Há medos que a modernidade devia ter enterrado
junto com a lâmpada a óleo e a carruagem. Mas o pavor de acordar do lado de
dentro de uma caixa de madeira, a dois metros da luz do dia, parece imune ao progresso.
A ciência jura de pé junto que isso ficou no
passado. Fala em exames minuciosos, morte encefálica confirmada em carimbo
duplo por dois médicos distintos, eletroencefalogramas, protocolos rigorosos...
A teoria é impecável. A prática, no entanto, insiste em dar umas escorregadas
capazes de gelar a espinha de qualquer um.
Veja o caso recente do bebê de apenas um mês em Rio
Claro. O hospital seguiu o rito, cumpriu a burocracia, assinou os papéis e deu
a vida por encerrada. O corpo foi liberado. A história teria chegado ao seu
fim, não fosse a funcionária da funerária. Ao iniciar os preparativos, ela
notou que o pequeno ainda respirava: um sopro de vida ignorado pela medicina. O
bebê foi socorrido a tempo.
Não foi um sobressalto isolado. Da poeira de Presidente
Prudente (SP) às praias de Cidreira (RS), passando pelas ladeiras de Ipatinga
(MG), o roteiro se repete com uma frequência incômoda. É o idoso que volta a
respirar na mesa de preparação, a senhora que resolve dar sinais de vida a
minutos do funeral, a mulher que desperta e começa a se mexer no momento exato
em que as flores estão sendo arranjadas. Na Tailândia, a coisa tomou ares de
filme de suspense: uma mulher começou a esmurrar a tampa do caixão quando já se
aproximava, a poucos centímetros, das chamas da câmara de cremação.
Esse pavor não é de hoje e já fez a engenhosidade
humana produzir loucuras fascinantes. No século XIX, inventores ganhavam a vida
projetando os "caixões de segurança" — parafernálias equipadas com
tubos de respiração, cordas e sinos na superfície. A ideia era simples: se você acordasse em um lugar
estreito e fechado, bastava puxar um cordão para acionar um alarme.
Um ex-prefeito de Dourados (MS) mandou construir um
jazigo equipado com uma linha telefônica instalada na parede do túmulo. O
caixão tinha engenharia própria para ser aberto por dentro e a gaveta contava
com dutos de ar. A ideia era clara: se o destino lhe pregasse uma peça, ele
empurraria a tampa, pegaria o gancho e ligaria para a família. Quando o
político finalmente partiu desta para a melhor, os parentes honraram a vontade
dele, mas o telefone não foi usado.
A verdade é que a medicina avançou e a chance de um
diagnóstico errado é matematicamente quase nula. Mas, por garantia, não custa
pedir aos familiares e amigos que façam aquela última pergunta ao médico: "O
senhor tem certeza, doutor?" — ou, ainda, encarregar alguns para que
chamem o VAR da funerária.






