Dizer que a
Copa do Mundo é um grande espetáculo é chover no molhado. Nesta edição, a maior
de todas, 48 países se apresentaram para mostrar o que cada um tem de melhor no
mundo mágico do futebol. No entanto, o que há de pior também dá as caras — e
deve ser firmemente condenado.
O futebol é
o esporte que mais emociona e, talvez, o que melhor represente a essência da
humanidade. Dentro das quatro linhas, em menos de duas horas, vivenciam-se situações
muito semelhantes às do dia a dia da maioria dos seres humanos, guardadas as
devidas proporções.
Os
jogadores se jogam no chão ou exageram nas quedas, às vezes simulando faltas
graves na tentativa de prejudicar o adversário. Fora da visão do árbitro,
insultam, provocam, agridem, puxam a camisa, beliscam, pisam e empurram, tudo
com a finalidade de desestabilizar o oponente. Com o calcanhar, pisam
repetidamente na marca do pênalti para torná-la irregular antes da cobrança,
dificultando o chute do batedor. Adiantam a bola alguns metros em cobranças de
falta ou lateral para ganhar melhor ângulo ou proximidade do gol. Avançam
também na barreira antes da cobrança para reduzir a distância regulamentar.
Tudo isso entre tantas outras "catimbas".
O mais grave
é que, quando o erro ocorre do nosso lado, fechamos os olhos; mas, se parte do
adversário, gritamos, exigimos justiça e punições mais severas. É assim que se
constrói, muitas vezes, o senso de justiça de uma nação: com dois pesos e duas
medidas.
Prestando
atenção, é possível perceber que, dependendo do país, esses recursos desonestos
são menos frequentes, sinalizando que há espaço para evolução — não apenas no
futebol, mas na sociedade como um todo. Com o tempo, as regras vêm sendo
aprimoradas e, como a tecnologia detecta tais infrações com mais facilidade, os
infratores já não passam impunes tão facilmente. Além disso, o comportamento
antiesportivo e antiético compromete a imagem pública do atleta, podendo
afetar, inclusive, sua conta bancária.
Contudo, o
mundo ainda carrega comportamentos e mentalidades baseados em crenças de
superioridade, alimentadas pelo preconceito. Vejamos alguns casos recentes.
O
presidente da UEFA, Aleksander Čeferin, ao criticar o aumento do número de
seleções na Copa do Mundo, afirmou: “Temos um grande número de jogos que são
completamente desinteressantes”. Para ele, quanto menos países da África, da
Ásia e do Caribe participarem, melhor será a qualidade do campeonato.
Portais e
colunistas esportivos holandeses dispararam duras críticas aos jogadores e à
comissão técnica após a derrota para o Marrocos, descrevendo o quanto os Países
Baixos estavam envergonhados diante do que consideraram um fracasso
monumental.
Diante da
derrota da Alemanha — que havia se classificado em primeiro lugar na fase de
grupos — para o Paraguai, que avançara com um modesto terceiro lugar, a
imprensa alemã criticou duramente a equipe. A TV pública do país
classificou o resultado como um “fiasco” e relembrou que o time repetiu falhas
já vistas em derrotas anteriores, como contra o Equador.
Cabe
perguntar: será que se as derrotas da Holanda e da Alemanha tivessem sido para
países da elite internacional as reações deles teriam a mesma agressividade?
Participar
de um campeonato em que apenas um país será vencedor significa que, no caso da
Copa do Mundo, 47 seleções serão consideradas perdedoras. Para quem se
considera superior, só a vitória final interessa, mas ela não depende apenas do
"peso da camisa" — termo muito usado no futebol. Depende do talento
técnico da equipe, da organização tática, do preparo físico, do controle
emocional e, principalmente, fibra, garra, determinação e sorte.
Portanto,
toda e qualquer presunção antes de a bola rolar não passa de mera expectativa.
O respeito aos outros, no entanto, só quando vem do berço.






