segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ninguém Acima da Lei: O Dever do STF de Investigar a Si Mesmo

 





O Supremo Tribunal Federal vive sua maior crise desde sua instalação, em 1891. Ao longo de sua história, enfrentou diversos períodos turbulentos, quase sempre marcados por pressões externas, autoritarismo e tentativas de submeter o Judiciário ao poder de ocasião.

Em 1892, Floriano Peixoto mandou prender opositores e, diante da intenção dos advogados de recorrerem ao STF com pedidos de habeas corpus, ameaçou: se os ministros determinassem a soltura dos presos, não saberia quem concederia habeas corpus aos próprios ministros no dia seguinte. Diante da pressão, o STF recuou.

Em 1930, Getúlio Vargas reduziu o número de ministros do STF de 15 para 11 e afastou magistrados considerados contrários ao novo regime. Em 1937, com o Estado Novo, restringiu ainda mais a autonomia do Tribunal, pressionando ministros considerados inconvenientes.

A ruptura mais brutal viria com o regime militar. Em 1965, o AI-2 aumentou de 11 para 16 o número de ministros, ampliando a influência do governo sobre a Corte. Em 1968, com o AI-5, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal foram aposentados compulsoriamente por razões políticas. Em protesto, o então presidente do STF, Aliomar Baleeiro, renunciou.

A história mostra que o STF já foi atacado, pressionado, mutilado e, em determinados períodos, submetido de fora para dentro. Desta vez, porém, a crise tem uma característica diferente: nasceu e cresceu no próprio seio da instituição.

Pelo menos seis ministros tiveram seus nomes relacionados, em diferentes graus e circunstâncias, ao caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes.

Independentemente do que vier a ser comprovado, a situação exige transparência. Quando a mais alta Corte do país está sob suspeita ou questionamento, seus integrantes têm o dever de prestar à sociedade explicações claras e convincentes.

Uma coisa precisa estar acima de qualquer dúvida: ninguém pode estar acima da lei. Nem o cidadão comum, nem o empresário poderoso, nem deputado, senador ou presidente da República e, muito menos, um ministro do Supremo.

A democracia brasileira já resistiu a diversas tentativas de fragilização. Espera-se que o STF também atravesse esta tempestade. Para isso, precisa fazer aquilo que cobra dos demais: investigar, esclarecer, julgar com independência e, havendo responsabilidade comprovada, punir.

O STF não pode sobreviver em um mar de suspeitas. É o guardião da Constituição de 1988 e deve assegurar que os demais Poderes respeitem os direitos fundamentais, o devido processo legal e as liberdades garantidas aos cidadãos.

Na democracia, os Poderes são independentes e harmônicos. Ao STF cabe atuar como última instância constitucional, freando excessos do Executivo e do Legislativo e impedindo qualquer deriva autoritária.

Em uma sociedade polarizada, esse papel é ainda mais importante. Conflitos políticos precisam ser resolvidos dentro das regras constitucionais, pelo Direito e pelas instituições — não pela força, pela intimidação ou pela ruptura democrática.

Decisões firmes e coerentes também produzem segurança jurídica, essencial ao desenvolvimento econômico. Investidores precisam saber que contratos serão respeitados, que as regras não mudarão arbitrariamente e que conflitos serão resolvidos por instituições independentes.

Há ainda uma função essencial: proteger direitos fundamentais mesmo quando isso significa contrariar a vontade da maioria. Democracia não é apenas governo da maioria; é também respeito aos direitos que a maioria não pode simplesmente retirar das minorias.

Por tudo isso, o STF é indispensável à democracia brasileira. Mas, justamente por ser indispensável, precisa ser exemplar.

Sua autoridade não nasce apenas da Constituição, mas também da confiança da sociedade. A crise pode ser uma ameaça. Mas também pode ser a oportunidade de reconstruir a confiança.

No fim das contas, o STF só será verdadeiramente forte se tiver coragem de aplicar a mesma régua para todos — inclusive para si próprio.

Porque, sem um Supremo independente, imparcial e respeitado, nenhum brasileiro estará verdadeiramente protegido contra os abusos de quem quer que venha a ocupar o comando do país.

#14/09/2026#


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que mudou entre o 7 de setembro de 1822 e o de 2026?



Ronda pela cabeça de muita gente a ideia de que o famoso grito do Ipiranga, em 1822, foi um grandioso ato de amor de D. Pedro I pelo Brasil: montado em seu cavalo, revestido de coragem e heroísmo, teria arrancado o país das garras de Portugal com um simples e retumbante “Independência ou Morte!”.

Em pleno ano eleitoral, não faltam candidatos tentando se apresentar como heróis, salvadores da pátria ou donos de soluções mágicas para os problemas nacionais. Uma sina que, ao que parece, nos acompanha desde os tempos do Império.

Durante décadas, a imagem que os brasileiros receberam da Independência foi aquela eternizada pela famosa pintura a óleo de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, exposta no Museu do Ipiranga. A obra foi encomendada e pintada décadas depois do episódio, não como um registro fotográfico da cena, evidentemente, mas como uma representação grandiosa destinada a ajudar a construir uma determinada identidade nacional.

Até hoje, nem tudo aquilo que aprendemos como verdade chega até nós no devido tempo — e, às vezes, chega convenientemente editado. Mas o tempo se encarrega de revelar a história.

A historiografia mais recente mostra que a separação de Portugal foi um processo político, econômico e social complexo, marcado por disputas, negociações, interesses de grupos dominantes e conflitos. Alguma semelhança com os dias de hoje?

O processo ganhou força a partir de 1820, quando as Cortes portuguesas queriam também recolocar o Brasil em uma posição subordinada a Lisboa. Em outras palavras, queriam que o Brasil voltasse a ser colônia.

Em nome da autonomia, parte das elites locais, comerciantes e outros grupos de interesse se articulou em torno de D. Pedro. A Independência, portanto, não nasceu apenas de um gesto heroico às margens do Ipiranga. Foi resultado de uma complexa disputa de poder.

Em 1822, o dilema central era a soberania nacional diante do domínio português. Em 2026, o desafio é outro: aperfeiçoar a soberania popular, preservar a estabilidade democrática, fortalecer nossas instituições e defender a autonomia do país diante de pressões e tentativas de interferência externa — inclusive dos Estados Unidos — em decisões que dizem respeito aos interesses brasileiros e às nossas relações com outros países.

Durante muito tempo, prevaleceu a narrativa de que a Independência brasileira ocorreu de maneira praticamente pacífica, sem derramamento de sangue. A realidade foi bem diferente. Fora do eixo Rio-São Paulo, várias províncias resistiram à autoridade de D. Pedro e permaneceram leais a Lisboa. Houve combates violentos e mortes na Bahia, no Piauí, no Maranhão, no Pará e na Província Cisplatina, território que posteriormente daria origem ao Uruguai.

Em 2026, a disputa também continua. Só mudaram as armas. A polarização política atravessa famílias, amizades, ambientes de trabalho e relações pessoais. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser alguém com quem se discorda para se transformar em alguém que se deseja derrotar, desqualificar ou até eliminar do debate público.

Depois da Independência, em 1824, foi outorgada a primeira Constituição brasileira. Com ela, surgiu o Poder Moderador, que conferia ao imperador uma autoridade extraordinária sobre os demais poderes do Estado.

Dois séculos depois, não faltam iniciativas e discursos, tanto no Executivo quanto no Legislativo e no Judiciário, que parecem flertar com a ideia de que a democracia funcionaria melhor se alguém tivesse poderes acima dos demais.

Em 1822, discutíamos quem mandaria no Brasil.

Hoje, deveríamos estar discutindo como fazer o Brasil pertencer, de fato, a todos os brasileiros.

E, convenhamos, para isso não precisamos de heróis montados em cavalos. Precisamos de instituições que funcionem, cidadãos que pensem e políticos que entendam que o Brasil não é propriedade de ninguém.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Um dia o PCC e o CV ainda colocarão o Brasil nos eixos. Duvida?



Dia desses, entre um café e outro, um amigo puxou assunto sobre o mais recente tsunami em Brasília: a crise no STF. Queria saber minha opinião. Soltei na lata: “Nesse altar, não tem santo. Para mim, quanto maior o estrondo desse escândalo, melhor.”

Ele me olhou de lado, sem entender. Tive de traduzir. É que, até ontem, a lama respingava no Executivo e no Legislativo, mas, no Supremo Tribunal Federal, chegava apenas uma arranhadinha de nada. O desenrolar dessa crise, quem sabe, finalmente colocará em prática um princípio elementar: “todos são iguais perante a lei”.

O Brasil é pródigo em oferecer impunidade aos poderosos: processos mofando nas gavetas até a prescrição, investigações que nascem capengas, malabarismos jurídicos e brechas legais cuidadosamente sob medida. Aqui, a Justiça parece enxergar muito bem quem está do outro lado da mesa. No país da corrupção institucionalizada, condenado de colarinho branco continua sendo uma espécie em extinção — protegida, curiosamente, pelo próprio sistema que deveria caçá-la.

Estima-se que a corrupção no Brasil consuma entre R$ 85 bilhões e R$ 300 bilhões por ano. E por que ela nos acompanha desde o Primeiro Reinado? Simples: nossa legislação, historicamente, nunca foi exatamente um muro contra a corrupção.

Aproveitei o embalo e arrisquei um palpite provocativo: “Sabe quem ainda vai acabar colocando este país nos eixos? O PCC, o Comando Vermelho e as outras facções.” O homem quase engasgou. Calma, expliquei.

A criminalidade no Brasil — seja a de fuzil, seja a de gabinete — floresce nas lacunas deixadas pelo nosso ordenamento jurídico. E o crime organizado percebeu, há muito tempo, que as leis brasileiras, em certos aspectos, são uma rodovia de seis faixas e sem radar.

Hoje, facções e milícias não vivem apenas do tráfico, do contrabando, da pirataria e da exploração das comunidades que dominam. Deram um passo adiante: deixaram de operar apenas à margem da economia e passaram a se infiltrar nela. Lavam dinheiro, diversificam negócios, compram influência e vestem o terno respeitável da legalidade. Estão na construção civil, no posto da esquina, nas empresas de ônibus, na mineração, nas fintechs, no futebol, nas apostas e até nos grandes eventos. O crime organizado descobriu que, no Brasil, o melhor esconderijo para o dinheiro sujo pode ser justamente um negócio com fachada limpa.

Estimativas apontam que o crime organizado movimenta entre R$ 350 bilhões e R$ 450 bilhões por ano. Essa máquina gira tão macia porque nossa legislação continua sendo um verdadeiro queijo suíço quando o assunto é lavagem de dinheiro.

Enquanto países que levam a sério o combate à corrupção e ao crime organizado procuram sufocar o patrimônio ilícito, o Brasil oferece um verdadeiro cardápio de facilidades. Empresas de fachada, offshores e laranjas transitam com surpreendente desenvoltura. A perda de bens enfrenta uma série de obstáculos jurídicos e, enquanto a Justiça não chega ao fim da linha, o patrimônio pode simplesmente evaporar.

Para completar, patrimônio incompatível com a renda declarada não constitui, por si só, crime autônomo para agentes públicos. A infinidade de recursos pode favorecer a prescrição; não há, em todos os casos, mecanismos suficientemente eficazes para impedir grandes movimentações de dinheiro em espécie; e erros formais podem se transformar em combustível para uma sucessão interminável de recursos e anulações.

No entanto, discursos contra a corrupção não faltam. Sobram. O problema aparece quando chega a hora de adequar a legislação aos mecanismos modernos e internacionais de combate ao crime organizado e à corrupção. Aí é necas de pitibiribas!

No fim das contas, só o Congresso Nacional pode fechar essas torneiras. Quem já combateu o crime organizado de verdade em outras partes do mundo aprendeu, há décadas, uma lição simples: prender pistoleiro é enxugar gelo. Cai um, entra outro. O que destrói o crime organizado é o asfixiamento financeiro. Nenhum negócio sobrevive quando a torneira fecha.

Se a água continuar subindo apenas até os joelhos dos agentes políticos e dos agentes públicos, nada mudará. O problema é que o crime organizado já não está apenas à espreita: além de avançar sobre a economia formal, finca raízes nos Três Poderes. Quando a água finalmente chegar ao pescoço de quem deveria combatê-lo, talvez já seja tarde demais. O futuro, nesse cenário, não é apenas preocupante. É assustador.

Acuados pelo próprio monstro que ajudaram a alimentar, eles aprenderão a nadar para se salvar — fechando, finalmente, as brechas que permitiram ao crime prosperar. Só então a corrupção e o crime organizado começarão a sofrer reveses dos quais não conseguirão se recuperar.

Resta uma ressalva: tudo isso pressupõe que o Brasil continue respirando democracia. Porque, se ela faltar, as trevas serão muito mais obscuras — e, nesse cenário, o PCC e o CV serão provavelmente o menor dos nossos problemas.

 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Lulistas e bolsonaristas são mais parecidos do que imaginam, diz estudo

 


Pesquisas de grandes institutos indicam que o eleitorado brasileiro se divide em três grupos de tamanho semelhante: direita, esquerda e não alinhados. Isso significa que, por mais barulho que os alinhados façam, nenhum dos dois tem votos suficientes para vencer uma eleição majoritária sozinho.

 

O próximo presidente da República será quem conquistar a maioria entre os não alinhados — eleitores pragmáticos que se distanciam de disputas ideológicas. Esse grupo decide o voto avaliando previsibilidade econômica, inflação, poder de compra, combate à criminalidade, saúde e educação.

Desconfia de escândalos, condena a corrupção e rejeita discursos radicais.

Por não ter amarras ideológicas, esse eleitor flutua conforme os fatos e o noticiário.

 

Dificilmente um eleitor de esquerda migra para a direita ou vice-versa, mas o eleitor pragmático muda de lado com facilidade, várias vezes durante a campanha. Esse grupo é o terror das pesquisas quando a disputa é acirrada.

 

No cenário atual, a esquerda é majoritariamente representada pelos lulistas, e a direita, pelos bolsonaristas. Um estudo recente da More in Common Brasil, em parceria com o Ipsos-Ipec (realizado entre 6 e 10 de agosto de 2026 com 2.000 pessoas), revelou um dado revelador: lulistas e bolsonaristas são mais parecidos — e menos radicais — do que pensam uns dos outros.

 

A pesquisa mediu o “perception gap” (o descompasso entre o que se imagina do outro e o que ele realmente pensa) e constatou um erro médio de percepção de 20 pontos entre os grupos. Ambos enxergam o lado oposto como muito mais intolerante e caricato do que a realidade mostra:

 

Inclusão social: Bolsonaristas deram nota 86 para a importância de pessoas pobres viajarem de avião e frequentarem os mesmos espaços dos ricos. Lulistas achavam que a nota seria 69.

 

Igualdade salarial: A nota dos bolsonaristas para salários iguais entre homens e mulheres na mesma função foi 94. A estimativa dos lulistas era 73.

 

Democracia: A rejeição ao fechamento do Congresso obteve nota 71 entre bolsonaristas, ante a expectativa lulista de 65.

 

Segurança: Lulistas deram nota 86 à afirmação de que a pobreza não justifica o crime. Bolsonaristas esperavam 67.

 

Autonomia financeira: A frase de que todos devem trabalhar para ter renda própria sem depender do governo recebeu nota 84 dos lulistas, contra a estimativa bolsonarista de 65.

 

Valores familiares: A afirmação “A família é a base de tudo” obteve nota 95 entre lulistas. Os bolsonaristas projetavam apenas 72.

 

A conclusão é clara: os estereótipos políticos não são apenas exagerados, são falsos.

 

Isso não apaga as divergências profundas nem aproxima totalmente as agendas econômicas e sociais. Contudo, demonstra que a distância real entre os polos é muito menor do que a imaginada.

 

Discordar é um pilar saudável da democracia. O perigo surge quando deixamos de debater com pessoas reais para combater caricaturas. O adversário político raramente é o monstro que a polarização inventa. Discordar faz parte do jogo; desumanizar o outro, não.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

NÃO GOSTA DE TEXTO LONGO? ENTÃO LEIA ESTE. É CURTO E GROSSO.

 


Os números são preocupantes: 66% dos estudantes brasileiros relatam não ler textos com mais de 10 páginas durante o ano letivo. (OCDE/PISA)

Entre os adultos, o cenário também assusta: 29% são classificados como analfabetos funcionais. Leem palavras, frases curtas e manchetes, mas têm dificuldade para compreender textos mais complexos. E apenas 12% conseguem ler e compreender com facilidade textos longos. (INAF)

Agora leve isso para a internet. Estamos diante de estímulos, notificações, vídeos, imagens e textos curtos. Resultado? Pulamos. Rolamos. Reagimos. Mas lemos?

Segundo pesquisas do Nielsen Norman Group, 81% dos usuários tendem a “varrer” os textos na tela, em vez de lê-los palavra por palavra. E aqui começa o problema.

A neurocientista Maryanne Wolf alerta para algo que deveria nos preocupar: ler profundamente não é simplesmente decodificar palavras. É uma atividade cerebral complexa, que exige atenção, memória, reflexão e capacidade de estabelecer relações. Quando nos acostumamos a consumir tudo em pedaços, rapidamente, nosso cérebro se adapta a esse padrão. E aquilo que não exercitamos... enfraquece.

Agora pense nisso.

Como desenvolver pensamento crítico se não conseguimos permanecer alguns minutos diante de uma ideia? Como compreender um argumento se abandonamos o texto antes do terceiro parágrafo? Como identificar uma mentira se só lemos a manchete? Como formar uma opinião própria se passamos o dia consumindo opiniões prontas?

O problema não é apenas a leitura. É o que pode estar acontecendo com a nossa capacidade de pensar.

Menos leitura profunda pode significar: menos pensamento crítico; menor capacidade de concentração; dificuldade para compreender argumentos complexos; redução do vocabulário; maior vulnerabilidade à desinformação; mais impulsividade.

E talvez exista uma consequência ainda mais perigosa: uma sociedade que perde o hábito de pensar profundamente pode continuar extremamente informada. E, ainda assim, ser facilmente manipulada.

 

 


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Espelho da Praça Henricão: O Racismo em Itapira Entre o Passado e o Presente

 



Recentemente, o busto da Mãe Preta, na Praça Henricão, foi vandalizado. Para deixar explícita a motivação do ato, o criminoso deixou um recadinho: um macaco de brinquedo. Não há como ignorar o significado do gesto. É um ato que tem nome e sobrenome: racismo escancarado.

O busto vandalizado havia sido instalado em substituição ao original, que fora furtado por seu valor em bronze — provavelmente vendido em algum ferro-velho clandestino da cidade.

Diante de uma evidência tão contundente de racismo, precisamos nos perguntar: que caminho Itapira está tomando nestes tempos sombrios, em que a empatia, o respeito e a convivência com a diversidade parecem perder relevância?

A história da população negra em Itapira é repleta de nuances. Como cidade de forte vocação agrícola, seus grandes proprietários de terra se beneficiaram, durante muito tempo, da mão de obra escravizada. Muitos resistiram ao movimento abolicionista e receberam com revolta a decisão brasileira de extinguir oficialmente a escravidão.

Como nos relata Jácomo Mandato, em seu livro O Mártir da Abolição, Joaquim Firmino, delegado que protegia escravizados fugitivos, despertou a ira de fazendeiros locais e da região. Eles recrutaram assassinos para invadir sua casa. Joaquim tentou fugir, mas foi alcançado e espancado até a morte.

O caso teve repercussão nacional, e há quem sustente que o assassinato contribuiu para acelerar a assinatura da Lei Áurea. A antiga Penha do Rio do Peixe, profundamente marcada pela vergonha do episódio, mudaria de nome para Itapira dois anos depois.

A abolição foi recebida com revolta por parte dos grandes agricultores. Em vez de incorporar os negros libertos como trabalhadores remunerados, muitos optaram por expulsá-los de suas terras. A maioria acabou se estabelecendo na periferia de Itapira, especialmente nos morros além do Ribeirão da Penha e da região da várzea, que mais tarde se tornaria a Vila Ilze.

Em razão da grande concentração de população negra, a Vila Ilze ficou conhecida pejorativamente como “Risca-Faca”, associando preconceituosamente seus moradores à violência, às brigas e à criminalidade.

Durante quase um século, a Vila Ilze permaneceu praticamente esquecida. Faltavam luz elétrica, água tratada, coleta de esgoto e pavimentação. A urbanização começou a avançar a partir dos anos 1970, especialmente durante o primeiro mandato de Totonho Munhoz. Foi também nesse período que a expressão “Risca-Faca” começou a cair em desuso.

Por muito tempo — talvez ainda sob o peso do constrangimento provocado pelo assassinato do delegado Joaquim Firmino — o racismo em Itapira não se manifestava de maneira tão escancarada. Havia interação e um aparente respeito entre brancos e negros. Mas o preconceito estava presente no cotidiano e aparecia em frases que eram ditas abertamente, como “preto de alma branca”, “quando preto não caga na entrada, caga na saída” ou “olha a cor dele”, entre tantas outras manifestações que, durante muito tempo, foram tratadas como brincadeira ou costume.

No mercado de trabalho, os brancos também eram, em geral, privilegiados nas contratações. E a segregação aparecia até nos espaços de convivência.

Itapira tinha quatro clubes que, na prática, refletiam a divisão social e racial da cidade: o Centrão, frequentado pela classe média; o Clube XV, pelos mais endinheirados; a Sociedade Operária, pelos remediados; e o Salão do Dito Negrinho, destinado aos negros. Brancos de um lado, negros do outro.

Hoje, felizmente, a participação da população negra e a ocupação dos espaços públicos e sociais são realidades conquistadas com muita luta. Itapira evoluiu como sociedade e houve avanços importantes na convivência e na integração. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. É justamente por isso que o vandalismo na Praça Henricão é tão preocupante.

Seria apenas um ato isolado, praticado por um racista empedernido? Ou estamos diante de um sinal de que, em meio à intolerância que cresce em diferentes partes da sociedade, há quem queira refrear o processo civilizatório e ressuscitar velhas divisões — brancos de um lado, negros do outro?

O racismo é crime no Brasil, e a Constituição e a legislação brasileira o tratam com especial gravidade, considerando-o inafiançável e imprescritível.

Como nos ensinou Martin Luther King Jr.: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”

Que Itapira não permita que a intolerância nos faça andar para trás.

domingo, 23 de agosto de 2026

Arlindo Bellini, Itapira reconhece e agradece o seu trabalho

 



Diz a sabedoria popular que “ninguém é melhor que ninguém”. Uma frase simples, mas que carrega uma ideia profunda: nenhum ser humano deveria se imaginar superior a outro.

Essa ideia vem sendo construída ao longo dos séculos e encontra respaldo em diversos textos bíblicos. Em Gálatas 3:28, por exemplo, encontramos a afirmação: "Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus".

Isso, naturalmente, não significa negar o reconhecimento àqueles que, por suas habilidades, dedicação ou talento, conseguem se destacar nas mais diversas áreas da vida. Há artistas, cientistas, profissionais liberais, empresários, políticos e tantos outros que deixam marcas importantes em seu tempo. Há, sobretudo, aqueles que dedicam parte de suas vidas ao bem comum e à construção de uma sociedade melhor.

Itapira, ao longo de sua história, teve — e continua tendo — muitas dessas pessoas. Por isso, não poderia deixar de registrar a solenidade realizada nesta sexta-feira, 21 de agosto, no Circolo Italo-Brasiliano di Itapira, quando nosso historiador Arlindo Bellini recebeu o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo, a mais alta condecoração concedida pela Assembleia Legislativa paulista, por iniciativa do deputado Barros Munhoz.

Há homenagens que reconhecem uma trajetória. E há aquelas que, além disso, nos fazem olhar para trás e perceber a dimensão do caminho percorrido.

A história de Arlindo começa cedo. Ainda adolescente, começou a trabalhar em uma tipografia responsável pela impressão do semanário Folha de Itapira. Ali, descobriu que a palavra, antes de chegar aos olhos do leitor, precisava ser construída letra por letra, palavra por palavra, frase por frase. Talvez tenha sido ali, entre tipos de chumbo, tinta e papel, que alguma coisa começou a se formar dentro dele.

Conheceu os colaboradores do jornal, aqueles que produziam as notícias, escreviam as histórias e ajudavam a transformar acontecimentos em memória. E, quem sabe, foi naquele ambiente que nasceu o gosto por registrar no papel as histórias e as ideias que iam passando por sua cabeça. Seis anos depois, o destino lhe apresentou outro caminho: o comércio.

Arlindo agarrou a profissão de vendedor com unhas e dentes e nela permaneceu muito além da merecida aposentadoria. Mas a chama dos tempos da Folha de Itapira nunca se apagou.

Dedicou-se a preservar a memória daqueles que nasceram ou vieram morar em Itapira. Fez isso por meio de crônicas, poesias e histórias que percorrem os mais diferentes cantos da vida da cidade: do futebol às festas populares, dos acontecimentos pitorescos aos personagens anônimos do cotidiano. Famílias inteiras passaram por seu olhar. Tudo devidamente eternizado nas páginas do jornal Tribuna de Itapira.

Tudo isso, por si só, já seria motivo suficiente para que a cidade reconhecesse seu trabalho. E reconheceu. Afinal, quem registra a memória de uma comunidade presta um serviço que o tempo, sozinho, não consegue fazer. Mas há algo a mais no trabalho de Arlindo Bellini.

Quando olhamos para a historiografia brasileira, principalmente aquela produzida longe dos grandes centros, percebemos que durante muito tempo a história foi contada, sobretudo, a partir dos que tinham poder, dinheiro, sobrenome ou posição social. Os demais apareciam, quando apareciam, como personagens secundários. Nem todos eram considerados iguais.

Arlindo fez diferente, olhou para todos. Deu memória aos que poderiam ser esquecidos.

E talvez seja justamente isso que torne seu trabalho tão especial. Porque uma cidade não é feita apenas de seus prefeitos, vereadores, empresários, médicos, advogados ou personalidades ilustres. Uma cidade também é feita do homem que acordava cedo para trabalhar, da mulher que criou os filhos, do jogador de várzea, do comerciante da esquina, da família que chegou de longe e aqui criou raízes. É feita, enfim, de gente.

Gente que nasceu, trabalhou, amou, sofreu, festejou, errou, acertou e, de alguma maneira, ajudou a construir o lugar que hoje chamamos de nossa terra. Arlindo Bellini entendeu isso. E passou décadas contando essas histórias.

Não é pouca coisa. Aliás, talvez seja uma das coisas mais importantes que alguém possa fazer por uma cidade. Porque o tempo tem um defeito terrível: ele apaga. Apaga nomes, rostos, histórias e até acontecimentos que um dia pareceram inesquecíveis.

É por isso que o trabalho de Arlindo não deveria permanecer apenas nas estantes, nas gavetas ou arquivos particulares. Precisa atravessar o tempo. E talvez tenha chegado a hora de transformar esse patrimônio restrito aos leitores do Tribuna em patrimônio coletivo.

Com a autorização do autor e respeitados todos os direitos legais, seria importante reunir, digitalizar, organizar e disponibilizar na Internet todo o material produzido por Arlindo ao longo de décadas. Não apenas para preservá-lo, mas para torná-lo pesquisável e acessível às novas gerações.

Quem sabe, aprovar uma lei que tornasse todo o acervo em Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Itapira.

Caberia à Câmara Municipal, à Prefeitura e às demais forças vivas da cidade unir esforços para que esse acervo seja devidamente preservado, protegido e disponibilizado, ad aeternum.

Talvez esse seja, afinal, o sentido mais bonito da homenagem recebida nesta sexta-feira: reconhecer não apenas o trabalho de um homem, mas a importância de preservar aquilo que ele passou a vida inteira tentando salvar do esquecimento.