Quando observo as redes sociais, tenho a sensação de que um Grande Líder exerce controle absoluto sobre parte das pessoas que por ali transitam, influenciando suas opiniões, seus comportamentos e até a maneira como interpretam a realidade.
Imagino que, em
suas casas, nos locais de trabalho e nos espaços de lazer, por meio de
computadores e celulares equipados com câmeras e microfones, essas pessoas
recebam, ininterruptamente, mensagens destinadas a orientar seus pensamentos e
comportamentos, enquanto seus sons, imagens e movimentos são monitorados.
Percebo que a
língua portuguesa, tão rica em palavras e possibilidades de expressão, vem
sendo reduzida, como se o vocabulário dessas pessoas estivesse sendo
progressivamente podado. Com menos palavras e ideias cada vez mais repetitivas,
torna-se mais difícil formular pensamentos críticos, questionar as orientações
recebidas e, sobretudo, rebelar-se contra elas.
Vejo também a
aceitação voluntária de contradições evidentes, como se duas crenças opostas
pudessem ser verdadeiras ao mesmo tempo. É a submissão às três afirmações
perturbadoras: “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força”.
Essas pessoas
parecem acreditar na verdade proclamada pelo Grande Líder, que, paradoxalmente,
trabalha para apagar a própria verdade. Quer registros históricos, jornais e
documentos reescritos para eliminar fatos inconvenientes, ocultar erros e
crimes. O passado é alterado para que corresponda ao discurso do presente, como
se a realidade pudesse ser modificada pela simples imposição de uma narrativa.
É como se essas
pessoas fossem submetidas diariamente aos obrigatórios “Dois Minutos de Ódio”,
durante os quais a raiva e as frustrações reprimidas são direcionadas contra os
inimigos do Grande Líder. A indignação deixa de ser fruto da reflexão e passa a
ser um instrumento de manipulação, alimentando a hostilidade contra aqueles que
ousam pensar de maneira diferente.
Mas também vejo
pessoas conscientes dessas manipulações. Elas travam uma luta de resistência,
tentando impedir que a mentira se consolide como verdade. Publicam mensagens,
apresentam fatos e procuram despertar consciências, embora nem sempre sejam
lidas, compreendidas ou sequer consideradas por aqueles que permanecem presos à
narrativa dominante.
Quem leu o romance 1984,
de George Orwell, percebeu similaridades e se lembra de que, no final, todas as
tentativas de luta de preservar a individualidade dos cidadãos de Oceania
fracassam. Submetidos a torturas e à lavagem cerebral, os resistentes passaram,
também, a amar o Grande Irmão.
O livro é um alerta
de Orwell: a vitória do totalitarismo não acontece apenas quando as pessoas
obedecem por medo, mas quando perdem a capacidade de reconhecer a própria
opressão e passam a amar aquilo que as domina.
Particularmente,
não acredito que estejamos condenados a repetir o mesmo destino. Tampouco
acredito que a cegueira que parece dominar parte do povo brasileiro seja capaz
de prevalecer indefinidamente sobre a realidade, o conhecimento, a liberdade e
a democracia.
Afinal, o maior
problema não está na tentativa de nos impor mentiras, mas em quando deixamos de
procurar a verdade — ou, pior, quando passamos a amar quem nos engana.





