segunda-feira, 4 de maio de 2026

A Cor que nos Protege, o preconceito que nos fere

 



Se somos ramos de uma mesma raiz ancestral e compartilhamos o mesmo sangue, por que a humanidade floresceu em tantas gradações de tons de pele?

Estamos em plena Festa de São Benedito, a tradicional "Festa de Maio" ou "Festa do 13". Nela, unimos a devoção ao santo negro, protetor dos oprimidos, à memória da abolição da escravidão, ocorrida em 13 de maio de 1888.

Embora o Brasil reconheça que a escravidão é a mancha mais perversa de sua história, um sistema que explorou mais de 4 milhões de africanos por quase quatro séculos, a ferida ainda está longe de cicatrizar. Nas senzalas, sob jornadas exaustivas e castigos cruéis, a sobrevida de um adulto mal chegava aos dez anos após o início do trabalho forçado. Mesmo diante desse horror histórico, ainda testemunhamos o racismo e a ilusão da supremacia branca, como se a concentração de melanina fosse, de alguma forma, um marcador de valor humano.

O senso comum insiste em dividir o mundo em cores: preto para africanos, amarelo para asiáticos, vermelho para indígenas e branco para europeus, utilizando a pigmentação como justificativa para o conceito obsoleto de "raças". No entanto, a genética é categórica: somos 99,9% idênticos.

A ínfima variação de 0,1% é fruto exclusivo da adaptação evolutiva ao longo de milênios. O clima moldou nossa aparência: a pele escura protegeu nossos ancestrais da radiação solar intensa, enquanto a pele clara facilitou a síntese de vitamina D em regiões de baixa luminosidade. Em suma, o tom da pele nunca foi um degrau de hierarquia, mas um ajuste biológico para a sobrevivência em diferentes latitudes.

Como se vê, o racismo carece de qualquer base biológica ou científica; ele é uma construção alimentada por fatores históricos, culturais e psicológicos. Ele se manifesta no preconceito individual e se entranha em leis e instituições. Reconhecer nossa igualdade biológica é o primeiro passo para honrar a história daqueles que vieram antes de nós.

Salve São Benedito!


sábado, 2 de maio de 2026

Unimed e Santa Casa: Uma queda de braço onde o paciente paga o pato

 



Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o Código de Defesa do Consumidor, diante da não renovação de contrato entre um hospital e uma operadora de saúde, o descredenciamento deve ser comunicado com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

No dia 01/05, a Unimed Regional Baixa Mogiana comunicou via aplicativo: “A partir de 01/05/2026, a Santa Casa de Itapira deixou de integrar a rede credenciada da operadora, em razão de rescisão contratual promovida pela própria instituição, em meio às negociações que estavam em andamento.”

Apenas um dia antes, em 30/04, a Irmandade da Santa Casa havia noticiado através da imprensa: “A Santa Casa ressalta que a descontinuidade dos atendimentos decorre exclusivamente do término das negociações contratuais entre as partes. A instituição também informou que permanece aberta ao diálogo e à possibilidade de retomada da parceria, caso haja avanço em futuras tratativas.”

Enquanto a Unimed informou de forma clara que a descontinuidade partiu da Santa Casa, a nota do hospital evitou assumir a autoria da decisão. Diz o velho ditado que “quando um não quer, dois não brigam”. É fácil depreender que, ao declarar que a iniciativa foi da Santa Casa, a Unimed sugere que, por ela, o contrato teria sido renovado. Por outro lado, a Santa Casa condiciona a retomada da parceria ao "avanço das tratativas".

Considerando que o rompimento afetará milhares de pessoas, o esperado de duas instituições responsáveis seria o estabelecimento de um prazo razoável de transição enquanto as negociações prosseguissem. Caso o acordo fosse impossível, o descredenciamento deveria respeitar um tempo hábil para que o consumidor pudesse avaliar suas opções: Continuar com a Unimed (mesmo precisando se deslocar para outras cidades); ou migrar para outro plano de saúde que seja atendido pela Santa Casa.

O que se vê, ao que parece, é uma queda de braço. A Santa Casa busca melhorar a remuneração pelos serviços prestados, enquanto a Unimed prioriza o equilíbrio financeiro de suas operações. Ambas têm o direito de defender seus interesses financeiros, mas não têm o direito de deixar o usuário "pagando o pato" no meio desse fogo cruzado.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Crise Sem Fim: O que resta para a Santa Casa após o rompimento com a Unimed?

 


Quando a Unimed iniciou suas atividades na região, o SUS ainda não existia. Havia uma demanda latente por modelos de assistência médica privada devido à precariedade do sistema público da época. Embora o SUS tenha sido instituído pela CF88, sua consolidação levou mais de uma década.


Nesse contexto, a Unimed expandiu-se para Itapira. O credenciamento de médicos locais e da Santa Casa atraiu empresas da cidade, que passaram a oferecer planos corporativos a seus colaboradores. Em pouco tempo, a Unimed tornou-se a operadora com o maior número de usuários no município.


A crise na Santa Casa, contudo, é crônica. Nos anos 90, o cenário foi marcado pelo embate político de Barros Munhoz contra o corpo clínico: “os médicos detinham o controle não apenas técnico, mas também administrativo da instituição, dificultando o atendimento público”.


Dessa contenda, e como estratégia de longo prazo, nasceu o Hospital Municipal de Itapira. Hoje, a unidade é uma realidade que assegura atendimento gratuito para todos os itapirenses. No entanto, a fragilidade financeira da Santa Casa continuou.


Em 2013, o agravamento da crise levou o Dr. Pacheco e a Dra. Katia a assumirem a gestão com a missão de "colocar a casa em ordem". A nova administração focou em: injeção direta de recursos; articulação política com Barros Munhoz para obter complementos de verba estadual; reformas internas para conter sangrias financeiras.


Uma mudança histórica dessa gestão foi o fim da exclusividade da Unimed. Até então, a Santa Casa não abria espaço para outras operadoras. Novos convênios foram credenciados, diversificando a receita. Contudo, o fôlego foi temporário: os problemas estruturais retornaram.


A nota oficial recentemente divulgada pela Santa Casa sugere que a iniciativa de não renovar o contrato partiu da Unimed, embora deixe as portas abertas para uma futura repactuação. Enquanto isso, muita gente será prejudicada. Os motivos reais por trás do rompimento permanecem nos bastidores.


Diante de um histórico administrativo conturbado e agora desprovida de uma de suas fontes de faturamento mais consistentes, a resiliência da centenária Santa Casa de Itapira passa a ser vista com ceticismo por muitos.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Itapira: A Cidade que Reluz e o Olhar do Cuidador

 



Sou do tempo em que Itapira sofria com faltas de água durante o dia e cortes de energia à noite. Havia até uma quadrinha que a meninada da minha rua entoava: "Itapira, cidade que reluz: de dia falta água, de noite falta luz".

Hoje, felizmente, salvo exceções, o abastecimento de água e energia não sofre cortes sistêmicos. No entanto, a população reclama, com razão, do descuido generalizado. Basta um giro rápido e aleatório pelas ruas para detectar problemas que poderiam ser resolvidos com maior agilidade e eficiência.

A falta d’água da minha infância deu lugar a uma abundância irônica: os diversos vazamentos encontrados pelo caminho. O "precioso líquido", que poderá faltar nos tempos de seca, escorre pelo ralo sem cerimônia.

Já a escuridão daqueles tempos virou um "pisca-pisca" urbano. É difícil trafegar à noite sem notar postes cujas lâmpadas em fim de vida útil sinalizam a urgência de troca. Já presenciei casos em que a substituição excedeu duas semanas de espera.

Até os anos 70, a periferia era chão de terra; enfrentava-se pó, buracos, lama e as famosas "costelas de vaca". Hoje, com quase 100% das ruas pavimentadas, os buracos persistem e, em muitos pontos, o acúmulo de terra faz a poeira se levantar como antigamente.

Na era dos paralelepípedos, era comum ver servidores municipais com pequenos arrancadores retirando o mato entre as pedras. Hoje, mesmo com asfalto, ervas daninhas proliferam nas sarjetas e o mato passa do ponto em espaços públicos.

Não resta dúvida de que as atribuições de um prefeito vão além da zeladoria; sua função é, antes de tudo, cuidar das pessoas. Mas "tenho cá com meus botões" que, quando se cuida mal do básico, o complexo dificilmente recebe a atenção que merece.

Daqui a dois anos, escolheremos um novo prefeito. Tomara que os candidatos apresentem, acima de qualquer habilidade técnica, a disposição genuína de serem cuidadores. Afinal, a cidade deve ser agradável aos olhos e aos sentimentos. Em um ambiente limpo e organizado, nossa tendência é preservá-lo; diante da desordem, o impulso de muitos é desorganizar ainda mais.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempo Livre: O Verdadeiro Medo por Trás da Resistência

 


As reações contrárias à redução da jornada de trabalho não são uma novidade; são históricas. Mas quais seriam as bases que sustentam essa resistência?

Ainda persiste a crença de que o trabalhador que cumpre 12 horas diárias é mais comprometido do que aquele que alcança os mesmos resultados em seis. Cientificamente, porém, o cérebro humano não opera como uma máquina programada para a execução contínua de tarefas repetitivas. A mente funciona em picos de desempenho e exige períodos de desconexão para manter a eficiência e a criatividade.

Empresas presas a uma visão conservadora tendem a resistir à mudança porque a redução da jornada exige um foco rigoroso em resultados, e não apenas em processos. Manter o colaborador por 44 horas semanais, distribuídas em seis dias, oferece apenas uma ilusória sensação de controle para a gestão.

Para muitos, o emprego não é apenas um meio de subsistência, mas uma fonte primordial de status social. Nesse cenário, o aumento do tempo livre torna-se um problema existencial para quem não sabe lidar com a própria ociosidade ou com a vida fora do ambiente corporativo.

Em 1926, ao instituir a jornada de 40 horas semanais, Henry Ford foi duramente criticado e chamado de "traidor do capitalismo". Sua visão, contudo, era pragmática: trabalhadores exaustos e sem lazer não consomem. O resultado foi imediato: a suposta perda de produtividade deu lugar a um forte estímulo ao consumo e à eficiência industrial.

Historicamente, sempre que surgiram propostas de redução, os opositores repetiram discursos alarmistas. No entanto, a prática demonstra que, ao reduzir o tempo, as empresas são forçadas a investir em tecnologia e otimização, o que acaba elevando a produtividade global.

Atualmente, em diversos países desenvolvidos, o debate já avança para jornadas de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias.

Ao observarmos a trajetória histórica, das exaustivas 16 horas diárias nos primórdios da Revolução Industrial até os modelos atuais, percebe-se que o obstáculo real nunca foi a viabilidade econômica. O verdadeiro entrave sempre foi a resistência cultural e política em conceder autonomia e tempo livre à classe trabalhadora.

@ninomarcati

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Tempo Rei e os Passageiros do Agora


 

Você já reparou que, na sala de espera de um consultório, meia hora parece uma eternidade, mas, em uma boa conversa, o mesmo tempo voa? Onde reside, afinal, a “magia” do tempo?

 

Tive apenas dois relógios de pulso na vida. O último abandonei aos quinze anos e nunca mais o recuperei. Talvez eu quisesse que as horas corressem com mais liberdade. Notava algo curioso: sempre que eu consultava o relógio durante uma tarefa, a primeira metade do percurso parecia se arrastar; já a segunda, quando eu finalmente esquecia as horas, parecia encurtar.

 

Apesar da imensidão do universo, o tempo como o conhecemos, fatiado em segundos, minutos e anos, é uma convenção humana, moldada pelos ritmos de rotação e translação da Terra. Em outro planeta, sob outra cadência astral, nossa experiência cronológica seria radicalmente distinta.

 

Na filosofia, as perspectivas se dividem: há quem sustente que apenas o presente é real, pois o passado é memória e o futuro é projeção. Para outros, as três dimensões coexistem em um fluxo contínuo, como se o tempo fosse uma grande estrada e nós, meros passageiros atravessando paisagens já existentes.

 

Já a psicologia revela que nossa percepção está amarrada à forma como o cérebro processa novidades. Quanto mais experiências inéditas vivemos, mais o tempo se expande em nossa memória. Por outro lado, a rotina faz os dias evaporarem. É por isso que o caminho de volta de uma viagem parece sempre mais curto que o de ida: no retorno, o cérebro já reconhece o percurso e "economiza" atenção, acelerando a sensação do trajeto.

 

Como canta Gilberto Gil em Tempo Rei: “Não me iludo / Tudo permanecerá do jeito que tem sido / Transcorrendo, transformando / Tempo e espaço navegando todos os sentidos.”



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ah! Como este mundo é pequeno.

 


Quando eu era criança, Itapira era o meu mundo. Depois da minha primeira viagem a São Paulo com minha mãe, passando por Mogi Mirim e Campinas, meu mundo cresceu aos meus olhos.

Com as imagens captadas da Lua, tornou-se evidente o quão pequeno é o nosso planeta. Tão pequeno que, se um alienígena desavisado o avistasse à distância, dificilmente imaginaria que aqui vivem mais de 8 bilhões de pessoas, sem contar todas as que já passaram por aqui.

Quantas vezes ouvimos ou dizemos: “como este mundo é pequeno”? É a expressão de surpresa ao encontrarmos alguém conhecido em lugares distantes do nosso berço, fruto da nossa vocação para a convivência.

Mas, quando olhamos para a longa caminhada humana, percebemos que esse “mundo pequeno” é, na verdade, um palco imenso para o desejo humano de explorar e superar desafios.

Tudo começou na África há cerca de 300 mil anos. Foi ali que surgiram os primeiros Homo sapiens, que por cerca de 200 mil anos desenvolveram habilidades essenciais, especialmente a inteligência, marco do que se convencionou chamar de Revolução Cognitiva.

Entre todos os animais, o ser humano é o único que conseguiu, por seus próprios meios, alcançar todos os continentes. Outros, como ratos, baratas e moscas, também se espalharam pelo mundo, mas pegando carona.

Os deslocamentos começaram quando os grupos humanos perceberam que a convivência de muitos indivíduos em um mesmo território gerava tensões: disputas por recursos e conflitos de poder. Descobriram que esses grupos não podiam ultrapassar além de 150 indivíduos. No limite, parte do grupo, os mais jovens, partia em busca de novas terras. Assim teve início a grande migração humana, um processo que se estendeu por cerca de 100 mil anos.

Graças ao desenvolvimento da inteligência, esses desbravadores foram capazes de se adaptar aos mais diversos ambientes, superar adversidades e sobreviver com base na caça, na pesca e nos recursos naturais disponíveis. Esse modo de vida perdurou até a chamada Revolução Agrícola, há cerca de 10 mil anos, que possibilitou o surgimento das primeiras cidades e deu início ao processo civilizatório.

No fim das contas, não estamos aqui por acaso. E nada disso foi fácil.