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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os resultados da eleição mudarão alguma coisa na política brasileira?

 



Um lado gostou, o outro detestou. E agora, José?

Para o filósofo estoico Sêneca, os acontecimentos em si são neutros, não sendo inerentemente bons nem maus. O que transforma um fato ou uma notícia em algo “bom” ou “ruim” é o nosso julgamento, a maneira como o interpretamos. Já para o filósofo racionalista Gottfried Leibniz, que investigou como o bem e o mal coexistem no mundo, um acontecimento negativo pode fazer parte de um contexto necessário para que um bem maior seja compreendido ou alcançado.

Nas últimas eleições, o campo conservador foi, sem dúvida, o grande vencedor. A esquerda não gostou, mas há um aspecto que merece destaque sob a perspectiva democrática: a direita e a extrema-direita poderão ser reconhecidas e identificadas com maior clareza pelo eleitorado. E isso é muito bom. Até bem pouco tempo, boa parte da direita fingia-se de morta ou se dizia de centro, posição que, em tese, permitiria pender para um lado ou para o outro, sem cerimônia.

Nenhuma democracia se fortalece sem correntes políticas relevantes, capazes de disputar o poder e apresentar projetos distintos para o país. O essencial é que todas respeitem rigorosamente as regras do jogo democrático.

No campo progressista, os resultados das eleições legislativas mostram que esse grupo conseguiu preservar seu espaço: não perdeu terreno e ainda ampliou a representação feminina. Isso não significa, porém, que possa se acomodar. Para os próximos pleitos, a esquerda precisará rever práticas, estratégias e conceitos.

Já o grande perdedor foi o Centrão. Partidos tradicionais desse bloco, como União Brasil, PP, MDB, Republicanos e PSD, encolheram em relação a 2022. Perdeu cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Esse encolhimento, contudo, não torna o Centrão insignificante. Ele continuará sendo fundamental para a formação de maiorias no Congresso Nacional e, por isso, seguirá no centro das articulações e disputas presidenciais. Só resta saber até que ponto a direita se sujeitará aos caprichos do grupo.

Ao perder força, o Centrão abre espaço para uma mudança institucional relevante: o Parlamento poderá, daqui em diante, expor com mais transparência as reais posições e orientações ideológicas de seus integrantes. Desde a redemocratização, a política brasileira convive com alianças pragmáticas que frequentemente embaralham as fronteiras ideológicas e dificultam a responsabilização dos que tomam as decisões. É possível que esse movimento também contribua para uma redução significativa do número de partidos. Que assim seja!

Quanto mais claras forem as posições dos partidos e de seus representantes, maior será a capacidade do eleitor de avaliar, comparar e cobrar. Afinal, só assim a escolha nas urnas poderá refletir, de fato, o Brasil que cada cidadão deseja construir.

 

#CongressoNacional #Eleicoes #Democracia #Eleicoes2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Itapirense, diz-me como votarás e te direi quem és.



Seremos 53.424 eleitores aptos a votar. A forma como cada um se comportará revelará cidadania - ou de alheamento — e produzirá consequências.

Se repetirmos o comportamento de eleições anteriores, cerca de 21 mil eleitores deixarão de comparecer às urnas ou votarão nulo ou em branco. Nesse grupo estarão, em maior proporção, jovens abaixo dos 24 anos, idosos acima dos 70, pessoas de menor renda e escolaridade e os descontentes com a política.

Quem adota essas práticas acaba contribuindo para a manutenção daquilo que tanto reprova. Ao não votar ou anular o voto, transfere o poder de escolha para quem votou. É gente que, em tese, perde até o direito de abrir o bico para reclamar dos eventuais malfeitos.

Cerca de 23 mil votos foram distribuídos entre 592 candidatos a deputado estadual, em 2018, e 630, em 2022. Gente que o eleitor nunca viu mais gordo nem mais magro — quiçá soubesse o que pensava. Boa parte desses votos se enquadra no chamado voto aleatório: nenhuma razão minimamente fundamentada orientou a escolha.

É o voto para cumprir a obrigação legal; pela aparência; porque o candidato é famoso; pela promessa de algum benefício; ou por indicação de familiares e conhecidos. Entre as distorções provocadas por esse comportamento está o comprometimento do próprio sistema de representação, fenômeno que também pode ser observado à luz do chamado Efeito Tiririca.

Todos os cargos em disputa merecem votos conscientes. Das nossas escolhas configuraremos os próximos quatro anos. Foco, entretanto, a análise nos deputados estaduais, por considerá-los especialmente importantes para Itapira. Candidatos conhecidos e comprometidos com a cidade podem ser cobrados pela destinação de recursos e pela defesa de nossos interesses.

Há, naturalmente, quem escolha pelo meio ambiente, pela saúde, pela educação, pela segurança ou por convicções ideológicas. São escolhas legítimas. Mas, para quem escolhe Itapira como prioridade, não faz sentido pulverizar o voto.

Da minha parte, apesar das naturais divergências, reconheço a importância de Barros Munhoz para Itapira e região. Lembro-me dos tempos em que não tínhamos representante na Assembleia Legislativa. Por isso, meu voto é 55855.

O voto é um espelho: revela muito mais de nós do que imaginamos.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Na hora do voto, pense em Itapira, também.

 


A urna eletrônica é uma caixinha de plástico, com uma tela preta e botões de borracha, mas, a cada dois anos, ganha o peso de um confessionário urbano. Daqui a duas semanas, a liturgia se repete. Apertaremos o botão verde para escolher presidente, senadores, governador e uma penca de deputados. Promete-se o futuro ali, na ponta dos dedos, entre um pi-pi-pi e a sensação passageira de dever cumprido. O problema é que a memória do eleitor costuma durar menos que a fila da seção eleitoral, e o voto, que deveria ser bússola, vira loteamento.

O itapirense, em especial, desenvolveu uma vocação quase poética para a pulverização. Nas últimas eleições, a cidade distribuiu dezenas de milhares de votos entre uma multidão de candidatos a deputado estadual. Um desfile de nomes que, em sua grande maioria, jamais pisaram na José Bonifácio ou tomaram um café na praça. Em 2018, os votos da terra ajudaram a eleger 85 parlamentares; em 2022, foram 83. Se todos eles tivessem Itapira como prioridade, o governador do Estado morreria de inveja.

Entre 2018 e 2026, menos de dez deputados estaduais lembraram que o município existia para destinar uma emenda ou, ao menos, estender a mão. O resto evaporou. É o mistério do voto proporcional: o cidadão vota por simpatia, amizade, ideologia ou até pelo fígado e, no dia seguinte, descobre que entregou uma procuração em branco a um estranho. Cerca de 20 mil votos itapirenses foram dados a candidatos que, depois de eleitos, nunca mandaram sequer um “obrigado”.

Enquanto isso, Barros Munhoz — figura carimbada, que não tira Itapira da cabeça nem para dormir — colhe suas safras de pouco mais de 13 mil votos, mostrando que a fidelidade local ainda resiste em alguns nichos, embora dispute espaço com a dispersão irracional do restante do eleitorado. Não se trata de monopolizar a preferência, mas de exigir compromisso. Se não for ele, que seja outro. Mas que tenha CEP, rosto, compromisso cobrável e, principalmente, chances reais de se eleger.

O deputado estadual é a ponte estendida até o Palácio dos Bandeirantes, o sujeito que abre portas em São Paulo e cutuca ministérios em Brasília. Com os ventos econômicos anunciando para Itapira anos bicudos na arrecadação e no emprego, dar o voto a quem não tem raízes por aqui deixa de ser apenas ingenuidade; passa a ser um luxo que a cidade não pode se dar. Ter um representante com votação expressiva no município significa força política real para defender nossas demandas.

Na hora de encarar a urna, talvez seja bom deixar a torcida de lado e votar com um pouco mais de juízo territorial. O voto não pode ser na base do “Uni, Duni, Tê”; pode até passar pelo coração, mas o essencial é que a razão fale mais alto. Afinal, a escolha não termina quando a tela acende “FIM”. Ela começa ali