Confundir ciência com crença nunca foi novidade. Mas qual é o fundamento que sustenta essa confusão?
Diante da dificuldade de confrontar ou compreender determinadas informações, nasce a ideia de que, quando a ciência afirma algo, resta apenas “acreditar”. É daí que surge a falsa associação entre ciência e fé. Quando a ciência passa a ser apresentada como uma verdade absoluta — e não como um processo contínuo de investigação — ela se aproxima perigosamente do terreno da religião.
A ciência também é confundida com política quando dados técnicos e evidências científicas são instrumentalizados para servir a interesses ideológicos, econômicos ou partidários. Isso ocorre, sobretudo, em contextos de forte polarização, nos quais a ciência é usada tanto para legitimar quanto para desqualificar ações de governo, como se grupos políticos pudessem determinar o que é ou não verdade científica.
Essa confusão é natural ou deliberadamente estimulada? Vale refletir.
Religião é um sistema organizado de crenças, práticas e valores que busca estabelecer uma conexão entre a humanidade e aquilo que é considerado sagrado, divino ou transcendental.
Política é a arte de organizar, dirigir e administrar o bem comum. É o exercício do poder voltado à tomada de decisões coletivas que impactam a vida em sociedade.
Já a ciência é a produção de conhecimento baseada em rigor metodológico, evidências empíricas e verificação. Seu objetivo é compreender as leis que regem o universo por meio da observação, da experimentação e do teste.
Diferentemente da crença religiosa ou política, a ciência está sempre em construção. Não existe ponto final. A verdade aceita hoje pode ser revista amanhã. A ciência exige falseabilidade; isto é, para que uma teoria seja considerada científica, deve existir a possibilidade de demonstrar que ela está errada. Quando algo não pode ser testado nem contestado, deixa de pertencer ao campo científico.
Ao longo da história, não faltaram embates entre o conhecimento científico e interesses religiosos e políticos.
Durante séculos, acreditou-se que a Terra era o centro do universo. Tudo giraria em torno dela. Quando Galileu Galilei, apoiado nas ideias de Nicolau Copérnico, confirmou que a Terra girava em torno do Sol, enfrentou a oposição da Igreja. Foi obrigado a negar suas descobertas e acabou condenado à prisão domiciliar perpétua. Embora estivesse correto, a Igreja Católica só reconheceu oficialmente o erro em 1992. O episódio tornou-se um marco histórico do conflito entre dogma e conhecimento científico.
Outro exemplo ocorreu no auge da construção do Estado soviético, sob o comando de Joseph Stalin. O regime adotou as ideias de um agrônomo que rejeitava completamente a genética mendeliana e defendia que seria possível “educar” sementes para produzir colheitas extraordinárias apenas pela influência do ambiente. Milhares de biólogos e geneticistas foram demitidos, perseguidos, exilados ou executados. A negação da genética moderna contribuiu para o fracasso das safras soviéticas e agravou crises de fome e desabastecimento na URSS. Décadas foram necessárias para recuperar os danos causados pela submissão da ciência à ideologia.
A principal diferença entre o conhecimento científico e a crença, seja religiosa ou política, é que a ciência trabalha continuamente para não enganar a si mesma, partindo do princípio de que pode estar errada. Já a crença, em geral, exige a convicção de estar certa. Sempre!






