos cinco ocasiões diferentes e com pessoas distintas, ouvi a mesma conclusão após os comentários sobre as tragédias recentes. E acredito que esse sentimento seja compartilhado por toda Itapira: é preciso que Totonho continue lutando pela duplicação da SP-352: só ele tem a força política necessária para transformar essa reivindicação em realidade.

 

O verdadeiro valor de uma estrada não está apenas em levar as pessoas aos seus destinos, mas em garantir que elas possam voltar para casa em segurança.

 


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Enfim, uma excelente notícia, mas...

 


 

É comum ouvir que o Brasil do passado era melhor do que o de hoje. Esse sentimento pode estar ligado a experiências individuais ou a visões ideológicas. No entanto, quando o país é analisado sob a ótica dos indicadores estatísticos, o século passado pouco se parece com a realidade atual.

 

Um reflexo disso é o estudo divulgado nesta terça-feira (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com base em dados de 2024. Pela primeira vez, o país atingiu a faixa de "muito alto desenvolvimento" no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). O indicador passou de 0,744 em 2012 para 0,805 em 2024 — a maior marca já registrada. Em uma escala de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, melhor o resultado.

 

O IDHM é composto por três dimensões fundamentais: Longevidade: avalia as condições de saúde por meio da expectativa de vida ao nascer; Educação: mede a escolaridade da população adulta e o fluxo escolar dos jovens; Renda: analisa o rendimento médio per capita.

 

No quesito longevidade, o Brasil já apresentava um nível muito alto em 2012, com 0,829. Agora, alcançou 0,860, um desempenho comparável ao de diversos países desenvolvidos. Parte desse avanço pode ser atribuída às melhorias e à capilaridade do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Em termos de evolução, o grande destaque foi a educação. Em 2012, o país registrava o pior desempenho entre os três componentes, com 0,679. Em 2024, esse indicador saltou para 0,798. Entre os fatores que contribuíram para esse progresso estão as políticas de inclusão e permanência escolar, a exemplo do Bolsa Família.

 

Quando o assunto é renda, porém, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer. O índice passou de 0,732 em 2012 para apenas 0,760 em 2024. Esta foi a menor evolução entre os componentes e continua sendo o principal fator que segura um desempenho global ainda melhor do país.

 

Apesar do patamar alcançado, a desigualdade permanece como uma marca evidente da realidade brasileira; diferenças profundas entre regiões, gêneros e raças continuam escancaradas. Enquanto o Distrito Federal apresenta o nível de desenvolvimento mais alto, o Maranhão ocupa a última posição. Esses contrastes geram distorções brutais: Um morador do Amapá pode ter uma expectativa de vida até cinco anos menor do que um cidadão do Distrito Federal. No quesito renda, um cidadão branco do Distrito Federal possui, em média, um rendimento quatro vezes superior ao de um cidadão negro do Maranhão.

 

As mulheres avançaram ao longo desses 13 anos, mas ainda enfrentam disparidades em relação aos homens. A população negra apresentou uma evolução proporcionalmente maior do que a branca, mas os abismos históricos persistem.

 

O IDHM é muito mais do que um simples ranking. Sua utilidade prática é orientar políticas públicas, reduzir desigualdades regionais, atrair investimentos privados e servir como instrumento de fiscalização por parte da sociedade — ou seja, uma ferramenta essencial de controle social.

 

Evidências apontam que países e regiões com maiores índices de desenvolvimento humano tendem a apresentar menores níveis de criminalidade. Embora a relação não seja automática, a melhoria das condições de vida constrói ambientes sociais menos violentos.

 

O Atlas da Violência, também divulgado nesta semana, reforça essa tese: A taxa de homicídios no Brasil em 2024 foi de 20,1 mortes por 100 mil habitantes, uma queda de 7,4% em relação a 2023 e o menor patamar da série histórica iniciada em 2014.

 

O levantamento mostra que estados como São Paulo, Santa Catarina e o Distrito Federal — que possuem elevados índices de IDHM — estão entre os menos violentos do país. Em sentido oposto, estados como Amapá, Bahia, Pernambuco e Ceará registram taxas de homicídio mais elevadas.

 

Sem dúvida, o avanço do IDHM é uma excelente notícia. Contudo, para consolidar esse progresso, é urgente acelerar o crescimento da renda e combater as desigualdades estruturais. Enquanto grandes parcelas da população permanecerem excluídas das oportunidades básicas, a insegurança e a violência continuarão sendo desafios crônicos para o futuro do país.

 

Nino Marcati