sábado, 2 de maio de 2026

Unimed e Santa Casa: Uma queda de braço onde o paciente paga o pato

 



Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o Código de Defesa do Consumidor, diante da não renovação de contrato entre um hospital e uma operadora de saúde, o descredenciamento deve ser comunicado com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

No dia 01/05, a Unimed Regional Baixa Mogiana comunicou via aplicativo: “A partir de 01/05/2026, a Santa Casa de Itapira deixou de integrar a rede credenciada da operadora, em razão de rescisão contratual promovida pela própria instituição, em meio às negociações que estavam em andamento.”

Apenas um dia antes, em 30/04, a Irmandade da Santa Casa havia noticiado através da imprensa: “A Santa Casa ressalta que a descontinuidade dos atendimentos decorre exclusivamente do término das negociações contratuais entre as partes. A instituição também informou que permanece aberta ao diálogo e à possibilidade de retomada da parceria, caso haja avanço em futuras tratativas.”

Enquanto a Unimed informou de forma clara que a descontinuidade partiu da Santa Casa, a nota do hospital evitou assumir a autoria da decisão. Diz o velho ditado que “quando um não quer, dois não brigam”. É fácil depreender que, ao declarar que a iniciativa foi da Santa Casa, a Unimed sugere que, por ela, o contrato teria sido renovado. Por outro lado, a Santa Casa condiciona a retomada da parceria ao "avanço das tratativas".

Considerando que o rompimento afetará milhares de pessoas, o esperado de duas instituições responsáveis seria o estabelecimento de um prazo razoável de transição enquanto as negociações prosseguissem. Caso o acordo fosse impossível, o descredenciamento deveria respeitar um tempo hábil para que o consumidor pudesse avaliar suas opções: Continuar com a Unimed (mesmo precisando se deslocar para outras cidades); ou migrar para outro plano de saúde que seja atendido pela Santa Casa.

O que se vê, ao que parece, é uma queda de braço. A Santa Casa busca melhorar a remuneração pelos serviços prestados, enquanto a Unimed prioriza o equilíbrio financeiro de suas operações. Ambas têm o direito de defender seus interesses financeiros, mas não têm o direito de deixar o usuário "pagando o pato" no meio desse fogo cruzado.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Crise Sem Fim: O que resta para a Santa Casa após o rompimento com a Unimed?

 


Quando a Unimed iniciou suas atividades na região, o SUS ainda não existia. Havia uma demanda latente por modelos de assistência médica privada devido à precariedade do sistema público da época. Embora o SUS tenha sido instituído pela CF88, sua consolidação levou mais de uma década.


Nesse contexto, a Unimed expandiu-se para Itapira. O credenciamento de médicos locais e da Santa Casa atraiu empresas da cidade, que passaram a oferecer planos corporativos a seus colaboradores. Em pouco tempo, a Unimed tornou-se a operadora com o maior número de usuários no município.


A crise na Santa Casa, contudo, é crônica. Nos anos 90, o cenário foi marcado pelo embate político de Barros Munhoz contra o corpo clínico: “os médicos detinham o controle não apenas técnico, mas também administrativo da instituição, dificultando o atendimento público”.


Dessa contenda, e como estratégia de longo prazo, nasceu o Hospital Municipal de Itapira. Hoje, a unidade é uma realidade que assegura atendimento gratuito para todos os itapirenses. No entanto, a fragilidade financeira da Santa Casa continuou.


Em 2013, o agravamento da crise levou o Dr. Pacheco e a Dra. Katia a assumirem a gestão com a missão de "colocar a casa em ordem". A nova administração focou em: injeção direta de recursos; articulação política com Barros Munhoz para obter complementos de verba estadual; reformas internas para conter sangrias financeiras.


Uma mudança histórica dessa gestão foi o fim da exclusividade da Unimed. Até então, a Santa Casa não abria espaço para outras operadoras. Novos convênios foram credenciados, diversificando a receita. Contudo, o fôlego foi temporário: os problemas estruturais retornaram.


A nota oficial recentemente divulgada pela Santa Casa sugere que a iniciativa de não renovar o contrato partiu da Unimed, embora deixe as portas abertas para uma futura repactuação. Enquanto isso, muita gente será prejudicada. Os motivos reais por trás do rompimento permanecem nos bastidores.


Diante de um histórico administrativo conturbado e agora desprovida de uma de suas fontes de faturamento mais consistentes, a resiliência da centenária Santa Casa de Itapira passa a ser vista com ceticismo por muitos.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Itapira: A Cidade que Reluz e o Olhar do Cuidador

 



Sou do tempo em que Itapira sofria com faltas de água durante o dia e cortes de energia à noite. Havia até uma quadrinha que a meninada da minha rua entoava: "Itapira, cidade que reluz: de dia falta água, de noite falta luz".

Hoje, felizmente, salvo exceções, o abastecimento de água e energia não sofre cortes sistêmicos. No entanto, a população reclama, com razão, do descuido generalizado. Basta um giro rápido e aleatório pelas ruas para detectar problemas que poderiam ser resolvidos com maior agilidade e eficiência.

A falta d’água da minha infância deu lugar a uma abundância irônica: os diversos vazamentos encontrados pelo caminho. O "precioso líquido", que poderá faltar nos tempos de seca, escorre pelo ralo sem cerimônia.

Já a escuridão daqueles tempos virou um "pisca-pisca" urbano. É difícil trafegar à noite sem notar postes cujas lâmpadas em fim de vida útil sinalizam a urgência de troca. Já presenciei casos em que a substituição excedeu duas semanas de espera.

Até os anos 70, a periferia era chão de terra; enfrentava-se pó, buracos, lama e as famosas "costelas de vaca". Hoje, com quase 100% das ruas pavimentadas, os buracos persistem e, em muitos pontos, o acúmulo de terra faz a poeira se levantar como antigamente.

Na era dos paralelepípedos, era comum ver servidores municipais com pequenos arrancadores retirando o mato entre as pedras. Hoje, mesmo com asfalto, ervas daninhas proliferam nas sarjetas e o mato passa do ponto em espaços públicos.

Não resta dúvida de que as atribuições de um prefeito vão além da zeladoria; sua função é, antes de tudo, cuidar das pessoas. Mas "tenho cá com meus botões" que, quando se cuida mal do básico, o complexo dificilmente recebe a atenção que merece.

Daqui a dois anos, escolheremos um novo prefeito. Tomara que os candidatos apresentem, acima de qualquer habilidade técnica, a disposição genuína de serem cuidadores. Afinal, a cidade deve ser agradável aos olhos e aos sentimentos. Em um ambiente limpo e organizado, nossa tendência é preservá-lo; diante da desordem, o impulso de muitos é desorganizar ainda mais.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempo Livre: O Verdadeiro Medo por Trás da Resistência

 


As reações contrárias à redução da jornada de trabalho não são uma novidade; são históricas. Mas quais seriam as bases que sustentam essa resistência?

Ainda persiste a crença de que o trabalhador que cumpre 12 horas diárias é mais comprometido do que aquele que alcança os mesmos resultados em seis. Cientificamente, porém, o cérebro humano não opera como uma máquina programada para a execução contínua de tarefas repetitivas. A mente funciona em picos de desempenho e exige períodos de desconexão para manter a eficiência e a criatividade.

Empresas presas a uma visão conservadora tendem a resistir à mudança porque a redução da jornada exige um foco rigoroso em resultados, e não apenas em processos. Manter o colaborador por 44 horas semanais, distribuídas em seis dias, oferece apenas uma ilusória sensação de controle para a gestão.

Para muitos, o emprego não é apenas um meio de subsistência, mas uma fonte primordial de status social. Nesse cenário, o aumento do tempo livre torna-se um problema existencial para quem não sabe lidar com a própria ociosidade ou com a vida fora do ambiente corporativo.

Em 1926, ao instituir a jornada de 40 horas semanais, Henry Ford foi duramente criticado e chamado de "traidor do capitalismo". Sua visão, contudo, era pragmática: trabalhadores exaustos e sem lazer não consomem. O resultado foi imediato: a suposta perda de produtividade deu lugar a um forte estímulo ao consumo e à eficiência industrial.

Historicamente, sempre que surgiram propostas de redução, os opositores repetiram discursos alarmistas. No entanto, a prática demonstra que, ao reduzir o tempo, as empresas são forçadas a investir em tecnologia e otimização, o que acaba elevando a produtividade global.

Atualmente, em diversos países desenvolvidos, o debate já avança para jornadas de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias.

Ao observarmos a trajetória histórica, das exaustivas 16 horas diárias nos primórdios da Revolução Industrial até os modelos atuais, percebe-se que o obstáculo real nunca foi a viabilidade econômica. O verdadeiro entrave sempre foi a resistência cultural e política em conceder autonomia e tempo livre à classe trabalhadora.

@ninomarcati

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Tempo Rei e os Passageiros do Agora


 

Você já reparou que, na sala de espera de um consultório, meia hora parece uma eternidade, mas, em uma boa conversa, o mesmo tempo voa? Onde reside, afinal, a “magia” do tempo?

 

Tive apenas dois relógios de pulso na vida. O último abandonei aos quinze anos e nunca mais o recuperei. Talvez eu quisesse que as horas corressem com mais liberdade. Notava algo curioso: sempre que eu consultava o relógio durante uma tarefa, a primeira metade do percurso parecia se arrastar; já a segunda, quando eu finalmente esquecia as horas, parecia encurtar.

 

Apesar da imensidão do universo, o tempo como o conhecemos, fatiado em segundos, minutos e anos, é uma convenção humana, moldada pelos ritmos de rotação e translação da Terra. Em outro planeta, sob outra cadência astral, nossa experiência cronológica seria radicalmente distinta.

 

Na filosofia, as perspectivas se dividem: há quem sustente que apenas o presente é real, pois o passado é memória e o futuro é projeção. Para outros, as três dimensões coexistem em um fluxo contínuo, como se o tempo fosse uma grande estrada e nós, meros passageiros atravessando paisagens já existentes.

 

Já a psicologia revela que nossa percepção está amarrada à forma como o cérebro processa novidades. Quanto mais experiências inéditas vivemos, mais o tempo se expande em nossa memória. Por outro lado, a rotina faz os dias evaporarem. É por isso que o caminho de volta de uma viagem parece sempre mais curto que o de ida: no retorno, o cérebro já reconhece o percurso e "economiza" atenção, acelerando a sensação do trajeto.

 

Como canta Gilberto Gil em Tempo Rei: “Não me iludo / Tudo permanecerá do jeito que tem sido / Transcorrendo, transformando / Tempo e espaço navegando todos os sentidos.”



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ah! Como este mundo é pequeno.

 


Quando eu era criança, Itapira era o meu mundo. Depois da minha primeira viagem a São Paulo com minha mãe, passando por Mogi Mirim e Campinas, meu mundo cresceu aos meus olhos.

Com as imagens captadas da Lua, tornou-se evidente o quão pequeno é o nosso planeta. Tão pequeno que, se um alienígena desavisado o avistasse à distância, dificilmente imaginaria que aqui vivem mais de 8 bilhões de pessoas, sem contar todas as que já passaram por aqui.

Quantas vezes ouvimos ou dizemos: “como este mundo é pequeno”? É a expressão de surpresa ao encontrarmos alguém conhecido em lugares distantes do nosso berço, fruto da nossa vocação para a convivência.

Mas, quando olhamos para a longa caminhada humana, percebemos que esse “mundo pequeno” é, na verdade, um palco imenso para o desejo humano de explorar e superar desafios.

Tudo começou na África há cerca de 300 mil anos. Foi ali que surgiram os primeiros Homo sapiens, que por cerca de 200 mil anos desenvolveram habilidades essenciais, especialmente a inteligência, marco do que se convencionou chamar de Revolução Cognitiva.

Entre todos os animais, o ser humano é o único que conseguiu, por seus próprios meios, alcançar todos os continentes. Outros, como ratos, baratas e moscas, também se espalharam pelo mundo, mas pegando carona.

Os deslocamentos começaram quando os grupos humanos perceberam que a convivência de muitos indivíduos em um mesmo território gerava tensões: disputas por recursos e conflitos de poder. Descobriram que esses grupos não podiam ultrapassar além de 150 indivíduos. No limite, parte do grupo, os mais jovens, partia em busca de novas terras. Assim teve início a grande migração humana, um processo que se estendeu por cerca de 100 mil anos.

Graças ao desenvolvimento da inteligência, esses desbravadores foram capazes de se adaptar aos mais diversos ambientes, superar adversidades e sobreviver com base na caça, na pesca e nos recursos naturais disponíveis. Esse modo de vida perdurou até a chamada Revolução Agrícola, há cerca de 10 mil anos, que possibilitou o surgimento das primeiras cidades e deu início ao processo civilizatório.

No fim das contas, não estamos aqui por acaso. E nada disso foi fácil.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Confusão: Festa de Maio e Festa de São Benedito



A Festa de São Benedito há muito se confunde com a nossa querida Festa de Maio.

 

Há 138 anos, a celebração religiosa reúne fiéis com novenas, missas e procissões, tendo seu ápice em 13 de maio. Com o tempo, ganhou novos elementos — parque de diversões, barracas, comércio popular e atrações culturais — e passou a acolher toda a população. Assim nasceu a Festa de Maio como a conhecemos: plural, viva e cheia de memória afetiva.

 

Quem é de Itapira sabe: é difícil não dar ao menos uma passada por lá. Nem que seja só para relembrar. É tradição.

 

Nos últimos anos, a Paróquia de São Benedito buscou, de forma legítima, separar a parte religiosa da festa, valorizando o espaço ao redor da igreja. Mais recentemente, a instalação de equipamentos de saúde na Rua Vitório Coppos — onde ficava o parque — trouxe um novo desafio: a falta de espaço para um dos principais atrativos da festa.

 

E fica a pergunta: estamos diante da possível ruptura de uma tradição centenária?

 

A Festa de Maio não surgiu por acaso. Foi construída ao longo do tempo, com a participação da Igreja, do poder público e, principalmente, do povo itapirense. Por isso, é justo refletir: não seria possível antecipar soluções que preservassem essa tradição tão importante para a nossa identidade?

 

Tradições não são apenas hábitos. São laços. São memória. São pertencimento.

 

Eu, por exemplo, guardo com carinho a lembrança dos meus pais me levando para brincar no “tomovinho”.

 

Que haja sensibilidade — e responsabilidade — para encontrar um caminho que mantenha viva essa parte tão especial da nossa história.

 

Você gosta da Festa de Maio ou quer o fim dela? Um assunto a ser discutido!