segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Fé e Crime: O Paradoxo da Religiosidade


 

A contradição entre o senso comum e os dados revela que a chave para combater a violência está na força das instituições e no pacto social. O resto não passa de discurso que conduz ao nada.

Por Nino

O senso comum tende a nos indicar que, quanto mais religioso é um país, menores serão as suas taxas de criminalidade. Não é mesmo? Pois bem, essa premissa consolada pelo imaginário popular não se verifica diante da realidade dos fatos.

Levantamentos globais sobre pertencimento religioso, crença em divindades e a importância da fé na vida cotidiana mostram que os países com as menores taxas de religiosidade do mundo — onde a adesão varia entre 10% e 30% da população — apresentam também os menores índices de criminalidade e homicídios por 100 mil habitantes, quando comparados às nações com maior adesão religiosa.

No Brasil, os dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), referentes a 31 de dezembro de 2025, indicam uma população de 960.976 pessoas privadas de liberdade. Embora não existam censos oficiais definitivos sobre a religiosidade de todos os encarcerados e cumpridores de pena em regime domiciliar, levantamentos indicam que cerca de 60% se declaram evangélicos, 20% católicos, 8% praticantes de outras religiões e 12% sem religião.

“Embora a fé exerça um forte apelo na inibição individual de condutas criminosas, a segurança de um país depende da força de suas instituições, do vigor econômico e da coesão social.”

Apesar de as evidências estatísticas parecerem desfavoráveis à religião no âmbito macro, estudos de criminologia e psicologia social mostram, de forma consistente, que no nível individual a religiosidade tende a estar associada a menores taxas de criminalidade e desvios de conduta.

A explicação para essa aparente contradição reside no fato de que as taxas de criminalidade e violência estão diretamente ligadas a variáveis socioeconômicas, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a desigualdade de renda, a eficácia policial e o acesso à educação e ao emprego. Em cenários de alta vulnerabilidade, a população recorre à religião como fonte de amparo emocional, segurança comunitária e suporte social — condição que eleva o índice de religiosidade geral de uma nação. Por outro lado, países com baixa desigualdade, forte equidade e serviços públicos de excelência tendem à secularização, afastando o dogma da gestão da educação, da saúde e do sistema jurídico, regendo esses setores por normas estritamente civis.

Assim, embora a fé exerça um papel individual inibidor, a criminalidade global de uma nação é dependente da força de suas instituições, da economia e da coesão social.

Essa mesma lógica se reflete no interior do sistema prisional: entre os detentos de alta periculosidade nas penitenciárias brasileiras, verifica-se uma adesão intensa à fé. Declarar-se abertamente religioso confere um status diferenciado que resguarda o indivíduo em guerras internas e preserva sua vida. Além disso, crimes graves geram um peso psicológico brutal, e a ideia de um Deus que perdoa o que a sociedade condena serve como um refúgio para a sanidade mental.

Diante disso, a redução da criminalidade e da violência figura entre as maiores preocupações do Brasil, mas as soluções frequentemente propostas resvalam na ingenuidade, quando não no desconhecimento técnico.

O caminho eficiente consiste em aplicar estratégias consolidadas internacionalmente, focadas no fortalecimento do pacto social. Ao reduzir as disparidades sociais, fortalece-se o sentimento de pertencimento e a adesão voluntária às leis. Nos territórios onde o poder público garante serviços básicos e presença ostensiva, o crime organizado perde a capacidade de atuar como provedor e de exercer controle sobre a população vulnerável.

Por fim, vale destacar que o tratamento digno no cumprimento da pena não é mero ato de benevolência com o infrator, mas uma estratégia pragmática de segurança pública: o condenado cumprirá sua pena e, inevitavelmente, retornará ao convívio social. A forma como o Estado o trata durante o cárcere determina se ele sairá da prisão reintegrado ou ainda mais perigoso do que quando entrou.

 


domingo, 9 de agosto de 2026

A mentira não precisa virar verdade. Basta parecer verdade.

 

É assim que sociedades inteiras podem ser enganadas. E ninguém está imune, nem os mais espertos!

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.” A frase é frequentemente atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A autoria exata é controversa, mas a lógica por trás dela é antiga: Não é preciso provar. É preciso tornar a mentira familiar. E existe uma explicação científica para isso.

Um estudo publicado na Nature Communications, coordenado pelo pesquisador Grégoire Borst, da Université Paris Cité, analisou dados de mais de 31 mil participantes, reunidos em pesquisas realizadas entre 1977 e 2025.

A conclusão é preocupante: Quanto mais uma informação é repetida, maior pode ser a percepção de que ela é verdadeira. É o chamado efeito da verdade ilusória.

O cérebro usa a familiaridade como um atalho. “Eu já ouvi isso antes.” E, sem perceber, podemos completar: “Então deve ser verdade.” Não. Não é! Mas é assim que a armadilha funciona.

E as redes sociais transformaram essa velha técnica em uma máquina de repetição: Uma mentira aparece. Alguém compartilha. Outro comenta. Um influenciador reproduz. Um grupo de militantes espalha. Um perfil falso reforça. Um bot multiplica.

E, de repente, aquilo que nasceu como uma mentira passa a parecer uma informação amplamente conhecida. A mentira já não precisa de um autor. Ela passa a caminhar sozinha. Pior: os algoritmos ajudam.

Conteúdo que provoca raiva, medo, indignação ou escândalo chama mais atenção. Mais atenção gera mais interação. Mais interação gera mais distribuição. Mais distribuição gera mais repetição. E mais repetição produz familiaridade. É um círculo vicioso.

Agora acrescente a inteligência artificial. Uma fotografia pode ser fabricada. Uma voz pode ser clonada. Um vídeo pode ser manipulado. Uma pessoa pode aparecer dizendo algo que jamais disse. A mentira ganhou imagem, voz e aparência de realidade. Mas ainda existe algo pior.

A mentira pode deixar de ser apenas uma mentira individual e se transformar em verdade coletiva. É nesse momento que o problema deixa de ser apenas desinformação. Passa a ser um problema social.

Instituições são desacreditadas. A ciência vira “opinião”. A imprensa vira “inimiga”. O adversário político vira “ameaça”. E fatos passam a ser rejeitados simplesmente porque incomodam aquilo em que alguém escolheu acreditar. Quando isso acontece, deixamos de discutir ideias. Passamos a disputar realidades.

E uma sociedade que não consegue concordar sobre os fatos básicos do presente dificilmente conseguirá construir um futuro comum.

Essa talvez seja a maior ameaça da desinformação. A mentira não precisa convencer todo mundo. Precisa apenas convencer gente suficiente. Não precisa destruir a verdade. Basta fazer com que ninguém mais saiba em quem acreditar.

E quando tudo vira “narrativa”... Quando qualquer evidência pode ser descartada como “opinião”...  Quando a realidade passa a depender do grupo ao qual pertencemos... a verdade deixa de ser o ponto de partida.

E aí começa o verdadeiro perigo. Porque quem não consegue enxergar a realidade... não consegue resolver os problemas que a realidade apresenta.

Uma sociedade pode sobreviver a muitas mentiras. O que ela não pode perder é a capacidade de reconhecer a verdade.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ele recusou a vacina, mas injeta uma substância clandestina toda semana. O que mudou?

 


Um velho amigo me surpreendeu recentemente. Apareceu visivelmente mais magro e, com um sorriso satisfeito, revelou o seu "milagre": — Estou usando as canetas para emagrecer.

Fiquei estupefato. Não pelo peso perdido, mas pela ironia.

Ele foi um dos maiores opositores da vacina da Covid-19 que já conheci. Na época, o argumento era firme: "falta tempo de estudo para provar a eficácia e segurança."

Perguntei qual médico estava acompanhando o processo dele. A resposta me deixou ainda mais pasmo: — Você tá louco? Além da consulta, é o triplo do preço. O meu vem do Paraguai. Tenho um fornecedor de confiança.E qual você tá usando?Já usei umas três marcas. Agora tô na retatrutida.

O mesmo indivíduo que recusou vacinas desenvolvidas por grandes cientistas, aprovadas por órgãos reguladores e testadas em milhares de pessoas, hoje injeta no próprio corpo uma substância sem procedência.

E o detalhe: a retatrutida sequer foi aprovada para uso comercial no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. É um medicamento ainda em fase de testes!

Quando indicadas por um endocrinologista e com acompanhamento adequado, as canetas legítimas são ferramentas poderosas. Mas mesmo as oficiais exigem cautela:  elas podem causar náuseas, diarreia, perda de massa muscular e até pancreatite. Os estudos acompanharam pacientes por 1 a 2 anos. Ainda não sabemos 100% dos efeitos a longo prazo (5 anos ou mais). Sem reeducação alimentar e musculação, o efeito sanfona é quase certo após a interrupção.

Agora imagine aplicar uma versão clandestina? O risco deixa de ser apenas do remédio e passa a ser da roleta-russa sanitária: falhas de esterilização, impurezas, dosagens erradas ou até água com qualquer outra substância dentro do frasco.

Fiz a minha parte como amigo. Aconselhei que procurasse um médico de verdade, cuidasse da alimentação, praticasse musculação e parasse de brincar com a própria saúde. Desta vez, ele não rebateu meus argumentos de imediato. Deu a impressão de que, desta vez, não havia sido previamente municiado para combater qualquer ideia divergente. Meno male. Ao menos por um instante, pareceu refletir.

No mercado da vaidade instantânea e da ignorância turbinada pelas redes sociais, o ceticismo em relação à ciência costuma evaporar na velocidade de um clique. O problema é que o entusiasmo passa; a conta do risco, não. E ela pode ser bem cara.


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Respirando por Aparelhos: O Desafio Econômico e o Futuro de Itapira

 


Itapira enfrenta um momento de reflexão profunda sobre os rumos de seu desenvolvimento econômico e social. O cenário que se desenha não é apenas de desaceleração, mas de um distanciamento preocupante em relação ao ritmo de crescimento registrado pelo Estado de São Paulo e pelo restante do país.

O remédio para essa situação, longe de ser simples, depende acima de tudo da capacidade de reação da própria sociedade itapirense.

Os reflexos da perda de dinamismo da economia local tornaram-se cada vez mais evidentes. Os indicadores apontam para um cenário de crescente preocupação e acendem um importante sinal de alerta. Entre os principais deles, destacam-se:

A expressiva retração do Índice de Participação dos Municípios resultou em uma perda acumulada de aproximadamente R$ 42 milhões em repasses nos últimos dois anos. Esse recuo evidencia a perda de competitividade frente aos municípios vizinhos da Baixa Mogiana e ao cenário estadual.

A última atualização do Caged revelou um forte contraste. Desde junho de 2023, o número de trabalhadores com carteira assinada aumentou 9,8% no Brasil e 8,2% no Estado de São Paulo. Em Itapira, entretanto, o crescimento foi de apenas 3,9%, elevando o total de empregos formais de 23 mil para 24 mil vínculos ativos.

Enquanto o país e o estado aceleraram a criação de vagas, a evolução proporcional de Itapira ficou na metade do ritmo nacional, refletindo as dificuldades das empresas locais para expandir suas operações em um ambiente desafiador.

Se o desempenho das empresas já instaladas inspira cuidados, a análise da atividade empreendedora revela um quadro ainda mais sintomático. Os números comparativos entre 2023 e 2025 demonstram uma perda clara de ritmo na abertura de novos negócios:

Região

     Crescimento de Empresas Ativas (2023 a 2025)

Brasil

     Aproximadamente 20% (de 20,8 mi para 25 mi)

Estado de São Paulo

     Cerca de 27% (de 6,6 mi para 8,4 mi)

Itapira

     Inferior a 10% (de 10,1 mil para pouco mais de 11 mil)

Enquanto o estado ampliava sua base de negócios de forma expressiva, Itapira viu sua taxa de crescimento estacionar na metade da média brasileira.

Evidentemente, a administração pública municipal possui parcela significativa de responsabilidade nesse contexto. Cabe ao poder público fomentar um ambiente favorável aos investimentos, desburocratizar processos, estimular o empreendedorismo e criar condições estruturais para atrair novas empresas e reter as já existentes.

O mínimo esperado para uma cidade com o potencial de Itapira seria acompanhar, ainda que com moderação, o dinamismo econômico paulista e brasileiro.

Não será surpresa se Itapira reviver os anos 1970 e 1980, quando muitos jovens que concluíam o Ensino Médio e precisavam ingressar no mercado de trabalho eram obrigados a deixar a cidade em busca de oportunidades de emprego.

Quando essa distância econômica aumenta ano após ano, a sensação é de que o município caminha sob suporte artificial. A cidade continua respirando, mas com menos fôlego, distanciando-se do compasso de desenvolvimento de outras regiões.

Contudo, o sinal mais alarmante não é apenas o econômico, mas o comportamental. A redução da capacidade empreendedora transmite um sintoma de desânimo coletivo, como se parte da população estivesse deixando de acreditar no futuro do próprio município.

Quando uma comunidade perde a confiança em sua própria força, o perigo deixa de ser apenas financeiro e passa a ser a resignação — o risco silencioso de desistir de inovar, investir e crescer. A reação de Itapira, portanto, exige tanto políticas públicas assertivas quanto o resgate da autoestima e da crença no potencial local.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Rápida viagem a Itapira em dezembro de 2100

 


Quando menino, eu esperava ansiosamente pelas noites em que a TV Tupi exibia Túnel do Tempo. Depois vieram De Volta para o Futuro e tantas outras histórias que alimentaram uma velha mania: imaginar que o tempo pudesse ser percorrido como quem atravessa uma rua.

Talvez por isso eu nem tenha pensado duas vezes quando a Universidade de Connecticut abriu inscrições para uma experiência de viagem temporal como voluntário. Inscrevi-me mais por curiosidade do que por esperança. Contra todas as probabilidades, fui escolhido.

Recebi apenas uma recomendação: observar. Nada de conversar, interferir ou tentar melhorar o mundo — missão, aliás, que nunca deu muito certo nem para quem permaneceu no próprio tempo.

Poderia visitar qualquer época. Preferi o futuro. E, sendo livre para escolher qualquer lugar do planeta, fui direto para a Itapira de 2100.

Não me perguntem por quê. Quem nasce numa cidade do interior leva consigo um estranho vício: pode rodar o mundo inteiro, mas sempre acaba querendo saber como está a rua onde aprendeu a andar de bicicleta, o destino dos amigos de infância e o que restou das lembranças que o tempo insistiu em guardar.

Mal pisquei e já me encontrava no coração de Itapira, exatamente onde a cidade nasceu.

"A antiga praça central, onde outrora se localizava uma igreja suntuosa, está totalmente concretada, tendo como decoração alguns cubos e poliedros metálicos. Bem no centro da quadra, um estádio coberto e uma concha acústica de material transparente refratário à luz solar."

Subi ao edifício mais alto da cidade, erguido exatamente onde um dia existiu o Centrão. Do quadragésimo andar, Itapira parecia outra. Contei mais de uma centena de prédios, quase todos desafiando o céu com seus trinta e tantos andares.

Curiosamente, o trânsito havia desaparecido. Os automóveis já pertenciam aos museus. O transporte era feito por teletransporte: o cidadão desaparecia de um ponto e reaparecia em outro. A fumaça dos combustíveis fósseis tornara-se apenas um verbete nas enciclopédias.

Resolvi caminhar até o Parque Juca Mulato, que permanecia intacto, como se o tempo tivesse decidido respeitá-lo. Até os velhos paralelepípedos da Rua Ribeiro de Barros continuavam no mesmo lugar, talvez por terem adquirido a dignidade das coisas que sobreviveram às modas.

Segui pela Avenida dos Biris. À minha esquerda, uma cena jamais imaginada: "Toda a baixada dos antigos bairros do Cubatão e Prados está tomada por um imenso reservatório de água, previsão acertada para uma futura vida subaquática."

Procurei saber o destino dos antigos moradores. Descobri que todos haviam sido indenizados e reassentados antes da formação do reservatório. Enquanto pesquisava outras curiosidades, encontrei uma notícia alvissareira.

O Laboratório Cristália figurava entre as cinco maiores indústrias farmacêuticas do planeta. A polilaminina abrira caminho para tratamentos que transformaram doenças antes devastadoras — como a Esclerose Lateral Amiotrófica, o Parkinson, o Alzheimer e tantos cânceres agressivos e letais — em capítulos encerrados da história da medicina.

Foi aí que levei o maior susto da viagem: minha neta trabalhava ali como cientista. Pensei duas vezes. Depois, desobedeci à prudência e fui até o laboratório. Consegui chegar ao setor onde ela trabalhava. Conversamos por alguns minutos. Ela respondeu a todas as minhas perguntas com a serenidade que talvez só os cientistas e os avós consigam cultivar.

Não revelei quem eu era; as regras proibiam. Confesso que foi difícil. Também descobri que ela ainda estava longe da aposentadoria — aos 76 anos de idade, ainda lhe restavam nove anos de labuta. Foi justamente quando a conversa se tornava mais interessante que senti o mundo desaparecer outra vez. Meu tempo havia acabado. Voltei.

Ainda hoje penso naquela sexta-feira, último dia de dezembro de 2100, entrada para um novo século. Não vi fogos, nem festas, nem a velha ansiedade da virada. Talvez o futuro tenha descoberto que o calendário muda sozinho e que a esperança não precisa esperar a meia-noite.

Nota: Este texto foi inspirado em um artigo de Jácomo Mandato, publicado em junho de 1973 no JoJo, jornalzinho do IEEESO, sob o título "Rápida viagem à antiga Itapira em dezembro de 2000".

Se estivesse entre nós, Jácomo teria completado 93 anos neste mês. Os dois trechos entre aspas, extraídos de sua crônica, foram reproduzidos exatamente como ele os escreveu. Esta é uma singela homenagem a um dos grandes pesquisadores e escritores da história de Itapira que, nas horas vagas, também punha a imaginação a serviço da literatura, aventurando-se a projetar o futuro com admirável criatividade.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Bíblia na Escola e o Debate Moral na Era das Redes

 



Por que perguntas provocativas sobre religião na educação pública circulam tanto na internet — e o que realmente está em jogo por trás do engajamento.

Perguntas como "Você é a favor do ensino da Bíblia nas escolas?" inundam as redes sociais diariamente. À primeira vista, parecem debates legítimos, mas raramente refletem a real intenção de quem as publica: na maioria das vezes, o objetivo é apenas acionar o algoritmo da polêmica em busca de engajamento.

Conteúdos morais e religiosos geram respostas emocionais rápidas. Indignação e orgulho transformam comentários em campos de batalha entre "favoráveis" e "contrários" — a polarização ideal para inflar visualizações. Figuras públicas e influenciadores usam essas enquetes sem rigor científico para testar narrativas, medir apelo político e reforçar a ideia de que certos valores estariam "sob ataque". Não se busca consenso, mas reações que viram alcance e capital político.

Longe do ruído digital, porém, há uma discussão legítima sobre o papel da escola pública:

·        Favoráveis destacam o valor histórico, literário e cultural da Bíblia na civilização ocidental, além de seu papel na transmissão de valores éticos.

·        Opositores defendem que a escola pública deve ser neutra, cabendo a formação religiosa às famílias e comunidades para evitar doutrinações.

A legislação brasileira já trata do tema. A Constituição e a LDB garantem o Ensino Religioso no Ensino Fundamental: sua oferta é obrigatória para as escolas, a matrícula é facultativa para os alunos e é vedado o proselitismo.

Sob o ponto de vista jurídico, tornar a leitura da Bíblia obrigatória viola o Estado Laico, a liberdade de crença e a neutralidade estatal. Por isso, propostas desse tipo costumam ser invalidadas pelo Judiciário.

Da próxima vez que uma enquete assim surgir no seu feed, faça uma pausa antes de reagir. Pergunte-se se o post busca um diálogo sério sobre educação ou se está apenas usando a sua fé para gerar cliques.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Quem tem medo de ser enterrado vivo, levanta o dedo!

 



Há medos que a modernidade devia ter enterrado junto com a lâmpada a óleo e a carruagem. Mas o pavor de acordar do lado de dentro de uma caixa de madeira, a dois metros da luz do dia, parece imune ao progresso.

A ciência jura de pé junto que isso ficou no passado. Fala em exames minuciosos, morte encefálica confirmada em carimbo duplo por dois médicos distintos, eletroencefalogramas, protocolos rigorosos... A teoria é impecável. A prática, no entanto, insiste em dar umas escorregadas capazes de gelar a espinha de qualquer um.

Veja o caso recente do bebê de apenas um mês em Rio Claro. O hospital seguiu o rito, cumpriu a burocracia, assinou os papéis e deu a vida por encerrada. O corpo foi liberado. A história teria chegado ao seu fim, não fosse a funcionária da funerária. Ao iniciar os preparativos, ela notou que o pequeno ainda respirava: um sopro de vida ignorado pela medicina. O bebê foi socorrido a tempo.

Não foi um sobressalto isolado. Da poeira de Presidente Prudente (SP) às praias de Cidreira (RS), passando pelas ladeiras de Ipatinga (MG), o roteiro se repete com uma frequência incômoda. É o idoso que volta a respirar na mesa de preparação, a senhora que resolve dar sinais de vida a minutos do funeral, a mulher que desperta e começa a se mexer no momento exato em que as flores estão sendo arranjadas. Na Tailândia, a coisa tomou ares de filme de suspense: uma mulher começou a esmurrar a tampa do caixão quando já se aproximava, a poucos centímetros, das chamas da câmara de cremação.

Esse pavor não é de hoje e já fez a engenhosidade humana produzir loucuras fascinantes. No século XIX, inventores ganhavam a vida projetando os "caixões de segurança" — parafernálias equipadas com tubos de respiração, cordas e sinos na superfície. A ideia era simples: se você acordasse em um lugar estreito e fechado, bastava puxar um cordão para acionar um alarme.

Um ex-prefeito de Dourados (MS) mandou construir um jazigo equipado com uma linha telefônica instalada na parede do túmulo. O caixão tinha engenharia própria para ser aberto por dentro e a gaveta contava com dutos de ar. A ideia era clara: se o destino lhe pregasse uma peça, ele empurraria a tampa, pegaria o gancho e ligaria para a família. Quando o político finalmente partiu desta para a melhor, os parentes honraram a vontade dele, mas o telefone não foi usado.

A verdade é que a medicina avançou e a chance de um diagnóstico errado é matematicamente quase nula. Mas, por garantia, não custa pedir aos familiares e amigos que façam aquela última pergunta ao médico: "O senhor tem certeza, doutor?" — ou, ainda, encarregar alguns para que chamem o VAR da funerária.