quarta-feira, 1 de abril de 2026

Do Sacrifício ao Banquete: A Evolução da Abstinência na Semana Santa

 



Até pouco tempo — em uma tradição que vem desde os primeiros séculos do cristianismo — deixar de comer carne era mais do que um costume: era obrigação para os católicos.

 

A abstinência de carne vermelha, como forma de penitência em memória do sacrifício de Cristo, se estendia por muitos dias do ano: toda a Quaresma, vigílias e, claro, a Semana Santa. Peixe podia. Carne, não.

 

Essa regra só começou a ser flexibilizada há cerca de 60 anos. Hoje, a exigência oficial se concentra na Sexta-feira Santa — e, mesmo assim, com exceções.

 

Mas o mais curioso é que o hábito não ficou restrito aos religiosos.

 

Ele atravessou fronteiras.

 

Mesmo entre os não praticantes, pessoas de outras religiões, agnósticos e ateus, evitar carne vermelha nesse dia virou algo comum. Basta observar o mercado: na semana da Páscoa, o preço da carne tende a cair para estimular o consumo, enquanto o peixe sobe com a demanda. O bacalhau, então, dispara. E isso acontece em um país onde cerca de 55% se dizem católicos, mas apenas uma parcela menor — algo em torno de 20% — pratica ativamente a fé.

 

O que explica? A força da tradição. Com o tempo, o que era uma regra religiosa virou um traço cultural. Um hábito que se mantém não apenas pela fé, mas pela memória coletiva.

 

E há também a história por trás do prato mais simbólico dessa época. Em um tempo sem refrigeração, conservar peixe fresco era um desafio. Foi a técnica de secar e salgar o bacalhau — desenvolvida pelos povos nórdicos — que permitiu sua longa duração e ampla distribuição pela Europa. Assim, ele se tornou a solução ideal para cumprir as regras da Igreja.

 

Trazido pelos portugueses, o bacalhau atravessou o oceano e se firmou no Brasil como protagonista das celebrações da Semana Santa — dos grandes banquetes às mesas mais simples, onde a batata ajudava a dar sustância ao prato.

 

No fim das contas, mais do que religião, o que está em jogo é cultura. E tradição, como se sabe, também alimenta.