É assim que
sociedades inteiras podem ser enganadas. E ninguém está imune - nem os mais
espertos!
“Uma mentira dita mil vezes
torna-se verdade.” A frase é frequentemente atribuída a Joseph Goebbels,
ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A autoria exata é controversa, mas
a lógica por trás dela é antiga:
Não é preciso provar. É preciso
tornar a mentira familiar. E existe uma explicação científica para isso.
Um estudo publicado na Nature
Communications, coordenado pelo pesquisador Grégoire Borst, da
Université Paris Cité, analisou dados de mais de 31 mil
participantes, reunidos em pesquisas realizadas entre 1977 e
2025.
A conclusão é preocupante: Quanto mais
uma informação é repetida, maior pode ser a percepção de que ela é verdadeira. É
o chamado efeito
da verdade ilusória.
O cérebro usa a familiaridade como
um atalho. “Eu já ouvi isso antes.” E, sem perceber, podemos completar: “Então deve
ser verdade.” Não. Não é!
Mas é assim que a armadilha
funciona.
E as redes sociais transformaram
essa velha técnica em uma máquina de repetição: Uma mentira aparece. Alguém
compartilha. Outro comenta. Um influenciador reproduz. Um grupo de militantes
espalha. Um perfil falso reforça. Um bot multiplica.
E, de repente, aquilo que nasceu
como uma mentira passa a parecer uma informação amplamente conhecida. A mentira já
não precisa de um autor. Ela passa a caminhar sozinha.
Pior: os algoritmos ajudam.
Conteúdo que provoca raiva, medo,
indignação ou escândalo chama mais atenção. Mais atenção gera mais interação. Mais
interação gera mais distribuição. Mais distribuição gera mais repetição. E mais
repetição produz familiaridade.
É um círculo
vicioso.
Agora acrescente a inteligência
artificial. Uma fotografia pode ser fabricada. Uma voz pode ser clonada. Um
vídeo pode ser manipulado. Uma pessoa pode aparecer dizendo algo que jamais
disse. A
mentira ganhou imagem, voz e aparência de realidade.
Mas ainda existe algo pior.
A mentira pode deixar de ser
apenas uma mentira individual e se transformar em verdade
coletiva. É nesse momento que o problema deixa de ser apenas
desinformação. Passa a ser um problema social.
Instituições são desacreditadas. A
ciência vira “opinião”. A imprensa vira “inimiga”. O adversário político vira
“ameaça”. E fatos passam a ser rejeitados simplesmente porque incomodam aquilo
em que alguém escolheu acreditar.
Quando isso
acontece, deixamos de discutir ideias. Passamos a disputar realidades.
E uma sociedade que não consegue
concordar sobre os fatos básicos do presente dificilmente conseguirá construir
um futuro comum.
Essa talvez seja a maior ameaça da
desinformação. A mentira não precisa convencer todo mundo. Precisa
apenas convencer gente suficiente. Não precisa destruir a verdade. Basta fazer com que
ninguém mais saiba em quem acreditar. E quando tudo vira “narrativa”...
Quando qualquer evidência pode ser
descartada como “opinião”... Quando a
realidade passa a depender do grupo ao qual pertencemos... a verdade
deixa de ser o ponto de partida.
E aí começa o verdadeiro perigo. Porque
quem não consegue enxergar a realidade... não consegue resolver os problemas
que a realidade apresenta.
Uma sociedade pode sobreviver a
muitas mentiras. O que ela não pode perder é a capacidade de reconhecer a verdade.


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