Na Copa do Mundo deste ano, os jogos não estarão no
centro das atenções dos brasileiros como acontecia antes. Tradicionalmente, a
maioria acompanhava a seleção e ignorava quase tudo o que acontecia no país.
Na maior "Copa" de todos os tempos,
porém, estima-se que cerca de 140 milhões de brasileiros — 68%, fruto da
polarização, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira — também
estarão atentos a outro espetáculo: a expectativa de que Daniel Vorcaro resolva
"jogar m* no ventilador". Para isso, haverá torcida dos dois lados:
metade lulista, metade bolsonarista. O detalhe é que essa torcida estará, em
tese, unida em favor do Brasil, mas por objetivos opostos. Cada lado espera que
uma eventual delação atinja apenas o adversário.
Os bolsonaristas esperam que das revelações de
Vorcaro surjam elementos capazes de atingir mortalmente as pretensões políticas
de Lula, demonstrar a participação de integrantes do PT da Bahia no esquema e
confirmar suspeitas envolvendo ministros do STF, especialmente Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli. Já os lulistas desejam que a delação revele uma eventual
participação de Bolsonaro na autorização, sem lastro, para o funcionamento
irregular do Banco Master; esclareça se a destinação dos recursos solicitados
por Flávio Bolsonaro teria sido para manter o irmão Eduardo nos EUA; e atinja
grandes lideranças do Centrão. Caso o banqueiro "dê com a língua nos
dentes", quais seriam as consequências?
Se as expectativas petistas forem confirmadas, o
bolsonarismo sofrerá um duro golpe, pois isso atingiria o coração da bandeira
anticorrupção que alimentou boa parte do sentimento antipetista. Seria um caso
de "elas por elas". Muitos líderes do Centrão perderiam prestígio, embora
o tradicional modus operandi de utilizar a máquina pública em benefício próprio
continuasse fazendo parte de sua rotina.
Por outro lado, se o sonho bolsonarista se
concretizar, pouca coisa mudará para o PT. Não seria nenhuma novidade, ou, como
diz a expressão muito usada antigamente em Itapira, seria apenas "mais uma
verruga para a Corola". O partido já enfrentou diversos escândalos de
corrupção, e a reeleição de Lula continuará dependendo, sobretudo, do
desempenho da economia e da aprovação de seu governo.
Entretanto, a possibilidade de uma delação com o
alcance imaginado por ambos os lados parece cada vez mais distante. Ao criar
uma teia de "amigos" influentes nos dois espectros políticos e no
Poder Judiciário, Vorcaro tinha consciência das irregularidades e de que, em
algum momento, poderia ser descoberto; por isso, construiu essas pontes para
utilizá-las a seu favor no momento oportuno. Ao não entregar os ditos cujos ao
cadafalso, ele pode estar apostando que Lula, caso seja reeleito e conte com o
respaldo do STF, lhe conceda algum tipo de benefício que o livre do cumprimento
integral da pena; ou que Flávio, se sair vitorioso, articule, com o apoio do
Centrão, uma anistia ou algo semelhante. São hipóteses que alimentam as
especulações nas rodas de cafezinho de Brasília.
O problema de Vorcaro, porém, estará na Polícia
Federal e na Procuradoria-Geral da República. Diante de documentos,
transferências financeiras, registros eletrônicos e arquivos encontrados em
diversos aparelhos celulares, seu futuro pode se tornar bastante complicado.
Talvez seja difícil receber ajuda de quem quer que seja. Será que ele estaria
mais preocupado com os anéis do que com os dedos? Eis a questão.
Afinal, o escândalo do Banco Master, atualmente
estimado em cerca de R$ 60 bilhões, superaria a soma dos últimos grandes
escândalos de corrupção do país: Mensalão (R$ 200 milhões), Petrolão/Lava Jato
(R$ 43 bilhões) e fraudes no INSS (R$ 6,3 bilhões), que juntos totalizariam R$
49,5 bilhões. Curiosamente, só não seria maior do que os R$ 61 bilhões em
emendas parlamentares previstos para este ano. Em 2025, foram R$ 50 bilhões —
recursos sobre os quais frequentemente recaem questionamentos quanto à
transparência e à destinação.
Com tanta torcida organizada dos dois lados, existe
apenas uma forma de o Brasil sair derrotado desse jogo: basta que tudo termine
em pizza.
Em tempo: termina nesta sexta-feira o prazo
concedido pelo ministro André Mendonça, do STF, para que a defesa de Daniel
Vorcaro tenha acesso, das 9h às 17h, aos termos necessários para estruturar a
delação premiada. A partir do dia seguinte, o contato dos advogados será
limitado a 30 minutos, e há a expectativa de que ele seja transferido de volta
para uma cela comum.






