Ronda pela cabeça de muita gente a ideia de que o
famoso grito do Ipiranga, em 1822, foi um grandioso ato de amor de D. Pedro I
pelo Brasil: montado em seu cavalo, revestido de coragem e heroísmo, teria
arrancado o país das garras de Portugal com um simples e retumbante
“Independência ou Morte!”.
Em pleno ano eleitoral, não faltam candidatos
tentando se apresentar como heróis, salvadores da pátria ou donos de soluções
mágicas para os problemas nacionais. Uma sina que, ao que parece, nos acompanha
desde os tempos do Império.
Durante décadas, a imagem que os brasileiros
receberam da Independência foi aquela eternizada pela famosa pintura a óleo de
Pedro Américo, “Independência ou Morte”, exposta no Museu do Ipiranga. A obra
foi encomendada e pintada décadas depois do episódio, não como um registro
fotográfico da cena, evidentemente, mas como uma representação grandiosa
destinada a ajudar a construir uma determinada identidade nacional.
Até hoje, nem tudo aquilo que aprendemos como
verdade chega até nós no devido tempo — e, às vezes, chega convenientemente
editado. Mas o tempo se encarrega de revelar a história.
A historiografia mais recente mostra que a
separação de Portugal foi um processo político, econômico e social complexo,
marcado por disputas, negociações, interesses de grupos dominantes e conflitos.
Alguma semelhança com os dias de hoje?
O processo ganhou força a partir de 1820, quando as
Cortes portuguesas queriam também recolocar o Brasil em uma posição subordinada
a Lisboa. Em outras palavras, queriam que o Brasil voltasse a ser colônia.
Em nome da autonomia, parte das elites locais,
comerciantes e outros grupos de interesse se articulou em torno de D. Pedro. A
Independência, portanto, não nasceu apenas de um gesto heroico às margens do
Ipiranga. Foi resultado de uma complexa disputa de poder.
Em 1822, o dilema central era a soberania nacional
diante do domínio português. Em 2026, o desafio é outro: aperfeiçoar a
soberania popular, preservar a estabilidade democrática, fortalecer nossas
instituições e defender a autonomia do país diante de pressões e tentativas de
interferência externa — inclusive dos Estados Unidos — em decisões que dizem
respeito aos interesses brasileiros e às nossas relações com outros países.
Durante muito tempo, prevaleceu a narrativa de que
a Independência brasileira ocorreu de maneira praticamente pacífica, sem
derramamento de sangue. A realidade foi bem diferente. Fora do eixo Rio-São
Paulo, várias províncias resistiram à autoridade de D. Pedro e permaneceram
leais a Lisboa. Houve combates violentos e mortes na Bahia, no Piauí, no
Maranhão, no Pará e na Província Cisplatina, território que posteriormente
daria origem ao Uruguai.
Em 2026, a disputa também continua. Só mudaram as
armas. A polarização política atravessa famílias, amizades, ambientes de trabalho
e relações pessoais. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser alguém
com quem se discorda para se transformar em alguém que se deseja derrotar,
desqualificar ou até eliminar do debate público.
Depois da Independência, em 1824, foi outorgada a
primeira Constituição brasileira. Com ela, surgiu o Poder Moderador, que
conferia ao imperador uma autoridade extraordinária sobre os demais poderes do
Estado.
Dois séculos depois, não faltam iniciativas e
discursos, tanto no Executivo quanto no Legislativo e no Judiciário, que
parecem flertar com a ideia de que a democracia funcionaria melhor se alguém
tivesse poderes acima dos demais.
Em 1822, discutíamos quem mandaria no Brasil.
Hoje, deveríamos estar discutindo como fazer o
Brasil pertencer, de fato, a todos os brasileiros.
E, convenhamos, para isso não precisamos de heróis
montados em cavalos. Precisamos de instituições que funcionem, cidadãos que
pensem e políticos que entendam que o Brasil não é propriedade de ninguém.
