domingo, 19 de julho de 2026

Mamar na vaca você não quer, né, bebê?



 

Era assim que a criançada da minha época barrava aquele folgado que queria levar a melhor sem mover um músculo. Pois não é que a diplomacia de Washington resolveu adotar essa mesma filosofia nas negociações tarifárias com o Brasil?

Desde março de 2025, os americanos sentaram à mesa com uma lista de exigências que faria corar qualquer pirata do Caribe. A proposta deles cabia numa frase: "Nós ganhamos tudo, vocês abrem mão de tudo, e ficamos conversados."

Vejamos o porte do altruísmo americano:

Queriam tarifa zero para o etanol deles. Quando o Brasil sugeriu reciprocidade e propôs baixar também a tarifa do nosso açúcar — que os EUA taxam em generosos 100% —, a resposta foi um sonoro "aí já é querer demais".

Exigiram a abertura completa do mercado brasileiro para seus carros, jatos, produtos químicos e manufaturados, todos com imposto zero. Em troca? Um tapinha nas costas e um sorriso amarelo.

Pretendiam que as gigantes digitais americanas ficassem imunes às leis e sanções brasileiras. Lá vigora o vale-tudo; aqui, a gente ainda gosta de respeito.

Foram além: pediram que o Brasil rompesse (ou ao menos enfraquecesse) laços comerciais com a China em vários produtos, especialmente minerais críticos. Detalhe revelador: em 2025, a China comprou US$ 100 bilhões do Brasil, enquanto os EUA compraram US$ 38 bilhões. Queriam que a gente trocasse o maior parceiro comercial do planeta por um abraço caloroso do Tio Sam.

Mas a cereja do bolo — o ápice da cara de pau internacional — foi mirar o nosso Pix.

Para Washington, o Pix é uma "prática comercial desleal". O motivo? Ousa ameaçar o monopólio das bandeiras de cartão americanas. O fato de o Pix ter movimentado R$ 35 trilhões em 2025 — três vezes o PIB brasileiro — não tem nada a ver com o choro, claro! E nem venham dizer que, desde o nascimento do Pix, o uso de cartões de crédito no Brasil subiu 125%. Para eles, o crime do Pix é ser gratuito, instantâneo e não deixar comissão para Big Techs e seus derivados (Apple Pay, Google Pay e cia.).

Arrisco dizer que, quando a poeira baixar, os especialistas em comércio exterior concluirão que, se o Brasil tivesse cedido integralmente às exigências dos EUA, os prejuízos teriam superado — e muito — as eventuais perdas provocadas pelo tarifaço ameaçador. A conferir.

Proteger o próprio mercado com tarifas é parte do jogo; o Brasil também faz. Mas chegar com um porrete exigindo que o vizinho entregue a chave da casa, o carro e o almoço — sem dar nada em troca — cruza a linha da diplomacia.

Isso não é comércio exterior. É a arte refinada de querer mamar na vaca sem ter que tratar do gado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ciência ou Bola de Cristal: O que há por trás das Pesquisas Eleitorais

 



Seja por desconhecimento ou conveniência política, muita gente ainda enxerga as pesquisas de opinião como "bolas de cristal" capazes de prever o futuro — ou, pior, como ferramentas manipuladas para favorecer determinados candidatos. É um equívoco clássico que confunde ciência com feitiçaria.

Na realidade, a pesquisa é um retrato estatístico do momento, conduzido sob métodos rigorosos para entender as percepções de um grupo.

Como é impossível entrevistar milhões de cidadãos, a estatística utiliza a amostragem. Os institutos desenham um grupo menor de entrevistados que reflete fielmente a sociedade em termos de idade, gênero, escolaridade, renda e região geográfica.

Para saber se uma panela de sopa está bem temperada, você não precisa tomar todo o caldeirão. Basta misturar bem e provar uma única colher. A amostragem funciona exatamente assim.

No Brasil, institutos renomados (como Datafolha, Quaest, AtlasIntel, entre outros) seguem metodologias científicas consolidadas para calcular a margem de erro e o nível de confiança de cada levantamento.

Pesquisa eleitoral é apenas a ponta do iceberg. O faturamento real e a sobrevivência dos institutos de pesquisa vêm do setor corporativo e governamental.

Empresas contratam pesquisas para avaliar novos produtos, marcas e preços antes de investir milhões em lançamentos. Governos (União, estados e municípios) monitoram a aprovação de serviços essenciais como saúde, segurança e educação. Avalia o acesso à Justiça e a qualidade do atendimento ao cidadão.

Como o patrimônio mais valioso de um instituto é a sua credibilidade, adulterar dados para favorecer um candidato destruiria sua reputação, afastando os clientes corporativos que pagam suas contas no dia a dia.

Quem está atrás nas pesquisas costuma atacar pesadamente os institutos sem apresentar provas. Então, por que as empresas continuam se expondo a esse desgaste? Por dois motivos práticos: as eleições colocam as marcas dos institutos no centro do debate público nacional; o dia da eleição oferece a oportunidade única de comparar as projeções com o resultado real das urnas. É o momento em que os estatísticos calibram suas amostras, testam novas tecnologias de coleta e aprimoram seus modelos para o mercado.

Uma pesquisa eleitoral é descritiva (mostra o agora), e não prescritiva (não diz o que vai acontecer). Ela não prevê o futuro simplesmente porque o eleitor pode mudar de ideia no caminho até a urna.

Embora os dados possam estimular o chamado "voto útil" na reta final, estudos apontam que esse movimento atinge uma parcela muito pequena do eleitorado, tornando-se decisivo apenas em disputas extremamente acirradas.

No fim das contas, a pesquisa serve para mapear a realidade, não para criá-la. Caberá sempre ao eleitor a palavra final.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

A mulher na urna e o pecado de pensar

 



Diz o ditado que a língua é o chicote do corpo, mas há dias em que ela funciona como o raio-X da alma. Quando Paulo Figueiredo limpou a garganta para vociferar que "mulher vota estatisticamente mal", e Valdemar Costa Neto, com a complacência de quem comenta o futebol no botequim, soltou que "mulher arruma enguiço com 20", nenhum dos dois sofreu um lapso linguístico. Sabiam exatamente o que faziam.

Ao conquistarem o voto, as mulheres cometeram a audácia de invadir feudos que os homens guardavam a sete chaves. Veio a independência financeira, veio a autonomia, e a soberania masculina — vendida durante séculos como lei natural — desmoronou.

Hoje, a extrema direita global padece de uma profunda nostalgia do século XIX. O grande projeto que ganha corpo em nichos radicais não é apenas geopolítico; é doméstico. Para que o mundo volte a fazer sentido na cabeça desses senhores, a mulher precisa deixar de ser cidadã e voltar a ser paisagem.

Nos Estados Unidos, essa utopia regressiva atende pelo nome de "voto por família". A ideia é dar um único voto por casa, exercido, claro, pelo "chefe". Como rasgar a Constituição americana é quase impossível, o plano avança pelas beiradas com a SAVE Act. Sob o pretexto de excluir imigrantes não cidadãos, a proposta vai criar barreiras burocráticas para quem mudou de sobrenome ao casar ou divorciar — ou seja, cerca de 80% das mulheres. Num país onde o voto não é obrigatório, o cansaço da fila é a arma perfeita para silenciar milhões de eleitoras.

No Brasil, essa tese ganha força nos altares e nichos patriarcais. Para esses grupos, o voto autônomo da mulher representa uma insubordinação metafísica. Se ela pensa por si mesma diante da urna, comete o pecado da discórdia. A harmonia do lar exigiria, portanto, a anulação da autonomia intelectual feminina.

Ouvir que "mulher não sabe votar" em pleno século XXI é voltar a um passado distante. São os mesmos velhos argumentos: falta de capacidade intelectual, ausência de aptidão para o comando e excesso de emoção.

O diagnóstico real por trás do pânico desses homens é simples: as mulheres tornaram-se independentes e, para o desespero do status quo, incontroláveis. Perder o controle sobre o bolso e o voto alheio causa vertigem. No fundo, eles temem a equivalência. Temem que elas, um dia, governem o jogo por completo. E para quem passou a vida inteira no topo de um poleiro artificial, a igualdade de condições sempre vai parecer o fim do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O tempo passa, torcida brasileira. Agora não adianta chorar!


 


A cada eliminação, abre-se a temporada nacional de caça às bruxas. Apontam-se dedos e a sentença é proferida com o fígado: "Faltou raça". É um veredicto cômodo, mas preguiçoso. Assim como na vitória os louros não são de um único herói, na derrota não há naufrágio sem responsabilidade compartilhada.

 

Nutrimos a ilusão de um direito divino ao topo do pódio. Das 22 Copas desde 1930, cinco são nossas. No entanto, Alemanha e Itália têm quatro; Argentina, três; França e Uruguai, duas; Inglaterra e Espanha, uma. No universo de 211 países da FIFA, apenas oito ergueram a taça.

 

Houve um tempo, é verdade, em que a nossa terra brotava craques como capim. Jogávamos por instinto, e o mundo assistia, estupefato. Hoje, no entanto, a nossa peneira já não se mostra tão pródiga e o cenário mudou drasticamente. O futebol virou uma engrenagem financeira bilionária. Empresas de material esportivo e corporações globais transformaram o esporte em uma vitrine de luxo; garimpam-se talentos nos cinco continentes antes mesmo que eles aprendam a amarrar as chuteiras sozinhos. O resultado? O talento mundial concentra-se nos clubes europeus e, de quatro em quatro anos, essa legião retorna para defender suas pátrias. Antigamente, o Brasil fazia escola; hoje, assistimos à França, à Alemanha, à Espanha e à Inglaterra ditando o ritmo e o tom da modernidade.

 

As grandes potências do futebol não jogam dados com o destino. Elas se preparam com a paciência dos monges. O ciclo dura quatro anos no mínimo, com o treinador vigiando o sono, as lesões, a musculatura e o gráfico tático de cada atleta. Treina-se o imponderável: o pênalti no último minuto, a inferioridade numérica, a bola parada salvadora. Para vencer uma Copa moderna, já não basta reunir talentos por alguns meses e esperar que o peso da camisa resolva. A lógica pune o amadorismo. Enquanto a Argentina pensava nos franceses, nós parecíamos despreparados para o rigor tático do Japão.

 

Não faltou esforço aos nossos atletas, mas estabilidade. Nos bastidores, a CBF viveu escândalos, trocas sob suspeita e uma dança das cadeiras com quatro técnicos em um único ciclo — quatro filosofias conflitantes. A fragilidade ruiu de vez quando o comando se viu pressionado a convocar um jogador ainda baleado sob o ultimato silencioso de que, sem Neymar, qualquer fracasso seria de sua culpa exclusiva. Em um ambiente asfixiado pelo medo, passar de fase já era lucro.

 

O apito final da última eliminação ainda ecoa, mas a vida exige que limpemos as chuteiras. É hora de seguir em frente, guardando no peito o orgulho das glórias do passado — que ninguém nos tira —, mas limpando os olhos para enxergar o presente com a lucidez necessária. O renascimento do nosso futebol não virá de um milagre ou de um drible salvador; virá da competência, do planejamento e do trabalho silencioso. Que venha 2030, não com a soberba de quem se acha dono do mundo, mas com a humildade e o brio de quem quer reaprender a conquistá-lo.

 

domingo, 5 de julho de 2026

A Vila Gato e a Copa do Mundo

 



Dizem que saudade não tem idade, e eu concordo. Basta um apito final no último jogo do Brasil para que eu seja sumariamente arremessado de volta aos meus onze anos. Fecho os olhos e lá estou: na Vila Gato, o palco sagrado das minhas traquinagens de infância e pré-adolescência.

 

Para quem não conheceu, a Vila Gato ficava ali perto de casa, na Rua Embaixador Pedro de Toledo — logo à esquerda de onde o morro morre, um respiro antes da ponte sobre o ribeirão. Aquele pedaço de chão era o nosso parque de diversões particular. O nome peculiar, reza a lenda, vinha do hábito macabro de um morador que caçava felinos para o almoço. Eram tempos em que a sensibilidade ecológica e o respeito aos animais passavam longe dos debates públicos. Se a história era fato ou puro folclore, até hoje não sei. Mas o nome pegou.

 

O rio nos dava tudo. Tinha a Prainha e o Porto do Luca, onde a gente desafiava a correnteza e nadava até os dedos enrugarem, além dos cantos certos onde os peixes sempre fisgavam. Logo ao lado, um campinho de gramado rebelde e irregular testemunhava nossas peladas épicas. Quando a noite caía, o ponto de encontro era um velho poste de madeira, deitado estrategicamente no canto do muro. Ali, se surgisse um violão, a gente soltava a voz; se não, a diversão era desfiar histórias de assombração ou correr até cansar: latinha, pega-pega e balança-caixão. Que tempo bom.

 

Hoje, quem passa por lá encontra outra geografia. O casario de um lado resiste, embora maquiado por reformas e reconstruções. Já o outro lado, que margeava o ribeirão, sumiu do mapa: foi desapropriado para dar passagem ao progresso, hoje batizado de Avenida dos Italianos.

 

Mas, afinal, o que a Vila Gato tem a ver com a Copa do Mundo?

 

Corria o ano de 1966. Estávamos todos no campinho quando, vindo da casa de Seu Nelson e Dona Abigail, do outro lado da rua, o som de um rádio invadiu o ar. Era a estreia do Brasil. No exato instante em que a rede balançou com o gol brasileiro contra a Bulgária, uma sinfonia de estalos de caramurus pipocou pelo bairro. Tomados pelo fervor patriótico, estufamos o peito e entoamos o hino da nossa soberania, herdado da conquista de 1958: “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem possa...”

 

Mal sabíamos que os rojões daquele dia seriam os únicos. A nossa "seleção de ouro" tropeçou nas duas partidas seguintes e voltou mais cedo para casa, deixando o campinho em silêncio.

 

Até aquela, o torneio atendia pelo pomposo nome de “Taça do Mundo”. Depois daquele ano, misteriosamente, virou “Copa”. Na minha cabeça, aquilo pareceu uma retaliação mesquinha da mídia internacional: “Quem esses sul-americanos pensam que são para decretar que a taça é deles?”

 

Ora, romanticamente falando, o correto era manter a tradição. O termo original, nascido na França, era Coupe du Monde. E coupe, em bom português, sempre foi e sempre será, literalmente, taça.

 

Diz a história que, com a chegada das transmissões ao vivo da TV na Copa de 1970 e pela forte influência, onde se anunciava World Cup ou Copa del Mundo, o vocábulo estrangeiro acabou engolindo o nosso. E, para que a nossa rendição à supremacia linguística de fora não ficasse tão feia, nós, brasileiros, criamos um jeitinho: "Copa" virou o nome do campeonato; "Taça", o objeto de desejo erguido pelos campeões.

 

Aquela tarde dourada no campinho já completou sessenta anos. A Taça mudou de nome, a Vila Gato virou recordação na memória da cidade. Mas, curiosamente, quando o juiz apita o fim de um jogo da Seleção na televisão, o cheiro do ribeirão quase limpo volta e parece que foi ontem.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Peso da Camisa e o Complexo de Superioridade na Copa do Mundo

 


Dizer que a Copa do Mundo é um grande espetáculo é chover no molhado. Nesta edição, a maior de todas, 48 países se apresentaram para mostrar o que cada um tem de melhor no mundo mágico do futebol. No entanto, o que há de pior também dá as caras — e deve ser firmemente condenado.

O futebol é o esporte que mais emociona e, talvez, o que melhor represente a essência da humanidade. Dentro das quatro linhas, em menos de duas horas, vivenciam-se situações muito semelhantes às do dia a dia da maioria dos seres humanos, guardadas as devidas proporções.

Os jogadores se jogam no chão ou exageram nas quedas, às vezes simulando faltas graves na tentativa de prejudicar o adversário. Fora da visão do árbitro, insultam, provocam, agridem, puxam a camisa, beliscam, pisam e empurram, tudo com a finalidade de desestabilizar o oponente. Com o calcanhar, pisam repetidamente na marca do pênalti para torná-la irregular antes da cobrança, dificultando o chute do batedor. Adiantam a bola alguns metros em cobranças de falta ou lateral para ganhar melhor ângulo ou proximidade do gol. Avançam também na barreira antes da cobrança para reduzir a distância regulamentar. Tudo isso entre tantas outras "catimbas".

O mais grave é que, quando o erro ocorre do nosso lado, fechamos os olhos; mas, se parte do adversário, gritamos, exigimos justiça e punições mais severas. É assim que se constrói, muitas vezes, o senso de justiça de uma nação: com dois pesos e duas medidas.

Prestando atenção, é possível perceber que, dependendo do país, esses recursos desonestos são menos frequentes, sinalizando que há espaço para evolução — não apenas no futebol, mas na sociedade como um todo. Com o tempo, as regras vêm sendo aprimoradas e, como a tecnologia detecta tais infrações com mais facilidade, os infratores já não passam impunes tão facilmente. Além disso, o comportamento antiesportivo e antiético compromete a imagem pública do atleta, podendo afetar, inclusive, sua conta bancária.

Contudo, o mundo ainda carrega comportamentos e mentalidades baseados em crenças de superioridade, alimentadas pelo preconceito. Vejamos alguns casos recentes.

O presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, ao criticar o aumento do número de seleções na Copa do Mundo, afirmou: “Temos um grande número de jogos que são completamente desinteressantes”. Para ele, quanto menos países da África, da Ásia e do Caribe participarem, melhor será a qualidade do campeonato.

Portais e colunistas esportivos holandeses dispararam duras críticas aos jogadores e à comissão técnica após a derrota para o Marrocos, descrevendo o quanto os Países Baixos estavam envergonhados diante do que consideraram um fracasso monumental.

Diante da derrota da Alemanha — que havia se classificado em primeiro lugar na fase de grupos — para o Paraguai, que avançara com um modesto terceiro lugar, a imprensa alemã criticou duramente a equipe. A TV pública do país classificou o resultado como um “fiasco” e relembrou que o time repetiu falhas já vistas em derrotas anteriores, como contra o Equador.

Cabe perguntar: será que se as derrotas da Holanda e da Alemanha tivessem sido para países da elite internacional as reações deles teriam a mesma agressividade?

Participar de um campeonato em que apenas um país será vencedor significa que, no caso da Copa do Mundo, 47 seleções serão consideradas perdedoras. Para quem se considera superior, só a vitória final interessa, mas ela não depende apenas do "peso da camisa" — termo muito usado no futebol. Depende do talento técnico da equipe, da organização tática, do preparo físico, do controle emocional e, principalmente, fibra, garra, determinação e sorte.

Portanto, toda e qualquer presunção antes de a bola rolar não passa de mera expectativa. O respeito aos outros, no entanto, só quando vem do berço.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Por que a seleção brasileira já não desperta mais a mesma paixão?

 


Cadê todas aquelas bandeiras brasileiras hasteadas nas casas e nos veículos? Onde foi parar aquela agitação contagiante na cidade em dias de jogo? O que aconteceu com as decorações nas ruas? Será que o gato comeu? Definitivamente, o clima de Copa do Mundo já não é mais o mesmo de antigamente.

Faz sentido ver brasileiros torcendo contra a própria seleção, secando sua permanência no torneio e, em alguns casos, até torcendo por outras seleções durante uma Copa do Mundo?

É, no mínimo, estranho. Seria como ver um corintiano torcendo para o Corinthians se dar mal ou, pior ainda, desejando que o Palmeiras levante a taça do Brasileirão. Por pior que seja a fase do time do coração, dificilmente um torcedor distribuirá flores aos rivais.

Num primeiro momento, cheguei a pensar que essa aversão à seleção canarinho tivesse como pano de fundo a atual polarização política. Lembrei dos tempos da ditadura, quando os governos militares tentaram se apropriar da imagem da seleção e utilizá-la como instrumento de propaganda. Mas abandonei essa hipótese ao perceber que essa onda de distanciamento não é algo recente.

Comecei a acompanhar a seleção aos 15 anos, na Copa do México, em 1970. Saímos daquela competição com a alma lavada. Ainda assim, como vínhamos de uma participação decepcionante em 1966 — apesar de contarmos com um grande time —, a seleção de João Saldanha e, depois, de Zagallo despertava mais desconfiança do que confiança. Ao conquistar o tricampeonato, o Brasil tornou-se o primeiro país, desde a criação da Copa, a erguer a taça três vezes. Para nós, não havia dúvida: o Brasil praticava o melhor futebol do mundo.

No entanto, passamos 24 anos sem conquistar um Mundial. Foi nesse intervalo que começou a crescer a descrença no futebol brasileiro. Até então, os craques construíam suas histórias nos clubes nacionais e chegavam à seleção já consagrados. Após 1970, porém, a exportação de jogadores se intensificou. Ano após ano, o número de transferências aumentou. Muitos talentos passaram a ser negociados antes mesmo de estrearem profissionalmente por seus clubes de origem. Estouravam longe dos nossos olhos.

Sem identificação com esses jogadores, a cada Copa a seleção passou a parecer, para muitos, um “time de estrangeiros” nascidos no Brasil. Aos poucos, passamos a enxergar atletas aparentemente mais preocupados com marcas pessoais, redes sociais, cortes de cabelo e ostentação do que com entrega em campo vestindo a camisa amarela.

Estávamos acostumados ao futebol-arte, ao espetáculo e até à malandragem saudável que caracterizava gerações passadas. Em 2014, quando esperávamos a redenção do trauma de 1950, veio a humilhação histórica: a derrota por 7 a 1 para a Alemanha.

Por essas e outras razões, a torcida brasileira, além de perder parte do encantamento pela seleção, passou a adotar comportamentos curiosos. Há os que demonstram descaso, acompanham de longe e repetem que o time não irá muito adiante, transferindo todo o favoritismo para outras seleções.

A psicologia oferece uma explicação interessante: quando alguém tem aversão ao fracasso, tende a antecipar a derrota como mecanismo de defesa. Se ela vier, a pessoa sente que já estava preparada: “Eu avisei”. Se não vier, comemora como qualquer torcedor.

Lidar com a possibilidade de ganhar ou perder é um desafio emocional profundo. Isso mexe com a autoestima, com a tolerância à frustração e com as chamadas crenças de autorreferência.

A derrota dói. Rejeição e fracasso ativam áreas cerebrais associadas à dor física, além de reforçarem o viés da negatividade, que faz um resultado ruim parecer maior do que todas as vitórias anteriores somadas.

Mas a vitória também produz efeitos intensos: provoca uma descarga de dopamina no cérebro, gerando prazer e sensação de recompensa. Talvez por isso, quando nosso time vence, sentimos que nossa torcida, mesmo diante da televisão, fez parte daquele resultado.

O problema é que a vitória também infla o ego e pode gerar dependência emocional. Passamos a desejar apenas vitórias e, não raramente, abandonamos o jogo, ou até a torcida, quando a derrota se aproxima.

Ganhar e perder fazem parte da vida. Talvez o verdadeiro teste de maturidade não esteja em comemorar nas vitórias, mas em permanecer presente nas derrotas. Afinal, enquanto a vitória nos dá a ilusão do quase perfeito e, muitas vezes, pode frear a evolução, a derrota escancara vulnerabilidades e nos obriga a melhorar.