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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O que mudou entre o 7 de setembro de 1822 e o de 2026?



Ronda pela cabeça de muita gente a ideia de que o famoso grito do Ipiranga, em 1822, foi um grandioso ato de amor de D. Pedro I pelo Brasil: montado em seu cavalo, revestido de coragem e heroísmo, teria arrancado o país das garras de Portugal com um simples e retumbante “Independência ou Morte!”.

Em pleno ano eleitoral, não faltam candidatos tentando se apresentar como heróis, salvadores da pátria ou donos de soluções mágicas para os problemas nacionais. Uma sina que, ao que parece, nos acompanha desde os tempos do Império.

Durante décadas, a imagem que os brasileiros receberam da Independência foi aquela eternizada pela famosa pintura a óleo de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, exposta no Museu do Ipiranga. A obra foi encomendada e pintada décadas depois do episódio, não como um registro fotográfico da cena, evidentemente, mas como uma representação grandiosa destinada a ajudar a construir uma determinada identidade nacional.

Até hoje, nem tudo aquilo que aprendemos como verdade chega até nós no devido tempo — e, às vezes, chega convenientemente editado. Mas o tempo se encarrega de revelar a história.

A historiografia mais recente mostra que a separação de Portugal foi um processo político, econômico e social complexo, marcado por disputas, negociações, interesses de grupos dominantes e conflitos. Alguma semelhança com os dias de hoje?

O processo ganhou força a partir de 1820, quando as Cortes portuguesas queriam também recolocar o Brasil em uma posição subordinada a Lisboa. Em outras palavras, queriam que o Brasil voltasse a ser colônia.

Em nome da autonomia, parte das elites locais, comerciantes e outros grupos de interesse se articulou em torno de D. Pedro. A Independência, portanto, não nasceu apenas de um gesto heroico às margens do Ipiranga. Foi resultado de uma complexa disputa de poder.

Em 1822, o dilema central era a soberania nacional diante do domínio português. Em 2026, o desafio é outro: aperfeiçoar a soberania popular, preservar a estabilidade democrática, fortalecer nossas instituições e defender a autonomia do país diante de pressões e tentativas de interferência externa — inclusive dos Estados Unidos — em decisões que dizem respeito aos interesses brasileiros e às nossas relações com outros países.

Durante muito tempo, prevaleceu a narrativa de que a Independência brasileira ocorreu de maneira praticamente pacífica, sem derramamento de sangue. A realidade foi bem diferente. Fora do eixo Rio-São Paulo, várias províncias resistiram à autoridade de D. Pedro e permaneceram leais a Lisboa. Houve combates violentos e mortes na Bahia, no Piauí, no Maranhão, no Pará e na Província Cisplatina, território que posteriormente daria origem ao Uruguai.

Em 2026, a disputa também continua. Só mudaram as armas. A polarização política atravessa famílias, amizades, ambientes de trabalho e relações pessoais. Muitas vezes, o adversário político deixou de ser alguém com quem se discorda para se transformar em alguém que se deseja derrotar, desqualificar ou até eliminar do debate público.

Depois da Independência, em 1824, foi outorgada a primeira Constituição brasileira. Com ela, surgiu o Poder Moderador, que conferia ao imperador uma autoridade extraordinária sobre os demais poderes do Estado.

Dois séculos depois, não faltam iniciativas e discursos, tanto no Executivo quanto no Legislativo e no Judiciário, que parecem flertar com a ideia de que a democracia funcionaria melhor se alguém tivesse poderes acima dos demais.

Em 1822, discutíamos quem mandaria no Brasil.

Hoje, deveríamos estar discutindo como fazer o Brasil pertencer, de fato, a todos os brasileiros.

E, convenhamos, para isso não precisamos de heróis montados em cavalos. Precisamos de instituições que funcionem, cidadãos que pensem e políticos que entendam que o Brasil não é propriedade de ninguém.