Não é de hoje que ouço essa expressão. Meu pai já
dizia isso quando eu ainda era criança. Mas, afinal, será que o mundo de hoje é
mesmo muito pior? O que leva as pessoas a essa sensação quase inevitável de
decadência?
Pode parecer estranho, mas não é maluquice. Essa
impressão de que o passado era melhor é um fenômeno psicológico conhecido como
“viés de declínio”, explicado por alguns fatores já estudados cientificamente.
Vejamos:
O nosso cérebro, naturalmente, tende a esconder os
maus momentos e a preservar as experiências positivas. Como num passe de
mágica, as dificuldades vividas em determinados períodos da vida se apagam,
enquanto os bons momentos em família, a infância, a adolescência, as conquistas
e as lembranças felizes ganham destaque.
Para muita gente, lembrar dos “bons tempos” é
também revisitar a juventude — aquele período em que começamos a nos libertar
das amarras familiares, conquistamos autonomia e ainda não enfrentamos
plenamente as responsabilidades profissionais ou a construção de uma família.
O tempo presente, por outro lado, parece sempre
mais difícil. Somos bombardeados por notícias negativas o tempo todo. A
tecnologia avança em ritmo acelerado, frequentemente à nossa frente, e vivemos
tentando acompanhá-la. Sem falar que, se antes havia poucas escolhas, hoje o
excesso de opções muitas vezes gera ansiedade.
Outro fator é a sensação de que, no passado,
conhecíamos mais pessoas e éramos mais próximos. A convivência com vizinhos,
com a rua, com os amigos, era mais direta, mais presencial. Hoje, muitas vezes,
prevalece uma sensação de isolamento em vez de pertencimento.
Mas será que essa percepção corresponde à
realidade?
Comparar a qualidade de vida atual com a do início
do século XX (por volta de 1900) envolve diversos indicadores sociais, econômicos
e de saúde. E o quadro geral aponta para uma melhora significativa — ainda que
desigual entre países e regiões.
Se essa sensação é, em parte, fruto da nossa
percepção, vale observar alguns dados concretos:
No Brasil, a expectativa de vida, que girava em
torno de 33 anos, hoje ultrapassa os 76. Chegar aos 100 anos era raríssimo;
segundo o censo de 2022, já são cerca de 37 mil centenários no Brasil. A
mortalidade infantil, que chegava a 150 por mil nascimentos, caiu para
aproximadamente 13. Para as famílias, perder filhos para a morte era considerado
como normal.
O saneamento básico, antes quase inexistente — com
esgoto a céu aberto —, avançou consideravelmente. Hoje, cerca de 80% da
população tem acesso à água encanada e 60% conta com coleta de esgoto. Ainda há
muito a melhorar, mas o progresso é evidente.
Se mais de 65% da população era analfabeta no
início do século passado, hoje cerca de 93% está alfabetizada. A renda média
cresceu, a pobreza extrema diminuiu e a classe média se ampliou — embora a
concentração de riqueza continue sendo um desafio.
Na saúde, epidemias como varíola, febre amarela e
tuberculose eram frequentes, e a assistência médica era extremamente precária.
Hoje, com a ampliação do acesso à saúde pública e a vacinação, muitas dessas
doenças foram controladas ou erradicadas.
Em 1900, a eletricidade era limitada, o transporte
precário e a comunicação restrita. Hoje, a eletricidade é praticamente
universal, a internet está amplamente difundida e os sistemas de transporte se
expandiram.
A população, antes majoritariamente rural,
tornou-se urbana. As leis trabalhistas, praticamente inexistentes no passado,
passaram a regular as relações de trabalho. O trabalho infantil era comum;
hoje, é proibido. A jornada de trabalho, que podia chegar a 70 ou 90 horas
semanais, foi reduzida para algo entre 40 e 44 horas.
Em síntese, vivemos mais, menos crianças morrem,
mais pessoas têm acesso à educação, à saúde e à infraestrutura. Isso não
significa que os problemas desapareceram. Ainda há muito a avançar: reduzir a
desigualdade, universalizar o saneamento, enfrentar a violência urbana e
melhorar a qualidade da educação e da saúde.
Mas é difícil negar que, sob muitos aspectos, o
mundo melhorou significativamente ao longo do tempo — ainda que alguns insistam
em medir qualidade de vida apenas pelas mudanças nos costumes, que também
evoluem com a sociedade, como sempre, desde o tempo das cavernas.
