quarta-feira, 25 de março de 2026

Eu não sei onde este mundo vai parar... Será?

 



Não é de hoje que ouço essa expressão. Meu pai já dizia isso quando eu ainda era criança. Mas, afinal, será que o mundo de hoje é mesmo muito pior? O que leva as pessoas a essa sensação quase inevitável de decadência?

Pode parecer estranho, mas não é maluquice. Essa impressão de que o passado era melhor é um fenômeno psicológico conhecido como “viés de declínio”, explicado por alguns fatores já estudados cientificamente. Vejamos:

O nosso cérebro, naturalmente, tende a esconder os maus momentos e a preservar as experiências positivas. Como num passe de mágica, as dificuldades vividas em determinados períodos da vida se apagam, enquanto os bons momentos em família, a infância, a adolescência, as conquistas e as lembranças felizes ganham destaque.

Para muita gente, lembrar dos “bons tempos” é também revisitar a juventude — aquele período em que começamos a nos libertar das amarras familiares, conquistamos autonomia e ainda não enfrentamos plenamente as responsabilidades profissionais ou a construção de uma família.

O tempo presente, por outro lado, parece sempre mais difícil. Somos bombardeados por notícias negativas o tempo todo. A tecnologia avança em ritmo acelerado, frequentemente à nossa frente, e vivemos tentando acompanhá-la. Sem falar que, se antes havia poucas escolhas, hoje o excesso de opções muitas vezes gera ansiedade.

Outro fator é a sensação de que, no passado, conhecíamos mais pessoas e éramos mais próximos. A convivência com vizinhos, com a rua, com os amigos, era mais direta, mais presencial. Hoje, muitas vezes, prevalece uma sensação de isolamento em vez de pertencimento.

Mas será que essa percepção corresponde à realidade?

Comparar a qualidade de vida atual com a do início do século XX (por volta de 1900) envolve diversos indicadores sociais, econômicos e de saúde. E o quadro geral aponta para uma melhora significativa — ainda que desigual entre países e regiões.

Se essa sensação é, em parte, fruto da nossa percepção, vale observar alguns dados concretos:

No Brasil, a expectativa de vida, que girava em torno de 33 anos, hoje ultrapassa os 76. Chegar aos 100 anos era raríssimo; segundo o censo de 2022, já são cerca de 37 mil centenários no Brasil. A mortalidade infantil, que chegava a 150 por mil nascimentos, caiu para aproximadamente 13. Para as famílias, perder filhos para a morte era considerado como normal.

O saneamento básico, antes quase inexistente — com esgoto a céu aberto —, avançou consideravelmente. Hoje, cerca de 80% da população tem acesso à água encanada e 60% conta com coleta de esgoto. Ainda há muito a melhorar, mas o progresso é evidente.

Se mais de 65% da população era analfabeta no início do século passado, hoje cerca de 93% está alfabetizada. A renda média cresceu, a pobreza extrema diminuiu e a classe média se ampliou — embora a concentração de riqueza continue sendo um desafio.

Na saúde, epidemias como varíola, febre amarela e tuberculose eram frequentes, e a assistência médica era extremamente precária. Hoje, com a ampliação do acesso à saúde pública e a vacinação, muitas dessas doenças foram controladas ou erradicadas.

Em 1900, a eletricidade era limitada, o transporte precário e a comunicação restrita. Hoje, a eletricidade é praticamente universal, a internet está amplamente difundida e os sistemas de transporte se expandiram.

A população, antes majoritariamente rural, tornou-se urbana. As leis trabalhistas, praticamente inexistentes no passado, passaram a regular as relações de trabalho. O trabalho infantil era comum; hoje, é proibido. A jornada de trabalho, que podia chegar a 70 ou 90 horas semanais, foi reduzida para algo entre 40 e 44 horas.

Em síntese, vivemos mais, menos crianças morrem, mais pessoas têm acesso à educação, à saúde e à infraestrutura. Isso não significa que os problemas desapareceram. Ainda há muito a avançar: reduzir a desigualdade, universalizar o saneamento, enfrentar a violência urbana e melhorar a qualidade da educação e da saúde.

Mas é difícil negar que, sob muitos aspectos, o mundo melhorou significativamente ao longo do tempo — ainda que alguns insistam em medir qualidade de vida apenas pelas mudanças nos costumes, que também evoluem com a sociedade, como sempre, desde o tempo das cavernas.