quinta-feira, 28 de maio de 2026

Enfim, uma excelente notícia, mas...

 


 

É comum ouvir que o Brasil do passado era melhor do que o de hoje. Esse sentimento pode estar ligado a experiências individuais ou a visões ideológicas. No entanto, quando o país é analisado sob a ótica dos indicadores estatísticos, o século passado pouco se parece com a realidade atual.

 

Um reflexo disso é o estudo divulgado nesta terça-feira (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com base em dados de 2024. Pela primeira vez, o país atingiu a faixa de "muito alto desenvolvimento" no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). O indicador passou de 0,744 em 2012 para 0,805 em 2024 — a maior marca já registrada. Em uma escala de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, melhor o resultado.

 

O IDHM é composto por três dimensões fundamentais: Longevidade: avalia as condições de saúde por meio da expectativa de vida ao nascer; Educação: mede a escolaridade da população adulta e o fluxo escolar dos jovens; Renda: analisa o rendimento médio per capita.

 

No quesito longevidade, o Brasil já apresentava um nível muito alto em 2012, com 0,829. Agora, alcançou 0,860, um desempenho comparável ao de diversos países desenvolvidos. Parte desse avanço pode ser atribuída às melhorias e à capilaridade do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Em termos de evolução, o grande destaque foi a educação. Em 2012, o país registrava o pior desempenho entre os três componentes, com 0,679. Em 2024, esse indicador saltou para 0,798. Entre os fatores que contribuíram para esse progresso estão as políticas de inclusão e permanência escolar, a exemplo do Bolsa Família.

 

Quando o assunto é renda, porém, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer. O índice passou de 0,732 em 2012 para apenas 0,760 em 2024. Esta foi a menor evolução entre os componentes e continua sendo o principal fator que segura um desempenho global ainda melhor do país.

 

Apesar do patamar alcançado, a desigualdade permanece como uma marca evidente da realidade brasileira; diferenças profundas entre regiões, gêneros e raças continuam escancaradas. Enquanto o Distrito Federal apresenta o nível de desenvolvimento mais alto, o Maranhão ocupa a última posição. Esses contrastes geram distorções brutais: Um morador do Amapá pode ter uma expectativa de vida até cinco anos menor do que um cidadão do Distrito Federal. No quesito renda, um cidadão branco do Distrito Federal possui, em média, um rendimento quatro vezes superior ao de um cidadão negro do Maranhão.

 

As mulheres avançaram ao longo desses 13 anos, mas ainda enfrentam disparidades em relação aos homens. A população negra apresentou uma evolução proporcionalmente maior do que a branca, mas os abismos históricos persistem.

 

O IDHM é muito mais do que um simples ranking. Sua utilidade prática é orientar políticas públicas, reduzir desigualdades regionais, atrair investimentos privados e servir como instrumento de fiscalização por parte da sociedade — ou seja, uma ferramenta essencial de controle social.

 

Evidências apontam que países e regiões com maiores índices de desenvolvimento humano tendem a apresentar menores níveis de criminalidade. Embora a relação não seja automática, a melhoria das condições de vida constrói ambientes sociais menos violentos.

 

O Atlas da Violência, também divulgado nesta semana, reforça essa tese: A taxa de homicídios no Brasil em 2024 foi de 20,1 mortes por 100 mil habitantes, uma queda de 7,4% em relação a 2023 e o menor patamar da série histórica iniciada em 2014.

 

O levantamento mostra que estados como São Paulo, Santa Catarina e o Distrito Federal — que possuem elevados índices de IDHM — estão entre os menos violentos do país. Em sentido oposto, estados como Amapá, Bahia, Pernambuco e Ceará registram taxas de homicídio mais elevadas.

 

Sem dúvida, o avanço do IDHM é uma excelente notícia. Contudo, para consolidar esse progresso, é urgente acelerar o crescimento da renda e combater as desigualdades estruturais. Enquanto grandes parcelas da população permanecerem excluídas das oportunidades básicas, a insegurança e a violência continuarão sendo desafios crônicos para o futuro do país.

 

Nino Marcati

 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Queda de Itapira: um diagnóstico que não podemos ignorar

 



Nunca passou pela minha cabeça morar longe de Itapira. Afastei-me da minha terra em apenas duas ocasiões, exclusivamente por motivos de estudo. Ainda assim, raramente passava mais de uma semana sem retornar ao aconchego do meu lar. Sempre fui um torcedor entusiasmado da nossa cidade, desejando vê-la prosperar e oferecer cada vez mais qualidade de vida aos seus moradores.

Na semana passada, contudo, a realidade nos desferiu um golpe duro. O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, que desde 2024 mede a qualidade de vida nos 5.570 municípios do país por meio de 57 indicadores socioambientais, colocou Itapira na 855ª posição nacional. O resultado acendeu um sinal de alerta preocupante.

Daí pode surgir um argumento conformista: “Mas ainda existem mais de 4.700 cidades atrás de nós; não estamos no lucro?”. Não, não estamos. Quando estreitamos a análise para o Estado de São Paulo, ocupamos a amarga 411ª posição. Atrás de nós, restam apenas 234 municípios paulistas.

O que mais assusta é a velocidade do declínio. Em 2024, Itapira ocupava a 220ª posição nacional e a 130ª estadual. Em apenas dois anos, despencamos 635 posições no país e 281 no estado. O resultado de 2026 não foi um acidente de percurso; foi a confirmação de uma tragédia anunciada pelo boletim de 2025, que já nos rebaixava para a 660ª posição nacional e a 344ª estadual.

Para agravar o quadro, basta olhar para a nossa vizinha. Em 2024, Itapira e Mogi Mirim caminhavam praticamente lado a lado (220ª contra 230ª posição). Dois anos depois, a vantagem de apenas dez posições que tínhamos transformou-se em um abismo de 599 colocações contra nós, com Mogi ocupando a 256ª posição nacional. No ranking estadual, os mogimirianos permaneceram relativamente estáveis, passando da 136ª para a 158ª posição.

A pergunta que deve ecoar na mente de qualquer cidadão atento é inevitável: o que aconteceu com Itapira? O que será do nosso futuro?

Apontar o dedo para o prefeito é o esporte mais fácil do mundo. Evidentemente, o chefe do Executivo detém as rédeas da administração e carrega a maior parcela de responsabilidade pelos rumos do município, mas a população também não pode se eximir. Afinal, quem digita o voto na urna? Quem participa da vida cotidiana da cidade? Quem se posiciona diante dos desacertos?

Olhando para o passado, é possível identificar que o grande câncer local pode estar na velha e desgastante polarização do “nós contra eles”. O eterno embate entre “totonhistas” e “antitotonhistas” acabou cegando parte da cidade. Quando um lado tentava construir, o outro, movido por vaidade, ego ou mera rivalidade política, procurava sabotar. Quantas boas iniciativas deixaram de ser executadas? Quantas foram modificadas ou pioradas?

O mais irônico é que, do ponto de vista institucional, há sinais de que o ambiente político parece ter se acalmado recentemente. A oposição ao prefeito na Câmara, mesmo sendo maioria, não utilizou seu poder de voto para travar a máquina pública, como ocorreu em outros momentos. Se, mesmo com uma oposição mais moderada e responsável, a cidade caiu tanto e tantos problemas estão expostos, imagine se a escolha dos opositores tivesse sido pela paralisia da administração municipal.

É provável que a derrocada no IPS não seja culpa exclusiva de um único mandato; talvez seja o resultado acumulado de pequenas disputas históricas que sangraram a cidade ao longo dos anos, independentemente de quem estivesse no governo.

Agora, porém, não adianta chorar pelo leite derramado. Ouso arriscar que 2028 poderá representar uma virada de chave para Itapira. Talvez seja o fim da figura do candidato surpresa, apresentado apenas às vésperas do período eleitoral. Os prefeituráveis realmente competitivos tendem a ser aqueles que começarem a pavimentar seus caminhos desde já.

Além de demonstrar capacidade de diálogo e convivência respeitosa com pensamentos divergentes, esses futuros postulantes precisarão revelar uma visão genuína de cuidado para com o município e sua população. Também precisarão construir, desde cedo, pontes políticas consistentes, escolhendo aliados capazes de estabelecer conexões produtivas com as esferas estadual e federal. Afinal, uma andorinha só não faz verão.

Na política que se desenha, os espaços para o confronto tendem a diminuir. Os futuros governantes eleitos dependerão cada vez menos de grupos fechados e mais daqueles que se colocam como independentes e defendem projetos sólidos, capazes de oferecer melhores condições de vida nas áreas da saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana e cultura, em sintonia com as políticas públicas estaduais e federais.

Resumindo: será preciso somar esforços, abandonar velhos conflitos e construir caminhos transparentes, seguros e responsáveis rumo ao desenvolvimento que a nossa gente merece.

Em tempo: a construção de uma candidatura não acontece da noite para o dia. Entre inúmeras etapas, é necessário demonstrar liderança natural, atuar de forma ativa na comunidade, dialogar com as pessoas para compreender suas necessidades, construir apoios, atrair candidatos a vereador e, acima de tudo, manter-se acessível.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Bandido bom é bandido inteligente

 



Não é de hoje que discordo do mantra “bandido bom é bandido morto” em todas as suas vertentes. Dentre os meus pontos de discordância, destaca-se a forma como a palavra "bom" é interpretada nesse contexto.

O adjetivo “bom” carrega múltiplos significados: qualidade, bondade, saúde e prazer. Se as duas últimas definições obviamente não se aplicam ao caso, as duas primeiras merecem uma análise mais profunda.

Se considerarmos "bom" sob a ótica da bondade, talvez o "Bom Ladrão" da tradição bíblica, crucificado ao lado de Jesus, possa ser enquadrado, afinal, foi perdoado e subiu aos céus. Outro exemplo seria o lendário Robin Hood, famoso por sua generosidade para com os camponeses pobres e oprimidos em sua luta contra a tirania. Trazendo para a realidade atual, talvez se encaixem aqui os chefes de facções e milícias que dominam determinados territórios. Ao oferecerem aos moradores uma suposta proteção, além de mimos e festas sazonais, eles criam uma blindagem social. Com isso, a polícia dificilmente chega até eles, que se mantêm bem vivos e ainda conseguem força política para eleger vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e, quem sabe, até o presidente da República.

Por outro lado, quando olhamos a criminalidade pela lente da qualidade, o "bandido bom" é aquele que executa seu trabalho de forma tão impecável que ninguém percebe. Comete crimes, enriquece às custas de sonegação, corrupção e golpes financeiros bem-sucedidos, e passa a vida incólume. Ou, quando é pego tardiamente, o estrago já é monumental.

Atualmente, acompanhamos as peripécias criminosas de Daniel Vorcaro, operador daquele que se desenha como o maior crime financeiro da nossa história. Não há como negar-lhe uma assombrosa inteligência. O rombo provocado, que até o momento bate na casa dos 60 bilhões de reais, gerou prejuízos incalculáveis a investidores e ao erário público. Para atingir tal façanha, ele arquitetou uma verdadeira engenharia de transferências monetárias por meio de fundos e das chamadas fintechs.

Vorcaro começou a construir seu império arregimentando políticos graduados e membros do Poder Judiciário. Conseguiu, há cerca de sete anos, que as fintechs pudessem emprestar dinheiro de forma totalmente independente dos bancos tradicionais, sem submissão às mesmas regras. Com total liberdade nas operações de crédito, essas plataformas se associaram a fundos que garantem o sigilo dos investidores, facilitando a entrada de recursos oriundos do crime organizado e da corrupção.

Enquanto o Banco Master arrecadava recursos no mercado, seja com promessas de juros elevados, captando dinheiro de contas de previdência privada complementar de servidores públicos ou vendendo carteiras de crédito sem lastro, Vorcaro, supostamente, desviava esses ativos. Quando a situação da instituição começou a ruir e o negócio passou a "cheirar mal", ele tentou, com o apoio de políticos amigos, fazer com que o Banco de Brasília (BRB), envolvido até os dentes nas falcatruas, absorvesse o ativo e o passivo da combalida instituição. O Banco Central atuou e a manobra falhou. O Banco Master sofreu liquidação e Vorcaro, hoje preso, aguarda as investigações e poderá ver o sol nascer quadrado por um bom tempo.

A inteligência de Vorcaro, somada a uma montanha de dinheiro alheio, ajudou-o a construir uma extensa rede de influência para garantir sua proteção. Ele promovia festas nababescas e gravava tudo, estrategicamente, para ter os participantes em mãos. Distribuía gordas mesadas a políticos de todas as esferas, a membros do Judiciário, a agentes da Polícia Federal e a diretores do Banco Central. Ele não apenas montou um forte esquema midiático com influenciadores para atacar o Banco Central e seus inimigos, como também financiava grupos de intimidação contra jornalistas e críticos que cruzassem o caminho de seus interesses.

Teve a audácia de contratar figuras dos dois lados do espectro político: de ministros ligados ao governo atual a ex-ministros da gestão anterior, passando pela esposa de um ministro do STF e pelo financiamento do filme de um ex-presidente. Caberá à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República identificar eventuais contrapartidas para que essa cama de gato seja totalmente desvendada.

Felizmente, apesar de toda a inteligência empregada pelo crime, o país deu um passo importante e conseguiu colocar um freio na engrenagem. Quando olhamos para trás, situações semelhantes envolvendo agentes financeiros, empreiteiras e indústrias desonestas costumavam ter melhor sorte. No entanto, o caso Vorcaro evidencia uma realidade histórica do Brasil: boa parte do eleitorado condena a corrupção no discurso, mas, nas urnas, segue reelegendo políticos envolvidos em práticas corruptas, sobretudo para o Congresso Nacional.

Afinal, como bem esclarecem os altos comandos da criminalidade brasileira, bandido que morre ou é preso é como político pego com a boca na botija: burro.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Paradoxo da Economia Brasileira: Emprego em Alta, Bolso Apertado

 



O primeiro trimestre deste ano foi encerrado com a menor taxa de desemprego da série histórica, atingindo 6,14%, rendimento médio mensal acima de R$ 3.722,00 e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) pelo quinto ano consecutivo. Esse cenário positivo, no entanto, contrasta dramaticamente com o endividamento das famílias brasileiras. Envolvendo financiamentos, cartões de crédito e empréstimos, o índice de endividados atingiu 80,9% em abril — o maior nível da série histórica registrada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Diante disso, surge a inevitável pergunta: onde está o “X” da questão?

Aumento dos salários, maior oferta de vagas e economia aquecida já não são suficientes para conter a elevação do custo de vida. Associados ao crédito caro e à crescente dependência de parcelamentos, esses fatores ampliam a pressão sobre o orçamento doméstico. Como consequência, uma pesquisa Quaest revelou que 71% dos brasileiros afirmam conseguir comprar menos do que há um ano, enquanto apenas 11% dizem comprar mais e 17% relatam manter o mesmo padrão de consumo.

Para compreender o cenário atual, é preciso olhar para o retrocesso recente. Após a pandemia, diante dos impactos econômicos negativos globais, uma das estratégias para estimular o mercado nacional foi a redução agressiva das taxas de juros. A taxa Selic chegou ao piso histórico de 2% ao ano, facilitando o acesso ao crédito e incentivando o consumo. Contudo, a economia não costuma perdoar excessos: a inflação disparou, obrigando o Banco Central a inverter o curso e elevar os juros para conter a alta dos preços. Em agosto de 2022, a Selic já atingia 13,75% ao ano.

Entre 2023 e 2025, a redução contínua do desemprego e o aumento da renda média mantiveram o consumo aquecido. Todavia, esse fôlego interno, somado ao descontrole fiscal e aos impactos das tensões econômicas internacionais — como as medidas protecionistas adotadas pelo governo Trump que afetaram a economia mundial —, pressionou ainda mais a inflação. Como resultado, a taxa básica de juros alcançou os expressivos 15% ao ano em junho de 2025.

Muitas famílias ainda carregam o fantasma das dívidas acumuladas desde o período pandêmico. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas (especialmente bancárias) chegou a 29,3% em janeiro deste ano, o maior patamar da sua série histórica. Na prática, com o orçamento estrangulado por parcelas, qualquer renda adicional acaba sendo imediatamente direcionada para a quitação de débitos e despesas essenciais, como alimentação, moradia e transporte, sem gerar um alívio efetivo no bolso.

Mesmo com a recente desaceleração da inflação, o cotidiano da população não experimentou o alívio esperado. Quando os itens básicos estabilizam em um patamar já elevado, a sensação de perda do poder de compra se perpetua — e para quem compromete quase um terço do que ganha com juros, o impacto é ainda mais severo.

Além dos fatores macroeconômicos, há um forte componente cultural no problema. No momento das compras, muitos consumidores ainda desconsideram o impacto das taxas de juros embutidas ou o peso acumulado das parcelas a longo prazo. Da mesma forma, o uso do cartão de crédito frequentemente ignora a real capacidade de pagamento, empurrando o consumidor para a armadilha do crédito rotativo e o adiamento de saldos para os meses seguintes.

Enfim, o nó econômico atual exige saídas bilaterais. Cabe ao governo buscar o equilíbrio fiscal necessário para reduzir as taxas de juros sem comprometer o dinamismo do mercado de trabalho. Simultaneamente, a população precisa adotar a educação financeira como ferramenta de sobrevivência cotidiana pois, sem planejamento estratégico dentro de casa, a conta dificilmente fechará.


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A Ciência Diante do Tribunal da Política e da Religião

 


Confundir ciência com crença nunca foi novidade. Mas qual é o fundamento que sustenta essa confusão?

Diante da dificuldade de confrontar ou compreender determinadas informações, nasce a ideia de que, quando a ciência afirma algo, resta apenas “acreditar”. É daí que surge a falsa associação entre ciência e fé. Quando a ciência passa a ser apresentada como uma verdade absoluta — e não como um processo contínuo de investigação — ela se aproxima perigosamente do terreno da religião.

A ciência também é confundida com política quando dados técnicos e evidências científicas são instrumentalizados para servir a interesses ideológicos, econômicos ou partidários. Isso ocorre, sobretudo, em contextos de forte polarização, nos quais a ciência é usada tanto para legitimar quanto para desqualificar ações de governo, como se grupos políticos pudessem determinar o que é ou não verdade científica.

Essa confusão é natural ou deliberadamente estimulada? Vale refletir.

Religião é um sistema organizado de crenças, práticas e valores que busca estabelecer uma conexão entre a humanidade e aquilo que é considerado sagrado, divino ou transcendental.

Política é a arte de organizar, dirigir e administrar o bem comum. É o exercício do poder voltado à tomada de decisões coletivas que impactam a vida em sociedade.

Já a ciência é a produção de conhecimento baseada em rigor metodológico, evidências empíricas e verificação. Seu objetivo é compreender as leis que regem o universo por meio da observação, da experimentação e do teste.

Diferentemente da crença religiosa ou política, a ciência está sempre em construção. Não existe ponto final. A verdade aceita hoje pode ser revista amanhã. A ciência exige falseabilidade; isto é, para que uma teoria seja considerada científica, deve existir a possibilidade de demonstrar que ela está errada. Quando algo não pode ser testado nem contestado, deixa de pertencer ao campo científico.

Ao longo da história, não faltaram embates entre o conhecimento científico e interesses religiosos e políticos.

Durante séculos, acreditou-se que a Terra era o centro do universo. Tudo giraria em torno dela. Quando Galileu Galilei, apoiado nas ideias de Nicolau Copérnico, confirmou que a Terra girava em torno do Sol, enfrentou a oposição da Igreja. Foi obrigado a negar suas descobertas e acabou condenado à prisão domiciliar perpétua. Embora estivesse correto, a Igreja Católica só reconheceu oficialmente o erro em 1992. O episódio tornou-se um marco histórico do conflito entre dogma e conhecimento científico.

Outro exemplo ocorreu no auge da construção do Estado soviético, sob o comando de Joseph Stalin. O regime adotou as ideias de um agrônomo que rejeitava completamente a genética mendeliana e defendia que seria possível “educar” sementes para produzir colheitas extraordinárias apenas pela influência do ambiente. Milhares de biólogos e geneticistas foram demitidos, perseguidos, exilados ou executados. A negação da genética moderna contribuiu para o fracasso das safras soviéticas e agravou crises de fome e desabastecimento na URSS. Décadas foram necessárias para recuperar os danos causados pela submissão da ciência à ideologia.

A principal diferença entre o conhecimento científico e a crença, seja religiosa ou política, é que a ciência trabalha continuamente para não enganar a si mesma, partindo do princípio de que pode estar errada. Já a crença, em geral, exige a convicção de estar certa. Sempre!


segunda-feira, 11 de maio de 2026

A Cartilha do Descarte: Quando a Extrema Direita Ignora Riscos Sanitários



A extrema direita não desperdiça oportunidades para disseminar seus princípios, mesmo quando isso coloca em risco a saúde pública. Recentemente, sob o pretexto de defender uma gigante do setor de higiene e limpeza, o discurso radical ressurgiu com força. Entre os que abraçaram a causa, nota-se desde cidadãos desinformados até articuladores conscientes de uma agenda perigosa.

 

Na cartilha da extrema direita, idosos e doentes crônicos são frequentemente reduzidos a um "fardo econômico". Essa visão deturpada trata a deficiência como mera ausência de produtividade e flerta com a eugenia ao sugerir a segregação ou eliminação daqueles considerados "improdutivos" em prol de uma suposta "pureza e força" da população. Sob essa ótica, políticas públicas de saúde e segurança alimentar seriam apenas mecanismos para manter a pobreza viva, sem retorno financeiro ao Estado.

 

Essa retórica não é nova. Durante a pandemia de COVID-19, vimos postagens atrozes sugerindo que o vírus faria uma "limpeza" social. Assistimos a debates desumanos sobre a ocupação de leitos hospitalares, onde a lógica do "custo-benefício" propunha preterir idosos em favor de pacientes jovens. Atualmente, partidos de extrema direita na Europa e nas Américas reforçam essa ideia, defendendo que pensões e assistência médica sejam exclusivas para nativos considerados "produtivos".

 

Utilizando-se de falsos especialistas ou médicos alinhados à ideologia, esses grupos produzem conteúdos desinformativos, especialmente contra as vacinas. O resultado é trágico: o retorno de doenças outrora controladas ou erradicadas, como sarampo, poliomielite, coqueluche e rubéola.

 

O episódio recente envolvendo a Anvisa ilustra o ápice dessa distorção. A agência — reconhecida internacionalmente por seu rigor técnico comparável aos órgãos dos países mais desenvolvidos, determinou a suspensão de produtos de limpeza após identificar falhas graves de fabricação e risco de contaminação microbiológica.

 

A decisão fundamentou-se em fatos concretos: em novembro de 2025, a própria fabricante realizou um recall voluntário após detectar a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Entre 27 e 30 de abril de 2026, técnicos da Anvisa identificaram o descumprimento de Boas Práticas de Fabricação (BPF), incluindo corrosão em equipamentos e falhas no controle de qualidade.

 

Apesar dos riscos de contaminação por microrganismos patogênicos, a extrema direita mobilizou-se nas redes sociais para defender a continuidade do uso dos produtos, alegando "perseguição política".

 

É fundamental desmistificar a tese de viés partidário. A diretoria colegiada da Anvisa é composta por três diretores indicados pelo governo atual e dois pelo governo anterior, todos sabatinados pelo Senado. Mais relevante ainda: a nota técnica que fundamentou a suspensão foi assinada pelo diretor responsável pela área de fiscalização (GGFIS), indicado durante a gestão de Jair Bolsonaro. Isso esvazia qualquer narrativa de retaliação política.

 

O recado por trás dessas manifestações ideológicas é nítido e cruel: a manutenção de uma narrativa política vale mais do que a vida dos vulneráveis. Ao incentivar o uso de produtos condenados pela vigilância sanitária, a extrema direita sinaliza que o adoecimento ou a morte daqueles que não se encaixam em sua métrica de produtividade é um dano colateral aceitável. C.Q.D.

 

Para pensar na cama: quantas pessoas próximas que você conhece seriam consideradas como “fardo econômico” pela extrema direita?


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Entre o milho e o fubá A lógica por trás da renegociação de dívidas

 


Lançado mais um programa com a pretensão de abraçar mais de 20 milhões de pessoas com dívidas em atraso de 90 dias a dois anos em cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, financiamentos ao consumidor e dívidas de estudantes, microempresários e pequenos produtores rurais. O senso comum nos leva a imaginar que apenas quem não conseguiu pagar suas dívidas será beneficiado. Como sempre, as aparências enganam.

Programas dessa natureza costumam ser vistos como prêmio aos que não conseguem controlar despesas diante da renda mensal. Mas não é verdade que todos passaram incólumes. Caíram na “lista negra”, perderam crédito, enfrentaram constrangimentos e viram a dignidade jogada ao chão. Tal “premiação” não parece um grande negócio.

Para muitos agentes financeiros e comerciantes credores, essas dívidas já estavam na conta do prejuízo. Com a adesão de boa parte dos devedores, haverá imediato reforço no fluxo de caixa, garantindo sobrevida financeira sem recorrer aos caros créditos disponíveis, além de abrir espaço para investimentos e expansão dos negócios.

Ao implementar programas para aliviar o peso do endividamento, seja por iniciativa do mercado ou do governo, como o Desenrola Brasil, permite-se que os devedores limpem seus nomes dos cadastros de inadimplentes e retornem ao mercado consumidor, impulsionando o comércio, aumentando a produção industrial, gerando emprego e renda.

O Desenrola Brasil, como se vê, é uma ação necessária para a economia brasileira, mas não faz milagres. Medidas de longo prazo precisam ser implementadas, como educação financeira, redução do custo do crédito e dos juros, impedir que bancos descontem parcelas que comprometam alimentação e moradia e combater o “crédito predatório” contra idosos, além de alguma regulamentação para conter os gastos desenfreados com BETs.

Obviamente, a solução para a economia não está na geração espontânea de endividados, mas esse processo mostra o quanto ela é complexa e que nem tudo é o que parece. Afinal, “enquanto o povo vem com o milho, os agentes econômicos já estão com o fubá”.