terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nenhuma Ditadura é Eterna: O Clamor por Liberdade no Irã



Quando uma ditadura se instala em um país, seja ela de direita ou de esquerda, é porque o povo a aceitou passivamente ou fez vista grossa. Mas nenhuma ditadura resiste ao tempo; se fosse boa, seria eterna.

Chega um momento em que o povo, cansado, se rebela, pressiona e se manifesta de várias formas, até partir para o 'tudo ou nada', colocando a própria vida como último recurso.

O Irã vem dando sinais claros de que a ditadura dos aiatolás se esgotou. Quem não se lembra das mulheres iranianas em 2022? Após uma jovem ser detida por usar o véu de forma 'inadequada', deixando parte do cabelo à mostra, ela apareceu morta dias depois — provavelmente em decorrência de tortura. Um grande movimento de protesto tomou conta do país. O véu foi o símbolo, mas o movimento se transformou em um clamor por liberdade e direitos humanos. Contudo, a ditadura persistiu.

Agora, o povo iraniano está nas ruas novamente. Em ciclos de protestos, centenas de pessoas já perderam a vida.

As ditaduras entram na vida das pessoas oferecendo sempre um mundo melhor. Usam todas as estratégias para convencer a maioria de que a situação atual é insustentável, colocando-se como 'salvadoras da pátria', como se problemas crônicos podem ser resolvidos da noite para o dia. Muitos acreditam. Com o tempo, através da censura e da polícia armada, o povo é encurralado. A maioria torna-se alienada, enquanto uma minoria se beneficia das benesses governamentais e da corrupção, que corre solta sob o manto de uma imprensa controlada. Todas são assim, sem exceção.

Derrubar uma ditadura é um processo difícil e demorado. Somente com a insurgência popular os reais objetivos de liberdade são atingidos. Ainda é cedo para afirmar que o atual regime iraniano será abolido, mas é possível dizer que o povo está no caminho certo e que o fim dessa autocracia é uma questão de tempo.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo

 





Lá vamos nós para mais uma empreitada. Como diz um amigo meu: enquanto estivermos virando o ano, beleza.

É sabido que a "virada de ano" no dia 1º de janeiro é uma data totalmente arbitrária. Não existe um ponto de largada, nem uma linha de chegada na volta que a Terra dá em torno do Sol. Há cerca de 4 mil anos, comemorava-se o ano novo no período que marcava o fim do inverno e o início do plantio (Março). Muito tempo depois, com a implantação do calendário gregoriano – em vigor atualmente – o 1º de janeiro foi oficializado, tornando-se uma das celebrações mais simbólicas da humanidade.

Apesar das diferenças de cada povo, na virada prevalecem as reflexões sobre renovação, esperança e a despedida do passado. A palavra "Réveillon" vem da língua francesa e significa "acordar" ou "despertar". A data é tratada como um momento revisional do ano que terminou, alimentando a sensação de que, no ano que entra, seremos mais evoluídos, com defeitos corrigidos, almejando a paz, a união e a saúde. Pode até não acontecer nada disso, mas o ritual trabalha o nosso espírito e nos motiva para mais uma caminhada.

Na maioria das pessoas, apesar de todo o otimismo à meia-noite, as resoluções de Ano Novo caem no esquecimento antes mesmo de o Carnaval chegar; medidas concretas são raras. Seriam, então, promessas vazias?

Algumas datas, como o 1º de janeiro, separam mentalmente aquilo que eu era (e que não foi legal) daquilo que eu quero ser (o mais perfeito possível). É como se os problemas que enfrentamos, as nossas experiências de vida e hábitos pudessem desaparecer de um dia para o outro. Em muitos casos, ao planejarmos metas maravilhosas para o futuro, liberamos o hormônio do prazer — um processo que nos traz felicidade imediata. No entanto, ao tentarmos transformar o planejado em realizado e as dificuldades aparecerem, acabamos deixando o dito pelo não dito.

Enfim, comemorar imaginando um ano novo melhor que aquele que se foi faz parte do nosso costume. Desejos que não devem cobrados no futuro, muito menos com sentimento de derrota pelos objetivos não atingidos. O bom mesmo é chegar ao final do ano que se inicia e poder repetir tudo novamente. Isso é a vida.

Feliz Ano Novo!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Natal sob diferentes olhares

Nem todos os países do mundo celebram o Natal como nós. Trata-se de uma festa de origem cristã, mas nem mesmo entre cristãos há consenso sobre sua comemoração. Há discordâncias quanto à fixação da data em 25 de dezembro, e interpretações que destacam que Jesus orientou seus seguidores a celebrar sua morte, não seu nascimento.

Muçulmanos, budistas, judeus, hindus e xintoístas, por exemplo, não celebram o Natal. Países como China, Japão, Arábia Saudita, Indonésia, Turquia e Índia não consideram o Natal uma data religiosa — alguns o exploram comercialmente, outros tentam coibir suas manifestações públicas.

 

Para quem vive o período natalino desde a infância, é difícil imaginar um Natal sem celebração, seja pelo significado religioso, seja pelas festas e presentes. Quando a indiferença à data tem base em convicções religiosas distintas, tendemos a aceitá-la com mais naturalidade. No entanto, mesmo em países majoritariamente cristãos, como o Brasil, há quem não goste do Natal.

 

Há pessoas que se incomodam com o excesso de festas, com a obrigação de comprar presentes ou com o recebimento de presentes indesejados. Aquelas que enxergam o Natal apenas como um evento comercial. Aquelas que tiveram experiências difíceis na infância, que presenciaram brigas familiares, que preferem a solidão ou que sentem profundamente a ausência de entes queridos que já partiram.

 

Enfim, apesar da importância do Natal para muitos povos ocidentais, ele não é uma unanimidade.

 

Assim como desejamos a todos um Feliz Natal, devemos também respeitar aqueles que não se sentem tão felizes nessa data. O Natal se apresenta como uma festa coletiva, mas carrega um significado profundamente individual para cada um de nós. Nem sempre o que é bom para a maioria é bom para todos.

 

Por isso, para quem celebra o Natal com entusiasmo — como eu —, desejo que os ventos desta época inspirem renovação e alegria. Para quem não tem qualquer interesse natalino, desejo felicidade ao seu próprio modo. E a todos, desejo união e respeito às diferenças.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Corrupção sistêmica: quando esquerda e direita nadam no mesmo rio

 


Os casos envolvendo os deputados Sóstenes e Jordy, frequentemente apresentados como representantes da direita brasileira, demonstram mais uma vez que a corrupção não tem ideologia, não tem religião e não obedece ao lema “dessa água não beberei”. Há pouco tempo, a esquerda brasileira também navegava na onda de denúncias contra os corruptos da direita, mas logo passou a compartilhar do mesmo sistema. As notícias que emergem no campo político conservador são, certamente, apenas a ponta do iceberg e tendem a minar a já escassa confiança que a população ainda deposita nos políticos dessa linha.

Assim como não foi uma estratégia sustentável para a esquerda, não o será para a direita.

A corrupção no Brasil é sistêmica. Não se resume a atos isolados de indivíduos; está entranhada em práticas, relações e mecanismos que se repetem em diferentes esferas e níveis de governo, com a participação de empresários, servidores públicos e até cidadãos comuns que emprestam seus nomes para abertura de empresas de fachada ou contas bancárias. Enquanto o combate à corrupção servir apenas como bandeira eleitoral, o problema não retrocederá.

Não faltam aos corruptos mecanismos criativos para enriquecimento ilícito, sempre às custas das dificuldades enfrentadas pela população: emendas parlamentares excessivas e pouco transparentes; direcionamento de verbas para obras superfaturadas ou não realizadas; desvios em empresas estatais como Petrobras, Eletrobras e Caixa Econômica Federal; fraudes no INSS e em fundos soberanos; licitações adulteradas com editais direcionados, conluio entre licitantes e superfaturamento; uso de empresas de fachada e “laranjas”; empresas abertas em paraísos fiscais; operações com doleiros e lavagem de dinheiro; além da lentidão do sistema judicial e do excesso de recursos que perpetuam a impunidade.

Para quem enxerga a corrupção como um câncer a ser extirpado, uma coisa é certa: discurso não resolve, como nunca resolveu. Não há “bala de prata”, apenas medidas consistentes, inspiradas em experiências internacionais bem-sucedidas, como as recomendadas pela Transparência Internacional, Banco Mundial e OCDE. Entre elas: Fortalecimento das instituições de controle e Justiça, com colaboração efetiva entre agências; Agilidade e eficiência do Judiciário; Proteção real a testemunhas e denunciantes; Transparência radical e dados abertos; Controle social, com participação da sociedade civil e da imprensa no monitoramento; Governo aberto, com consultas públicas qualificadas; Compras públicas eletrônicas, auditáveis e com menos discricionariedade; Reforma política e eleitoral, com redução de custos de campanha e fim do uso eleitoreiro de recursos públicos.

Contudo, a ação mais decisiva deve nascer na sociedade: é preciso cultivar ética, cidadania, integridade e valorizar a função pública. É urgente abandonar ideias como “todo mundo faz” ou o “jeitinho brasileiro”, que naturalizam práticas nocivas que prejudicam a todos e beneficiam poucos.

Reduzir a corrupção exige, portanto, uma combinação de leis rigorosas, instituições autônomas e tecnologia com uma sólida cultura de integridade, educação e valores. Essa é uma tarefa coletiva, que depende da compreensão de que não haverá um salvador da pátria — apenas uma sociedade vigilante e ativa pode transformar essa realidade.

sábado, 29 de novembro de 2025

Reconhecimento póstumo: “Seu Zé Martelli”

 


Perdemos nesta semana o Seu Zé, após noventa e três anos bem vividos. Ele partiu sem que eu lhe dissesse, em voz alta, a lição que me ensinou.

Conheci Martelli ainda adolescente, quando ele trabalhava como caixa no Banco do Brasil. Naquela época, a agência ficava na esquina da Comendador João Cintra com a Bento da Rocha, no mesmo local e prédio onde funcionou, até alguns meses atrás, a agência da Caixa Econômica Federal. Para mim, ele tinha uma aparência severa. Sério no trabalho que realizava, não brincava em serviço e quase sempre mantinha uma expressão carrancuda. Eu não frequentava a agência todos os dias, mas, nas poucas vezes em que estive lá, via nele um funcionário compenetrado e de pouca conversa — alguém que parecia estar sempre brigado com o mundo.

O destino quis que, ao longo dos anos, eu me tornasse amigo dos filhos dele. Mesmo assim, eu insistia na impressão de que Seu Zé era uma pessoa rígida e de poucos amigos, sempre falando com firmeza. Era, na minha cabeça, a personificação do mais puro conservadorismo itapirense.

Com o tempo, já adulto, passei a conversar mais com ele. E, pouco a pouco, fui percebendo que minha imagem inicial continha equívocos profundos. Não demorou para eu descobrir que ele tinha um humor afiado, apreciava boas conversas e brincadeiras, além de possuir uma visão de mundo progressista e um nível de informação admirável. De conservador, só restava o amor quase vitalício por seu Corcel branco e o hábito de beber cerveja, todos os dias, em temperatura ambiente.

Aprendi com ele que, para conhecer alguém, é preciso muito mais do que um olhar atento: é preciso diálogo. Os ouvidos, e não os olhos, são os instrumentos mais adequados para essa tarefa. O olhar, quase sempre, apenas reforça nossos preconceitos. Certamente, cometi erros semelhantes ao julgar outras pessoas, mas nem todas me deram a chance de revisar minhas impressões antes que eu aprendesse a lição.

Obrigado, Seu Zé!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A História Não Absolve


Que ninguém ignore: a História é implacável com os acontecimentos políticos e será fundamental para a nossa lucidez civilizatória. Sem os registros capturados e seu entrelaçamento global, o futuro repetiria os mesmos erros, negando às novas gerações a chance de compreender suas próprias origens. Além disso, abriria espaço para que aqueles que quisessem reescrever o passado o fizessem na tentativa de controlar a vida das pessoas.

A História não é contada por uma só pessoa; é uma construção coletiva que reúne verdades e memórias para os que virão depois de nós. É assim que a humanidade vem construindo este "mundão de Deus".

A História funciona como um arquivo definitivo, impedindo que ações e decisões políticas caiam no esquecimento ou sejam distorcidas. É o estudo das escolhas humanas e suas consequências, cujos registros nos permitem entender “quem somos”, “de onde viemos” e “para onde vamos”. Ela reflete o ciclo coletivo das nossas vidas e da humanidade.

Tudo o que acontece hoje e que pode impactar o futuro tem lugar de destaque na História, abrindo cenários para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Essa evolução não se baseia, em geral, em teorias abstratas, mas nas práticas e exemplos cotidianos.

Vivemos, nesta terça-feira, 25 de novembro de 2025, um dos momentos mais relevantes dos 525 anos de Brasil. O peso político de Bolsonaro não será decisivo para colocá-lo na primeira fila dos personagens mais relevantes. Os generais que participaram de mais uma tentativa de golpe – finalmente julgados, condenados e encarcerados – serão os destaques principais. Esse episódio anuncia que as Forças Armadas, daqui em diante, saberão ocupar o papel que lhes cabe, permitindo que a sociedade civil escolha seus próprios destinos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nas Cavernas do Preconceito

 



No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?

Seríamos incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra "preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.

Levei essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres de guerras pessoais e conflitos mundiais.

Minha divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que, possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.

O mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais, outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.