O primeiro
trimestre deste ano foi encerrado com a menor taxa de desemprego da série
histórica, atingindo 6,14%, rendimento médio mensal acima de R$ 3.722,00 e o
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) pelo quinto ano consecutivo. Esse
cenário positivo, no entanto, contrasta dramaticamente com o endividamento das
famílias brasileiras. Envolvendo financiamentos, cartões de crédito e
empréstimos, o índice de endividados atingiu 80,9% em abril — o maior nível da
série histórica registrada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo (CNC).
Diante disso,
surge a inevitável pergunta: onde está o “X” da questão?
Aumento dos
salários, maior oferta de vagas e economia aquecida já não são suficientes para
conter a elevação do custo de vida. Associados ao crédito caro e à crescente
dependência de parcelamentos, esses fatores ampliam a pressão sobre o orçamento
doméstico. Como consequência, uma pesquisa Quaest revelou que 71% dos
brasileiros afirmam conseguir comprar menos do que há um ano, enquanto apenas
11% dizem comprar mais e 17% relatam manter o mesmo padrão de consumo.
Para
compreender o cenário atual, é preciso olhar para o retrocesso recente. Após a
pandemia, diante dos impactos econômicos negativos globais, uma das estratégias
para estimular o mercado nacional foi a redução agressiva das taxas de juros. A
taxa Selic chegou ao piso histórico de 2% ao ano, facilitando o acesso ao
crédito e incentivando o consumo. Contudo, a economia não costuma perdoar
excessos: a inflação disparou, obrigando o Banco Central a inverter o curso e
elevar os juros para conter a alta dos preços. Em agosto de 2022, a Selic já
atingia 13,75% ao ano.
Entre 2023 e
2025, a redução contínua do desemprego e o aumento da renda média mantiveram o
consumo aquecido. Todavia, esse fôlego interno, somado ao descontrole fiscal e
aos impactos das tensões econômicas internacionais — como as medidas protecionistas
adotadas pelo governo Trump que afetaram a economia mundial —, pressionou ainda
mais a inflação. Como resultado, a taxa básica de juros alcançou os expressivos
15% ao ano em junho de 2025.
Muitas
famílias ainda carregam o fantasma das dívidas acumuladas desde o período
pandêmico. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda
familiar com o pagamento de dívidas (especialmente bancárias) chegou a 29,3% em
janeiro deste ano, o maior patamar da sua série histórica. Na prática, com o
orçamento estrangulado por parcelas, qualquer renda adicional acaba sendo
imediatamente direcionada para a quitação de débitos e despesas essenciais,
como alimentação, moradia e transporte, sem gerar um alívio efetivo no bolso.
Mesmo com a
recente desaceleração da inflação, o cotidiano da população não experimentou o
alívio esperado. Quando os itens básicos estabilizam em um patamar já elevado,
a sensação de perda do poder de compra se perpetua — e para quem compromete
quase um terço do que ganha com juros, o impacto é ainda mais severo.
Além dos
fatores macroeconômicos, há um forte componente cultural no problema. No
momento das compras, muitos consumidores ainda desconsideram o impacto das
taxas de juros embutidas ou o peso acumulado das parcelas a longo prazo. Da
mesma forma, o uso do cartão de crédito frequentemente ignora a real capacidade
de pagamento, empurrando o consumidor para a armadilha do crédito rotativo e o
adiamento de saldos para os meses seguintes.
Enfim, o nó
econômico atual exige saídas bilaterais. Cabe ao governo buscar o equilíbrio
fiscal necessário para reduzir as taxas de juros sem comprometer o dinamismo do
mercado de trabalho. Simultaneamente, a população precisa adotar a educação
financeira como ferramenta de sobrevivência cotidiana pois, sem planejamento
estratégico dentro de casa, a conta dificilmente fechará.






