Até pouco tempo — em uma tradição que vem desde os
primeiros séculos do cristianismo — deixar de comer carne era mais do que um
costume: era obrigação para os católicos.
A abstinência de carne vermelha, como forma de
penitência em memória do sacrifício de Cristo, se estendia por muitos dias do
ano: toda a Quaresma, vigílias e, claro, a Semana Santa. Peixe podia. Carne,
não.
Essa regra só começou a ser flexibilizada há cerca
de 60 anos. Hoje, a exigência oficial se concentra na Sexta-feira Santa — e,
mesmo assim, com exceções.
Mas o mais curioso é que o hábito não ficou
restrito aos religiosos.
Ele atravessou fronteiras.
Mesmo entre os não praticantes, pessoas de outras
religiões, agnósticos e ateus, evitar carne vermelha nesse dia virou algo
comum. Basta observar o mercado: na semana da Páscoa, o preço da carne tende a
cair para estimular o consumo, enquanto o peixe sobe com a demanda. O bacalhau,
então, dispara. E isso acontece em um país onde cerca de 55% se dizem
católicos, mas apenas uma parcela menor — algo em torno de 20% — pratica
ativamente a fé.
O que explica? A força da tradição. Com o tempo, o
que era uma regra religiosa virou um traço cultural. Um hábito que se mantém
não apenas pela fé, mas pela memória coletiva.
E há também a história por trás do prato mais
simbólico dessa época. Em um tempo sem refrigeração, conservar peixe fresco era
um desafio. Foi a técnica de secar e salgar o bacalhau — desenvolvida pelos
povos nórdicos — que permitiu sua longa duração e ampla distribuição pela
Europa. Assim, ele se tornou a solução ideal para cumprir as regras da Igreja.
Trazido pelos portugueses, o bacalhau atravessou o
oceano e se firmou no Brasil como protagonista das celebrações da Semana Santa
— dos grandes banquetes às mesas mais simples, onde a batata ajudava a dar
sustância ao prato.
No fim das contas, mais do que religião, o que está
em jogo é cultura. E tradição, como se sabe, também alimenta.
