quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Espelho da Praça Henricão: O Racismo em Itapira Entre o Passado e o Presente

 



Recentemente, o busto da Mãe Preta, na Praça Henricão, foi vandalizado. Para deixar explícita a motivação do ato, o criminoso deixou um recadinho: um macaco de brinquedo. Não há como ignorar o significado do gesto. É um ato que tem nome e sobrenome: racismo escancarado.

O busto vandalizado havia sido instalado em substituição ao original, que fora furtado por seu valor em bronze — provavelmente vendido em algum ferro-velho clandestino da cidade.

Diante de uma evidência tão contundente de racismo, precisamos nos perguntar: que caminho Itapira está tomando nestes tempos sombrios, em que a empatia, o respeito e a convivência com a diversidade parecem perder relevância?

A história da população negra em Itapira é repleta de nuances. Como cidade de forte vocação agrícola, seus grandes proprietários de terra se beneficiaram, durante muito tempo, da mão de obra escravizada. Muitos resistiram ao movimento abolicionista e receberam com revolta a decisão brasileira de extinguir oficialmente a escravidão.

Como nos relata Jácomo Mandato, em seu livro O Mártir da Abolição, Joaquim Firmino, delegado que protegia escravizados fugitivos, despertou a ira de fazendeiros locais e da região. Eles recrutaram assassinos para invadir sua casa. Joaquim tentou fugir, mas foi alcançado e espancado até a morte.

O caso teve repercussão nacional, e há quem sustente que o assassinato contribuiu para acelerar a assinatura da Lei Áurea. A antiga Penha do Rio do Peixe, profundamente marcada pela vergonha do episódio, mudaria de nome para Itapira dois anos depois.

A abolição foi recebida com revolta por parte dos grandes agricultores. Em vez de incorporar os negros libertos como trabalhadores remunerados, muitos optaram por expulsá-los de suas terras. A maioria acabou se estabelecendo na periferia de Itapira, especialmente nos morros além do Ribeirão da Penha e da região da várzea, que mais tarde se tornaria a Vila Ilze.

Em razão da grande concentração de população negra, a Vila Ilze ficou conhecida pejorativamente como “Risca-Faca”, associando preconceituosamente seus moradores à violência, às brigas e à criminalidade.

Durante quase um século, a Vila Ilze permaneceu praticamente esquecida. Faltavam luz elétrica, água tratada, coleta de esgoto e pavimentação. A urbanização começou a avançar a partir dos anos 1970, especialmente durante o primeiro mandato de Totonho Munhoz. Foi também nesse período que a expressão “Risca-Faca” começou a cair em desuso.

Por muito tempo — talvez ainda sob o peso do constrangimento provocado pelo assassinato do delegado Joaquim Firmino — o racismo em Itapira não se manifestava de maneira tão escancarada. Havia interação e um aparente respeito entre brancos e negros. Mas o preconceito estava presente no cotidiano e aparecia em frases que eram ditas abertamente, como “preto de alma branca”, “quando preto não caga na entrada, caga na saída” ou “olha a cor dele”, entre tantas outras manifestações que, durante muito tempo, foram tratadas como brincadeira ou costume.

No mercado de trabalho, os brancos também eram, em geral, privilegiados nas contratações. E a segregação aparecia até nos espaços de convivência.

Itapira tinha quatro clubes que, na prática, refletiam a divisão social e racial da cidade: o Centrão, frequentado pela classe média; o Clube XV, pelos mais endinheirados; a Sociedade Operária, pelos remediados; e o Salão do Dito Negrinho, destinado aos negros. Brancos de um lado, negros do outro.

Hoje, felizmente, a participação da população negra e a ocupação dos espaços públicos e sociais são realidades conquistadas com muita luta. Itapira evoluiu como sociedade e houve avanços importantes na convivência e na integração. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. É justamente por isso que o vandalismo na Praça Henricão é tão preocupante.

Seria apenas um ato isolado, praticado por um racista empedernido? Ou estamos diante de um sinal de que, em meio à intolerância que cresce em diferentes partes da sociedade, há quem queira refrear o processo civilizatório e ressuscitar velhas divisões — brancos de um lado, negros do outro?

O racismo é crime no Brasil, e a Constituição e a legislação brasileira o tratam com especial gravidade, considerando-o inafiançável e imprescritível.

Como nos ensinou Martin Luther King Jr.: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”

Que Itapira não permita que a intolerância nos faça andar para trás.

domingo, 23 de agosto de 2026

Arlindo Bellini, Itapira reconhece e agradece o seu trabalho

 



Diz a sabedoria popular que “ninguém é melhor que ninguém”. Uma frase simples, mas que carrega uma ideia profunda: nenhum ser humano deveria se imaginar superior a outro.

Essa ideia vem sendo construída ao longo dos séculos e encontra respaldo em diversos textos bíblicos. Em Gálatas 3:28, por exemplo, encontramos a afirmação: "Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus".

Isso, naturalmente, não significa negar o reconhecimento àqueles que, por suas habilidades, dedicação ou talento, conseguem se destacar nas mais diversas áreas da vida. Há artistas, cientistas, profissionais liberais, empresários, políticos e tantos outros que deixam marcas importantes em seu tempo. Há, sobretudo, aqueles que dedicam parte de suas vidas ao bem comum e à construção de uma sociedade melhor.

Itapira, ao longo de sua história, teve — e continua tendo — muitas dessas pessoas. Por isso, não poderia deixar de registrar a solenidade realizada nesta sexta-feira, 21 de agosto, no Circolo Italo-Brasiliano di Itapira, quando nosso historiador Arlindo Bellini recebeu o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo, a mais alta condecoração concedida pela Assembleia Legislativa paulista, por iniciativa do deputado Barros Munhoz.

Há homenagens que reconhecem uma trajetória. E há aquelas que, além disso, nos fazem olhar para trás e perceber a dimensão do caminho percorrido.

A história de Arlindo começa cedo. Ainda adolescente, começou a trabalhar em uma tipografia responsável pela impressão do semanário Folha de Itapira. Ali, descobriu que a palavra, antes de chegar aos olhos do leitor, precisava ser construída letra por letra, palavra por palavra, frase por frase. Talvez tenha sido ali, entre tipos de chumbo, tinta e papel, que alguma coisa começou a se formar dentro dele.

Conheceu os colaboradores do jornal, aqueles que produziam as notícias, escreviam as histórias e ajudavam a transformar acontecimentos em memória. E, quem sabe, foi naquele ambiente que nasceu o gosto por registrar no papel as histórias e as ideias que iam passando por sua cabeça. Seis anos depois, o destino lhe apresentou outro caminho: o comércio.

Arlindo agarrou a profissão de vendedor com unhas e dentes e nela permaneceu muito além da merecida aposentadoria. Mas a chama dos tempos da Folha de Itapira nunca se apagou.

Dedicou-se a preservar a memória daqueles que nasceram ou vieram morar em Itapira. Fez isso por meio de crônicas, poesias e histórias que percorrem os mais diferentes cantos da vida da cidade: do futebol às festas populares, dos acontecimentos pitorescos aos personagens anônimos do cotidiano. Famílias inteiras passaram por seu olhar. Tudo devidamente eternizado nas páginas do jornal Tribuna de Itapira.

Tudo isso, por si só, já seria motivo suficiente para que a cidade reconhecesse seu trabalho. E reconheceu. Afinal, quem registra a memória de uma comunidade presta um serviço que o tempo, sozinho, não consegue fazer. Mas há algo a mais no trabalho de Arlindo Bellini.

Quando olhamos para a historiografia brasileira, principalmente aquela produzida longe dos grandes centros, percebemos que durante muito tempo a história foi contada, sobretudo, a partir dos que tinham poder, dinheiro, sobrenome ou posição social. Os demais apareciam, quando apareciam, como personagens secundários. Nem todos eram considerados iguais.

Arlindo fez diferente, olhou para todos. Deu memória aos que poderiam ser esquecidos.

E talvez seja justamente isso que torne seu trabalho tão especial. Porque uma cidade não é feita apenas de seus prefeitos, vereadores, empresários, médicos, advogados ou personalidades ilustres. Uma cidade também é feita do homem que acordava cedo para trabalhar, da mulher que criou os filhos, do jogador de várzea, do comerciante da esquina, da família que chegou de longe e aqui criou raízes. É feita, enfim, de gente.

Gente que nasceu, trabalhou, amou, sofreu, festejou, errou, acertou e, de alguma maneira, ajudou a construir o lugar que hoje chamamos de nossa terra. Arlindo Bellini entendeu isso. E passou décadas contando essas histórias.

Não é pouca coisa. Aliás, talvez seja uma das coisas mais importantes que alguém possa fazer por uma cidade. Porque o tempo tem um defeito terrível: ele apaga. Apaga nomes, rostos, histórias e até acontecimentos que um dia pareceram inesquecíveis.

É por isso que o trabalho de Arlindo não deveria permanecer apenas nas estantes, nas gavetas ou arquivos particulares. Precisa atravessar o tempo. E talvez tenha chegado a hora de transformar esse patrimônio restrito aos leitores do Tribuna em patrimônio coletivo.

Com a autorização do autor e respeitados todos os direitos legais, seria importante reunir, digitalizar, organizar e disponibilizar na Internet todo o material produzido por Arlindo ao longo de décadas. Não apenas para preservá-lo, mas para torná-lo pesquisável e acessível às novas gerações.

Quem sabe, aprovar uma lei que tornasse todo o acervo em Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Itapira.

Caberia à Câmara Municipal, à Prefeitura e às demais forças vivas da cidade unir esforços para que esse acervo seja devidamente preservado, protegido e disponibilizado, ad aeternum.

Talvez esse seja, afinal, o sentido mais bonito da homenagem recebida nesta sexta-feira: reconhecer não apenas o trabalho de um homem, mas a importância de preservar aquilo que ele passou a vida inteira tentando salvar do esquecimento.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Quase meia Itapira está se mexendo. E você aí, parado, esperando o quê?


Não saí por aí com uma prancheta na mão, contando de porta em porta. Mas, de conversa em conversa, trocando uma ideia aqui e ouvindo outra ali, cheguei a uma estimativa impressionante: são cerca de cinquenta academias — particulares, de clubes ou administradas pelo poder público — espalhadas por todos os cantos do município. Uma lista imensa de opções que vai da musculação à hidroginástica, passando por pilates, dança, natação, yoga e artes marciais.

Se deixarmos de lado a educação física escolar, as escolinhas de esportes, os caminhantes das avenidas, os ciclistas das nossas estradas e até aqueles que jogam sua bola no fim de semana apenas por diversão, chego a uma estimativa generosa: entre 32 mil e 35 mil itapirenses estão se exercitando de forma estruturada e regular, pelo menos três vezes por semana. É praticamente metade da nossa população no embalo. Ver tanta gente investindo na própria saúde e buscando qualidade de vida é algo bonito de se ver.

Afinal, a ciência já cantou essa pedra em verso e prosa: o corpo cobra o seu preço, mas também sabe agradecer. Quando nos movimentamos, o coração trabalha melhor, o peso tende a diminuir, a gordura perde espaço e a pressão arterial pode se ajustar. Músculos e ossos ficam mais fortes e preparados para enfrentar lesões e dores do cotidiano, enquanto o sistema imunológico também se beneficia. De quebra, o cérebro responde na hora. Uma enxurrada de substâncias entra em cena para aliviar a tensão, reduzir o estresse, melhorar a memória e contribuir para uma noite de sono mais restauradora. É quase a matemática perfeita da vida: algumas horas de atividade física por semana podem devolver benefícios que se multiplicam por todos os outros momentos do dia. Um investimento cujo retorno aparece na qualidade de vida.

Se esse hábito transforma a vida de qualquer pessoa, para quem já cruzou a casa dos 60 anos ele pode ser um verdadeiro divisor de águas. O tempo é implacável: ano a ano, a massa muscular tende a diminuir, a força se reduz, o equilíbrio pode vacilar e as dores — velhas conhecidas ou recém-chegadas — podem se tornar companheiras frequentes. O perigo real não é envelhecer; é ver a própria autonomia escorrer pelas mãos. Já que ninguém tropeçou na fonte da juventude até hoje, a atividade física frequente e bem orientada é o mais perto que chegamos desse milagre. Ela não faz o relógio andar para trás, mas pode devolver força, disposição e vitalidade.

Olhando para essa Itapira dinâmica e ativa de hoje, torna-se impossível não fazer uma pausa para olhar para trás. Nenhuma história de movimento por aqui pode ser contada sem evocar a figura memorável do professor Barreto.

Muito antes de a saúde virar tendência ou assunto de redes sociais, quando o exercício físico não passava de um cumprimento de tabela nas aulas de educação física e apenas o futebol reinava soberano entre adultos e meninos, o Mestre Barreto já enxergava longe. Ele parecia ver o futuro. Organizava caminhadas, promovia corridas e puxava passeios ciclísticos que percorriam curtas e longas distâncias, ensinando a cidade a andar com as próprias pernas.

Se hoje a nossa gente entendeu o valor de cuidar do corpo e viver melhor, é porque, lá atrás, o “Seu Zé” dobrou as mangas e colocou as mãos na terra. A semente que ele plantou com tanto carinho germinou — e hoje Itapira inteira colhe os frutos, em pleno movimento.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Fé e Crime: O Paradoxo da Religiosidade


 

A contradição entre o senso comum e os dados revela que a chave para combater a violência está na força das instituições e no pacto social. O resto não passa de discurso que conduz ao nada.

Por Nino

O senso comum tende a nos indicar que, quanto mais religioso é um país, menores serão as suas taxas de criminalidade. Não é mesmo? Pois bem, essa premissa consolada pelo imaginário popular não se verifica diante da realidade dos fatos.

Levantamentos globais sobre pertencimento religioso, crença em divindades e a importância da fé na vida cotidiana mostram que os países com as menores taxas de religiosidade do mundo — onde a adesão varia entre 10% e 30% da população — apresentam também os menores índices de criminalidade e homicídios por 100 mil habitantes, quando comparados às nações com maior adesão religiosa.

No Brasil, os dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), referentes a 31 de dezembro de 2025, indicam uma população de 960.976 pessoas privadas de liberdade. Embora não existam censos oficiais definitivos sobre a religiosidade de todos os encarcerados e cumpridores de pena em regime domiciliar, levantamentos indicam que cerca de 60% se declaram evangélicos, 20% católicos, 8% praticantes de outras religiões e 12% sem religião.

“Embora a fé exerça um forte apelo na inibição individual de condutas criminosas, a segurança de um país depende da força de suas instituições, do vigor econômico e da coesão social.”

Apesar de as evidências estatísticas parecerem desfavoráveis à religião no âmbito macro, estudos de criminologia e psicologia social mostram, de forma consistente, que no nível individual a religiosidade tende a estar associada a menores taxas de criminalidade e desvios de conduta.

A explicação para essa aparente contradição reside no fato de que as taxas de criminalidade e violência estão diretamente ligadas a variáveis socioeconômicas, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a desigualdade de renda, a eficácia policial e o acesso à educação e ao emprego. Em cenários de alta vulnerabilidade, a população recorre à religião como fonte de amparo emocional, segurança comunitária e suporte social — condição que eleva o índice de religiosidade geral de uma nação. Por outro lado, países com baixa desigualdade, forte equidade e serviços públicos de excelência tendem à secularização, afastando o dogma da gestão da educação, da saúde e do sistema jurídico, regendo esses setores por normas estritamente civis.

Assim, embora a fé exerça um papel individual inibidor, a criminalidade global de uma nação é dependente da força de suas instituições, da economia e da coesão social.

Essa mesma lógica se reflete no interior do sistema prisional: entre os detentos de alta periculosidade nas penitenciárias brasileiras, verifica-se uma adesão intensa à fé. Declarar-se abertamente religioso confere um status diferenciado que resguarda o indivíduo em guerras internas e preserva sua vida. Além disso, crimes graves geram um peso psicológico brutal, e a ideia de um Deus que perdoa o que a sociedade condena serve como um refúgio para a sanidade mental.

Diante disso, a redução da criminalidade e da violência figura entre as maiores preocupações do Brasil, mas as soluções frequentemente propostas resvalam na ingenuidade, quando não no desconhecimento técnico.

O caminho eficiente consiste em aplicar estratégias consolidadas internacionalmente, focadas no fortalecimento do pacto social. Ao reduzir as disparidades sociais, fortalece-se o sentimento de pertencimento e a adesão voluntária às leis. Nos territórios onde o poder público garante serviços básicos e presença ostensiva, o crime organizado perde a capacidade de atuar como provedor e de exercer controle sobre a população vulnerável.

Por fim, vale destacar que o tratamento digno no cumprimento da pena não é mero ato de benevolência com o infrator, mas uma estratégia pragmática de segurança pública: o condenado cumprirá sua pena e, inevitavelmente, retornará ao convívio social. A forma como o Estado o trata durante o cárcere determina se ele sairá da prisão reintegrado ou ainda mais perigoso do que quando entrou.

 


domingo, 9 de agosto de 2026

A mentira não precisa virar verdade. Basta parecer verdade.

 

É assim que sociedades inteiras podem ser enganadas. E ninguém está imune, nem os mais espertos!

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.” A frase é frequentemente atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A autoria exata é controversa, mas a lógica por trás dela é antiga: Não é preciso provar. É preciso tornar a mentira familiar. E existe uma explicação científica para isso.

Um estudo publicado na Nature Communications, coordenado pelo pesquisador Grégoire Borst, da Université Paris Cité, analisou dados de mais de 31 mil participantes, reunidos em pesquisas realizadas entre 1977 e 2025.

A conclusão é preocupante: Quanto mais uma informação é repetida, maior pode ser a percepção de que ela é verdadeira. É o chamado efeito da verdade ilusória.

O cérebro usa a familiaridade como um atalho. “Eu já ouvi isso antes.” E, sem perceber, podemos completar: “Então deve ser verdade.” Não. Não é! Mas é assim que a armadilha funciona.

E as redes sociais transformaram essa velha técnica em uma máquina de repetição: Uma mentira aparece. Alguém compartilha. Outro comenta. Um influenciador reproduz. Um grupo de militantes espalha. Um perfil falso reforça. Um bot multiplica.

E, de repente, aquilo que nasceu como uma mentira passa a parecer uma informação amplamente conhecida. A mentira já não precisa de um autor. Ela passa a caminhar sozinha. Pior: os algoritmos ajudam.

Conteúdo que provoca raiva, medo, indignação ou escândalo chama mais atenção. Mais atenção gera mais interação. Mais interação gera mais distribuição. Mais distribuição gera mais repetição. E mais repetição produz familiaridade. É um círculo vicioso.

Agora acrescente a inteligência artificial. Uma fotografia pode ser fabricada. Uma voz pode ser clonada. Um vídeo pode ser manipulado. Uma pessoa pode aparecer dizendo algo que jamais disse. A mentira ganhou imagem, voz e aparência de realidade. Mas ainda existe algo pior.

A mentira pode deixar de ser apenas uma mentira individual e se transformar em verdade coletiva. É nesse momento que o problema deixa de ser apenas desinformação. Passa a ser um problema social.

Instituições são desacreditadas. A ciência vira “opinião”. A imprensa vira “inimiga”. O adversário político vira “ameaça”. E fatos passam a ser rejeitados simplesmente porque incomodam aquilo em que alguém escolheu acreditar. Quando isso acontece, deixamos de discutir ideias. Passamos a disputar realidades.

E uma sociedade que não consegue concordar sobre os fatos básicos do presente dificilmente conseguirá construir um futuro comum.

Essa talvez seja a maior ameaça da desinformação. A mentira não precisa convencer todo mundo. Precisa apenas convencer gente suficiente. Não precisa destruir a verdade. Basta fazer com que ninguém mais saiba em quem acreditar.

E quando tudo vira “narrativa”... Quando qualquer evidência pode ser descartada como “opinião”...  Quando a realidade passa a depender do grupo ao qual pertencemos... a verdade deixa de ser o ponto de partida.

E aí começa o verdadeiro perigo. Porque quem não consegue enxergar a realidade... não consegue resolver os problemas que a realidade apresenta.

Uma sociedade pode sobreviver a muitas mentiras. O que ela não pode perder é a capacidade de reconhecer a verdade.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ele recusou a vacina, mas injeta uma substância clandestina toda semana. O que mudou?

 


Um velho amigo me surpreendeu recentemente. Apareceu visivelmente mais magro e, com um sorriso satisfeito, revelou o seu "milagre": — Estou usando as canetas para emagrecer.

Fiquei estupefato. Não pelo peso perdido, mas pela ironia.

Ele foi um dos maiores opositores da vacina da Covid-19 que já conheci. Na época, o argumento era firme: "falta tempo de estudo para provar a eficácia e segurança."

Perguntei qual médico estava acompanhando o processo dele. A resposta me deixou ainda mais pasmo: — Você tá louco? Além da consulta, é o triplo do preço. O meu vem do Paraguai. Tenho um fornecedor de confiança.E qual você tá usando?Já usei umas três marcas. Agora tô na retatrutida.

O mesmo indivíduo que recusou vacinas desenvolvidas por grandes cientistas, aprovadas por órgãos reguladores e testadas em milhares de pessoas, hoje injeta no próprio corpo uma substância sem procedência.

E o detalhe: a retatrutida sequer foi aprovada para uso comercial no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. É um medicamento ainda em fase de testes!

Quando indicadas por um endocrinologista e com acompanhamento adequado, as canetas legítimas são ferramentas poderosas. Mas mesmo as oficiais exigem cautela:  elas podem causar náuseas, diarreia, perda de massa muscular e até pancreatite. Os estudos acompanharam pacientes por 1 a 2 anos. Ainda não sabemos 100% dos efeitos a longo prazo (5 anos ou mais). Sem reeducação alimentar e musculação, o efeito sanfona é quase certo após a interrupção.

Agora imagine aplicar uma versão clandestina? O risco deixa de ser apenas do remédio e passa a ser da roleta-russa sanitária: falhas de esterilização, impurezas, dosagens erradas ou até água com qualquer outra substância dentro do frasco.

Fiz a minha parte como amigo. Aconselhei que procurasse um médico de verdade, cuidasse da alimentação, praticasse musculação e parasse de brincar com a própria saúde. Desta vez, ele não rebateu meus argumentos de imediato. Deu a impressão de que, desta vez, não havia sido previamente municiado para combater qualquer ideia divergente. Meno male. Ao menos por um instante, pareceu refletir.

No mercado da vaidade instantânea e da ignorância turbinada pelas redes sociais, o ceticismo em relação à ciência costuma evaporar na velocidade de um clique. O problema é que o entusiasmo passa; a conta do risco, não. E ela pode ser bem cara.


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Respirando por Aparelhos: O Desafio Econômico e o Futuro de Itapira

 


Itapira enfrenta um momento de reflexão profunda sobre os rumos de seu desenvolvimento econômico e social. O cenário que se desenha não é apenas de desaceleração, mas de um distanciamento preocupante em relação ao ritmo de crescimento registrado pelo Estado de São Paulo e pelo restante do país.

O remédio para essa situação, longe de ser simples, depende acima de tudo da capacidade de reação da própria sociedade itapirense.

Os reflexos da perda de dinamismo da economia local tornaram-se cada vez mais evidentes. Os indicadores apontam para um cenário de crescente preocupação e acendem um importante sinal de alerta. Entre os principais deles, destacam-se:

A expressiva retração do Índice de Participação dos Municípios resultou em uma perda acumulada de aproximadamente R$ 42 milhões em repasses nos últimos dois anos. Esse recuo evidencia a perda de competitividade frente aos municípios vizinhos da Baixa Mogiana e ao cenário estadual.

A última atualização do Caged revelou um forte contraste. Desde junho de 2023, o número de trabalhadores com carteira assinada aumentou 9,8% no Brasil e 8,2% no Estado de São Paulo. Em Itapira, entretanto, o crescimento foi de apenas 3,9%, elevando o total de empregos formais de 23 mil para 24 mil vínculos ativos.

Enquanto o país e o estado aceleraram a criação de vagas, a evolução proporcional de Itapira ficou na metade do ritmo nacional, refletindo as dificuldades das empresas locais para expandir suas operações em um ambiente desafiador.

Se o desempenho das empresas já instaladas inspira cuidados, a análise da atividade empreendedora revela um quadro ainda mais sintomático. Os números comparativos entre 2023 e 2025 demonstram uma perda clara de ritmo na abertura de novos negócios:

Região

     Crescimento de Empresas Ativas (2023 a 2025)

Brasil

     Aproximadamente 20% (de 20,8 mi para 25 mi)

Estado de São Paulo

     Cerca de 27% (de 6,6 mi para 8,4 mi)

Itapira

     Inferior a 10% (de 10,1 mil para pouco mais de 11 mil)

Enquanto o estado ampliava sua base de negócios de forma expressiva, Itapira viu sua taxa de crescimento estacionar na metade da média brasileira.

Evidentemente, a administração pública municipal possui parcela significativa de responsabilidade nesse contexto. Cabe ao poder público fomentar um ambiente favorável aos investimentos, desburocratizar processos, estimular o empreendedorismo e criar condições estruturais para atrair novas empresas e reter as já existentes.

O mínimo esperado para uma cidade com o potencial de Itapira seria acompanhar, ainda que com moderação, o dinamismo econômico paulista e brasileiro.

Não será surpresa se Itapira reviver os anos 1970 e 1980, quando muitos jovens que concluíam o Ensino Médio e precisavam ingressar no mercado de trabalho eram obrigados a deixar a cidade em busca de oportunidades de emprego.

Quando essa distância econômica aumenta ano após ano, a sensação é de que o município caminha sob suporte artificial. A cidade continua respirando, mas com menos fôlego, distanciando-se do compasso de desenvolvimento de outras regiões.

Contudo, o sinal mais alarmante não é apenas o econômico, mas o comportamental. A redução da capacidade empreendedora transmite um sintoma de desânimo coletivo, como se parte da população estivesse deixando de acreditar no futuro do próprio município.

Quando uma comunidade perde a confiança em sua própria força, o perigo deixa de ser apenas financeiro e passa a ser a resignação — o risco silencioso de desistir de inovar, investir e crescer. A reação de Itapira, portanto, exige tanto políticas públicas assertivas quanto o resgate da autoestima e da crença no potencial local.