sexta-feira, 6 de março de 2026

 De Gênova ao Tanquinho


Mil oitocentos e noventa e dois,

Gênova se fez despedida no cais.

Deixando o ontem para viver depois,

O Brasil no horizonte, o destino dos pais.


Santa e Bonifácio, em braços de fé,

Guiando a prole, o sonho a brotar.

Sete vidas pequenas, a jornada de pé,

Cruzando o mistério do imenso mar.


Doze anos o mais velho, o fardo do início,

No colo, o caçula, um ano de luz.

Entre o medo e o destino, o doce sacrifício,

De seguir o caminho que a esperança conduz.


Partiram de onde o sol se deita cedo,

Com malas surradas e corações incertos.

Deixaram o Veneto, o monte e o medo,

Por mares bravios, destinos abertos.


O "Merica" chamava, promessa dourada,

Cruzando o Atlântico com a alma em vigor.

A despedida, a terra amada,

Trocaram pelo suor e pelo labor.


O chão de terra roxa, o sol brasileiro,

A enxada que canta na mata fechada.

O imigrante, forjando o terreiro,

Transformou em colônia a selva esquecida.


Na Fazenda do Rumo, o chão batido viu a semente,

Santa e Bonifácio, em treze filhos, o futuro à frente.

Sob o sol de café, de pés descalços, a vida a penar,

Vinte anos de labuta para o pão apenas conquistar.


O feudo vacilou, a aristocracia em declínio perdeu,

Enquanto a indústria, lá longe, outros sonhos acolheu.

Na meação, a chance; na Itapura, o novo altar,

Doze anos guardando moedas, a terra a desejar.


No Bairro do Tanquinho, a conquista enfim se fez chão,

Plantava-se de tudo, mais  tijolo da olaria e o café no beneficiar,

Parcelas quitadas, o triunfo das mãos e do coração.

Diversificaram a vida, a casa cheia pronta a se estruturar.


Os ramos se espalharam, por cidades a florescer,

Mas Itapira é a âncora, o berço onde o nome quis crescer.

Cento e trinta e quatro anos, um tempo que a história gravou,

Mais de mil e trezentos nomes, a estirpe que não se apagou.


Dos dois imigrantes, a árvore que o Brasil abençoou,

Marcati é a raiz, o fruto que a esperança legou.



segunda-feira, 2 de março de 2026

Por que a imbecilidade vicia?



É instigante refletir sobre por que a futilidade e o comportamento de manada frequentemente gozam de maior preferência do que o conhecimento. Contudo, essa dinâmica não é fruto do acaso.

O cérebro humano, por natureza, busca a economia de recursos. Exercícios como o pensamento crítico, a pesquisa e a análise aprofundada exigem um esforço mental significativo e um alto consumo de energia. Em contrapartida, informações simples, curtas, repetitivas ou puramente sensoriais exigem um dispêndio glicêmico menor, tornando-se mais "atraentes" para um sistema que prioriza a eficiência energética.

Além da inércia mental, há o fator social: o desejo de pertencimento. O consumo de conteúdos virais e memes funciona como um código de conduta que permite às pessoas sentirem-se integradas a determinados grupos. Nesse cenário, a necessidade de aceitação social acaba, muitas vezes, superando o compromisso com a qualidade da informação ou com a verdade.

A manutenção dessa superficialidade serve a dois grandes motores:

As Redes Sociais: Programadas para capturar a nossa atenção por meio da dopamina, essas plataformas priorizam conteúdos que geram reações viscerais — indignação, riso, surpresa ou fofoca. O engajamento é o único critério de sucesso.

As Estratégias Políticas: Partidos e lideranças utilizam informações de alto impacto para manter seus apoiadores engajados, frequentemente desconstruindo adversários em vez de debater projetos reais. Isso retira do debate público o interesse pelas pautas estruturais que realmente impactam o país, o estado ou o município.

Embora preocupante, a "imbecilidade" fomentada pelas redes sociais tem prazo de validade. À medida que o tempo avança, esses conteúdos de baixo nível perdem credibilidade e não resistem ao escrutínio da história. Nada supera o conhecimento e a cultura que, apesar de exigirem maior esforço e profundidade, resistem há milhares de anos.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Carnaval: Amor & Ódio

 



Desde que me conheço por gente, o Carnaval é daqueles temas que despertam paixões positivas e negativas. Sem grandes alaridos, quem gostava, curtia; quem não gostava, fugia. Ultimamente, os avessos à folia criticam, apontam mil defeitos e tentam convencer os foliões a banirem o evento.

Da minha parte, não troco os carnavais das marchinhas e das pantomimas nos desfiles de rua de Itapira pelo Carnaval da atualidade. Nem poderia ser diferente; afinal, o hiato temporal alcança 50 anos. Mas reconheço que isso não me dá o direito de condenar a festa de hoje em dia.

Nos anos 70, com o Brasil sob ditadura militar, o Carnaval era uma "válvula de escape". Um período em que muitos desejos contidos e condenados pela sociedade recebiam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Hoje, vivemos em uma democracia e a hipocrisia social perdeu relevância. Mas, então, qual seria o motivo de tanta gente se sentir incomodada com a folia?

Eu diria que é difícil, para alguns, entender as mudanças geracionais. Antigamente, um estilo musical, uma moda ou um conceito duravam pelo menos um ano; hoje, dependendo do caso, não duram um mês. Por isso, o acompanhamento é difícil e gera perda de referência dos rituais que dão sentido às nossas vidas.

Há quem decrete que o Carnaval morreu. No entanto, quando comparamos o número de pessoas envolvidas dos anos 70 para cá, o público aumentou em 1.000%, enquanto a população apenas dobrou. Só a cidade de São Paulo deve reunir de 15 a 20 milhões de foliões. Se antes o Rei Momo reinava por quatro ou cinco dias, hoje o reinado dura quase um mês. Naquela época, os pontos altos eram a alegria, o sentimento de liberdade e o movimento. Agora, o retorno econômico ocupa o primeiro lugar na lista.

Queiramos ou não, o Carnaval é o espelho da sociedade brasileira. Como o Brasil mudou drasticamente de 1970 para cá, a maior festa popular do mundo não ficaria parada no tempo só para agradar à minha geração. Se antes era uma festa coletiva, mas de forte apelo individual, hoje é uma indústria de entretenimento.

O Carnaval continua "parando o país". A diferença é que, antes, a gente vivia; hoje, a gente também consome. De preferência, sem ódio!

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O furdunço do Totonho


 

Totonho está na política há meio século. Nesse período, foi prefeito, deputado estadual, secretário de Estado, ministro da República e presidente da Alesp... Por aqui, nem sempre foi vitorioso em suas indicações para a prefeitura, mas sempre "deu banho" nas eleições em que seu nome aparecia na cédula eleitoral.

 

O único opositor que conseguiu vitórias sobre o grupo liderado por Munhoz é o atual prefeito da cidade. Quis a ironia do destino que, após conquistar mais uma eleição e no meio de um inédito quarto mandato, Toninho visse seu partido, o PSD, escancarar as portas para seu grande rival.

 

Totonho — que chegou a anunciar sua aposentadoria, mas foi convencido pelo governador Tarcísio a não "pendurar as chuteiras" — entrou em 2026 a pleno vapor para mais uma empreitada eleitoral, dando um "baile" em Bellini. Não resta a menor dúvida de que, na correlação de forças, Munhoz assumirá o controle do PSD local, restando ao prefeito buscar outra legenda se desejar ter alguma influência na eleição municipal de 2028.

 

A melhor saída para Toninho e para Itapira seria a união de forças, com ambos trabalhando juntos; no entanto, ninguém acredita nessa hipótese.

 

Por outro lado, há críticas a Totonho por mais essa mudança de partido. Um amigo, em certo momento da conversa, questionou: “Por quantos partidos ele já passou? Tá certo isso?”

 

De fato, o ideal seria que o Brasil tivesse não mais que quatro grandes partidos, todos com linhas ideológicas definidas, mas não é o que ocorre. As legendas com essas características não gozam de apoio popular e, assim, prevalecem aquelas que valorizam mais os nomes conhecidos do que um programa a ser seguido. Logo, é possível dizer que, quando um político muda de partido no Brasil, ele troca seis por meia dúzia. O PSD transita entre a centro-esquerda e a centro-direita, tentando, nas eleições presidenciais deste ano, não abraçar nem Lula, nem Bolsonaro, permitindo liberdade de escolha de palanques aos seus filiados.

 

Para quem acompanha Totonho Munhoz nessa jornada cinquentenária, sabe-se que ele, no frigir dos ovos, sempre esteve em um único partido: o partido de Itapira.

 

#Política #ItapiraSP #PSD #Totonho #Bellini

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nenhuma Ditadura é Eterna: O Clamor por Liberdade no Irã



Quando uma ditadura se instala em um país, seja ela de direita ou de esquerda, é porque o povo a aceitou passivamente ou fez vista grossa. Mas nenhuma ditadura resiste ao tempo; se fosse boa, seria eterna.

Chega um momento em que o povo, cansado, se rebela, pressiona e se manifesta de várias formas, até partir para o 'tudo ou nada', colocando a própria vida como último recurso.

O Irã vem dando sinais claros de que a ditadura dos aiatolás se esgotou. Quem não se lembra das mulheres iranianas em 2022? Após uma jovem ser detida por usar o véu de forma 'inadequada', deixando parte do cabelo à mostra, ela apareceu morta dias depois — provavelmente em decorrência de tortura. Um grande movimento de protesto tomou conta do país. O véu foi o símbolo, mas o movimento se transformou em um clamor por liberdade e direitos humanos. Contudo, a ditadura persistiu.

Agora, o povo iraniano está nas ruas novamente. Em ciclos de protestos, centenas de pessoas já perderam a vida.

As ditaduras entram na vida das pessoas oferecendo sempre um mundo melhor. Usam todas as estratégias para convencer a maioria de que a situação atual é insustentável, colocando-se como 'salvadoras da pátria', como se problemas crônicos podem ser resolvidos da noite para o dia. Muitos acreditam. Com o tempo, através da censura e da polícia armada, o povo é encurralado. A maioria torna-se alienada, enquanto uma minoria se beneficia das benesses governamentais e da corrupção, que corre solta sob o manto de uma imprensa controlada. Todas são assim, sem exceção.

Derrubar uma ditadura é um processo difícil e demorado. Somente com a insurgência popular os reais objetivos de liberdade são atingidos. Ainda é cedo para afirmar que o atual regime iraniano será abolido, mas é possível dizer que o povo está no caminho certo e que o fim dessa autocracia é uma questão de tempo.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo

 





Lá vamos nós para mais uma empreitada. Como diz um amigo meu: enquanto estivermos virando o ano, beleza.

É sabido que a "virada de ano" no dia 1º de janeiro é uma data totalmente arbitrária. Não existe um ponto de largada, nem uma linha de chegada na volta que a Terra dá em torno do Sol. Há cerca de 4 mil anos, comemorava-se o ano novo no período que marcava o fim do inverno e o início do plantio (Março). Muito tempo depois, com a implantação do calendário gregoriano – em vigor atualmente – o 1º de janeiro foi oficializado, tornando-se uma das celebrações mais simbólicas da humanidade.

Apesar das diferenças de cada povo, na virada prevalecem as reflexões sobre renovação, esperança e a despedida do passado. A palavra "Réveillon" vem da língua francesa e significa "acordar" ou "despertar". A data é tratada como um momento revisional do ano que terminou, alimentando a sensação de que, no ano que entra, seremos mais evoluídos, com defeitos corrigidos, almejando a paz, a união e a saúde. Pode até não acontecer nada disso, mas o ritual trabalha o nosso espírito e nos motiva para mais uma caminhada.

Na maioria das pessoas, apesar de todo o otimismo à meia-noite, as resoluções de Ano Novo caem no esquecimento antes mesmo de o Carnaval chegar; medidas concretas são raras. Seriam, então, promessas vazias?

Algumas datas, como o 1º de janeiro, separam mentalmente aquilo que eu era (e que não foi legal) daquilo que eu quero ser (o mais perfeito possível). É como se os problemas que enfrentamos, as nossas experiências de vida e hábitos pudessem desaparecer de um dia para o outro. Em muitos casos, ao planejarmos metas maravilhosas para o futuro, liberamos o hormônio do prazer — um processo que nos traz felicidade imediata. No entanto, ao tentarmos transformar o planejado em realizado e as dificuldades aparecerem, acabamos deixando o dito pelo não dito.

Enfim, comemorar imaginando um ano novo melhor que aquele que se foi faz parte do nosso costume. Desejos que não devem cobrados no futuro, muito menos com sentimento de derrota pelos objetivos não atingidos. O bom mesmo é chegar ao final do ano que se inicia e poder repetir tudo novamente. Isso é a vida.

Feliz Ano Novo!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Natal sob diferentes olhares

Nem todos os países do mundo celebram o Natal como nós. Trata-se de uma festa de origem cristã, mas nem mesmo entre cristãos há consenso sobre sua comemoração. Há discordâncias quanto à fixação da data em 25 de dezembro, e interpretações que destacam que Jesus orientou seus seguidores a celebrar sua morte, não seu nascimento.

Muçulmanos, budistas, judeus, hindus e xintoístas, por exemplo, não celebram o Natal. Países como China, Japão, Arábia Saudita, Indonésia, Turquia e Índia não consideram o Natal uma data religiosa — alguns o exploram comercialmente, outros tentam coibir suas manifestações públicas.

 

Para quem vive o período natalino desde a infância, é difícil imaginar um Natal sem celebração, seja pelo significado religioso, seja pelas festas e presentes. Quando a indiferença à data tem base em convicções religiosas distintas, tendemos a aceitá-la com mais naturalidade. No entanto, mesmo em países majoritariamente cristãos, como o Brasil, há quem não goste do Natal.

 

Há pessoas que se incomodam com o excesso de festas, com a obrigação de comprar presentes ou com o recebimento de presentes indesejados. Aquelas que enxergam o Natal apenas como um evento comercial. Aquelas que tiveram experiências difíceis na infância, que presenciaram brigas familiares, que preferem a solidão ou que sentem profundamente a ausência de entes queridos que já partiram.

 

Enfim, apesar da importância do Natal para muitos povos ocidentais, ele não é uma unanimidade.

 

Assim como desejamos a todos um Feliz Natal, devemos também respeitar aqueles que não se sentem tão felizes nessa data. O Natal se apresenta como uma festa coletiva, mas carrega um significado profundamente individual para cada um de nós. Nem sempre o que é bom para a maioria é bom para todos.

 

Por isso, para quem celebra o Natal com entusiasmo — como eu —, desejo que os ventos desta época inspirem renovação e alegria. Para quem não tem qualquer interesse natalino, desejo felicidade ao seu próprio modo. E a todos, desejo união e respeito às diferenças.