segunda-feira, 6 de abril de 2026

Confusão: Festa de Maio e Festa de São Benedito



A Festa de São Benedito há muito se confunde com a nossa querida Festa de Maio.

 

Há 138 anos, a celebração religiosa reúne fiéis com novenas, missas e procissões, tendo seu ápice em 13 de maio. Com o tempo, ganhou novos elementos — parque de diversões, barracas, comércio popular e atrações culturais — e passou a acolher toda a população. Assim nasceu a Festa de Maio como a conhecemos: plural, viva e cheia de memória afetiva.

 

Quem é de Itapira sabe: é difícil não dar ao menos uma passada por lá. Nem que seja só para relembrar. É tradição.

 

Nos últimos anos, a Paróquia de São Benedito buscou, de forma legítima, separar a parte religiosa da festa, valorizando o espaço ao redor da igreja. Mais recentemente, a instalação de equipamentos de saúde na Rua Vitório Coppos — onde ficava o parque — trouxe um novo desafio: a falta de espaço para um dos principais atrativos da festa.

 

E fica a pergunta: estamos diante da possível ruptura de uma tradição centenária?

 

A Festa de Maio não surgiu por acaso. Foi construída ao longo do tempo, com a participação da Igreja, do poder público e, principalmente, do povo itapirense. Por isso, é justo refletir: não seria possível antecipar soluções que preservassem essa tradição tão importante para a nossa identidade?

 

Tradições não são apenas hábitos. São laços. São memória. São pertencimento.

 

Eu, por exemplo, guardo com carinho a lembrança dos meus pais me levando para brincar no “tomovinho”.

 

Que haja sensibilidade — e responsabilidade — para encontrar um caminho que mantenha viva essa parte tão especial da nossa história.

 

Você gosta da Festa de Maio ou quer o fim dela? Um assunto a ser discutido!

 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Da Lua aos ETs: o nosso desejo de sermos enganados.

 



Já reparou que muita gente prefere uma mentira confortável do que uma verdade complexa? Não é de hoje que a desinformação parece ter mais força que a realidade. Mas por que isso acontece?

Não é de hoje que muita gente acredita mais facilmente naquilo que não entende — ou naquilo que confirma o que sempre acreditou.

A verdade? Nem sempre importa. Quando o cidadão encontra dificuldades para processar mecanismos científicos complexos ou quando nutre uma desconfiança crônica em relação às instituições, qualquer teoria que reforce esses sentimentos é prontamente aceita como "a verdade que ninguém quer contar". Nesse processo, ignora-se solenemente — ou "dá-se uma banana" — para qualquer evidência em contrário.

Coincidência ou ironia: no dia 1º de abril, o Dia da Mentira, a NASA lançou uma missão com o foguete Space Launch System, levando astronautas para um sobrevoo da Lua.

Mesmo assim… Segundo o Datafolha, 33% dos brasileiros acreditam que o homem nunca foi à Lua. E não para por aí: Cerca de 60 milhões acreditam que discos voadores visitam a Terra há milhares de anos. Aproximadamente 11 milhões acham que a Terra é plana.

Por quê?

Porque a mentira é simples. A verdade exige esforço.

Mas não é só isso.

Existe também o desejo de pertencimento — aquela sensação de fazer parte de um grupo “especial”, que descobriu algo que o resto do mundo não enxerga.

E ainda há um fenômeno psicológico chamado Efeito Dunning-Kruger: quanto menos alguém sabe sobre um assunto, mais tende a achar que sabe. Resultado: qualquer especialista pode ser “refutado” em cinco minutos.

Estudos mostram que mentiras se espalham até 6 vezes mais rápido que a verdade.

Motivo? A mentira utiliza o combustível da indignação, do medo, do ódio e do senso de exclusividade.

Já a verdade — coitada — quase sempre é vista como "meio sem graça".

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Do Sacrifício ao Banquete: A Evolução da Abstinência na Semana Santa

 



Até pouco tempo — em uma tradição que vem desde os primeiros séculos do cristianismo — deixar de comer carne era mais do que um costume: era obrigação para os católicos.

 

A abstinência de carne vermelha, como forma de penitência em memória do sacrifício de Cristo, se estendia por muitos dias do ano: toda a Quaresma, vigílias e, claro, a Semana Santa. Peixe podia. Carne, não.

 

Essa regra só começou a ser flexibilizada há cerca de 60 anos. Hoje, a exigência oficial se concentra na Sexta-feira Santa — e, mesmo assim, com exceções.

 

Mas o mais curioso é que o hábito não ficou restrito aos religiosos.

 

Ele atravessou fronteiras.

 

Mesmo entre os não praticantes, pessoas de outras religiões, agnósticos e ateus, evitar carne vermelha nesse dia virou algo comum. Basta observar o mercado: na semana da Páscoa, o preço da carne tende a cair para estimular o consumo, enquanto o peixe sobe com a demanda. O bacalhau, então, dispara. E isso acontece em um país onde cerca de 55% se dizem católicos, mas apenas uma parcela menor — algo em torno de 20% — pratica ativamente a fé.

 

O que explica? A força da tradição. Com o tempo, o que era uma regra religiosa virou um traço cultural. Um hábito que se mantém não apenas pela fé, mas pela memória coletiva.

 

E há também a história por trás do prato mais simbólico dessa época. Em um tempo sem refrigeração, conservar peixe fresco era um desafio. Foi a técnica de secar e salgar o bacalhau — desenvolvida pelos povos nórdicos — que permitiu sua longa duração e ampla distribuição pela Europa. Assim, ele se tornou a solução ideal para cumprir as regras da Igreja.

 

Trazido pelos portugueses, o bacalhau atravessou o oceano e se firmou no Brasil como protagonista das celebrações da Semana Santa — dos grandes banquetes às mesas mais simples, onde a batata ajudava a dar sustância ao prato.

 

No fim das contas, mais do que religião, o que está em jogo é cultura. E tradição, como se sabe, também alimenta.

 

sábado, 28 de março de 2026

O caso Master tem um lado bom. Duvida?

 


O escândalo envolvendo Vorcaro vem sendo apontado como um dos maiores crimes financeiros do Brasil, enraizado nas entranhas da política e do Judiciário tupiniquim.

Que ninguém se engane: casos semelhantes são uma constante no país, e a maioria sequer chega ao conhecimento público. Este, ao menos, não está totalmente encoberto. Há uma chance real de que, desta vez, a jiripoca piar.

Minha mãe costumava dizer que nada na vida é 100% ruim. Sempre há um lado positivo — se não para todos, ao menos para alguns. No caso do banqueiro, o lado bom pode, paradoxalmente, ser coletivo.

O grande problema dos escândalos sempre esteve na investigação. Além da astúcia dos autores em esconder provas, muitas apurações foram, ao longo do tempo, direcionadas ou limitadas ou silenciadas por interesses políticos comprometidos com as próprias irregularidades.

Instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público, que constitucionalmente são órgãos de Estado, e não de governo, nem sempre atuaram com a independência que se espera. Em outros tempos, delegados ou dirigentes que contrariavam interesses eram prontamente substituídos. Hoje, ainda que não se possa afirmar que essa autonomia seja plena, há sinais de evolução institucional.

Não devemos alimentar a ilusão de que, mesmo com punições exemplares, o país será passado a limpo. Isso é impossível. A decência de uma nação não se impõe por decreto; ela é resultado da convergência de valores e atitudes da maioria da população.

Corrupção e ética não são fenômenos exclusivos de governantes, legisladores ou magistrados. São, antes de tudo, reflexos do comportamento coletivo. Trata-se de uma construção lenta, muitas vezes dolorosa, que acompanha o amadurecimento da sociedade ao longo do tempo.

Esse processo é gradual, mas pode sofrer impulsos em momentos de crise. Já vivemos outros escândalos, avançamos, ainda que de forma insuficiente, e seguimos com um longo caminho a percorrer. Dada a magnitude do caso Master, e dependendo da profundidade das investigações e de suas consequências, é possível dar mais um passo relevante nesse processo de amadurecimento.

Eis, portanto, o lado bom.

@ninomarcati

quarta-feira, 25 de março de 2026

Eu não sei onde este mundo vai parar... Será?

 



Não é de hoje que ouço essa expressão. Meu pai já dizia isso quando eu ainda era criança. Mas, afinal, será que o mundo de hoje é mesmo muito pior? O que leva as pessoas a essa sensação quase inevitável de decadência?

Pode parecer estranho, mas não é maluquice. Essa impressão de que o passado era melhor é um fenômeno psicológico conhecido como “viés de declínio”, explicado por alguns fatores já estudados cientificamente. Vejamos:

O nosso cérebro, naturalmente, tende a esconder os maus momentos e a preservar as experiências positivas. Como num passe de mágica, as dificuldades vividas em determinados períodos da vida se apagam, enquanto os bons momentos em família, a infância, a adolescência, as conquistas e as lembranças felizes ganham destaque.

Para muita gente, lembrar dos “bons tempos” é também revisitar a juventude — aquele período em que começamos a nos libertar das amarras familiares, conquistamos autonomia e ainda não enfrentamos plenamente as responsabilidades profissionais ou a construção de uma família.

O tempo presente, por outro lado, parece sempre mais difícil. Somos bombardeados por notícias negativas o tempo todo. A tecnologia avança em ritmo acelerado, frequentemente à nossa frente, e vivemos tentando acompanhá-la. Sem falar que, se antes havia poucas escolhas, hoje o excesso de opções muitas vezes gera ansiedade.

Outro fator é a sensação de que, no passado, conhecíamos mais pessoas e éramos mais próximos. A convivência com vizinhos, com a rua, com os amigos, era mais direta, mais presencial. Hoje, muitas vezes, prevalece uma sensação de isolamento em vez de pertencimento.

Mas será que essa percepção corresponde à realidade?

Comparar a qualidade de vida atual com a do início do século XX (por volta de 1900) envolve diversos indicadores sociais, econômicos e de saúde. E o quadro geral aponta para uma melhora significativa — ainda que desigual entre países e regiões.

Se essa sensação é, em parte, fruto da nossa percepção, vale observar alguns dados concretos:

No Brasil, a expectativa de vida, que girava em torno de 33 anos, hoje ultrapassa os 76. Chegar aos 100 anos era raríssimo; segundo o censo de 2022, já são cerca de 37 mil centenários no Brasil. A mortalidade infantil, que chegava a 150 por mil nascimentos, caiu para aproximadamente 13. Para as famílias, perder filhos para a morte era considerado como normal.

O saneamento básico, antes quase inexistente — com esgoto a céu aberto —, avançou consideravelmente. Hoje, cerca de 80% da população tem acesso à água encanada e 60% conta com coleta de esgoto. Ainda há muito a melhorar, mas o progresso é evidente.

Se mais de 65% da população era analfabeta no início do século passado, hoje cerca de 93% está alfabetizada. A renda média cresceu, a pobreza extrema diminuiu e a classe média se ampliou — embora a concentração de riqueza continue sendo um desafio.

Na saúde, epidemias como varíola, febre amarela e tuberculose eram frequentes, e a assistência médica era extremamente precária. Hoje, com a ampliação do acesso à saúde pública e a vacinação, muitas dessas doenças foram controladas ou erradicadas.

Em 1900, a eletricidade era limitada, o transporte precário e a comunicação restrita. Hoje, a eletricidade é praticamente universal, a internet está amplamente difundida e os sistemas de transporte se expandiram.

A população, antes majoritariamente rural, tornou-se urbana. As leis trabalhistas, praticamente inexistentes no passado, passaram a regular as relações de trabalho. O trabalho infantil era comum; hoje, é proibido. A jornada de trabalho, que podia chegar a 70 ou 90 horas semanais, foi reduzida para algo entre 40 e 44 horas.

Em síntese, vivemos mais, menos crianças morrem, mais pessoas têm acesso à educação, à saúde e à infraestrutura. Isso não significa que os problemas desapareceram. Ainda há muito a avançar: reduzir a desigualdade, universalizar o saneamento, enfrentar a violência urbana e melhorar a qualidade da educação e da saúde.

Mas é difícil negar que, sob muitos aspectos, o mundo melhorou significativamente ao longo do tempo — ainda que alguns insistam em medir qualidade de vida apenas pelas mudanças nos costumes, que também evoluem com a sociedade, como sempre, desde o tempo das cavernas.

sábado, 21 de março de 2026

Juca tudo a ver: do Italianinho ao Cidadão de Itapira

  


A arte é um caminho para a eternidade — basta que encontre abrigo no gosto das pessoas. Então, permanece.

Juca de Oliveira, ator de primeira grandeza, partiu aos 91 anos, deixando uma trajetória memorável como ator, diretor e dramaturgo no teatro, no cinema e na televisão, ao longo de quase sete décadas. Consagrado pela crítica e pelo público, gravou seu nome entre os maiores artistas do Brasil.

Conheci Juca de Oliveira pela televisão, quando eu tinha quatorze anos. Nasci e logo recebi de meu pai o “Nino”, apelido que me acompanha até hoje. Era Nino daqui, Nino dali. Tão presente era, que, quando me chamavam pelo nome de batismo, eu demorava alguns segundos para perceber que era a mim que se dirigiam. Nino não era um apelido comum. Naquele tempo, conheci apenas outra pessoa que também o usava, mas de forma menos intensa: ora era chamada pelo apelido, ora pelo nome. No meu caso, era só Nino.

Foi então que a TV Tupi de São Paulo começou a anunciar uma nova novela: “Nino, o Italianinho”. Antes mesmo da estreia, vizinhos e parentes passaram a me chamar assim nos encontros. À medida que a novela ganhava audiência e conquistava o público, o apelido composto se espalhava com ainda mais força.

Encerrada a novela, por um bom tempo — talvez por hábito — o “Nino italianinho” continuou vivo na boca de muita gente. Até hoje, vez ou outra, alguém resgata esse apelido, nascido da interpretação marcante de Juca de Oliveira.

Nasci brasileiro, mas descendo de famílias italianas, tanto pelo lado paterno quanto materno. Anos depois, tornei-me também cidadão italiano. Assim, o “Nino italianinho” começou com Juca e, de certo modo, foi confirmado pela minha própria história.

O destino quis que, mais tarde, Juca de Oliveira adotasse Itapira. Comprou uma fazenda, caminhava pelas ruas da cidade, frequentava a Praça Bernardino, saboreava o badalado café  e desfrutava de conversas despretensiosas.

Ele se foi. Mas, assim como o “Nino italianinho” se incorporou à minha vida, Juca de Oliveira se inscreveu na memória cultural do país. Diante de tantos personagens e de uma obra tão vasta, deixou sua marca — e, como toda arte verdadeira, permanecerá.


quinta-feira, 19 de março de 2026

O Verão que Não se Reconhece



O verão se despede. Nesta sexta-feira (20), ao meio-dia, o outono assume o calendário. Mas que raios de verão foi esse? Para mim, a estação sempre foi sinônimo de descontração: banhos de rio, pé na areia e o frescor da piscina. Roupas leves, janelas abertas e nada de cobertor. Havia o ritual da "chuva de fim de tarde" — aquele espetáculo previsível que lavava a calçada, trazia o cheiro de terra molhada e acalmava o asfalto para a noite.

Este que parte, porém, foi esquisito. Passou boa parte seco, exigindo um cobertor inesperado na madrugada. Em outros momentos, despejou tempestades severas que alagaram vales e soterraram morros, expondo a ferida aberta da falta de políticas públicas. Gente morrendo afogada; gente morrendo sob a terra. Antigamente, sabíamos exatamente quando a estação começava e terminava. Hoje, o horizonte é uma incerteza.

A ciência explica: mudanças climáticas e aquecimento global. O equilíbrio rompeu. Sinto que a natureza segue um roteiro sombrio, enquanto governantes priorizam os números da economia em vez da viabilidade da vida. O fato é que o aquecimento global não está apenas esquentando os dias; ele está reprogramando as estações.

O corpo não descansa mais nas "ilhas de calor", onde as mínimas da madrugada sobem mais rápido que as máximas. O ciclo hidrológico está "bombado": para cada aumento de 1°C, a atmosfera retém 7% a mais de vapor de água. O resultado? Chuvas que não refrescam, mas destroem. O que mais virá?

Imagino o Verão chegando ao hemisfério norte daqui a três meses. Ao ser recebido pela Primavera, ouvirá o deboche: "Que papelão, você não é mais o mesmo". E ele, cabisbaixo, não saberá o que responder.