Dizem que saudade não tem
idade, e eu concordo. Basta um apito final no último jogo do Brasil para que eu
seja sumariamente arremessado de volta aos meus onze anos. Fecho os olhos e lá
estou: na Vila Gato, o palco sagrado das minhas traquinagens de infância e
pré-adolescência.
Para quem não conheceu, a
Vila Gato ficava ali perto de casa, na Rua Embaixador Pedro de Toledo — logo à
esquerda de onde o morro morre, um respiro antes da ponte sobre o ribeirão.
Aquele pedaço de chão era o nosso parque de diversões particular. O nome
peculiar, reza a lenda, vinha do hábito macabro de um morador que caçava
felinos para o almoço. Eram tempos em que a sensibilidade ecológica e o
respeito aos animais passavam longe dos debates públicos. Se a história era
fato ou puro folclore, até hoje não sei. Mas o nome pegou.
O rio nos dava tudo. Tinha a
Prainha e o Porto do Luca, onde a gente desafiava a correnteza e nadava até os
dedos enrugarem, além dos cantos certos onde os peixes sempre fisgavam. Logo ao
lado, um campinho de gramado rebelde e irregular testemunhava nossas peladas
épicas. Quando a noite caía, o ponto de encontro era um velho poste de madeira,
deitado estrategicamente no canto do muro. Ali, se surgisse um violão, a gente
soltava a voz; se não, a diversão era desfiar histórias de assombração ou
correr até cansar: latinha, pega-pega e balança-caixão. Que tempo bom.
Hoje, quem passa por lá
encontra outra geografia. O casario de um lado resiste, embora maquiado por
reformas e reconstruções. Já o outro lado, que margeava o ribeirão, sumiu do
mapa: foi desapropriado para dar passagem ao progresso, hoje batizado de
Avenida dos Italianos.
Mas, afinal, o que a Vila
Gato tem a ver com a Copa do Mundo?
Corria o ano de 1966.
Estávamos todos no campinho quando, vindo da casa de Seu Nelson e Dona Abigail,
do outro lado da rua, o som de um rádio invadiu o ar. Era a estreia do Brasil.
No exato instante em que a rede balançou com o gol brasileiro contra a Bulgária,
uma sinfonia de estalos de caramurus pipocou pelo bairro. Tomados pelo fervor
patriótico, estufamos o peito e entoamos o hino da nossa soberania, herdado da
conquista de 1958: “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem
possa...”
Mal sabíamos que os rojões
daquele dia seriam os únicos. A nossa "seleção de ouro" tropeçou nas
duas partidas seguintes e voltou mais cedo para casa, deixando o campinho em
silêncio.
Até aquela, o torneio atendia
pelo pomposo nome de “Taça do Mundo”. Depois daquele ano, misteriosamente,
virou “Copa”. Na minha cabeça, aquilo pareceu uma retaliação mesquinha da mídia
internacional: “Quem esses sul-americanos pensam que são para decretar que a
taça é deles?”
Ora, romanticamente falando,
o correto era manter a tradição. O termo original, nascido na França, era Coupe
du Monde. E coupe, em bom português, sempre foi e sempre será,
literalmente, taça.
Diz a história que, com a
chegada das transmissões ao vivo da TV na Copa de 1970 e pela forte influência,
onde se anunciava World Cup ou Copa del Mundo, o vocábulo estrangeiro
acabou engolindo o nosso. E, para que a nossa rendição à supremacia linguística
de fora não ficasse tão feia, nós, brasileiros, criamos um jeitinho:
"Copa" virou o nome do campeonato; "Taça", o objeto de
desejo erguido pelos campeões.
Aquela tarde dourada no campinho já completou
sessenta anos. A Taça mudou de nome, a Vila Gato virou recordação na memória da
cidade. Mas, curiosamente, quando o juiz apita o fim de um jogo da Seleção na
televisão, o cheiro do ribeirão quase limpo volta e parece que foi ontem.






