Nino Marcati
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
domingo, 25 de outubro de 2026
Os candidatos passam. Os amigos ficam.
Há conversas que
precisamos ter, não para discutir quem ganhou ou perdeu uma eleição, mas para
refletir sobre o comportamento que tivemos durante a campanha. Afinal, na
tentativa de defender nossas convicções, será que não ultrapassamos alguns
limites?
É com você que
votou em Flávio Bolsonaro ou em Lula e, na ânsia de conquistar votos para seu
candidato, exagerou na dose, que quero ter uma conversa sincera.
Faço questão de
esclarecer que escrevi este texto antes da votação, para que minhas palavras
não fossem influenciadas pelo resultado das urnas. O artigo foi publicado no meu
blog, onde é possível conferir a data para quem desejar conferir.
Portanto, meu foco
não são os candidatos nem o resultado da eleição, mas o comportamento de alguns
eleitores, tanto lulistas quanto bolsonaristas.
Vamos começar pelo
básico: todo cidadão tem o direito de escolher livremente em quem votar. É
natural que João, eleitor de Flávio Bolsonaro, tente convencer Antônio, que
prefere Lula, a mudar de ideia. E vice-versa. Isso faz parte da democracia.
O problema começa
quando João, sem argumentos suficientes, dispara:
— Lula é ladrão, e
quem vota nele também é! Você é cego? Não enxerga o que está acontecendo?
Antônio, ofendido,
devolve:
— Quem vota em
Bolsonaro é fascista! É miliciano! É idiota! É gado!
Pronto! A discussão
deixa de ser sobre política e se transforma em uma troca de ofensas. Cada um
tenta ferir o outro, como se humilhar o adversário fosse uma maneira de provar
que está certo.
O ambiente fica
desagradável, os ressentimentos se acumulam e, muitas vezes, a discussão
termina afastando pessoas que convivem há anos. Afinal, João e Antônio podem
ser amigos de longa data, parentes ou colegas de trabalho.
Como chegamos ao
ponto de permitir que uma divergência eleitoral coloque tudo isso em risco?
Não pretendo
condenar quem agiu dessa maneira. Vivemos um momento particular da história
política brasileira. As transformações tecnológicas mudaram a maneira como
recebemos e compartilhamos informações. Em segundos, uma mentira pode alcançar
milhares de pessoas, assim como uma informação verdadeira. Nesse ambiente, as
emoções frequentemente se sobrepõem à razão.
Mas vale uma
reflexão: o que houve de tão equivocado nesta campanha?
Em vez de
apresentar as qualidades do próprio candidato, muita gente preferiu atacar o
adversário e desqualificar quem pensa diferente. Como se apontar os defeitos do
outro fosse suficiente para demonstrar as virtudes daquele que defendemos.
Dizemos defender a
democracia, mas nem sempre respeitamos o direito de alguém pensar de maneira
diferente. Queremos liberdade para expressar nossas opiniões, mas, quando
contrariados, esquecemos que essa liberdade também pertence ao outro.
Democracia não é a
obrigação de concordar. É a capacidade de conviver com a discordância.
Por isso, pergunto:
faz sentido romper uma amizade de décadas por causa de uma disputa eleitoral?
Faz sentido dividir uma família por causa de um candidato?
Afinal, o que é
mais importante: a família, as amizades ou quem vai ocupar a Presidência da
República?
Passada a eleição,
o vencedor e o derrotado seguirão suas vidas, enquanto nós continuaremos
enfrentando os desafios cotidianos. Teremos contas para pagar, problemas para
resolver, alegrias para compartilhar e dificuldades para superar.
E quem estará ao
nosso lado? Os amigos e familiares, justamente aqueles que corremos o risco de
afastar por causa de uma discussão política.
O candidato que
defendemos talvez jamais saiba que existimos. Já o amigo que ofendemos poderá
guardar por muito tempo a mágoa de nossas palavras.
Por isso,
independentemente de quem venceu ou perdeu, deixo uma sugestão: se você
reconhece que passou dos limites, dê o primeiro passo.
Procure aquele
amigo de quem se afastou. Retome o contato. Peça desculpas pelas ofensas, mesmo
que continue convencido de que estava certo em suas opiniões políticas. Uma
coisa não tem nada a ver com a outra.
Reúna a família e
mostre que as diferenças políticas não precisam destruir os laços afetivos.
Não é preciso mudar
de opinião para fazer as pazes. É preciso reconhecer que o outro também tem o
direito de pensar diferente.
Isso é respeito.
Isso é civilidade. E isso também é uma forma de amor: amor ao próximo.
Mas não confunda
essa reflexão com um convite ao afastamento da política. Muito pelo contrário!
Como diz uma frase
bastante conhecida, quem não se interessa por política acaba sendo governado
por quem se interessa.
Precisamos
participar, discutir ideias, fiscalizar governantes e legisladores, cobrar
resultados e defender aquilo em que acreditamos.
Quem se identifica
com a direita ou com o conservadorismo deve conhecer melhor seus princípios e
propostas. Quem se identifica com a esquerda ou com o progressismo deve fazer o
mesmo. Mais do que repetir palavras de ordem, precisamos compreender as ideias
que defendemos, distinguir fatos de boatos e avaliar propostas e resultados.
Uma democracia
saudável exige uma direita e uma esquerda capazes de exercer seus papéis.
Quando uma força política assume o governo, a outra precisa ter condições de
fiscalizar, apontar falhas e apresentar alternativas. O equilíbrio entre
governo e oposição é fundamental para o aperfeiçoamento das instituições.
Não precisamos
concordar em tudo. Precisamos aprender a discordar sem transformar o adversário
político em inimigo pessoal. Afinal, ninguém está cem por cento certo, assim
como ninguém está cem por cento errado. Como diz o velho ditado: cada cabeça é
uma sentença.
O amadurecimento
político de uma sociedade não se mede apenas pelo resultado das eleições, mas
também pela capacidade de seus cidadãos de participar, cobrar, propor e
contribuir para melhorar as instituições.
Se você acredita
que pode contribuir diretamente para melhorar a política, filie-se a um
partido, participe das discussões e considere disputar uma eleição. Se não tem
essa vocação, organize-se com outras pessoas, participe de movimentos, utilize
as redes sociais e apoie candidatos que realmente representem suas ideias.
A tecnologia nos
oferece inúmeras ferramentas para isso.
A eleição não pode
ser o começo e o fim da participação política, resumida ao momento de votar a
cada dois anos. Ela deve fazer parte de um processo contínuo de amadurecimento
democrático.
Construir um país
mais justo e próspero dá trabalho. Exige
participação, responsabilidade, diálogo e disposição para ouvir quem pensa
diferente.
Ficar apenas
atirando pedras não resolve absolutamente nada.
Podemos gastar
horas tentando provar que nosso candidato é melhor do que o do outro. Mas, se
essa energia não se transformar em participação, fiscalização e propostas
concretas, o que teremos conseguido além de alimentar ressentimentos?
Talvez João e
Antônio continuem discordando sobre política. Na próxima eleição, podem até
estar novamente em lados opostos. Isso não precisa mudar. O que precisa mudar é
a maneira como lidam com suas diferenças.
Que João defenda
suas ideias sem ofender Antônio. Que Antônio conteste João sem desqualificá-lo.
E que ambos compreendam que uma amizade construída ao longo de tantos anos não
deveria ser sacrificada por uma disputa eleitoral.
Afinal, as eleições
se repetem, os candidatos mudam e os governos terminam. A vida, porém, segue
seu curso, e não sabemos quanto tempo teremos para desfrutar das pessoas que amamos.
Por isso, deixo
duas perguntas para sua reflexão:
Vale mesmo a pena
ganhar uma discussão política e perder um amigo?
Vale a pena vencer
uma eleição e contribuir para dividir a própria família?
Pense nisso.
Os candidatos
passam. Os governos passam. As eleições passam.
Mas os vínculos que
construímos ao longo da vida merecem durar muito mais do que uma disputa
política.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
O algoritmo de 1984 e a resistência à cegueira
Quando observo as redes sociais, tenho a sensação de que um Grande Líder exerce controle absoluto sobre parte das pessoas que por ali transitam, influenciando suas opiniões, seus comportamentos e até a maneira como interpretam a realidade.
Imagino que, em
suas casas, nos locais de trabalho e nos espaços de lazer, por meio de
computadores e celulares equipados com câmeras e microfones, essas pessoas
recebam, ininterruptamente, mensagens destinadas a orientar seus pensamentos e
comportamentos, enquanto seus sons, imagens e movimentos são monitorados.
Percebo que a
língua portuguesa, tão rica em palavras e possibilidades de expressão, vem
sendo reduzida, como se o vocabulário dessas pessoas estivesse sendo
progressivamente podado. Com menos palavras e ideias cada vez mais repetitivas,
torna-se mais difícil formular pensamentos críticos, questionar as orientações
recebidas e, sobretudo, rebelar-se contra elas.
Vejo também a
aceitação voluntária de contradições evidentes, como se duas crenças opostas
pudessem ser verdadeiras ao mesmo tempo. É a submissão às três afirmações
perturbadoras: “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força”.
Essas pessoas
parecem acreditar na verdade proclamada pelo Grande Líder, que, paradoxalmente,
trabalha para apagar a própria verdade. Quer registros históricos, jornais e
documentos reescritos para eliminar fatos inconvenientes, ocultar erros e
crimes. O passado é alterado para que corresponda ao discurso do presente, como
se a realidade pudesse ser modificada pela simples imposição de uma narrativa.
É como se essas
pessoas fossem submetidas diariamente aos obrigatórios “Dois Minutos de Ódio”,
durante os quais a raiva e as frustrações reprimidas são direcionadas contra os
inimigos do Grande Líder. A indignação deixa de ser fruto da reflexão e passa a
ser um instrumento de manipulação, alimentando a hostilidade contra aqueles que
ousam pensar de maneira diferente.
Mas também vejo
pessoas conscientes dessas manipulações. Elas travam uma luta de resistência,
tentando impedir que a mentira se consolide como verdade. Publicam mensagens,
apresentam fatos e procuram despertar consciências, embora nem sempre sejam
lidas, compreendidas ou sequer consideradas por aqueles que permanecem presos à
narrativa dominante.
Quem leu o romance 1984,
de George Orwell, percebeu similaridades e se lembra de que, no final, todas as
tentativas de luta de preservar a individualidade dos cidadãos de Oceania
fracassam. Submetidos a torturas e à lavagem cerebral, os resistentes passaram,
também, a amar o Grande Irmão.
O livro é um alerta
de Orwell: a vitória do totalitarismo não acontece apenas quando as pessoas
obedecem por medo, mas quando perdem a capacidade de reconhecer a própria
opressão e passam a amar aquilo que as domina.
Particularmente,
não acredito que estejamos condenados a repetir o mesmo destino. Tampouco
acredito que a cegueira que parece dominar parte do povo brasileiro seja capaz
de prevalecer indefinidamente sobre a realidade, o conhecimento, a liberdade e
a democracia.
Afinal, o maior
problema não está na tentativa de nos impor mentiras, mas em quando deixamos de
procurar a verdade — ou, pior, quando passamos a amar quem nos engana.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Brasil e Argentina: por que a "receita choque" não se aplica ao nosso país
Alguns brasileiros defendem para o Brasil as mesmas medidas — ou até outras mais radicais — adotadas na Argentina. Será que seria um bom negócio? Estaria o país preparado para enfrentar as consequências?
Em primeiro lugar,
cabe perguntar: o Brasil vive a mesma realidade que a Argentina enfrentava
antes da posse de Javier Milei?
Na Argentina, a
inflação havia atingido níveis extremos; no Brasil, apesar dos desafios, ela
está sob controle.
As reservas
internacionais argentinas eram de aproximadamente US$ 21,5 bilhões, contra
cerca de US$ 370 bilhões do Brasil atual.
A dívida externa
argentina girava em torno de US$ 280 bilhões, mais de 13 vezes o valor de suas
reservas. No Brasil, o montante está na casa dos US$ 398 bilhões, pouco mais do
que o valor de nossas reservas.
O risco-país
argentino havia chegado a 4.281 pontos-base. O brasileiro, neste mês, está em
112 pontos-base, um dos menores níveis dos últimos anos.
As diferenças são
expressivas. Não dá para comparar as duas situações como se fossem
equivalentes. O Brasil enfrenta problemas fiscais e juros elevados, mas não
depende de um socorro do Fundo Monetário Internacional como a Argentina. Além
disso, o país passou de devedor do FMI em 2005 a credor externo líquido em 2009,
condição que manteve a partir de então, embora isso não signifique que tenha
deixado de possuir dívida externa, porém não mais considerada impagável como no
início deste século.
Antes da posse de
Javier Milei, em dezembro de 2023, a Argentina devia cerca de US$ 44 bilhões ao
FMI. Atualmente, sua dívida com o Fundo gira em torno de US$ 57 bilhões,
mantendo o país na posição de maior devedor da instituição.
Enquanto correntes
liberais defendem que o rigor fiscal argentino poderia trazer benefícios ao
Brasil, especialistas alertam que as diferenças estruturais entre os dois
países tornam arriscada a simples importação desse modelo, com possíveis
consequências recessivas e sociais.
Seus defensores do
modelo argentino apontam benefícios como a redução drástica do déficit público,
o controle mais rigoroso das despesas estatais, o combate a privilégios e a
diminuição da burocracia, com o objetivo de estimular investimentos privados.
Por outro lado,
economistas e especialistas em políticas sociais alertam para os riscos de
ajustes extremos: queda acentuada do consumo interno, aumento da pobreza e
perda do poder aquisitivo. Também apontam que uma flexibilização excessiva das
relações de trabalho pode ampliar a informalidade e a vulnerabilidade dos
trabalhadores, enquanto cortes severos de gastos podem comprometer
universidades, ciência e infraestrutura.
Para o mercado
financeiro e os investidores internacionais, medidas duras de ajuste são vistas
como um remédio amargo, porém necessário, para melhorar a sustentabilidade da
dívida pública e criar condições para o crescimento futuro.
Para uma parcela
expressiva da população e para especialistas em desenvolvimento, entretanto, o
custo humano e social pode ser alto demais, comprometendo conquistas históricas
sem que isso represente, necessariamente, a melhor solução para os problemas
fiscais brasileiros. Afinal, o Brasil não enfrenta o mesmo quadro de colapso
econômico e financeiro que a Argentina vivia antes de Milei.
Qual seria, então,
o melhor caminho para o Brasil?
A orientação
defendida por muitos analistas econômicos e por organismos internacionais, como
o FMI e o Banco Mundial, passa pela sustentabilidade fiscal e pelo aumento da
produtividade. Isso exige buscar o equilíbrio das contas públicas de maneira
consistente e crível, enfrentando o crescimento estrutural das despesas
obrigatórias e melhorando a qualidade dos gastos.
Essa tarefa, porém,
não depende apenas da vontade do futuro presidente. Exige diálogo e cooperação
entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, respeitadas suas
competências constitucionais.
Uma política fiscal
mais consistente pode contribuir para reduzir as pressões inflacionárias e
criar condições para que o Banco Central diminua os juros. Também será
fundamental implementar eficientemente a Reforma Tributária, simplificando o
sistema e reduzindo distorções que oneram os investimentos e as exportações.
O que não faz
sentido é apostar em alternativas drásticas sem considerar seus efeitos sobre
os menos favorecidos. Cortes profundos e indiscriminados nos gastos públicos,
ainda que apresentados como necessários ao equilíbrio fiscal, podem comprometer
serviços essenciais, ampliar desigualdades e prejudicar o próprio
desenvolvimento econômico.
O Brasil deixa de
arrecadar R$ 620,8 bilhões por ano com subsídios e desonerações fiscais, o que
equivale a mais de 22% de toda a receita esperada. Diante desse cenário, por
exemplo, um corte gradual e linear de 10% ao ano nesses benefícios às empresas
não seria a alternativa mais viável e responsável para equilibrar as contas
públicas? Além de restabelecer a igualdade de condições entre as empresas, essa
medida propiciaria uma redução generalizada na carga tributária, sem afetar os
necessários benefícios sociais, a previdência, a Saúde e a Educação.
Medidas
responsáveis, aplicadas com inteligência e sensibilidade social, podem colocar
o Brasil em condições de competir com as economias mais dinâmicas do mundo
emergente, como China e Índia, integrantes do BRICS.
Diante das economias
desenvolvidas, como as dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, o país também
poderá fortalecer sua credibilidade internacional e consolidar sua imagem como
um destino seguro e atraente para investimentos.
O Brasil merece. E
todos os brasileiros também.
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Sonhar custa caro. Desistir custa um sonho.
Vinha eu de volta para casa, depois do nosso encontro de 45 anos
de formados e, como em outras ocasiões, comecei a pensar no texto que
refletiria, sob a minha perspectiva, os momentos vivenciados.
Pensei em escrever sobre a minha fala no “Esta é sua vida”, do velho
Maurício, mas sem repetir a mesma estrutura. Faltava-me, porém, aquela pegada
que favorece as conexões e dá liga ao texto.
Ao passar por Pouso Alegre, apelei para São Fernando, protetor dos
desamparados. E nada!
Ao passar por Borda da Mata, lembrei-me de Santo Eduardo e de que,
dois dias depois, em 13 de outubro, seria o dia dele. Arrisquei. Neca de
pitibiribas!
Ao passar diante daquele meninão encostado na baita porteira na
entrada de Ouro Fino, apelei para São Narciso, a quem se atribui a
transformação da água em óleo para uso nas lamparinas do templo. Roguei para
que me desse uma luz.
Logo na primeira reta da estrada, alcancei um caminhão que trazia,
no para-choque traseiro, uma frase até então desconhecida para mim: “Sonhar
custa caro. Desistir custa um sonho.”
Iluminado, gritei:
— Bingo! É com esta que eu vou!
Quando prestei vestibular para o Inatel, entre tantos sonhos, o
maior era me tornar engenheiro. Mal as aulas começaram, porém, um novo sonho brotou
no meio: criar uma escola. Quando me formei, o embrião da minha escola já
estava criado. O sonho intrometido se realizaria em 1986.
Durante muitos anos, imaginei que, apesar de ter realizado o sonho
de criar uma escola, o de ser engenheiro não havia se concretizado. Cheguei a
me perguntar se os cinco anos dedicados ao Inatel teriam valido a pena. Afinal,
nunca fui engenheiro de fato.
Até que, um belo dia, vasculhando uma gaveta reservada a
documentos importantes, deparei-me com meu diploma. Foi quando me dei conta de
que lá estava escrito, com todas as letras: Engenheiro Eletricista.
Lembrei-me também de ter solicitado, logo depois de receber o diploma, meu
registro no CREA, que emitiu minha carteira profissional. Enfim, eu não exercia
a engenharia, mas era engenheiro de direito.
Aliás, sempre soube que a Engenharia é um curso reconhecido por
desenvolver forte capacidade analítica, raciocínio lógico e habilidade para
resolver problemas complexos. Essas competências são tão valorizadas que, ao
pesquisar, descobri que muitos formados na área acabam trabalhando em outros
setores, levando consigo, acima de tudo, o chamado "perfil de
engenheiro". Acionei o lé com cré e pensei: quantas decisões devo ter
tomado com base nos estudos no Inatel sem que eu percebesse?
Depois disso, mandei emoldurar meu diploma. Lá está ele, na parede
do escritório-biblioteca da minha casa. Até hoje, não passa um dia sem que eu
olhe para ele pelo menos uma vez, com muito orgulho. Mas o caso não se
encerrava aqui.
Passei a resgatar, de diferentes maneiras, a minha ligação com o
Inatel. Na primeira viagem que fiz a São Lourenço, em 2010, aproveitei a
passagem por Santa Rita do Sapucaí para levar meus filhos para conhecer o
Inatel, a praça central e a república onde morei.
Senti a necessidade de me reconectar com os amigos com os quais
convivi por quase cinco anos sobre o mesmo teto: Álvaro, Moysés e Thiago. Nos encontramos em janeiro e dezembro de 2016
e novamente em outubro de 2017. O próximo passo era me reaproximar dos demais
colegas.
Em outubro de 2018, participei do encontro de 37 anos de formados.
Desde então, estive presente em todos os encontros. Só faltei em 2023, porque a
data coincidiu com uma viagem adiada desde a época da pandemia e, na
redefinição das datas, não tive muitas possibilidades de escolha.
Em todos esses encontros, era evidente, entre os presentes, o
orgulho de ser engenheiro do Inatel. Todos eles estão registrados em vídeos e
fotos, devidamente armazenados e catalogados.
Com meu sonho de ser engenheiro realizado com todas as pompas e
circunstâncias, a minha história não foi truncada.
O Inatel não havia sido um acidente de percurso, como tantas vezes
cheguei a imaginar. Fez parte da minha vida pessoal e profissional. Penso que
nada da nossa história deve ser renegado ou esquecido. O Inatel foi o lugar
onde vivi, aprendi, errei, acertei, fiz amigos, enfrentei desafios e,
principalmente, comecei a construir a pessoa que viria a ser na transição entre
a juventude e a vida adulta.
Minha vida profissional tomou outro caminho, mas isso não
aconteceu por acaso. Esse caminho foi construído a partir de tudo aquilo que
veio antes.
Ao reconhecer a importância do Inatel na minha história,
restabeleci minha identidade.
E, ao participar dos nossos encontros, reconectei-me com um
passado que eu pensava não ser meu.
Encerro recorrendo a Nietzsche, para quem o amor ao destino — o amor
fati — é uma expressão da grandeza humana. Trata-se de amar a vida
exatamente como ela é, sem desejar que nada tenha sido diferente: nem no
passado, nem no presente, nem na eternidade.
Não se trata de conformismo, mas de uma atitude ativa diante da
existência: amar a própria história tão intensamente a ponto de transformar o
peso do destino em matéria-prima para a liberdade e a soberania pessoal.
Concluo dizendo que viver é um ato onde a realidade, apesar dos
nossos sonhos, se impõe. Os custos da nossa existência são cobrados ou
recompensados independentemente das entregas. Sonhar e não desistir é pagar
para ver a realidade sonhada. Já o custo da desistência de um sonho é
impagável.
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Os resultados da eleição mudarão alguma coisa na política brasileira?
Um lado gostou, o
outro detestou. E agora, José?
Para o filósofo
estoico Sêneca, os acontecimentos em si são neutros, não sendo inerentemente
bons nem maus. O que transforma um fato ou uma notícia em algo “bom” ou “ruim”
é o nosso julgamento, a maneira como o interpretamos. Já para o filósofo
racionalista Gottfried Leibniz, que investigou como o bem e o mal coexistem no
mundo, um acontecimento negativo pode fazer parte de um contexto necessário
para que um bem maior seja compreendido ou alcançado.
Nas últimas
eleições, o campo conservador foi, sem dúvida, o grande vencedor. A esquerda
não gostou, mas há um aspecto que merece destaque sob a perspectiva
democrática: a direita e a extrema-direita poderão ser reconhecidas e
identificadas com maior clareza pelo eleitorado. E isso é muito bom. Até bem
pouco tempo, boa parte da direita fingia-se de morta ou se dizia de centro,
posição que, em tese, permitiria pender para um lado ou para o outro, sem
cerimônia.
Nenhuma democracia
se fortalece sem correntes políticas relevantes, capazes de disputar o poder e
apresentar projetos distintos para o país. O essencial é que todas respeitem
rigorosamente as regras do jogo democrático.
No campo
progressista, os resultados das eleições legislativas mostram que esse grupo
conseguiu preservar seu espaço: não perdeu terreno e ainda ampliou a
representação feminina. Isso não significa, porém, que possa se acomodar. Para
os próximos pleitos, a esquerda precisará rever práticas, estratégias e
conceitos.
Já o grande
perdedor foi o Centrão. Partidos tradicionais desse bloco, como União Brasil,
PP, MDB, Republicanos e PSD, encolheram em relação a 2022. Perdeu cadeiras na
Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Esse encolhimento,
contudo, não torna o Centrão insignificante. Ele continuará sendo fundamental
para a formação de maiorias no Congresso Nacional e, por isso, seguirá no
centro das articulações e disputas presidenciais. Só resta saber até que ponto
a direita se sujeitará aos caprichos do grupo.
Ao perder força, o
Centrão abre espaço para uma mudança institucional relevante: o Parlamento
poderá, daqui em diante, expor com mais transparência as reais posições e
orientações ideológicas de seus integrantes. Desde a redemocratização, a
política brasileira convive com alianças pragmáticas que frequentemente
embaralham as fronteiras ideológicas e dificultam a responsabilização dos que
tomam as decisões. É possível que esse movimento também contribua para uma
redução significativa do número de partidos. Que assim seja!
Quanto mais claras
forem as posições dos partidos e de seus representantes, maior será a
capacidade do eleitor de avaliar, comparar e cobrar. Afinal, só assim a escolha
nas urnas poderá refletir, de fato, o Brasil que cada cidadão deseja construir.
#CongressoNacional
#Eleicoes #Democracia #Eleicoes2026
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Eleição até parece futebol. Mas é muito mais do que isso...
Da largada da campanha eleitoral até a totalização dos votos, a maioria acaba se comportando como se estivesse assistindo, ao vivo ou pela televisão, ao jogo do time do coração contra o maior rival. Algo como Brasil x Argentina ou Palmeiras x Corinthians.
Parece
esquisito, mas torce-se mais pela derrota do adversário do que propriamente
pela vitória do próprio time. Quando o juiz intervém a favor, tudo bem, tudo
certo. Mas, se qualquer decisão é contrária — mesmo que correta —, xinga-se até
a quinta geração da família dele. Festejam-se mais os erros do rival do que os
acertos do próprio time. Às vezes, uma vitória dessas, no meio do campeonato,
chega a ser mais comemorada do que uma classificação final sobre um time
meia-boca.
Na eleição para presidente deste domingo, dia 4, a maioria estava dividida em duas torcidas — e assim continuará até o segundo turno. Se prestarmos atenção ao comportamento delas nas conversas presenciais ou nas redes sociais, perceberemos muita semelhança com aquelas partidas em que ficamos com os nervos à flor da pele.
Pois é.
Mas, na eleição, há uma diferença fundamental no resultado.
No jogo,
o resultado positivo dá alegria para um lado e tristeza para o outro. Meu Nono
Alexandre, segundo meu pai, ouvia os jogos do Palestra Itália com um litro de
cachaça ao lado. Terminada a partida, bebia para comemorar a vitória ou para
chorar a derrota. Ele não me contou o que acontecia em caso de empate, mas
desconfio que bebia para serenar.
Enquanto
o resultado de uma partida de futebol deixa clara a divisão da torcida e cada
jogo é uma nova história, o resultado de uma eleição se estende por quatro
anos. Seus reflexos não atingirão apenas um dos lados, mas ambos — inclusive
aqueles que ficaram em cima do muro. Como consequência, todos se alegram diante
de uma boa governança ou se entristecem em função de políticas erráticas.
Gostando ou não, é a democracia. A maioria decide o futuro.
Não por
acaso, o bastão do poder não fica muito tempo nas mãos de um único grupo.
Quando um lado está no governo, o outro está na oposição. Isso também é
democracia: uma força regula a outra, principalmente se a população se mantiver
alerta. A alternância é uma das melhores ferramentas do processo democrático: o
poder não se torna propriedade permanente de ninguém.
#08/10/2026#





