quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Neste domingo, lembre-se: o voto será o espelho da sua consciência

 



Já escolhi meus candidatos. Usei como referência alguns princípios construídos por grandes pensadores. Repasso-os aqui — quem sabe possam ajudar quem ainda pensa em como fazer boas escolhas. Sem dar o peixe, apenas a técnica de pesca.

Para o filósofo Aristóteles, o homem é um animal político, com uma necessidade natural de viver em sociedade e participar de sua organização. Apesar das tentativas de retrocesso, evoluímos. Quem acha que a política de hoje é pior que a de ontem demonstra pouco conhecimento histórico.

A política é a única arte capaz de organizar a convivência humana, dispondo de recursos para melhorar a cada geração. Aqueles que se apresentam como antipolíticos ou antissistema estão desconectados da realidade: são vendedores de sonhos.

O cientista político Robert Dahl definiu que a democracia real nas sociedades modernas funciona como uma poliarquia, sustentada por duas dimensões práticas indispensáveis: a contestação pública — liberdade de oposição e de voto — e a inclusão — o direito de todos participarem.

Não faz sentido falar em democracia quando a situação fala sozinha, sem o contraponto da oposição. Uma regula a outra.

Quem atenta contra a democracia não deveria nem se candidatar; uma coisa não combina com a outra. A democracia, com todos os seus defeitos, é melhor que qualquer ditadura perfeita — se é que isso existe.

Para o pesquisador Mark Hoofnagle, o negacionismo não é simplesmente "duvidar", mas um processo retórico que utiliza táticas deliberadas para gerar confusão pública. Ele identificou cinco práticas recorrentes: uso de falsos especialistas, falácias lógicas, exigência de padrões impossíveis para a ciência, seleção de dados isolados e teorias da conspiração.

O negacionismo — seja científico, histórico ou geopolítico — afeta a sobrevivência humana, a estabilidade das democracias e o desenvolvimento econômico. Quando indivíduos ou governos rejeitam deliberadamente consensos baseados em evidências, os impactos se espalham por diferentes áreas da sociedade.

Qualquer candidato que trate evidências como conversa de botequim dá mostras de irresponsabilidade pública.

Para o filósofo John Locke, o Estado não tem o poder de salvar almas, porque a força da lei ou a coerção do governo não conseguem mudar aquilo em que o coração de um indivíduo acredita. Quando o Estado adota uma religião oficial, comete um erro de finalidade, abrindo espaço para perseguição, violência e hipocrisia.

O candidato que transforma a religião em instrumento político não apenas explora a fé alheia, como também fragiliza a política e a própria religião.

Para o filósofo e escritor Albert Camus, "a pátria de um homem é a sua infância". A cidade onde nascemos e fincamos raízes nos dá algo precioso que dinheiro nenhum compra: o sentimento de pertencimento.

O candidato que quer andar de braços dados com o nosso berço precisa ter capacidade de abrir portas em auxílio à cidade, às empresas e às instituições; estar disposto a direcionar verbas para o município; atuar como legislador relevante e ter liderança.

O voto não é prêmio de simpatia: é uma procuração assinada pela nossa consciência.

 

 


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Itapirense, diz-me como votarás e te direi quem és.



Seremos 53.424 eleitores aptos a votar. A forma como cada um se comportará revelará cidadania - ou de alheamento — e produzirá consequências.

Se repetirmos o comportamento de eleições anteriores, cerca de 21 mil eleitores deixarão de comparecer às urnas ou votarão nulo ou em branco. Nesse grupo estarão, em maior proporção, jovens abaixo dos 24 anos, idosos acima dos 70, pessoas de menor renda e escolaridade e os descontentes com a política.

Quem adota essas práticas acaba contribuindo para a manutenção daquilo que tanto reprova. Ao não votar ou anular o voto, transfere o poder de escolha para quem votou. É gente que, em tese, perde até o direito de abrir o bico para reclamar dos eventuais malfeitos.

Cerca de 23 mil votos foram distribuídos entre 592 candidatos a deputado estadual, em 2018, e 630, em 2022. Gente que o eleitor nunca viu mais gordo nem mais magro — quiçá soubesse o que pensava. Boa parte desses votos se enquadra no chamado voto aleatório: nenhuma razão minimamente fundamentada orientou a escolha.

É o voto para cumprir a obrigação legal; pela aparência; porque o candidato é famoso; pela promessa de algum benefício; ou por indicação de familiares e conhecidos. Entre as distorções provocadas por esse comportamento está o comprometimento do próprio sistema de representação, fenômeno que também pode ser observado à luz do chamado Efeito Tiririca.

Todos os cargos em disputa merecem votos conscientes. Das nossas escolhas configuraremos os próximos quatro anos. Foco, entretanto, a análise nos deputados estaduais, por considerá-los especialmente importantes para Itapira. Candidatos conhecidos e comprometidos com a cidade podem ser cobrados pela destinação de recursos e pela defesa de nossos interesses.

Há, naturalmente, quem escolha pelo meio ambiente, pela saúde, pela educação, pela segurança ou por convicções ideológicas. São escolhas legítimas. Mas, para quem escolhe Itapira como prioridade, não faz sentido pulverizar o voto.

Da minha parte, apesar das naturais divergências, reconheço a importância de Barros Munhoz para Itapira e região. Lembro-me dos tempos em que não tínhamos representante na Assembleia Legislativa. Por isso, meu voto é 55855.

O voto é um espelho: revela muito mais de nós do que imaginamos.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Convicção ou prisão? O perigo de só ouvir o que nos agrada.

 



Você conhece alguém que evita informações que contradizem aquilo em que acredita, tratando-as como ameaça à sua própria identidade?

Em época de eleição, isso se intensifica ao agrupar crenças coletivas. O que uma pessoa pensa reflete o grupo e, assim, visões opostas deixam de ser convites à reflexão para virarem ameaças diretas. Mas essa resistência vai além da política: está presente no dia a dia, na religião, na saúde, no trabalho, nas finanças, na ciência e nas relações pessoais.

É um fenômeno humano antigo. Ele é alimentado pelo viés de confirmação (buscamos o que valida nossas ideias), pelo desconforto do conflito cognitivo e pela ilusão de saber mais do que realmente sabemos.

Escolaridade ou inteligência não nos imunizam contra o casulo da desinformação. Pesquisas mostram que raros indivíduos analisam visões contrárias com rigor; a maioria prefere o descarte imediato.

Eis a diferença entre ter convicções e ser refém delas. Ideias servem como guia, mas nada é imutável. Ao rejeitarmos evidências, nos tornamos prisioneiros das próprias certezas.

A história prova que seguir a maioria nem sempre é o melhor caminho. O consenso cego gerou desastres como o nazismo e a ilusão de estabilidade do sistema financeiro em 2008. Na Bíblia, a verdade raramente esteve com a multidão: Noé construiu a arca sob deboche geral, profetas confrontavam o senso comum e Jesus foi condenado pelo clamor popular.

Essa dificuldade de processar o contraditório ajuda a explicar por que tão poucos se destacam na Ciência, nas Artes, na Educação e nos Negócios. Se a tendência de seguir o rebanho já era prejudicial antes, o cenário atual é ainda mais preocupante com a bolha dos algoritmos.

Abertura intelectual não é aceitar passivamente o que nos agrada, mas ter disposição para consumir o que confronta nossa visão do mundo. Afinal, mesmo que nada mude, o exercício do pensamento crítico mal nenhum fará.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que Esperar do Futuro Mercadão de Itapira?



Está aberta, desde quinta-feira (17), a concorrência pública para a exploração comercial do Mercado Municipal de Itapira. O espaço, embora revitalizado, ainda está na fase final da reforma, iniciada no começo de 2023. Os interessados têm até o dia 20 de outubro para apresentar suas propostas.

 

Se tudo der certo, em 2027 teremos, finalmente, um mercadão para chamar de nosso.

 

O objetivo é claro: não se trata de recriar o mercado do passado, mas de concebê-lo nos moldes contemporâneos. A proposta deve ir além do comércio tradicional, oferecendo uma experiência diferenciada que combine diversidade, conforto e qualidade, transformando a visita em um programa de lazer. O edital prevê atividades como choperias, cafés, bares, restaurantes, rotisserias, sorveterias, adegas, docerias e empórios.

 

Contudo, o documento deixa lacunas importantes. Não há menção ao comércio de produtos religiosos, artigos populares, queijos, especiarias, pescados ou serviços de conveniência — nichos que enriqueceriam a oferta. Outra ausência relevante são os hortifrutigranjeiros. Seria desejável o acesso diário a produtos frescos, direto dos produtores, em contraste com o modelo atual de feiras limitadas a poucos dias da semana.

 

Há, ainda, duas palavras essenciais que o edital omite, mas que deveriam orientar o processo: criatividade e qualidade. O desafio é conceber um espaço que atraia pelo prazer, pela experiência e pela descoberta de algo único. Não interessa a Itapira que o novo mercado se transforme em um “cortiço comercial”, concorrendo de forma predatória com o comércio tradicional.

 

O verdadeiro desafio da administração pública é garantir que o local se sustente com excelência, fazendo jus ao vultoso investimento. Se bem gerido, o Mercado Municipal poderá se transformar em um polo de fomento econômico, atraindo turistas, aumentando a circulação de pessoas no centro da cidade, fortalecendo, inclusive, o comércio da região e, quem sabe, abrindo espaço para manifestações culturais. Quando todos ganham, o sucesso deixa de ser promessa e vira realidade.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Na hora do voto, pense em Itapira, também.

 


A urna eletrônica é uma caixinha de plástico, com uma tela preta e botões de borracha, mas, a cada dois anos, ganha o peso de um confessionário urbano. Daqui a duas semanas, a liturgia se repete. Apertaremos o botão verde para escolher presidente, senadores, governador e uma penca de deputados. Promete-se o futuro ali, na ponta dos dedos, entre um pi-pi-pi e a sensação passageira de dever cumprido. O problema é que a memória do eleitor costuma durar menos que a fila da seção eleitoral, e o voto, que deveria ser bússola, vira loteamento.

O itapirense, em especial, desenvolveu uma vocação quase poética para a pulverização. Nas últimas eleições, a cidade distribuiu dezenas de milhares de votos entre uma multidão de candidatos a deputado estadual. Um desfile de nomes que, em sua grande maioria, jamais pisaram na José Bonifácio ou tomaram um café na praça. Em 2018, os votos da terra ajudaram a eleger 85 parlamentares; em 2022, foram 83. Se todos eles tivessem Itapira como prioridade, o governador do Estado morreria de inveja.

Entre 2018 e 2026, menos de dez deputados estaduais lembraram que o município existia para destinar uma emenda ou, ao menos, estender a mão. O resto evaporou. É o mistério do voto proporcional: o cidadão vota por simpatia, amizade, ideologia ou até pelo fígado e, no dia seguinte, descobre que entregou uma procuração em branco a um estranho. Cerca de 20 mil votos itapirenses foram dados a candidatos que, depois de eleitos, nunca mandaram sequer um “obrigado”.

Enquanto isso, Barros Munhoz — figura carimbada, que não tira Itapira da cabeça nem para dormir — colhe suas safras de pouco mais de 13 mil votos, mostrando que a fidelidade local ainda resiste em alguns nichos, embora dispute espaço com a dispersão irracional do restante do eleitorado. Não se trata de monopolizar a preferência, mas de exigir compromisso. Se não for ele, que seja outro. Mas que tenha CEP, rosto, compromisso cobrável e, principalmente, chances reais de se eleger.

O deputado estadual é a ponte estendida até o Palácio dos Bandeirantes, o sujeito que abre portas em São Paulo e cutuca ministérios em Brasília. Com os ventos econômicos anunciando para Itapira anos bicudos na arrecadação e no emprego, dar o voto a quem não tem raízes por aqui deixa de ser apenas ingenuidade; passa a ser um luxo que a cidade não pode se dar. Ter um representante com votação expressiva no município significa força política real para defender nossas demandas.

Na hora de encarar a urna, talvez seja bom deixar a torcida de lado e votar com um pouco mais de juízo territorial. O voto não pode ser na base do “Uni, Duni, Tê”; pode até passar pelo coração, mas o essencial é que a razão fale mais alto. Afinal, a escolha não termina quando a tela acende “FIM”. Ela começa ali

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ninguém Acima da Lei: O Dever do STF de Investigar a Si Mesmo

 





O Supremo Tribunal Federal vive sua maior crise desde sua instalação, em 1891. Ao longo de sua história, enfrentou diversos períodos turbulentos, quase sempre marcados por pressões externas, autoritarismo e tentativas de submeter o Judiciário ao poder de ocasião.

Em 1892, Floriano Peixoto mandou prender opositores e, diante da intenção dos advogados de recorrerem ao STF com pedidos de habeas corpus, ameaçou: se os ministros determinassem a soltura dos presos, não saberia quem concederia habeas corpus aos próprios ministros no dia seguinte. Diante da pressão, o STF recuou.

Em 1930, Getúlio Vargas reduziu o número de ministros do STF de 15 para 11 e afastou magistrados considerados contrários ao novo regime. Em 1937, com o Estado Novo, restringiu ainda mais a autonomia do Tribunal, pressionando ministros considerados inconvenientes.

A ruptura mais brutal viria com o regime militar. Em 1965, o AI-2 aumentou de 11 para 16 o número de ministros, ampliando a influência do governo sobre a Corte. Em 1968, com o AI-5, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal foram aposentados compulsoriamente por razões políticas. Em protesto, o então presidente do STF, Aliomar Baleeiro, renunciou.

A história mostra que o STF já foi atacado, pressionado, mutilado e, em determinados períodos, submetido de fora para dentro. Desta vez, porém, a crise tem uma característica diferente: nasceu e cresceu no próprio seio da instituição.

Pelo menos seis ministros tiveram seus nomes relacionados, em diferentes graus e circunstâncias, ao caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes.

Independentemente do que vier a ser comprovado, a situação exige transparência. Quando a mais alta Corte do país está sob suspeita ou questionamento, seus integrantes têm o dever de prestar à sociedade explicações claras e convincentes.

Uma coisa precisa estar acima de qualquer dúvida: ninguém pode estar acima da lei. Nem o cidadão comum, nem o empresário poderoso, nem deputado, senador ou presidente da República e, muito menos, um ministro do Supremo.

A democracia brasileira já resistiu a diversas tentativas de fragilização. Espera-se que o STF também atravesse esta tempestade. Para isso, precisa fazer aquilo que cobra dos demais: investigar, esclarecer, julgar com independência e, havendo responsabilidade comprovada, punir.

O STF não pode sobreviver em um mar de suspeitas. É o guardião da Constituição de 1988 e deve assegurar que os demais Poderes respeitem os direitos fundamentais, o devido processo legal e as liberdades garantidas aos cidadãos.

Na democracia, os Poderes são independentes e harmônicos. Ao STF cabe atuar como última instância constitucional, freando excessos do Executivo e do Legislativo e impedindo qualquer deriva autoritária.

Em uma sociedade polarizada, esse papel é ainda mais importante. Conflitos políticos precisam ser resolvidos dentro das regras constitucionais, pelo Direito e pelas instituições — não pela força, pela intimidação ou pela ruptura democrática.

Decisões firmes e coerentes também produzem segurança jurídica, essencial ao desenvolvimento econômico. Investidores precisam saber que contratos serão respeitados, que as regras não mudarão arbitrariamente e que conflitos serão resolvidos por instituições independentes.

Há ainda uma função essencial: proteger direitos fundamentais mesmo quando isso significa contrariar a vontade da maioria. Democracia não é apenas governo da maioria; é também respeito aos direitos que a maioria não pode simplesmente retirar das minorias.

Por tudo isso, o STF é indispensável à democracia brasileira. Mas, justamente por ser indispensável, precisa ser exemplar.

Sua autoridade não nasce apenas da Constituição, mas também da confiança da sociedade. A crise pode ser uma ameaça. Mas também pode ser a oportunidade de reconstruir a confiança.

No fim das contas, o STF só será verdadeiramente forte se tiver coragem de aplicar a mesma régua para todos — inclusive para si próprio.

Porque, sem um Supremo independente, imparcial e respeitado, nenhum brasileiro estará verdadeiramente protegido contra os abusos de quem quer que venha a ocupar o comando do país.

#14/09/2026#


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que mudou entre o 7 de setembro de 1822 e o de 2026?



Ronda pela cabeça de muita gente a ideia de que o famoso grito do Ipiranga, em 1822, foi um grandioso ato de amor de D. Pedro I pelo Brasil: montado em seu cavalo, revestido de coragem e heroísmo, teria arrancado o país das garras de Portugal com um simples e retumbante “Independência ou Morte!”.

Em pleno ano eleitoral, não faltam candidatos tentando se apresentar como heróis, salvadores da pátria ou donos de soluções mágicas para os problemas nacionais. Uma sina que, ao que parece, nos acompanha desde os tempos do Império.

Durante décadas, a imagem que os brasileiros receberam da Independência foi aquela eternizada pela famosa pintura a óleo de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, exposta no Museu do Ipiranga. A obra foi encomendada e pintada décadas depois do episódio, não como um registro fotográfico da cena, evidentemente, mas como uma representação grandiosa destinada a ajudar a construir uma determinada identidade nacional.

Até hoje, nem tudo aquilo que aprendemos como verdade chega até nós no devido tempo — e, às vezes, chega convenientemente editado. Mas o tempo se encarrega de revelar a história.

A historiografia mais recente mostra que a separação de Portugal foi um processo político, econômico e social complexo, marcado por disputas, negociações, interesses de grupos dominantes e conflitos. Alguma semelhança com os dias de hoje?

O processo ganhou força a partir de 1820, quando as Cortes portuguesas queriam também recolocar o Brasil em uma posição subordinada a Lisboa. Em outras palavras, queriam que o Brasil voltasse a ser colônia.

Em nome da autonomia, parte das elites locais, comerciantes e outros grupos de interesse se articulou em torno de D. Pedro. A Independência, portanto, não nasceu apenas de um gesto heroico às margens do Ipiranga. Foi resultado de uma complexa disputa de poder.

Em 1822, o dilema central era a soberania nacional diante do domínio português. Em 2026, o desafio é outro: aperfeiçoar a soberania popular, preservar a estabilidade democrática, fortalecer nossas instituições e defender a autonomia do país diante de pressões e tentativas de interferência externa — inclusive dos Estados Unidos — em decisões que dizem respeito aos interesses brasileiros e às nossas relações com outros países.

Durante muito tempo, prevaleceu a narrativa de que a Independência brasileira ocorreu de maneira praticamente pacífica, sem derramamento de sangue. A realidade foi bem diferente. Fora do eixo Rio-São Paulo, várias províncias resistiram à autoridade de D. Pedro e permaneceram leais a Lisboa. Houve combates violentos e mortes na Bahia, no Piauí, no Maranhão, no Pará e na Província Cisplatina, território que posteriormente daria origem ao Uruguai.

Em 2026, a disputa também continua. Só mudaram as armas. A polarização política atravessa famílias, amizades, ambientes de trabalho e relações pessoais. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser alguém com quem se discorda para se transformar em alguém que se deseja derrotar, desqualificar ou até eliminar do debate público.

Depois da Independência, em 1824, foi outorgada a primeira Constituição brasileira. Com ela, surgiu o Poder Moderador, que conferia ao imperador uma autoridade extraordinária sobre os demais poderes do Estado.

Dois séculos depois, não faltam iniciativas e discursos, tanto no Executivo quanto no Legislativo e no Judiciário, que parecem flertar com a ideia de que a democracia funcionaria melhor se alguém tivesse poderes acima dos demais.

Em 1822, discutíamos quem mandaria no Brasil.

Hoje, deveríamos estar discutindo como fazer o Brasil pertencer, de fato, a todos os brasileiros.

E, convenhamos, para isso não precisamos de heróis montados em cavalos. Precisamos de instituições que funcionem, cidadãos que pensem e políticos que entendam que o Brasil não é propriedade de ninguém.