quinta-feira, 19 de março de 2026

O Verão que Não se Reconhece



O verão se despede. Nesta sexta-feira (20), ao meio-dia, o outono assume o calendário. Mas que raios de verão foi esse? Para mim, a estação sempre foi sinônimo de descontração: banhos de rio, pé na areia e o frescor da piscina. Roupas leves, janelas abertas e nada de cobertor. Havia o ritual da "chuva de fim de tarde" — aquele espetáculo previsível que lavava a calçada, trazia o cheiro de terra molhada e acalmava o asfalto para a noite.

Este que parte, porém, foi esquisito. Passou boa parte seco, exigindo um cobertor inesperado na madrugada. Em outros momentos, despejou tempestades severas que alagaram vales e soterraram morros, expondo a ferida aberta da falta de políticas públicas. Gente morrendo afogada; gente morrendo sob a terra. Antigamente, sabíamos exatamente quando a estação começava e terminava. Hoje, o horizonte é uma incerteza.

A ciência explica: mudanças climáticas e aquecimento global. O equilíbrio rompeu. Sinto que a natureza segue um roteiro sombrio, enquanto governantes priorizam os números da economia em vez da viabilidade da vida. O fato é que o aquecimento global não está apenas esquentando os dias; ele está reprogramando as estações.

O corpo não descansa mais nas "ilhas de calor", onde as mínimas da madrugada sobem mais rápido que as máximas. O ciclo hidrológico está "bombado": para cada aumento de 1°C, a atmosfera retém 7% a mais de vapor de água. O resultado? Chuvas que não refrescam, mas destroem. O que mais virá?

Imagino o Verão chegando ao hemisfério norte daqui a três meses. Ao ser recebido pela Primavera, ouvirá o deboche: "Que papelão, você não é mais o mesmo". E ele, cabisbaixo, não saberá o que responder.