O verão se despede. Nesta
sexta-feira (20), ao meio-dia, o outono assume o calendário. Mas que raios de
verão foi esse? Para mim, a estação sempre foi sinônimo de descontração: banhos
de rio, pé na areia e o frescor da piscina. Roupas leves, janelas abertas e nada
de cobertor. Havia o ritual da "chuva de fim de tarde" — aquele
espetáculo previsível que lavava a calçada, trazia o cheiro de terra molhada e
acalmava o asfalto para a noite.
Este que parte, porém, foi
esquisito. Passou boa parte seco, exigindo um cobertor inesperado na madrugada.
Em outros momentos, despejou tempestades severas que alagaram vales e
soterraram morros, expondo a ferida aberta da falta de políticas públicas.
Gente morrendo afogada; gente morrendo sob a terra. Antigamente, sabíamos exatamente
quando a estação começava e terminava. Hoje, o horizonte é uma incerteza.
A ciência explica: mudanças
climáticas e aquecimento global. O equilíbrio rompeu. Sinto que a natureza
segue um roteiro sombrio, enquanto governantes priorizam os números da economia
em vez da viabilidade da vida. O fato é que o aquecimento global não está
apenas esquentando os dias; ele está reprogramando as estações.
O corpo não descansa mais nas
"ilhas de calor", onde as mínimas da madrugada sobem mais rápido que
as máximas. O ciclo hidrológico está "bombado": para cada aumento de
1°C, a atmosfera retém 7% a mais de vapor de água. O resultado? Chuvas que não
refrescam, mas destroem. O que mais virá?
Imagino o Verão chegando ao
hemisfério norte daqui a três meses. Ao ser recebido pela Primavera, ouvirá o
deboche: "Que papelão, você não é mais o mesmo". E ele, cabisbaixo,
não saberá o que responder.
