segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Bíblia na Escola e o Debate Moral na Era das Redes

 



Por que perguntas provocativas sobre religião na educação pública circulam tanto na internet — e o que realmente está em jogo por trás do engajamento.

Perguntas como "Você é a favor do ensino da Bíblia nas escolas?" inundam as redes sociais diariamente. À primeira vista, parecem debates legítimos, mas raramente refletem a real intenção de quem as publica: na maioria das vezes, o objetivo é apenas acionar o algoritmo da polêmica em busca de engajamento.

Conteúdos morais e religiosos geram respostas emocionais rápidas. Indignação e orgulho transformam comentários em campos de batalha entre "favoráveis" e "contrários" — a polarização ideal para inflar visualizações. Figuras públicas e influenciadores usam essas enquetes sem rigor científico para testar narrativas, medir apelo político e reforçar a ideia de que certos valores estariam "sob ataque". Não se busca consenso, mas reações que viram alcance e capital político.

Longe do ruído digital, porém, há uma discussão legítima sobre o papel da escola pública:

·        Favoráveis destacam o valor histórico, literário e cultural da Bíblia na civilização ocidental, além de seu papel na transmissão de valores éticos.

·        Opositores defendem que a escola pública deve ser neutra, cabendo a formação religiosa às famílias e comunidades para evitar doutrinações.

A legislação brasileira já trata do tema. A Constituição e a LDB garantem o Ensino Religioso no Ensino Fundamental: sua oferta é obrigatória para as escolas, a matrícula é facultativa para os alunos e é vedado o proselitismo.

Sob o ponto de vista jurídico, tornar a leitura da Bíblia obrigatória viola o Estado Laico, a liberdade de crença e a neutralidade estatal. Por isso, propostas desse tipo costumam ser invalidadas pelo Judiciário.

Da próxima vez que uma enquete assim surgir no seu feed, faça uma pausa antes de reagir. Pergunte-se se o post busca um diálogo sério sobre educação ou se está apenas usando a sua fé para gerar cliques.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Quem tem medo de ser enterrado vivo, levanta o dedo!

 



Há medos que a modernidade devia ter enterrado junto com a lâmpada a óleo e a carruagem. Mas o pavor de acordar do lado de dentro de uma caixa de madeira, a dois metros da luz do dia, parece imune ao progresso.

A ciência jura de pé junto que isso ficou no passado. Fala em exames minuciosos, morte encefálica confirmada em carimbo duplo por dois médicos distintos, eletroencefalogramas, protocolos rigorosos... A teoria é impecável. A prática, no entanto, insiste em dar umas escorregadas capazes de gelar a espinha de qualquer um.

Veja o caso recente do bebê de apenas um mês em Rio Claro. O hospital seguiu o rito, cumpriu a burocracia, assinou os papéis e deu a vida por encerrada. O corpo foi liberado. A história teria chegado ao seu fim, não fosse a funcionária da funerária. Ao iniciar os preparativos, ela notou que o pequeno ainda respirava: um sopro de vida ignorado pela medicina. O bebê foi socorrido a tempo.

Não foi um sobressalto isolado. Da poeira de Presidente Prudente (SP) às praias de Cidreira (RS), passando pelas ladeiras de Ipatinga (MG), o roteiro se repete com uma frequência incômoda. É o idoso que volta a respirar na mesa de preparação, a senhora que resolve dar sinais de vida a minutos do funeral, a mulher que desperta e começa a se mexer no momento exato em que as flores estão sendo arranjadas. Na Tailândia, a coisa tomou ares de filme de suspense: uma mulher começou a esmurrar a tampa do caixão quando já se aproximava, a poucos centímetros, das chamas da câmara de cremação.

Esse pavor não é de hoje e já fez a engenhosidade humana produzir loucuras fascinantes. No século XIX, inventores ganhavam a vida projetando os "caixões de segurança" — parafernálias equipadas com tubos de respiração, cordas e sinos na superfície. A ideia era simples: se você acordasse em um lugar estreito e fechado, bastava puxar um cordão para acionar um alarme.

Um ex-prefeito de Dourados (MS) mandou construir um jazigo equipado com uma linha telefônica instalada na parede do túmulo. O caixão tinha engenharia própria para ser aberto por dentro e a gaveta contava com dutos de ar. A ideia era clara: se o destino lhe pregasse uma peça, ele empurraria a tampa, pegaria o gancho e ligaria para a família. Quando o político finalmente partiu desta para a melhor, os parentes honraram a vontade dele, mas o telefone não foi usado.

A verdade é que a medicina avançou e a chance de um diagnóstico errado é matematicamente quase nula. Mas, por garantia, não custa pedir aos familiares e amigos que façam aquela última pergunta ao médico: "O senhor tem certeza, doutor?" — ou, ainda, encarregar alguns para que chamem o VAR da funerária.

 

domingo, 19 de julho de 2026

Mamar na vaca você não quer, né, bebê?



 

Era assim que a criançada da minha época barrava aquele folgado que queria levar a melhor sem mover um músculo. Pois não é que a diplomacia de Washington resolveu adotar essa mesma filosofia nas negociações tarifárias com o Brasil?

Desde março de 2025, os americanos sentaram à mesa com uma lista de exigências que faria corar qualquer pirata do Caribe. A proposta deles cabia numa frase: "Nós ganhamos tudo, vocês abrem mão de tudo, e ficamos conversados."

Vejamos o porte do altruísmo americano:

Queriam tarifa zero para o etanol deles. Quando o Brasil sugeriu reciprocidade e propôs baixar também a tarifa do nosso açúcar — que os EUA taxam em generosos 100% —, a resposta foi um sonoro "aí já é querer demais".

Exigiram a abertura completa do mercado brasileiro para seus carros, jatos, produtos químicos e manufaturados, todos com imposto zero. Em troca? Um tapinha nas costas e um sorriso amarelo.

Pretendiam que as gigantes digitais americanas ficassem imunes às leis e sanções brasileiras. Lá vigora o vale-tudo; aqui, a gente ainda gosta de respeito.

Foram além: pediram que o Brasil rompesse (ou ao menos enfraquecesse) laços comerciais com a China em vários produtos, especialmente minerais críticos. Detalhe revelador: em 2025, a China comprou US$ 100 bilhões do Brasil, enquanto os EUA compraram US$ 38 bilhões. Queriam que a gente trocasse o maior parceiro comercial do planeta por um abraço caloroso do Tio Sam.

Mas a cereja do bolo — o ápice da cara de pau internacional — foi mirar o nosso Pix.

Para Washington, o Pix é uma "prática comercial desleal". O motivo? Ousa ameaçar o monopólio das bandeiras de cartão americanas. O fato de o Pix ter movimentado R$ 35 trilhões em 2025 — três vezes o PIB brasileiro — não tem nada a ver com o choro, claro! E nem venham dizer que, desde o nascimento do Pix, o uso de cartões de crédito no Brasil subiu 125%. Para eles, o crime do Pix é ser gratuito, instantâneo e não deixar comissão para Big Techs e seus derivados (Apple Pay, Google Pay e cia.).

Arrisco dizer que, quando a poeira baixar, os especialistas em comércio exterior concluirão que, se o Brasil tivesse cedido integralmente às exigências dos EUA, os prejuízos teriam superado — e muito — as eventuais perdas provocadas pelo tarifaço ameaçador. A conferir.

Proteger o próprio mercado com tarifas é parte do jogo; o Brasil também faz. Mas chegar com um porrete exigindo que o vizinho entregue a chave da casa, o carro e o almoço — sem dar nada em troca — cruza a linha da diplomacia.

Isso não é comércio exterior. É a arte refinada de querer mamar na vaca sem ter que tratar do gado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ciência ou Bola de Cristal: O que há por trás das Pesquisas Eleitorais

 



Seja por desconhecimento ou conveniência política, muita gente ainda enxerga as pesquisas de opinião como "bolas de cristal" capazes de prever o futuro — ou, pior, como ferramentas manipuladas para favorecer determinados candidatos. É um equívoco clássico que confunde ciência com feitiçaria.

Na realidade, a pesquisa é um retrato estatístico do momento, conduzido sob métodos rigorosos para entender as percepções de um grupo.

Como é impossível entrevistar milhões de cidadãos, a estatística utiliza a amostragem. Os institutos desenham um grupo menor de entrevistados que reflete fielmente a sociedade em termos de idade, gênero, escolaridade, renda e região geográfica.

Para saber se uma panela de sopa está bem temperada, você não precisa tomar todo o caldeirão. Basta misturar bem e provar uma única colher. A amostragem funciona exatamente assim.

No Brasil, institutos renomados (como Datafolha, Quaest, AtlasIntel, entre outros) seguem metodologias científicas consolidadas para calcular a margem de erro e o nível de confiança de cada levantamento.

Pesquisa eleitoral é apenas a ponta do iceberg. O faturamento real e a sobrevivência dos institutos de pesquisa vêm do setor corporativo e governamental.

Empresas contratam pesquisas para avaliar novos produtos, marcas e preços antes de investir milhões em lançamentos. Governos (União, estados e municípios) monitoram a aprovação de serviços essenciais como saúde, segurança e educação. Avalia o acesso à Justiça e a qualidade do atendimento ao cidadão.

Como o patrimônio mais valioso de um instituto é a sua credibilidade, adulterar dados para favorecer um candidato destruiria sua reputação, afastando os clientes corporativos que pagam suas contas no dia a dia.

Quem está atrás nas pesquisas costuma atacar pesadamente os institutos sem apresentar provas. Então, por que as empresas continuam se expondo a esse desgaste? Por dois motivos práticos: as eleições colocam as marcas dos institutos no centro do debate público nacional; o dia da eleição oferece a oportunidade única de comparar as projeções com o resultado real das urnas. É o momento em que os estatísticos calibram suas amostras, testam novas tecnologias de coleta e aprimoram seus modelos para o mercado.

Uma pesquisa eleitoral é descritiva (mostra o agora), e não prescritiva (não diz o que vai acontecer). Ela não prevê o futuro simplesmente porque o eleitor pode mudar de ideia no caminho até a urna.

Embora os dados possam estimular o chamado "voto útil" na reta final, estudos apontam que esse movimento atinge uma parcela muito pequena do eleitorado, tornando-se decisivo apenas em disputas extremamente acirradas.

No fim das contas, a pesquisa serve para mapear a realidade, não para criá-la. Caberá sempre ao eleitor a palavra final.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

A mulher na urna e o pecado de pensar

 



Diz o ditado que a língua é o chicote do corpo, mas há dias em que ela funciona como o raio-X da alma. Quando Paulo Figueiredo limpou a garganta para vociferar que "mulher vota estatisticamente mal", e Valdemar Costa Neto, com a complacência de quem comenta o futebol no botequim, soltou que "mulher arruma enguiço com 20", nenhum dos dois sofreu um lapso linguístico. Sabiam exatamente o que faziam.

Ao conquistarem o voto, as mulheres cometeram a audácia de invadir feudos que os homens guardavam a sete chaves. Veio a independência financeira, veio a autonomia, e a soberania masculina — vendida durante séculos como lei natural — desmoronou.

Hoje, a extrema direita global padece de uma profunda nostalgia do século XIX. O grande projeto que ganha corpo em nichos radicais não é apenas geopolítico; é doméstico. Para que o mundo volte a fazer sentido na cabeça desses senhores, a mulher precisa deixar de ser cidadã e voltar a ser paisagem.

Nos Estados Unidos, essa utopia regressiva atende pelo nome de "voto por família". A ideia é dar um único voto por casa, exercido, claro, pelo "chefe". Como rasgar a Constituição americana é quase impossível, o plano avança pelas beiradas com a SAVE Act. Sob o pretexto de excluir imigrantes não cidadãos, a proposta vai criar barreiras burocráticas para quem mudou de sobrenome ao casar ou divorciar — ou seja, cerca de 80% das mulheres. Num país onde o voto não é obrigatório, o cansaço da fila é a arma perfeita para silenciar milhões de eleitoras.

No Brasil, essa tese ganha força nos altares e nichos patriarcais. Para esses grupos, o voto autônomo da mulher representa uma insubordinação metafísica. Se ela pensa por si mesma diante da urna, comete o pecado da discórdia. A harmonia do lar exigiria, portanto, a anulação da autonomia intelectual feminina.

Ouvir que "mulher não sabe votar" em pleno século XXI é voltar a um passado distante. São os mesmos velhos argumentos: falta de capacidade intelectual, ausência de aptidão para o comando e excesso de emoção.

O diagnóstico real por trás do pânico desses homens é simples: as mulheres tornaram-se independentes e, para o desespero do status quo, incontroláveis. Perder o controle sobre o bolso e o voto alheio causa vertigem. No fundo, eles temem a equivalência. Temem que elas, um dia, governem o jogo por completo. E para quem passou a vida inteira no topo de um poleiro artificial, a igualdade de condições sempre vai parecer o fim do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O tempo passa, torcida brasileira. Agora não adianta chorar!


 


A cada eliminação, abre-se a temporada nacional de caça às bruxas. Apontam-se dedos e a sentença é proferida com o fígado: "Faltou raça". É um veredicto cômodo, mas preguiçoso. Assim como na vitória os louros não são de um único herói, na derrota não há naufrágio sem responsabilidade compartilhada.

 

Nutrimos a ilusão de um direito divino ao topo do pódio. Das 22 Copas desde 1930, cinco são nossas. No entanto, Alemanha e Itália têm quatro; Argentina, três; França e Uruguai, duas; Inglaterra e Espanha, uma. No universo de 211 países da FIFA, apenas oito ergueram a taça.

 

Houve um tempo, é verdade, em que a nossa terra brotava craques como capim. Jogávamos por instinto, e o mundo assistia, estupefato. Hoje, no entanto, a nossa peneira já não se mostra tão pródiga e o cenário mudou drasticamente. O futebol virou uma engrenagem financeira bilionária. Empresas de material esportivo e corporações globais transformaram o esporte em uma vitrine de luxo; garimpam-se talentos nos cinco continentes antes mesmo que eles aprendam a amarrar as chuteiras sozinhos. O resultado? O talento mundial concentra-se nos clubes europeus e, de quatro em quatro anos, essa legião retorna para defender suas pátrias. Antigamente, o Brasil fazia escola; hoje, assistimos à França, à Alemanha, à Espanha e à Inglaterra ditando o ritmo e o tom da modernidade.

 

As grandes potências do futebol não jogam dados com o destino. Elas se preparam com a paciência dos monges. O ciclo dura quatro anos no mínimo, com o treinador vigiando o sono, as lesões, a musculatura e o gráfico tático de cada atleta. Treina-se o imponderável: o pênalti no último minuto, a inferioridade numérica, a bola parada salvadora. Para vencer uma Copa moderna, já não basta reunir talentos por alguns meses e esperar que o peso da camisa resolva. A lógica pune o amadorismo. Enquanto a Argentina pensava nos franceses, nós parecíamos despreparados para o rigor tático do Japão.

 

Não faltou esforço aos nossos atletas, mas estabilidade. Nos bastidores, a CBF viveu escândalos, trocas sob suspeita e uma dança das cadeiras com quatro técnicos em um único ciclo — quatro filosofias conflitantes. A fragilidade ruiu de vez quando o comando se viu pressionado a convocar um jogador ainda baleado sob o ultimato silencioso de que, sem Neymar, qualquer fracasso seria de sua culpa exclusiva. Em um ambiente asfixiado pelo medo, passar de fase já era lucro.

 

O apito final da última eliminação ainda ecoa, mas a vida exige que limpemos as chuteiras. É hora de seguir em frente, guardando no peito o orgulho das glórias do passado — que ninguém nos tira —, mas limpando os olhos para enxergar o presente com a lucidez necessária. O renascimento do nosso futebol não virá de um milagre ou de um drible salvador; virá da competência, do planejamento e do trabalho silencioso. Que venha 2030, não com a soberba de quem se acha dono do mundo, mas com a humildade e o brio de quem quer reaprender a conquistá-lo.

 

domingo, 5 de julho de 2026

A Vila Gato e a Copa do Mundo

 



Dizem que saudade não tem idade, e eu concordo. Basta um apito final no último jogo do Brasil para que eu seja sumariamente arremessado de volta aos meus onze anos. Fecho os olhos e lá estou: na Vila Gato, o palco sagrado das minhas traquinagens de infância e pré-adolescência.

 

Para quem não conheceu, a Vila Gato ficava ali perto de casa, na Rua Embaixador Pedro de Toledo — logo à esquerda de onde o morro morre, um respiro antes da ponte sobre o ribeirão. Aquele pedaço de chão era o nosso parque de diversões particular. O nome peculiar, reza a lenda, vinha do hábito macabro de um morador que caçava felinos para o almoço. Eram tempos em que a sensibilidade ecológica e o respeito aos animais passavam longe dos debates públicos. Se a história era fato ou puro folclore, até hoje não sei. Mas o nome pegou.

 

O rio nos dava tudo. Tinha a Prainha e o Porto do Luca, onde a gente desafiava a correnteza e nadava até os dedos enrugarem, além dos cantos certos onde os peixes sempre fisgavam. Logo ao lado, um campinho de gramado rebelde e irregular testemunhava nossas peladas épicas. Quando a noite caía, o ponto de encontro era um velho poste de madeira, deitado estrategicamente no canto do muro. Ali, se surgisse um violão, a gente soltava a voz; se não, a diversão era desfiar histórias de assombração ou correr até cansar: latinha, pega-pega e balança-caixão. Que tempo bom.

 

Hoje, quem passa por lá encontra outra geografia. O casario de um lado resiste, embora maquiado por reformas e reconstruções. Já o outro lado, que margeava o ribeirão, sumiu do mapa: foi desapropriado para dar passagem ao progresso, hoje batizado de Avenida dos Italianos.

 

Mas, afinal, o que a Vila Gato tem a ver com a Copa do Mundo?

 

Corria o ano de 1966. Estávamos todos no campinho quando, vindo da casa de Seu Nelson e Dona Abigail, do outro lado da rua, o som de um rádio invadiu o ar. Era a estreia do Brasil. No exato instante em que a rede balançou com o gol brasileiro contra a Bulgária, uma sinfonia de estalos de caramurus pipocou pelo bairro. Tomados pelo fervor patriótico, estufamos o peito e entoamos o hino da nossa soberania, herdado da conquista de 1958: “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem possa...”

 

Mal sabíamos que os rojões daquele dia seriam os únicos. A nossa "seleção de ouro" tropeçou nas duas partidas seguintes e voltou mais cedo para casa, deixando o campinho em silêncio.

 

Até aquela, o torneio atendia pelo pomposo nome de “Taça do Mundo”. Depois daquele ano, misteriosamente, virou “Copa”. Na minha cabeça, aquilo pareceu uma retaliação mesquinha da mídia internacional: “Quem esses sul-americanos pensam que são para decretar que a taça é deles?”

 

Ora, romanticamente falando, o correto era manter a tradição. O termo original, nascido na França, era Coupe du Monde. E coupe, em bom português, sempre foi e sempre será, literalmente, taça.

 

Diz a história que, com a chegada das transmissões ao vivo da TV na Copa de 1970 e pela forte influência, onde se anunciava World Cup ou Copa del Mundo, o vocábulo estrangeiro acabou engolindo o nosso. E, para que a nossa rendição à supremacia linguística de fora não ficasse tão feia, nós, brasileiros, criamos um jeitinho: "Copa" virou o nome do campeonato; "Taça", o objeto de desejo erguido pelos campeões.

 

Aquela tarde dourada no campinho já completou sessenta anos. A Taça mudou de nome, a Vila Gato virou recordação na memória da cidade. Mas, curiosamente, quando o juiz apita o fim de um jogo da Seleção na televisão, o cheiro do ribeirão quase limpo volta e parece que foi ontem.