Lançado mais um programa com a pretensão de abraçar
mais de 20 milhões de pessoas com dívidas em atraso de 90 dias a dois anos em
cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, financiamentos ao
consumidor e dívidas de estudantes, microempresários e pequenos produtores
rurais. O senso comum nos leva a imaginar que apenas quem não conseguiu pagar
suas dívidas será beneficiado. Como sempre, as aparências enganam.
Programas dessa natureza costumam ser vistos como
prêmio aos que não conseguem controlar despesas diante da renda mensal. Mas não
é verdade que todos passaram incólumes. Caíram na “lista negra”, perderam
crédito, enfrentaram constrangimentos e viram a dignidade jogada ao chão. Tal
“premiação” não parece um grande negócio.
Para muitos agentes financeiros e comerciantes
credores, essas dívidas já estavam na conta do prejuízo. Com a adesão de boa
parte dos devedores, haverá imediato reforço no fluxo de caixa, garantindo
sobrevida financeira sem recorrer aos caros créditos disponíveis, além de abrir
espaço para investimentos e expansão dos negócios.
Ao implementar programas para aliviar o peso do
endividamento, seja por iniciativa do mercado ou do governo, como o Desenrola
Brasil, permite-se que os devedores limpem seus nomes dos cadastros de
inadimplentes e retornem ao mercado consumidor, impulsionando o comércio,
aumentando a produção industrial, gerando emprego e renda.
O Desenrola Brasil, como se vê, é uma ação
necessária para a economia brasileira, mas não faz milagres. Medidas de longo
prazo precisam ser implementadas, como educação financeira, redução do custo do
crédito e dos juros, impedir que bancos descontem parcelas que comprometam
alimentação e moradia e combater o “crédito predatório” contra idosos, além de
alguma regulamentação para conter os gastos desenfreados com BETs.
Obviamente, a solução para a economia não está na
geração espontânea de endividados, mas esse processo mostra o quanto ela é
complexa e que nem tudo é o que parece. Afinal, “enquanto o povo vem com o
milho, os agentes econômicos já estão com o fubá”.






