Você conhece alguém
que evita informações que contradizem aquilo em que acredita, tratando-as como
ameaça à sua própria identidade?
Em época de
eleição, isso se intensifica ao agrupar crenças coletivas. O que uma pessoa
pensa reflete o grupo e, assim, visões opostas deixam de ser convites à
reflexão para virarem ameaças diretas. Mas essa resistência vai além da
política: está presente no dia a dia, na religião, na saúde, no trabalho, nas
finanças, na ciência e nas relações pessoais.
É um fenômeno
humano antigo. Ele é alimentado pelo viés de confirmação (buscamos o que valida
nossas ideias), pelo desconforto do conflito cognitivo e pela ilusão de saber
mais do que realmente sabemos.
Escolaridade ou
inteligência não nos imunizam contra o casulo da desinformação. Pesquisas
mostram que raros indivíduos analisam visões contrárias com rigor; a maioria
prefere o descarte imediato.
Eis a diferença
entre ter convicções e ser refém delas. Ideias servem como guia, mas nada é
imutável. Ao rejeitarmos evidências, nos tornamos prisioneiros das próprias
certezas.
A história prova
que seguir a maioria nem sempre é o melhor caminho. O consenso cego gerou
desastres como o nazismo e a ilusão de estabilidade do sistema financeiro em
2008. Na Bíblia, a verdade raramente esteve com a multidão: Noé construiu a
arca sob deboche geral, profetas confrontavam o senso comum e Jesus foi
condenado pelo clamor popular.
Essa dificuldade de
processar o contraditório ajuda a explicar por que tão poucos se destacam na
Ciência, nas Artes, na Educação e nos Negócios. Se a tendência de seguir o
rebanho já era prejudicial antes, o cenário atual é ainda mais preocupante com
a bolha dos algoritmos.
Abertura
intelectual não é aceitar passivamente o que nos agrada, mas ter disposição
para consumir o que confronta nossa visão do mundo. Afinal, mesmo que nada
mude, o exercício do pensamento crítico mal nenhum fará.
