quinta-feira, 7 de maio de 2026

Entre o milho e o fubá A lógica por trás da renegociação de dívidas

 


Lançado mais um programa com a pretensão de abraçar mais de 20 milhões de pessoas com dívidas em atraso de 90 dias a dois anos em cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, financiamentos ao consumidor e dívidas de estudantes, microempresários e pequenos produtores rurais. O senso comum nos leva a imaginar que apenas quem não conseguiu pagar suas dívidas será beneficiado. Como sempre, as aparências enganam.

Programas dessa natureza costumam ser vistos como prêmio aos que não conseguem controlar despesas diante da renda mensal. Mas não é verdade que todos passaram incólumes. Caíram na “lista negra”, perderam crédito, enfrentaram constrangimentos e viram a dignidade jogada ao chão. Tal “premiação” não parece um grande negócio.

Para muitos agentes financeiros e comerciantes credores, essas dívidas já estavam na conta do prejuízo. Com a adesão de boa parte dos devedores, haverá imediato reforço no fluxo de caixa, garantindo sobrevida financeira sem recorrer aos caros créditos disponíveis, além de abrir espaço para investimentos e expansão dos negócios.

Ao implementar programas para aliviar o peso do endividamento, seja por iniciativa do mercado ou do governo, como o Desenrola Brasil, permite-se que os devedores limpem seus nomes dos cadastros de inadimplentes e retornem ao mercado consumidor, impulsionando o comércio, aumentando a produção industrial, gerando emprego e renda.

O Desenrola Brasil, como se vê, é uma ação necessária para a economia brasileira, mas não faz milagres. Medidas de longo prazo precisam ser implementadas, como educação financeira, redução do custo do crédito e dos juros, impedir que bancos descontem parcelas que comprometam alimentação e moradia e combater o “crédito predatório” contra idosos, além de alguma regulamentação para conter os gastos desenfreados com BETs.

Obviamente, a solução para a economia não está na geração espontânea de endividados, mas esse processo mostra o quanto ela é complexa e que nem tudo é o que parece. Afinal, “enquanto o povo vem com o milho, os agentes econômicos já estão com o fubá”.