quinta-feira, 7 de maio de 2026

Entre o milho e o fubá A lógica por trás da renegociação de dívidas

 


Lançado mais um programa com a pretensão de abraçar mais de 20 milhões de pessoas com dívidas em atraso de 90 dias a dois anos em cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, financiamentos ao consumidor e dívidas de estudantes, microempresários e pequenos produtores rurais. O senso comum nos leva a imaginar que apenas quem não conseguiu pagar suas dívidas será beneficiado. Como sempre, as aparências enganam.

Programas dessa natureza costumam ser vistos como prêmio aos que não conseguem controlar despesas diante da renda mensal. Mas não é verdade que todos passaram incólumes. Caíram na “lista negra”, perderam crédito, enfrentaram constrangimentos e viram a dignidade jogada ao chão. Tal “premiação” não parece um grande negócio.

Para muitos agentes financeiros e comerciantes credores, essas dívidas já estavam na conta do prejuízo. Com a adesão de boa parte dos devedores, haverá imediato reforço no fluxo de caixa, garantindo sobrevida financeira sem recorrer aos caros créditos disponíveis, além de abrir espaço para investimentos e expansão dos negócios.

Ao implementar programas para aliviar o peso do endividamento, seja por iniciativa do mercado ou do governo, como o Desenrola Brasil, permite-se que os devedores limpem seus nomes dos cadastros de inadimplentes e retornem ao mercado consumidor, impulsionando o comércio, aumentando a produção industrial, gerando emprego e renda.

O Desenrola Brasil, como se vê, é uma ação necessária para a economia brasileira, mas não faz milagres. Medidas de longo prazo precisam ser implementadas, como educação financeira, redução do custo do crédito e dos juros, impedir que bancos descontem parcelas que comprometam alimentação e moradia e combater o “crédito predatório” contra idosos, além de alguma regulamentação para conter os gastos desenfreados com BETs.

Obviamente, a solução para a economia não está na geração espontânea de endividados, mas esse processo mostra o quanto ela é complexa e que nem tudo é o que parece. Afinal, “enquanto o povo vem com o milho, os agentes econômicos já estão com o fubá”.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A Cor que nos Protege, o preconceito que nos fere

 



Se somos ramos de uma mesma raiz ancestral e compartilhamos o mesmo sangue, por que a humanidade floresceu em tantas gradações de tons de pele?

Estamos em plena Festa de São Benedito, a tradicional "Festa de Maio" ou "Festa do 13". Nela, unimos a devoção ao santo negro, protetor dos oprimidos, à memória da abolição da escravidão, ocorrida em 13 de maio de 1888.

Embora o Brasil reconheça que a escravidão é a mancha mais perversa de sua história, um sistema que explorou mais de 4 milhões de africanos por quase quatro séculos, a ferida ainda está longe de cicatrizar. Nas senzalas, sob jornadas exaustivas e castigos cruéis, a sobrevida de um adulto mal chegava aos dez anos após o início do trabalho forçado. Mesmo diante desse horror histórico, ainda testemunhamos o racismo e a ilusão da supremacia branca, como se a concentração de melanina fosse, de alguma forma, um marcador de valor humano.

O senso comum insiste em dividir o mundo em cores: preto para africanos, amarelo para asiáticos, vermelho para indígenas e branco para europeus, utilizando a pigmentação como justificativa para o conceito obsoleto de "raças". No entanto, a genética é categórica: somos 99,9% idênticos.

A ínfima variação de 0,1% é fruto exclusivo da adaptação evolutiva ao longo de milênios. O clima moldou nossa aparência: a pele escura protegeu nossos ancestrais da radiação solar intensa, enquanto a pele clara facilitou a síntese de vitamina D em regiões de baixa luminosidade. Em suma, o tom da pele nunca foi um degrau de hierarquia, mas um ajuste biológico para a sobrevivência em diferentes latitudes.

Como se vê, o racismo carece de qualquer base biológica ou científica; ele é uma construção alimentada por fatores históricos, culturais e psicológicos. Ele se manifesta no preconceito individual e se entranha em leis e instituições. Reconhecer nossa igualdade biológica é o primeiro passo para honrar a história daqueles que vieram antes de nós.

Salve São Benedito!


sábado, 2 de maio de 2026

Unimed e Santa Casa: Uma queda de braço onde o paciente paga o pato

 



Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e o Código de Defesa do Consumidor, diante da não renovação de contrato entre um hospital e uma operadora de saúde, o descredenciamento deve ser comunicado com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

No dia 01/05, a Unimed Regional Baixa Mogiana comunicou via aplicativo: “A partir de 01/05/2026, a Santa Casa de Itapira deixou de integrar a rede credenciada da operadora, em razão de rescisão contratual promovida pela própria instituição, em meio às negociações que estavam em andamento.”

Apenas um dia antes, em 30/04, a Irmandade da Santa Casa havia noticiado através da imprensa: “A Santa Casa ressalta que a descontinuidade dos atendimentos decorre exclusivamente do término das negociações contratuais entre as partes. A instituição também informou que permanece aberta ao diálogo e à possibilidade de retomada da parceria, caso haja avanço em futuras tratativas.”

Enquanto a Unimed informou de forma clara que a descontinuidade partiu da Santa Casa, a nota do hospital evitou assumir a autoria da decisão. Diz o velho ditado que “quando um não quer, dois não brigam”. É fácil depreender que, ao declarar que a iniciativa foi da Santa Casa, a Unimed sugere que, por ela, o contrato teria sido renovado. Por outro lado, a Santa Casa condiciona a retomada da parceria ao "avanço das tratativas".

Considerando que o rompimento afetará milhares de pessoas, o esperado de duas instituições responsáveis seria o estabelecimento de um prazo razoável de transição enquanto as negociações prosseguissem. Caso o acordo fosse impossível, o descredenciamento deveria respeitar um tempo hábil para que o consumidor pudesse avaliar suas opções: Continuar com a Unimed (mesmo precisando se deslocar para outras cidades); ou migrar para outro plano de saúde que seja atendido pela Santa Casa.

O que se vê, ao que parece, é uma queda de braço. A Santa Casa busca melhorar a remuneração pelos serviços prestados, enquanto a Unimed prioriza o equilíbrio financeiro de suas operações. Ambas têm o direito de defender seus interesses financeiros, mas não têm o direito de deixar o usuário "pagando o pato" no meio desse fogo cruzado.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Crise Sem Fim: O que resta para a Santa Casa após o rompimento com a Unimed?

 


Quando a Unimed iniciou suas atividades na região, o SUS ainda não existia. Havia uma demanda latente por modelos de assistência médica privada devido à precariedade do sistema público da época. Embora o SUS tenha sido instituído pela CF88, sua consolidação levou mais de uma década.


Nesse contexto, a Unimed expandiu-se para Itapira. O credenciamento de médicos locais e da Santa Casa atraiu empresas da cidade, que passaram a oferecer planos corporativos a seus colaboradores. Em pouco tempo, a Unimed tornou-se a operadora com o maior número de usuários no município.


A crise na Santa Casa, contudo, é crônica. Nos anos 90, o cenário foi marcado pelo embate político de Barros Munhoz contra o corpo clínico: “os médicos detinham o controle não apenas técnico, mas também administrativo da instituição, dificultando o atendimento público”.


Dessa contenda, e como estratégia de longo prazo, nasceu o Hospital Municipal de Itapira. Hoje, a unidade é uma realidade que assegura atendimento gratuito para todos os itapirenses. No entanto, a fragilidade financeira da Santa Casa continuou.


Em 2013, o agravamento da crise levou o Dr. Pacheco e a Dra. Katia a assumirem a gestão com a missão de "colocar a casa em ordem". A nova administração focou em: injeção direta de recursos; articulação política com Barros Munhoz para obter complementos de verba estadual; reformas internas para conter sangrias financeiras.


Uma mudança histórica dessa gestão foi o fim da exclusividade da Unimed. Até então, a Santa Casa não abria espaço para outras operadoras. Novos convênios foram credenciados, diversificando a receita. Contudo, o fôlego foi temporário: os problemas estruturais retornaram.


A nota oficial recentemente divulgada pela Santa Casa sugere que a iniciativa de não renovar o contrato partiu da Unimed, embora deixe as portas abertas para uma futura repactuação. Enquanto isso, muita gente será prejudicada. Os motivos reais por trás do rompimento permanecem nos bastidores.


Diante de um histórico administrativo conturbado e agora desprovida de uma de suas fontes de faturamento mais consistentes, a resiliência da centenária Santa Casa de Itapira passa a ser vista com ceticismo por muitos.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Itapira: A Cidade que Reluz e o Olhar do Cuidador

 



Sou do tempo em que Itapira sofria com faltas de água durante o dia e cortes de energia à noite. Havia até uma quadrinha que a meninada da minha rua entoava: "Itapira, cidade que reluz: de dia falta água, de noite falta luz".

Hoje, felizmente, salvo exceções, o abastecimento de água e energia não sofre cortes sistêmicos. No entanto, a população reclama, com razão, do descuido generalizado. Basta um giro rápido e aleatório pelas ruas para detectar problemas que poderiam ser resolvidos com maior agilidade e eficiência.

A falta d’água da minha infância deu lugar a uma abundância irônica: os diversos vazamentos encontrados pelo caminho. O "precioso líquido", que poderá faltar nos tempos de seca, escorre pelo ralo sem cerimônia.

Já a escuridão daqueles tempos virou um "pisca-pisca" urbano. É difícil trafegar à noite sem notar postes cujas lâmpadas em fim de vida útil sinalizam a urgência de troca. Já presenciei casos em que a substituição excedeu duas semanas de espera.

Até os anos 70, a periferia era chão de terra; enfrentava-se pó, buracos, lama e as famosas "costelas de vaca". Hoje, com quase 100% das ruas pavimentadas, os buracos persistem e, em muitos pontos, o acúmulo de terra faz a poeira se levantar como antigamente.

Na era dos paralelepípedos, era comum ver servidores municipais com pequenos arrancadores retirando o mato entre as pedras. Hoje, mesmo com asfalto, ervas daninhas proliferam nas sarjetas e o mato passa do ponto em espaços públicos.

Não resta dúvida de que as atribuições de um prefeito vão além da zeladoria; sua função é, antes de tudo, cuidar das pessoas. Mas "tenho cá com meus botões" que, quando se cuida mal do básico, o complexo dificilmente recebe a atenção que merece.

Daqui a dois anos, escolheremos um novo prefeito. Tomara que os candidatos apresentem, acima de qualquer habilidade técnica, a disposição genuína de serem cuidadores. Afinal, a cidade deve ser agradável aos olhos e aos sentimentos. Em um ambiente limpo e organizado, nossa tendência é preservá-lo; diante da desordem, o impulso de muitos é desorganizar ainda mais.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempo Livre: O Verdadeiro Medo por Trás da Resistência

 


As reações contrárias à redução da jornada de trabalho não são uma novidade; são históricas. Mas quais seriam as bases que sustentam essa resistência?

Ainda persiste a crença de que o trabalhador que cumpre 12 horas diárias é mais comprometido do que aquele que alcança os mesmos resultados em seis. Cientificamente, porém, o cérebro humano não opera como uma máquina programada para a execução contínua de tarefas repetitivas. A mente funciona em picos de desempenho e exige períodos de desconexão para manter a eficiência e a criatividade.

Empresas presas a uma visão conservadora tendem a resistir à mudança porque a redução da jornada exige um foco rigoroso em resultados, e não apenas em processos. Manter o colaborador por 44 horas semanais, distribuídas em seis dias, oferece apenas uma ilusória sensação de controle para a gestão.

Para muitos, o emprego não é apenas um meio de subsistência, mas uma fonte primordial de status social. Nesse cenário, o aumento do tempo livre torna-se um problema existencial para quem não sabe lidar com a própria ociosidade ou com a vida fora do ambiente corporativo.

Em 1926, ao instituir a jornada de 40 horas semanais, Henry Ford foi duramente criticado e chamado de "traidor do capitalismo". Sua visão, contudo, era pragmática: trabalhadores exaustos e sem lazer não consomem. O resultado foi imediato: a suposta perda de produtividade deu lugar a um forte estímulo ao consumo e à eficiência industrial.

Historicamente, sempre que surgiram propostas de redução, os opositores repetiram discursos alarmistas. No entanto, a prática demonstra que, ao reduzir o tempo, as empresas são forçadas a investir em tecnologia e otimização, o que acaba elevando a produtividade global.

Atualmente, em diversos países desenvolvidos, o debate já avança para jornadas de 36 horas semanais distribuídas em quatro dias.

Ao observarmos a trajetória histórica, das exaustivas 16 horas diárias nos primórdios da Revolução Industrial até os modelos atuais, percebe-se que o obstáculo real nunca foi a viabilidade econômica. O verdadeiro entrave sempre foi a resistência cultural e política em conceder autonomia e tempo livre à classe trabalhadora.

@ninomarcati

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Tempo Rei e os Passageiros do Agora


 

Você já reparou que, na sala de espera de um consultório, meia hora parece uma eternidade, mas, em uma boa conversa, o mesmo tempo voa? Onde reside, afinal, a “magia” do tempo?

 

Tive apenas dois relógios de pulso na vida. O último abandonei aos quinze anos e nunca mais o recuperei. Talvez eu quisesse que as horas corressem com mais liberdade. Notava algo curioso: sempre que eu consultava o relógio durante uma tarefa, a primeira metade do percurso parecia se arrastar; já a segunda, quando eu finalmente esquecia as horas, parecia encurtar.

 

Apesar da imensidão do universo, o tempo como o conhecemos, fatiado em segundos, minutos e anos, é uma convenção humana, moldada pelos ritmos de rotação e translação da Terra. Em outro planeta, sob outra cadência astral, nossa experiência cronológica seria radicalmente distinta.

 

Na filosofia, as perspectivas se dividem: há quem sustente que apenas o presente é real, pois o passado é memória e o futuro é projeção. Para outros, as três dimensões coexistem em um fluxo contínuo, como se o tempo fosse uma grande estrada e nós, meros passageiros atravessando paisagens já existentes.

 

Já a psicologia revela que nossa percepção está amarrada à forma como o cérebro processa novidades. Quanto mais experiências inéditas vivemos, mais o tempo se expande em nossa memória. Por outro lado, a rotina faz os dias evaporarem. É por isso que o caminho de volta de uma viagem parece sempre mais curto que o de ida: no retorno, o cérebro já reconhece o percurso e "economiza" atenção, acelerando a sensação do trajeto.

 

Como canta Gilberto Gil em Tempo Rei: “Não me iludo / Tudo permanecerá do jeito que tem sido / Transcorrendo, transformando / Tempo e espaço navegando todos os sentidos.”



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ah! Como este mundo é pequeno.

 


Quando eu era criança, Itapira era o meu mundo. Depois da minha primeira viagem a São Paulo com minha mãe, passando por Mogi Mirim e Campinas, meu mundo cresceu aos meus olhos.

Com as imagens captadas da Lua, tornou-se evidente o quão pequeno é o nosso planeta. Tão pequeno que, se um alienígena desavisado o avistasse à distância, dificilmente imaginaria que aqui vivem mais de 8 bilhões de pessoas, sem contar todas as que já passaram por aqui.

Quantas vezes ouvimos ou dizemos: “como este mundo é pequeno”? É a expressão de surpresa ao encontrarmos alguém conhecido em lugares distantes do nosso berço, fruto da nossa vocação para a convivência.

Mas, quando olhamos para a longa caminhada humana, percebemos que esse “mundo pequeno” é, na verdade, um palco imenso para o desejo humano de explorar e superar desafios.

Tudo começou na África há cerca de 300 mil anos. Foi ali que surgiram os primeiros Homo sapiens, que por cerca de 200 mil anos desenvolveram habilidades essenciais, especialmente a inteligência, marco do que se convencionou chamar de Revolução Cognitiva.

Entre todos os animais, o ser humano é o único que conseguiu, por seus próprios meios, alcançar todos os continentes. Outros, como ratos, baratas e moscas, também se espalharam pelo mundo, mas pegando carona.

Os deslocamentos começaram quando os grupos humanos perceberam que a convivência de muitos indivíduos em um mesmo território gerava tensões: disputas por recursos e conflitos de poder. Descobriram que esses grupos não podiam ultrapassar além de 150 indivíduos. No limite, parte do grupo, os mais jovens, partia em busca de novas terras. Assim teve início a grande migração humana, um processo que se estendeu por cerca de 100 mil anos.

Graças ao desenvolvimento da inteligência, esses desbravadores foram capazes de se adaptar aos mais diversos ambientes, superar adversidades e sobreviver com base na caça, na pesca e nos recursos naturais disponíveis. Esse modo de vida perdurou até a chamada Revolução Agrícola, há cerca de 10 mil anos, que possibilitou o surgimento das primeiras cidades e deu início ao processo civilizatório.

No fim das contas, não estamos aqui por acaso. E nada disso foi fácil.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Confusão: Festa de Maio e Festa de São Benedito



A Festa de São Benedito há muito se confunde com a nossa querida Festa de Maio.

 

Há 138 anos, a celebração religiosa reúne fiéis com novenas, missas e procissões, tendo seu ápice em 13 de maio. Com o tempo, ganhou novos elementos — parque de diversões, barracas, comércio popular e atrações culturais — e passou a acolher toda a população. Assim nasceu a Festa de Maio como a conhecemos: plural, viva e cheia de memória afetiva.

 

Quem é de Itapira sabe: é difícil não dar ao menos uma passada por lá. Nem que seja só para relembrar. É tradição.

 

Nos últimos anos, a Paróquia de São Benedito buscou, de forma legítima, separar a parte religiosa da festa, valorizando o espaço ao redor da igreja. Mais recentemente, a instalação de equipamentos de saúde na Rua Vitório Coppos — onde ficava o parque — trouxe um novo desafio: a falta de espaço para um dos principais atrativos da festa.

 

E fica a pergunta: estamos diante da possível ruptura de uma tradição centenária?

 

A Festa de Maio não surgiu por acaso. Foi construída ao longo do tempo, com a participação da Igreja, do poder público e, principalmente, do povo itapirense. Por isso, é justo refletir: não seria possível antecipar soluções que preservassem essa tradição tão importante para a nossa identidade?

 

Tradições não são apenas hábitos. São laços. São memória. São pertencimento.

 

Eu, por exemplo, guardo com carinho a lembrança dos meus pais me levando para brincar no “tomovinho”.

 

Que haja sensibilidade — e responsabilidade — para encontrar um caminho que mantenha viva essa parte tão especial da nossa história.

 

Você gosta da Festa de Maio ou quer o fim dela? Um assunto a ser discutido!

 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Da Lua aos ETs: o nosso desejo de sermos enganados.

 



Já reparou que muita gente prefere uma mentira confortável do que uma verdade complexa? Não é de hoje que a desinformação parece ter mais força que a realidade. Mas por que isso acontece?

Não é de hoje que muita gente acredita mais facilmente naquilo que não entende — ou naquilo que confirma o que sempre acreditou.

A verdade? Nem sempre importa. Quando o cidadão encontra dificuldades para processar mecanismos científicos complexos ou quando nutre uma desconfiança crônica em relação às instituições, qualquer teoria que reforce esses sentimentos é prontamente aceita como "a verdade que ninguém quer contar". Nesse processo, ignora-se solenemente — ou "dá-se uma banana" — para qualquer evidência em contrário.

Coincidência ou ironia: no dia 1º de abril, o Dia da Mentira, a NASA lançou uma missão com o foguete Space Launch System, levando astronautas para um sobrevoo da Lua.

Mesmo assim… Segundo o Datafolha, 33% dos brasileiros acreditam que o homem nunca foi à Lua. E não para por aí: Cerca de 60 milhões acreditam que discos voadores visitam a Terra há milhares de anos. Aproximadamente 11 milhões acham que a Terra é plana.

Por quê?

Porque a mentira é simples. A verdade exige esforço.

Mas não é só isso.

Existe também o desejo de pertencimento — aquela sensação de fazer parte de um grupo “especial”, que descobriu algo que o resto do mundo não enxerga.

E ainda há um fenômeno psicológico chamado Efeito Dunning-Kruger: quanto menos alguém sabe sobre um assunto, mais tende a achar que sabe. Resultado: qualquer especialista pode ser “refutado” em cinco minutos.

Estudos mostram que mentiras se espalham até 6 vezes mais rápido que a verdade.

Motivo? A mentira utiliza o combustível da indignação, do medo, do ódio e do senso de exclusividade.

Já a verdade — coitada — quase sempre é vista como "meio sem graça".

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Do Sacrifício ao Banquete: A Evolução da Abstinência na Semana Santa

 



Até pouco tempo — em uma tradição que vem desde os primeiros séculos do cristianismo — deixar de comer carne era mais do que um costume: era obrigação para os católicos.

 

A abstinência de carne vermelha, como forma de penitência em memória do sacrifício de Cristo, se estendia por muitos dias do ano: toda a Quaresma, vigílias e, claro, a Semana Santa. Peixe podia. Carne, não.

 

Essa regra só começou a ser flexibilizada há cerca de 60 anos. Hoje, a exigência oficial se concentra na Sexta-feira Santa — e, mesmo assim, com exceções.

 

Mas o mais curioso é que o hábito não ficou restrito aos religiosos.

 

Ele atravessou fronteiras.

 

Mesmo entre os não praticantes, pessoas de outras religiões, agnósticos e ateus, evitar carne vermelha nesse dia virou algo comum. Basta observar o mercado: na semana da Páscoa, o preço da carne tende a cair para estimular o consumo, enquanto o peixe sobe com a demanda. O bacalhau, então, dispara. E isso acontece em um país onde cerca de 55% se dizem católicos, mas apenas uma parcela menor — algo em torno de 20% — pratica ativamente a fé.

 

O que explica? A força da tradição. Com o tempo, o que era uma regra religiosa virou um traço cultural. Um hábito que se mantém não apenas pela fé, mas pela memória coletiva.

 

E há também a história por trás do prato mais simbólico dessa época. Em um tempo sem refrigeração, conservar peixe fresco era um desafio. Foi a técnica de secar e salgar o bacalhau — desenvolvida pelos povos nórdicos — que permitiu sua longa duração e ampla distribuição pela Europa. Assim, ele se tornou a solução ideal para cumprir as regras da Igreja.

 

Trazido pelos portugueses, o bacalhau atravessou o oceano e se firmou no Brasil como protagonista das celebrações da Semana Santa — dos grandes banquetes às mesas mais simples, onde a batata ajudava a dar sustância ao prato.

 

No fim das contas, mais do que religião, o que está em jogo é cultura. E tradição, como se sabe, também alimenta.

 

sábado, 28 de março de 2026

O caso Master tem um lado bom. Duvida?

 


O escândalo envolvendo Vorcaro vem sendo apontado como um dos maiores crimes financeiros do Brasil, enraizado nas entranhas da política e do Judiciário tupiniquim.

Que ninguém se engane: casos semelhantes são uma constante no país, e a maioria sequer chega ao conhecimento público. Este, ao menos, não está totalmente encoberto. Há uma chance real de que, desta vez, a jiripoca piar.

Minha mãe costumava dizer que nada na vida é 100% ruim. Sempre há um lado positivo — se não para todos, ao menos para alguns. No caso do banqueiro, o lado bom pode, paradoxalmente, ser coletivo.

O grande problema dos escândalos sempre esteve na investigação. Além da astúcia dos autores em esconder provas, muitas apurações foram, ao longo do tempo, direcionadas ou limitadas ou silenciadas por interesses políticos comprometidos com as próprias irregularidades.

Instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público, que constitucionalmente são órgãos de Estado, e não de governo, nem sempre atuaram com a independência que se espera. Em outros tempos, delegados ou dirigentes que contrariavam interesses eram prontamente substituídos. Hoje, ainda que não se possa afirmar que essa autonomia seja plena, há sinais de evolução institucional.

Não devemos alimentar a ilusão de que, mesmo com punições exemplares, o país será passado a limpo. Isso é impossível. A decência de uma nação não se impõe por decreto; ela é resultado da convergência de valores e atitudes da maioria da população.

Corrupção e ética não são fenômenos exclusivos de governantes, legisladores ou magistrados. São, antes de tudo, reflexos do comportamento coletivo. Trata-se de uma construção lenta, muitas vezes dolorosa, que acompanha o amadurecimento da sociedade ao longo do tempo.

Esse processo é gradual, mas pode sofrer impulsos em momentos de crise. Já vivemos outros escândalos, avançamos, ainda que de forma insuficiente, e seguimos com um longo caminho a percorrer. Dada a magnitude do caso Master, e dependendo da profundidade das investigações e de suas consequências, é possível dar mais um passo relevante nesse processo de amadurecimento.

Eis, portanto, o lado bom.

@ninomarcati

quarta-feira, 25 de março de 2026

Eu não sei onde este mundo vai parar... Será?

 



Não é de hoje que ouço essa expressão. Meu pai já dizia isso quando eu ainda era criança. Mas, afinal, será que o mundo de hoje é mesmo muito pior? O que leva as pessoas a essa sensação quase inevitável de decadência?

Pode parecer estranho, mas não é maluquice. Essa impressão de que o passado era melhor é um fenômeno psicológico conhecido como “viés de declínio”, explicado por alguns fatores já estudados cientificamente. Vejamos:

O nosso cérebro, naturalmente, tende a esconder os maus momentos e a preservar as experiências positivas. Como num passe de mágica, as dificuldades vividas em determinados períodos da vida se apagam, enquanto os bons momentos em família, a infância, a adolescência, as conquistas e as lembranças felizes ganham destaque.

Para muita gente, lembrar dos “bons tempos” é também revisitar a juventude — aquele período em que começamos a nos libertar das amarras familiares, conquistamos autonomia e ainda não enfrentamos plenamente as responsabilidades profissionais ou a construção de uma família.

O tempo presente, por outro lado, parece sempre mais difícil. Somos bombardeados por notícias negativas o tempo todo. A tecnologia avança em ritmo acelerado, frequentemente à nossa frente, e vivemos tentando acompanhá-la. Sem falar que, se antes havia poucas escolhas, hoje o excesso de opções muitas vezes gera ansiedade.

Outro fator é a sensação de que, no passado, conhecíamos mais pessoas e éramos mais próximos. A convivência com vizinhos, com a rua, com os amigos, era mais direta, mais presencial. Hoje, muitas vezes, prevalece uma sensação de isolamento em vez de pertencimento.

Mas será que essa percepção corresponde à realidade?

Comparar a qualidade de vida atual com a do início do século XX (por volta de 1900) envolve diversos indicadores sociais, econômicos e de saúde. E o quadro geral aponta para uma melhora significativa — ainda que desigual entre países e regiões.

Se essa sensação é, em parte, fruto da nossa percepção, vale observar alguns dados concretos:

No Brasil, a expectativa de vida, que girava em torno de 33 anos, hoje ultrapassa os 76. Chegar aos 100 anos era raríssimo; segundo o censo de 2022, já são cerca de 37 mil centenários no Brasil. A mortalidade infantil, que chegava a 150 por mil nascimentos, caiu para aproximadamente 13. Para as famílias, perder filhos para a morte era considerado como normal.

O saneamento básico, antes quase inexistente — com esgoto a céu aberto —, avançou consideravelmente. Hoje, cerca de 80% da população tem acesso à água encanada e 60% conta com coleta de esgoto. Ainda há muito a melhorar, mas o progresso é evidente.

Se mais de 65% da população era analfabeta no início do século passado, hoje cerca de 93% está alfabetizada. A renda média cresceu, a pobreza extrema diminuiu e a classe média se ampliou — embora a concentração de riqueza continue sendo um desafio.

Na saúde, epidemias como varíola, febre amarela e tuberculose eram frequentes, e a assistência médica era extremamente precária. Hoje, com a ampliação do acesso à saúde pública e a vacinação, muitas dessas doenças foram controladas ou erradicadas.

Em 1900, a eletricidade era limitada, o transporte precário e a comunicação restrita. Hoje, a eletricidade é praticamente universal, a internet está amplamente difundida e os sistemas de transporte se expandiram.

A população, antes majoritariamente rural, tornou-se urbana. As leis trabalhistas, praticamente inexistentes no passado, passaram a regular as relações de trabalho. O trabalho infantil era comum; hoje, é proibido. A jornada de trabalho, que podia chegar a 70 ou 90 horas semanais, foi reduzida para algo entre 40 e 44 horas.

Em síntese, vivemos mais, menos crianças morrem, mais pessoas têm acesso à educação, à saúde e à infraestrutura. Isso não significa que os problemas desapareceram. Ainda há muito a avançar: reduzir a desigualdade, universalizar o saneamento, enfrentar a violência urbana e melhorar a qualidade da educação e da saúde.

Mas é difícil negar que, sob muitos aspectos, o mundo melhorou significativamente ao longo do tempo — ainda que alguns insistam em medir qualidade de vida apenas pelas mudanças nos costumes, que também evoluem com a sociedade, como sempre, desde o tempo das cavernas.

sábado, 21 de março de 2026

Juca tudo a ver: do Italianinho ao Cidadão de Itapira

  


A arte é um caminho para a eternidade — basta que encontre abrigo no gosto das pessoas. Então, permanece.

Juca de Oliveira, ator de primeira grandeza, partiu aos 91 anos, deixando uma trajetória memorável como ator, diretor e dramaturgo no teatro, no cinema e na televisão, ao longo de quase sete décadas. Consagrado pela crítica e pelo público, gravou seu nome entre os maiores artistas do Brasil.

Conheci Juca de Oliveira pela televisão, quando eu tinha quatorze anos. Nasci e logo recebi de meu pai o “Nino”, apelido que me acompanha até hoje. Era Nino daqui, Nino dali. Tão presente era, que, quando me chamavam pelo nome de batismo, eu demorava alguns segundos para perceber que era a mim que se dirigiam. Nino não era um apelido comum. Naquele tempo, conheci apenas outra pessoa que também o usava, mas de forma menos intensa: ora era chamada pelo apelido, ora pelo nome. No meu caso, era só Nino.

Foi então que a TV Tupi de São Paulo começou a anunciar uma nova novela: “Nino, o Italianinho”. Antes mesmo da estreia, vizinhos e parentes passaram a me chamar assim nos encontros. À medida que a novela ganhava audiência e conquistava o público, o apelido composto se espalhava com ainda mais força.

Encerrada a novela, por um bom tempo — talvez por hábito — o “Nino italianinho” continuou vivo na boca de muita gente. Até hoje, vez ou outra, alguém resgata esse apelido, nascido da interpretação marcante de Juca de Oliveira.

Nasci brasileiro, mas descendo de famílias italianas, tanto pelo lado paterno quanto materno. Anos depois, tornei-me também cidadão italiano. Assim, o “Nino italianinho” começou com Juca e, de certo modo, foi confirmado pela minha própria história.

O destino quis que, mais tarde, Juca de Oliveira adotasse Itapira. Comprou uma fazenda, caminhava pelas ruas da cidade, frequentava a Praça Bernardino, saboreava o badalado café  e desfrutava de conversas despretensiosas.

Ele se foi. Mas, assim como o “Nino italianinho” se incorporou à minha vida, Juca de Oliveira se inscreveu na memória cultural do país. Diante de tantos personagens e de uma obra tão vasta, deixou sua marca — e, como toda arte verdadeira, permanecerá.


quinta-feira, 19 de março de 2026

O Verão que Não se Reconhece



O verão se despede. Nesta sexta-feira (20), ao meio-dia, o outono assume o calendário. Mas que raios de verão foi esse? Para mim, a estação sempre foi sinônimo de descontração: banhos de rio, pé na areia e o frescor da piscina. Roupas leves, janelas abertas e nada de cobertor. Havia o ritual da "chuva de fim de tarde" — aquele espetáculo previsível que lavava a calçada, trazia o cheiro de terra molhada e acalmava o asfalto para a noite.

Este que parte, porém, foi esquisito. Passou boa parte seco, exigindo um cobertor inesperado na madrugada. Em outros momentos, despejou tempestades severas que alagaram vales e soterraram morros, expondo a ferida aberta da falta de políticas públicas. Gente morrendo afogada; gente morrendo sob a terra. Antigamente, sabíamos exatamente quando a estação começava e terminava. Hoje, o horizonte é uma incerteza.

A ciência explica: mudanças climáticas e aquecimento global. O equilíbrio rompeu. Sinto que a natureza segue um roteiro sombrio, enquanto governantes priorizam os números da economia em vez da viabilidade da vida. O fato é que o aquecimento global não está apenas esquentando os dias; ele está reprogramando as estações.

O corpo não descansa mais nas "ilhas de calor", onde as mínimas da madrugada sobem mais rápido que as máximas. O ciclo hidrológico está "bombado": para cada aumento de 1°C, a atmosfera retém 7% a mais de vapor de água. O resultado? Chuvas que não refrescam, mas destroem. O que mais virá?

Imagino o Verão chegando ao hemisfério norte daqui a três meses. Ao ser recebido pela Primavera, ouvirá o deboche: "Que papelão, você não é mais o mesmo". E ele, cabisbaixo, não saberá o que responder.


terça-feira, 17 de março de 2026

Gênero e Biologia: Por que a Liberdade Individual Assusta Tanto?



Estamos diante de mais um caso em que a máscara cai entre os supostos 'defensores da liberdade'. Afinal, onde fica a liberdade de o indivíduo ser quem ele realmente é? Se voltarmos ao mito de Adão e Eva, a visão era restrita ao binarismo (tendo como base o relato bíblico). No entanto, à medida que a humanidade se expandiu e a ciência evoluiu, compreendemos que a classificação biológica é apenas o ponto de partida para uma complexa rede de identidades e orientações.


A biologia, aliás, é menos rígida do que o senso comum dita. Tomemos o útero: nem todas as mulheres nascem com esse órgão — e muitas só descobrem a condição na vida adulta. Seriam elas menos mulheres por isso? Da mesma forma, variações cromossômicas e hormonais revelam que a natureza não opera em moldes estanques. Essas nuances provam que a biologia não é uma sentença definitiva de comportamento ou identidade.


Além disso, o compromisso com causas sociais transcende o corpo. Homens podem atuar como defensores ferrenhos das pautas femininas, assim como mulheres demonstram competência superior ao representar interesses em esferas tradicionalmente masculinas.


Em suma, enquanto o sexo refere-se às características biológicas e físicas, o gênero é uma construção social, cultural e psicológica. Ele diz respeito à forma como a pessoa se sente e se projeta no mundo. São conceitos distintos que precisam ser compreendidos para que a verdadeira liberdade — aquela que não precisa de máscaras — seja respeitada.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Brasileiro da gema aplaude e comemora!



O Brasil não levou nenhum Oscar desta vez — e isso está longe de ser uma derrota. Ao contrário: demos um passo importante diante da comunidade internacional e mostramos que a premiação de Ainda Estou Aqui não foi obra do acaso. O cinema brasileiro chegou à maioridade.

O Agente Secreto disputou como Melhor Filme Estrangeiro, mas também concorreu na principal categoria da premiação, entre dez indicados — oito americanos e um norueguês. Também figurou entre os indicados a Melhor Direção de Elenco, competindo exclusivamente com produções americanas. E, para completar, entre os indicados a Melhor Ator, apenas Wagner Moura não atuou em um filme americano.

Ou seja: o Brasil estava lá, no centro da disputa.

É natural que algumas pessoas — felizmente uma minoria — tentem diminuir esse feito. Em geral, são as mesmas que não compreendem a dimensão da cultura e seu papel estratégico no cenário internacional. Minimizar a presença brasileira nesse contexto revela também desconhecimento do que significa competir com a maior potência cinematográfica do planeta.

Hollywood construiu, ao longo de mais de um século, uma hegemonia cultural sustentada por imenso poder financeiro, tecnologia de ponta, redes globais de distribuição e uma influência simbólica que atravessa fronteiras. Concorrer em pé de igualdade nesse ambiente já é, por si só, uma conquista extraordinária.

Mais do que disputar prêmios, o cinema brasileiro mostrou que conquistou espaço, respeito e relevância no palco mais visível da indústria mundial.

E isso, gostem ou não alguns poucos, já é uma grande vitória.

Brasileiro da gema aplaude e comemora!


domingo, 15 de março de 2026

12 verdades, uma mentira

 Pessoal, resolvi propor um desafio. Tentei resgatar alguns episódios da minha trajetória e selecionei treze fatos. Todos são rigorosamente verdadeiros, exceto um. Quem quiser arriscar um palpite e tentar descobrir a mentira, sinta-se à vontade!


Conquista nas Alturas: Escalei até o cume do Pico da Forquilha, em Jacutinga, em um fôlego só, sem uma única parada para descanso.


Sob Ataque: Já fui cercado por um enxame de abelhas que cobriu minhas costas de picadas. Sorte a minha não ser alérgico, ou não estaria aqui para contar a história.


Dever de República: Em dias de geada, revezávamos quem acordaria antes do sol para regar a horta da república de estudantes e evitar que o gelo queimasse as verduras. No dia em que perdi a hora, quase fui "linchado" pelos colegas.


Turismo Inesquecível: Compramos um pacote em Pocinhos do Rio Verde anunciado no Estadão. Ao chegar, o chalé era um desastre — eu mal cabia no banheiro! Mudamos para um hotel e a viagem acabou sendo memorável.


Tensão no Ar: Estive em um voo que enfrentou uma ameaça de bomba a bordo. Posso garantir: não passava um fio de cabelo.


DJ das Antigas: Gravava músicas em fita cassete direto do alto-falante do rádio. Madrugadas em atenção absoluta para não estragar a gravação. Era o nosso "streaming" da Rádio Mundial.


Encontro com o Mestre: Em São Paulo, tive a honra de conversar por alguns minutos com Paulo Freire. Um momento que guardo com muito carinho.


Ciclos Biológicos: Nasci gordinho, tive minha fase magro, mas o tempo é implacável: acabei voltando às origens.


Desafinado: Sempre amei música, mas cantar não é minha seara. Numa missa, enquanto eu soltava a voz nos cânticos, um "amigo" sussurrou no meu ouvido: "Até aqui você desafina?".


Um Macho à Prova de Bala: Quando esse filme foi rodado em Itapira, fui convidado a atuar. Recusei ao ver o papel: ou eu matava dez pessoas, ou era uma das dez vítimas. Não aceitei nenhum dos dois.


Engenharia de Descida: Eu e um parceiro construímos um protótipo de carro de rolimã com suspensão, direção e pneus de tala larga. Éramos projetistas e pilotos de teste nas ladeiras — motor para quê?


Eureka no Escuro: Passei uma noite em claro tentando calcular um circuito eletrônico para um trabalho da faculdade. Às cinco da manhã, exausto e sem saída, desisti. Mas foi só encostar a cabeça no travesseiro que o milagre aconteceu: os cálculos começaram a girar na minha mente até a solução se montar sozinha. Pulei da cama, corri para a escrivaninha e matei a charada. Só então apaguei, com aquela sensação impagável de dever cumprido. Até hoje me impressiono com esse "estalo".


Reflexos de Ninja: Na mesa de jantar da minha avó, derrubei um copo com um movimento estabanado e o peguei no ar antes de tocar o chão. Para a família, foi milagre; para mim, puro instinto.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Como Devolver a Vida ao Mercadão de Itapira?

 



O Mercadão é mais que um prédio; é um marco histórico que remonta a mais de um século. O espaço consolidou-se como o coração pulsante da cidade, unindo a força do campo e do comércio à tradição dos encontros geracionais.

Contudo, o cenário atual é de estagnação. Celebramos, com pesar, o segundo aniversário de sua inoperância. Silenciado por uma reforma que, embora tenha consumido vultosos recursos públicos, parece carecer de um plano de ocupação claro, o retardo na finalização das obras gera uma incerteza inevitável: afinal, qual é o destino do nosso Mercadão?

A experiência de outras cidades demonstra que mercados municipais bem-sucedidos são motores de turismo e da economia local. Eles não sobrevivem apenas da venda de produtos, mas da oferta de experiência e qualidade. Um erro fatal seria transformar o prédio reformado em um mero "puxadinho" de lojas, competindo de forma predatória com os comerciantes da Rua José Bonifácio e arredores.

A alma do novo Mercadão reside no acolhimento ao pequeno produtor, aos artesãos da culinária e aos prestadores de serviços. Imagino espaços repletos de frutas, verduras e legumes frescos; queijos diversos, defumados, especiarias, mel, cafés especiais e doces finos — unindo os sabores da nossa região aos quitutes do Sul de Minas. Uma praça de alimentação vibrante seria o coração do projeto, com pastéis fritos na hora, bolinhos e petiscos irresistíveis. Além disso, o espaço abrigaria ofícios tradicionais, como amoladores de facas e pequenos consertos, além de flores, ervas, brechós e itens religiosos. Enfim, um lugar que abraça a população em quase todas as suas necessidades.

Para viabilizar essa retomada, a gestão municipal poderia implementar concessões financeiras temporárias, incentivando os comerciantes a oferecerem preços competitivos enquanto o público redescobre o espaço.

O primeiro passo é simples e urgente: a abertura de um cadastro de interessados, priorizando, em igualdade de condições, os moradores de Itapira. É hora de devolver ao cidadão o prazer de "ir ao Mercado", garantindo que aquele patrimônio volte a pulsar com a vida, os sabores e a identidade da nossa terra.


segunda-feira, 9 de março de 2026

O golpe do IPTU!


Após analisar o sistema que estabeleceu o valor do IPTU 2026, não encontro outra palavra para definir o ataque contra inúmeros contribuintes itapirenses que não seja "golpe".

 

Pressionado por uma calamidade financeira e pela dificuldade em atender às demandas básicas da cidade, o município colocou a busca por receita no radar. Com um cadastro imobiliário desatualizado, a gestão enxergou ali o caminho mais curto para "engordar" o cofre público.

 

Em 2025, a prefeitura contratou uma empresa para realizar um levantamento aerofotogramétrico e recalcular o valor venal dos imóveis. Até esse ponto, o procedimento seria padrão, não fosse a pressa para aplicar a nova cobrança. Um levantamento dessa magnitude exige responsabilidade e tempo. Contudo, o que se viu foi a entrega de uma "solução rápida" — possivelmente baseada em inteligências artificiais imprecisas para o cálculo de áreas construídas —, gerando relatórios com inconsistências que serviram de base para a emissão dos carnês.

 

Ao detectar divergências nas áreas, o correto seria confrontar visualmente as fotos de cada imóvel com as fichas de cadastro. Em caso de dúvida, uma equipe deveria ser enviada para a constatação in loco. Nada disso ocorreu.

 

O resultado foi o setor de Cadastro inundado por reclamações. Para lidar com o caos, adotou-se a infeliz estratégia de colocar um funcionário da própria empresa que cometeu os erros para atender o público. Pior ainda: passou-se a exigir que o contribuinte arque com o ônus da prova.

 

Quem percebeu a falha buscou solução. Mas e os milhares que não notaram o equívoco e pagarão valores indevidos? Projetei os números: considerando um reajuste médio anual de 5% sobre um valor excedente de R$ 1.000,00, em dez anos o prejuízo acumulado para o bolso do cidadão será de aproximadamente R$ 13.000,00. Isso é justo?

 

A única maneira de afastar a pecha de "golpe" deste processo seria a revisão imediata e de ofício de todos os casos com áreas divergentes. É preciso estabelecer a realidade dos fatos e compensar devidamente quem foi cobrado injustamente.

 

Em tempo: O meu IPTU estava errado. Reclamei e foi corrigido.