segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo

 





Lá vamos nós para mais uma empreitada. Como diz um amigo meu: enquanto estivermos virando o ano, beleza.

É sabido que a "virada de ano" no dia 1º de janeiro é uma data totalmente arbitrária. Não existe um ponto de largada, nem uma linha de chegada na volta que a Terra dá em torno do Sol. Há cerca de 4 mil anos, comemorava-se o ano novo no período que marcava o fim do inverno e o início do plantio (Março). Muito tempo depois, com a implantação do calendário gregoriano – em vigor atualmente – o 1º de janeiro foi oficializado, tornando-se uma das celebrações mais simbólicas da humanidade.

Apesar das diferenças de cada povo, na virada prevalecem as reflexões sobre renovação, esperança e a despedida do passado. A palavra "Réveillon" vem da língua francesa e significa "acordar" ou "despertar". A data é tratada como um momento revisional do ano que terminou, alimentando a sensação de que, no ano que entra, seremos mais evoluídos, com defeitos corrigidos, almejando a paz, a união e a saúde. Pode até não acontecer nada disso, mas o ritual trabalha o nosso espírito e nos motiva para mais uma caminhada.

Na maioria das pessoas, apesar de todo o otimismo à meia-noite, as resoluções de Ano Novo caem no esquecimento antes mesmo de o Carnaval chegar; medidas concretas são raras. Seriam, então, promessas vazias?

Algumas datas, como o 1º de janeiro, separam mentalmente aquilo que eu era (e que não foi legal) daquilo que eu quero ser (o mais perfeito possível). É como se os problemas que enfrentamos, as nossas experiências de vida e hábitos pudessem desaparecer de um dia para o outro. Em muitos casos, ao planejarmos metas maravilhosas para o futuro, liberamos o hormônio do prazer — um processo que nos traz felicidade imediata. No entanto, ao tentarmos transformar o planejado em realizado e as dificuldades aparecerem, acabamos deixando o dito pelo não dito.

Enfim, comemorar imaginando um ano novo melhor que aquele que se foi faz parte do nosso costume. Desejos que não devem cobrados no futuro, muito menos com sentimento de derrota pelos objetivos não atingidos. O bom mesmo é chegar ao final do ano que se inicia e poder repetir tudo novamente. Isso é a vida.

Feliz Ano Novo!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Natal sob diferentes olhares

Nem todos os países do mundo celebram o Natal como nós. Trata-se de uma festa de origem cristã, mas nem mesmo entre cristãos há consenso sobre sua comemoração. Há discordâncias quanto à fixação da data em 25 de dezembro, e interpretações que destacam que Jesus orientou seus seguidores a celebrar sua morte, não seu nascimento.

Muçulmanos, budistas, judeus, hindus e xintoístas, por exemplo, não celebram o Natal. Países como China, Japão, Arábia Saudita, Indonésia, Turquia e Índia não consideram o Natal uma data religiosa — alguns o exploram comercialmente, outros tentam coibir suas manifestações públicas.

 

Para quem vive o período natalino desde a infância, é difícil imaginar um Natal sem celebração, seja pelo significado religioso, seja pelas festas e presentes. Quando a indiferença à data tem base em convicções religiosas distintas, tendemos a aceitá-la com mais naturalidade. No entanto, mesmo em países majoritariamente cristãos, como o Brasil, há quem não goste do Natal.

 

Há pessoas que se incomodam com o excesso de festas, com a obrigação de comprar presentes ou com o recebimento de presentes indesejados. Aquelas que enxergam o Natal apenas como um evento comercial. Aquelas que tiveram experiências difíceis na infância, que presenciaram brigas familiares, que preferem a solidão ou que sentem profundamente a ausência de entes queridos que já partiram.

 

Enfim, apesar da importância do Natal para muitos povos ocidentais, ele não é uma unanimidade.

 

Assim como desejamos a todos um Feliz Natal, devemos também respeitar aqueles que não se sentem tão felizes nessa data. O Natal se apresenta como uma festa coletiva, mas carrega um significado profundamente individual para cada um de nós. Nem sempre o que é bom para a maioria é bom para todos.

 

Por isso, para quem celebra o Natal com entusiasmo — como eu —, desejo que os ventos desta época inspirem renovação e alegria. Para quem não tem qualquer interesse natalino, desejo felicidade ao seu próprio modo. E a todos, desejo união e respeito às diferenças.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Corrupção sistêmica: quando esquerda e direita nadam no mesmo rio

 


Os casos envolvendo os deputados Sóstenes e Jordy, frequentemente apresentados como representantes da direita brasileira, demonstram mais uma vez que a corrupção não tem ideologia, não tem religião e não obedece ao lema “dessa água não beberei”. Há pouco tempo, a esquerda brasileira também navegava na onda de denúncias contra os corruptos da direita, mas logo passou a compartilhar do mesmo sistema. As notícias que emergem no campo político conservador são, certamente, apenas a ponta do iceberg e tendem a minar a já escassa confiança que a população ainda deposita nos políticos dessa linha.

Assim como não foi uma estratégia sustentável para a esquerda, não o será para a direita.

A corrupção no Brasil é sistêmica. Não se resume a atos isolados de indivíduos; está entranhada em práticas, relações e mecanismos que se repetem em diferentes esferas e níveis de governo, com a participação de empresários, servidores públicos e até cidadãos comuns que emprestam seus nomes para abertura de empresas de fachada ou contas bancárias. Enquanto o combate à corrupção servir apenas como bandeira eleitoral, o problema não retrocederá.

Não faltam aos corruptos mecanismos criativos para enriquecimento ilícito, sempre às custas das dificuldades enfrentadas pela população: emendas parlamentares excessivas e pouco transparentes; direcionamento de verbas para obras superfaturadas ou não realizadas; desvios em empresas estatais como Petrobras, Eletrobras e Caixa Econômica Federal; fraudes no INSS e em fundos soberanos; licitações adulteradas com editais direcionados, conluio entre licitantes e superfaturamento; uso de empresas de fachada e “laranjas”; empresas abertas em paraísos fiscais; operações com doleiros e lavagem de dinheiro; além da lentidão do sistema judicial e do excesso de recursos que perpetuam a impunidade.

Para quem enxerga a corrupção como um câncer a ser extirpado, uma coisa é certa: discurso não resolve, como nunca resolveu. Não há “bala de prata”, apenas medidas consistentes, inspiradas em experiências internacionais bem-sucedidas, como as recomendadas pela Transparência Internacional, Banco Mundial e OCDE. Entre elas: Fortalecimento das instituições de controle e Justiça, com colaboração efetiva entre agências; Agilidade e eficiência do Judiciário; Proteção real a testemunhas e denunciantes; Transparência radical e dados abertos; Controle social, com participação da sociedade civil e da imprensa no monitoramento; Governo aberto, com consultas públicas qualificadas; Compras públicas eletrônicas, auditáveis e com menos discricionariedade; Reforma política e eleitoral, com redução de custos de campanha e fim do uso eleitoreiro de recursos públicos.

Contudo, a ação mais decisiva deve nascer na sociedade: é preciso cultivar ética, cidadania, integridade e valorizar a função pública. É urgente abandonar ideias como “todo mundo faz” ou o “jeitinho brasileiro”, que naturalizam práticas nocivas que prejudicam a todos e beneficiam poucos.

Reduzir a corrupção exige, portanto, uma combinação de leis rigorosas, instituições autônomas e tecnologia com uma sólida cultura de integridade, educação e valores. Essa é uma tarefa coletiva, que depende da compreensão de que não haverá um salvador da pátria — apenas uma sociedade vigilante e ativa pode transformar essa realidade.

sábado, 29 de novembro de 2025

Reconhecimento póstumo: “Seu Zé Martelli”

 


Perdemos nesta semana o Seu Zé, após noventa e três anos bem vividos. Ele partiu sem que eu lhe dissesse, em voz alta, a lição que me ensinou.

Conheci Martelli ainda adolescente, quando ele trabalhava como caixa no Banco do Brasil. Naquela época, a agência ficava na esquina da Comendador João Cintra com a Bento da Rocha, no mesmo local e prédio onde funcionou, até alguns meses atrás, a agência da Caixa Econômica Federal. Para mim, ele tinha uma aparência severa. Sério no trabalho que realizava, não brincava em serviço e quase sempre mantinha uma expressão carrancuda. Eu não frequentava a agência todos os dias, mas, nas poucas vezes em que estive lá, via nele um funcionário compenetrado e de pouca conversa — alguém que parecia estar sempre brigado com o mundo.

O destino quis que, ao longo dos anos, eu me tornasse amigo dos filhos dele. Mesmo assim, eu insistia na impressão de que Seu Zé era uma pessoa rígida e de poucos amigos, sempre falando com firmeza. Era, na minha cabeça, a personificação do mais puro conservadorismo itapirense.

Com o tempo, já adulto, passei a conversar mais com ele. E, pouco a pouco, fui percebendo que minha imagem inicial continha equívocos profundos. Não demorou para eu descobrir que ele tinha um humor afiado, apreciava boas conversas e brincadeiras, além de possuir uma visão de mundo progressista e um nível de informação admirável. De conservador, só restava o amor quase vitalício por seu Corcel branco e o hábito de beber cerveja, todos os dias, em temperatura ambiente.

Aprendi com ele que, para conhecer alguém, é preciso muito mais do que um olhar atento: é preciso diálogo. Os ouvidos, e não os olhos, são os instrumentos mais adequados para essa tarefa. O olhar, quase sempre, apenas reforça nossos preconceitos. Certamente, cometi erros semelhantes ao julgar outras pessoas, mas nem todas me deram a chance de revisar minhas impressões antes que eu aprendesse a lição.

Obrigado, Seu Zé!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A História Não Absolve


Que ninguém ignore: a História é implacável com os acontecimentos políticos e será fundamental para a nossa lucidez civilizatória. Sem os registros capturados e seu entrelaçamento global, o futuro repetiria os mesmos erros, negando às novas gerações a chance de compreender suas próprias origens. Além disso, abriria espaço para que aqueles que quisessem reescrever o passado o fizessem na tentativa de controlar a vida das pessoas.

A História não é contada por uma só pessoa; é uma construção coletiva que reúne verdades e memórias para os que virão depois de nós. É assim que a humanidade vem construindo este "mundão de Deus".

A História funciona como um arquivo definitivo, impedindo que ações e decisões políticas caiam no esquecimento ou sejam distorcidas. É o estudo das escolhas humanas e suas consequências, cujos registros nos permitem entender “quem somos”, “de onde viemos” e “para onde vamos”. Ela reflete o ciclo coletivo das nossas vidas e da humanidade.

Tudo o que acontece hoje e que pode impactar o futuro tem lugar de destaque na História, abrindo cenários para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Essa evolução não se baseia, em geral, em teorias abstratas, mas nas práticas e exemplos cotidianos.

Vivemos, nesta terça-feira, 25 de novembro de 2025, um dos momentos mais relevantes dos 525 anos de Brasil. O peso político de Bolsonaro não será decisivo para colocá-lo na primeira fila dos personagens mais relevantes. Os generais que participaram de mais uma tentativa de golpe – finalmente julgados, condenados e encarcerados – serão os destaques principais. Esse episódio anuncia que as Forças Armadas, daqui em diante, saberão ocupar o papel que lhes cabe, permitindo que a sociedade civil escolha seus próprios destinos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nas Cavernas do Preconceito

 



No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?

Seríamos incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra "preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.

Levei essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres de guerras pessoais e conflitos mundiais.

Minha divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que, possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.

O mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais, outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Inatel, 44 outonos depois

 


Quarenta e quatro anos se passaram na estrada,
Desde que o mundo ganhou novos engenheiros em oitenta e um.
Mas a nossa história começou em setenta e sete, na dura bancada
Cinco era o ideal, por conta da barriga, quatro e mais nenhum.

No tablado, desfilavam mestres de ciência e temor:
Chicão, com seu Cálculo, um gigante a assombrar;
Zé Abel e sua Álgebra, nos colocava a suplicar;
Luis Antonio, tinha a Geometria a nos desvendar;
Fredmark na Química; Ivan, o metodólogo, a doutrinar;
Luiz Gomes Junior, nas curvas do terreno a nos guiar;
E Rocha, o atleta, a quem pude, com atestado, evitar.

Outros vieram depois, uma procissão sem fim:
Constanti, Goulart, Djalma, Mokarzel, Luiz Francisco,
Hermeto, Adonias, Saran, Cury, Fux, Zulcy, Rizzi,
Jocélio, Fregosi, Falsarella, Robinson, Navantino,
Fernando, Aroldo, Pedro Sérgio, Bahiano, Dovanir, François...
Uma galáxia de nomes a marcar nossos anos.

Mas dois brilham mais forte na minha memória guardada:
Baeta, no começo, tinha a turma descontente.
Em aula, abri uma queixa, uma fala até ousada,
E da crítica, ele fez um amuleto, pacientemente.
Não guardou rancor, fez da dor um degrau,
E tornou-se, para mim, um grande mestre e um amigo leal.

E Justino, o grande Justino, filósofo e guia,
Nos ensinou que o saber é uma viagem sem fim.
A abrir a mente, a ver o mundo com clara poesia,
Sem jamais perder o humor, que é o mais sábio jardim.
A viver construindo a serena alegria –
Mestre maior, que em nossa alma para sempre inspiraria.

E neste fim de semana, outubro a florescer,
Estávamos lá de novo, quarenta e quatro anos depois.
É certo, por alguns anos, o tempo separou, mas não nos fez esquecer:
Cada um seguiu seu rumo, com seus constróis.
Mas no grupo ativo, a chama se manteve acesa,
Um fio contínuo de amizade e surpresa.

E todo ano é um reencontro, um voltar ao começo,
Aos fins dos anos setenta, ao alvorecer dos oitenta.
Reconstruímos memórias, num doce retrocesso,
Trocamos o sério pela graça, pela risada opulenta.
Um "reset" da alma, um abraço a renovar
As energias para as jornadas, continuar.

Que bom sentir o valor desta história compartilhada!
Que bom por estes colegas, abnegados, de alma aberta,
Que se jogam de corpo e alma, numa entrega sagrada,
Para que este laço jamais se perca ou se deserta.
Que bom por este grupo base, este porto seguro,
Que não nega fogo, e preserva este doce futuro.

Futuro com bons frutos!


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

HMI: o que seria de nossa cidade sem ele?

 


Neste 30 de setembro de 2025, o Hospital Municipal de Itapira celebra 35 anos de dedicação e serviço à saúde da população. Recordo-me vividamente dos tempos em que, apesar de algumas reservas em relação às políticas de Barros Munhoz, engajei-me fervorosamente nesta causa. Contribuí, assim como tantos outros itapirenses, sem ter plena certeza de que a empreitada seria bem-sucedida. No entanto, estava convencido de que era o único caminho viável para proporcionar uma assistência hospitalar de qualidade em nossa cidade.

Naquela época, muitas pessoas, inclusive algumas da área médica, duvidavam que Itapira seria capaz de construir e manter um hospital com padrões aceitáveis de qualidade. Havia uma corrente de pessimismo de oposição, com indivíduos indiferentes ao impacto negativo que o fracasso dessa iniciativa teria sobre a população, desejando apenas que Totonho Munhoz não alcançasse sucesso. Em contrapartida, muitos cidadãos e empresas abraçaram a causa. Sabíamos que as contribuições não seriam suficientes para concretizar o projeto. Foi a capacidade de Barros Munhoz como articulador político e seu prestígio junto ao governo estadual que viabilizaram os investimentos necessários, transformando o sonho em realidade.

Atualmente, o HMI não só atende a população de Itapira, mas também é um recurso vital para cidades vizinhas. Quando analisamos o desempenho do nosso hospital em comparação com a média dos hospitais municipais brasileiros, é evidente que o HMI se destaca na vanguarda.

Nunca precisei utilizar os serviços do HMI, mas conheço inúmeras pessoas que o fizeram e não poupam elogios ao atendimento recebido. Isso nos leva a refletir: o que seria de Itapira sem o Hospital Municipal? É uma questão que todo itapirense já deve ter ponderado em algum momento.

A inauguração do hospital, em 30 de setembro de 1990, após cinco anos de obras, marcou um divisor de águas na saúde pública local. Barros Munhoz, em diversas ocasiões, destacou que o verdadeiro plano de saúde do município é o hospital municipal, uma afirmação que se prova cada dia mais verdadeira, impactando diretamente na salvação de vidas e no tratamento digno das pessoas.

domingo, 21 de setembro de 2025

Só é tolo quem quer!


Há quem argumente que o povo brasileiro carece de habilidade para votar adequadamente. Alguns afirmam que o eleitor opta por candidatos em troca de pequenos favores, que parecem significativos diante da escassez de benefícios proporcionados pelos poderes constituídos. Outros juram que, apesar do eleitor tentar escolher o melhor, ele acaba caindo nas armadilhas retóricas e tendenciosas dos políticos tradicionais ou dos oportunistas. Por fim, há aqueles que sustentam que o voto não é tão ingênuo quanto parece, mas sim reflexo de uma identificação do eleitor com candidatos que espelham sua própria visão, como se dissessem: "se eleito, faria exatamente o mesmo!".

Essa última perspectiva, caso verdadeira, revela uma sociedade desvinculada do conceito fundamental de buscar e aprimorar o bem comum. Historicamente, observa-se pouca evolução na qualidade das escolhas eleitorais, com indícios de uma piora progressiva. O atual Congresso é um exemplo de calamidade.

Admitindo que escolher um representante legislativo é uma tarefa complexa, na qual só percebemos nossos erros quando os escândalos vêm à tona, temos uma base sólida para negar nosso valioso voto nas eleições de 2026. Vejamos:

Candidatos à reeleição que outrora condenavam a corrupção com veemência, criticavam o uso indevido de verbas públicas, repudiavam as ações do crime organizado, defendiam que "bandido bom é bandido morto" e reclamavam de perseguição judicial por uso inadequado de emendas parlamentares, mostraram a verdadeira face ao votar SIM pela aprovação da PEC da BLINDAGEM. Essa atitude expõe a hipocrisia de seus discursos e evidencia que não merecem continuar como nossos representantes.

Embora negar o voto a tais candidatos não garanta acertos nas escolhas, é uma maneira clara e contundente de afirmar que não somos tolos. É hora de demonstrar que o eleitorado brasileiro pode, sim, discernir entre discurso e ação, e que não tolerará mais a indecência e a falta de compromisso com o bem comum.

#Pec Da Blindagem, #Ped Da Bandidagem, #Camara Federal, #Senado Federal, #Democracia


GOLPE, NUNCA MAIS!




 — "Mas isso que você me propõe é um golpe de Estado."

 — "Você acredita nisso?"

 — "Sem dúvida. Nós somos a minoria e seríamos a maioria. Nós somos uma porção da Assembleia e agiríamos como se fôssemos a Assembleia inteira. Nós, que condenamos a usurpação, seríamos os usurpadores. Nós, os defensores da Constituição, afrontaríamos a Constituição. Nós, os homens da lei, violaríamos a lei. É um golpe de Estado."

— "Sim, mas um golpe de Estado para o bem."

— "O mal feito para o bem continua sendo mal."

— "Mesmo quando ele tem sucesso?"

— "Principalmente quando ele tem sucesso. Porque então se torna um exemplo e vai se repetir."

Trecho do livro "História de um Crime", onde Victor Hugo fala sobre a tentativa de golpe de Estado diante da dissolução da Assembleia Nacional Francesa por Napoleão III, em 1851.

Napoleão III foi eleito Presidente da República por uma esmagadora maioria, com mais de 70% dos votos, para um mandato de quatro anos. A Constituição Francesa de 1848 não permitia a reeleição, o que era o seu desejo.

Diante da negativa da Assembleia em aceitar qualquer alteração, sentindo que não poderia chegar ao poder pela via legal, Napoleão III planejou um golpe de força para se manter no poder.

No dia 2 de dezembro de 1851, a Assembleia Nacional foi dissolvida com o apoio das tropas fiéis ao presidente. Cerca de trezentos líderes políticos e ativistas, monarquistas e republicanos, foram presos em suas casas durante a noite.

Foi decretado estado de sítio, suspendendo as liberdades civis. A imprensa foi censurada e nenhuma reunião política era permitida.

Para o povo francês, Napoleão III justificou o golpe como um ato para salvar a República da corrupção e para estabelecer um sistema que garantisse estabilidade. Convocou o povo para aprovar, por plebiscito, uma nova constituição que lhe daria poderes ditatoriais por 10 anos.

Parte da população resistiu ao golpe. Para conter os descontentes, usou repressão brutal, prendendo cerca de 27 mil pessoas e deportando 10 mil sem julgamento. Muitos insurgentes foram mortos nas batalhas ou executados.

Sem oposição, Napoleão III submeteu seu ato ao voto popular. A vitória foi esmagadora e fraudulenta, com 92% dos votos a favor.

Com a Constituição de 1852 aprovada e promulgada, todo o poder executivo ficou nas mãos de Napoleão III. O poder legislativo tornou-se quase irrelevante, efetivamente matando a República e iniciando o Segundo Império.

O Segundo Império Francês durou 18 anos.

Napoleão III governou como um autocrata. O poder legislativo era fraco. As eleições eram controladas e a oposição era fortemente reprimida com exílios e prisões.

Implementou transformações econômicas e sociais. Criou grandes bancos. Colocou a França num período de estabilidade em relação aos demais países. Expandiu as atividades industriais e ampliou a rede ferroviária. Foi nesse período que Paris foi remodelada, ganhando grandes avenidas, parques e sistemas de água e esgoto.

Conseguiu expandir de forma agressiva o império colonial francês na Argélia, Senegal, Indochina (Vietnã, Camboja) e no México.

No México, Napoleão III cometeu o maior erro estratégico ao tentar criar um império fantoche, impondo um arquiduque austríaco, Maximiliano, como imperador para conter a influência dos EUA e explorar recursos, além de agradar aos católicos conservadores. Com o fim da Guerra Civil Americana, os EUA apoiaram a resistência mexicana e exigiram a retirada francesa. O fiasco humilhou a França, drenou seus cofres e expôs a fraqueza militar do Império.

Enquanto a França se enfraquecia, a Prússia, sob a liderança de Otto von Bismarck, se fortalecia e buscava unificar os estados alemães. Napoleão III tentou manipular a disputa pela sucessão do trono da Espanha.

A Guerra Franco-Prussiana foi o golpe de misericórdia no Império. Entrou em guerra contra a Prússia e foi derrotado humilhantemente. Capturado, Napoleão III passou o resto de sua vida no exílio na Inglaterra, onde morreu em 1873.

Moral da história:

O golpe que levou à instauração do Segundo Império na França teve pontos positivos para alguns e negativos para outros. A instabilidade política francesa resultaria em outras tentativas...

Em 1958, Charles de Gaulle foi chamado para assumir o cargo de Primeiro-Ministro em meio a uma crise política e sob a ameaça de um golpe militar, o que levou à criação de uma nova constituição. A Quinta República Francesa, que ele ajudou a moldar, é muito mais forte e presidencialista do que as repúblicas anteriores e vigora até hoje.

De Gaulle chegou ao poder por meio de uma manobra política dentro dos limites constitucionais, mas a crise que permitiu sua ascensão foi desencadeada por uma ameaça de intervenção militar, o que pode ser considerado um "quase-golpe".

Em 1961, durante a guerra pela independência da Argélia, de Gaulle enfrentou uma tentativa de golpe militar. Generais ultraconservadores e membros do exército francês, que se opunham à independência da Argélia, lideraram uma revolta e tomaram o controle de Argel, prendendo o representante do governo francês na Argélia.

De Gaulle utilizou a televisão para fazer um apelo dramático à nação, pedindo que as forças armadas e o povo francês se mantivessem leais ao governo legítimo e desobedecessem aos generais golpistas. Ele recebeu apoio massivo, tanto na França metropolitana quanto entre as tropas na Argélia.

O golpe entrou em colapso em poucos dias, sem derramamento de sangue significativo na França metropolitana.

Depois disso, a França aprendeu a lição e fortaleceu suas instituições democráticas para evitar novas tentativas de golpe. A Quinta República foi projetada para oferecer estabilidade e um equilíbrio de poder que desencorajasse tais ações.

— "Mesmo quando ele tem sucesso?"

— "Principalmente quando ele tem sucesso. Porque então se torna um exemplo e vai se repetir."

GOLPE, NUNCA MAIS!

 #Anistia,#Golpe,#Privilégio,#CamaraDosDeputados,#SenadoFederal,#Democracia

terça-feira, 29 de julho de 2025

Lixo na rua, saúde ameaçada!


Após ler e reler o item principal da Nota Oficial sobre a coleta de lixo — publicada pela Prefeitura na semana passada —, fiquei perplexo. Como é possível?

Transcrevo o trecho em questão: "Dos quatro caminhões da empresa atualmente responsável pelo serviço, apenas dois estão em funcionamento. Os demais estão parados devido a problemas mecânicos, sem previsão de retorno pela contratada."

Será que a empresa contratada possui apenas quatro caminhões? Como foi aprovada em um contrato público nessas condições?

Ninguém exigiu um plano para situações de pane mecânica?

O que significa "sem previsão de retorno"? Não há oficinas em Itapira capazes de fornecer um prazo mínimo?

Por que a Prefeitura permite que a empresa trate o município com tamanho descaso, sem penalidades ou soluções ágeis?

Quem elaborou e aprovou esse contrato?

O pior! Essa mesma empresa — ou seus responsáveis sob outra razão social —  pode voltar a prestar serviços na cidade (ou em outras), com a conivência da administração municipal, repetindo os mesmos erros. O que está por trás disso?

Falhas constantes, caminhões quebrados, sem perspectiva de conserto, escancaram incompetências gritantes. Como evitar que novos contratos perpetuem esse ciclo? Quem poderá nos defender?

A coleta de lixo é um serviço essencial de saúde pública. Sua falha: atrai vetores de doenças (ratos, mosquitos); contamina solo, água e ar; coloca em risco a saúde dos coletores e deixa a cidade com aparência negligenciada — suja, malcheirosa e abandonada.

Até quando Itapira tratará o lixo como um problema qualquer?



segunda-feira, 2 de junho de 2025

Para muitos nonnos e nonnas: uma bela duma banana!


Entre 1870 e 1920, um êxodo silencioso marcou a história de dois países: 1,5 milhão de italianos cruzaram o Atlântico, desembarcando principalmente em São Paulo (60%), Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Paraná. Hoje, um terço dos brasileiros carrega DNA italiano. Em Itapira, estima-se, quase dois terços.

O governo italiano aprovou uma lei que restringe o acesso à cidadania “iure sanguinis” (direito de sangue), alegando "segurança nacional" e um suposto "fluxo descontrolado" de pedidos. A medida, sujeita a desafios judiciais, cortou o elo de milhões de descendentes com suas raízes.

É irônico: os mesmos italianos que fugiram da fome no século XIX agora têm seus netos e bisnetos barrados por burocracia. Seus sonhos de retorno – adiados pela pobreza, mas nunca abandonados – são hoje negados com um carimbo.

Até 1991, eu mal conhecia minha herança italiana. Foi a Festa dos 100 Anos da Família Marcati que desenterrou a saga de Bonifácio e Santa, seus filhos, suas lutas... Três anos mais tarde, com ajuda de um amigo italiano, reconectei os fios da memória.

Buscar a cidadania foi mais que um trâmite: foi reativar registros empoeirados, parados desde 1892 com a anotação "Emigrato in Brasile". Para nós, esse processo é a única forma de recolocar os avós, muitas vezes esquecidos, na linha do tempo.

Entende-se a necessidade de combater fraudes, mas alterar o princípio constitucional do ius sanguinis é cuspir na história. Quem já possui a cidadania italiana, nada muda. No entanto, para quem ainda não requereu, o caminho poderá ser muito espinhoso, com grande chance de ser negado. Os italianos que aqui chegaram não vieram por turismo – vieram para sobreviver. O Brasil os acolheu e prosperou com seu suor, mas seu coração sempre bateu em dois lugares.

Enfim, o governo italiano lhes oferece uma "bela duma banana" (como diria um nonno indignado). É um corte não só jurídico, mas afetivo.



quinta-feira, 8 de maio de 2025

Habemus Papam e haja confusão

 

Desde os últimos dias do pontificado de Francisco, tenho observado expectativas crescentes em relação ao novo Papa que o sucederá. A polarização política, característica de grupos minoritários tanto da direita quanto da esquerda, não reflete o espírito do mundo católico nem a maioria da população de seus respectivos países. Esses grupos parecem se sentir no direito de influenciar politicamente a escolha, como se a Igreja estivesse reatando laços da idade média ou do século XXII. Tal comportamento parece buscar um apoio divino, ou ao menos da Igreja Católica, para suas agendas políticas.

Ao longo de quase cinco mil anos, governos e religiosidade popular caminharam lado a lado. Contudo, essa união se desgastou diante da emergência de sociedades multiculturais, conflitos religiosos e fluxos migratórios. A neutralidade estatal tornou-se um valor cada vez mais importante. Avanços científicos, o desenvolvimento do pensamento crítico e as falhas históricas das teocracias — incluindo alianças com elites poderosas, perseguições e a prática da venda de indulgências — contribuíram significativamente para a redução da influência das igrejas no poder secular. Embora ainda existam exceções, a tendência global aponta para Estados neutros, que asseguram a liberdade religiosa. A história, em sua marcha inexorável, raramente retrocede.

Nenhuma instituição na Terra acumulou tantas experiências, viveu tantos momentos históricos, enfrentou tantos excessos e aprendeu com tantos erros quanto a Igreja Católica. Com um acervo documental vasto e sistematicamente estudado, é possível afirmar que a Santa Madre Igreja reúne um número impressionante de intelectuais dedicados, todos focados em seus propósitos e na missão de refletir sobre os rumos da fé e da humanidade.

No espectro interno da Igreja, os conservadores católicos se ancoram na tradição, comprometidos com a preservação dos ensinamentos e doutrinas centenários, orientados por uma missão espiritual e pastoral que enfatiza a caridade e a transmissão da fé, com base sólida na Bíblia e nos pronunciamentos papais e conciliares.

Por outro lado, os progressistas católicos encontram inspiração no Concílio Vaticano II e em documentos pontifícios recentes, como a Laudato Si', que aborda a ecologia social, e na defesa enfática dos pobres. Eles se engajam na promoção de políticas públicas redistributivas, são receptivos ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, e buscam reformas sociais que estejam em consonância com os valores evangélicos.

A Igreja Católica, com sua estrutura hierárquica e informativa, está atenta ao que ocorre em suas diversas dioceses ao redor do mundo. Essa capacidade de monitoramento é essencial, especialmente após ter enfrentado a perda de fiéis para denominações evangélicas e para o fenômeno dos desigrejados, o que a torna mais cautelosa em suas decisões.

Em conclusão, a eleição do Papa Leão XIV não se deu para satisfazer exclusivamente as alas progressistas ou conservadoras, mas sim para assegurar a continuidade e relevância da Igreja Católica na contemporaneidade. O desafio é conciliar as demandas de renovação com a preservação dos valores fundamentais, equilibrando-se entre a necessidade de mudança e a manutenção da identidade que define a Igreja ao longo dos séculos.

Os agostinianos, como o novo Papa, são conhecidos por buscar a verdade interior, unindo a razão e a fé, vivendo em comunhão fraterna e servindo aos outros com caridade tanto intelectual quanto prática.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Setentar, uma dádiva.












Setentei, ô se tentei.
E na longa jornada, 
não descansei.


Cheguei! 
Com tantas histórias, 
tantos tropeços, 
tantas lições e
muitas vitórias.


Nas asas do tempo, voei, 
em tempestades, me firmei, 
ao destino que tracei. 
Grandes amigos conquistei,
com laços sinceros, os guardei.
Uma bela família, ganhei,
o porto seguro que ancorei.


Cheguei!
Na trilha que atravessei, 
em cada "não", um degrau, 
em cada "sim", um caminho, 
na certeza de que a persistência é a chave.


Setentei, ô se tentei, 
com a força de quem sonha, 
da qual nunca me apartei.
Cheguei, mas não parei.


O futuro? Oras direi...
Ali está, como sempre esteve.
Sempre como esperancei.
Logo, o futuro, 
serenamente, aguardarei

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Francisco, uma vida de respeito!

 


Diante do anúncio do falecimento, após 12 anos de um papado marcado por profundas transformações e gestos simbólicos, as homenagens prestadas a Jorge Mario Bergoglio refletem uma era de renovação na Igreja Católica.

As análises ao longo de seu pontificado, consistentemente destacam suas virtudes de simplicidade e humildade, características que o levaram a rejeitar ostentações, inclusive em relação às cerimônias fúnebres que poderiam glorificá-lo de maneira excessiva.

Como pastor — padre, bispo, cardeal ou papa —, Francisco sempre priorizou a proximidade com os fiéis. Sua interação direta e seu desejo de uma Igreja próxima, particularmente dos desfavorecidos e excluídos, deixaram um legado de compaixão e empatia.

Com a determinação em reformar a Cúria Romana visando uma gestão mais eficiente e transparente, Francisco enfrentou os desafios da corrupção, abordando escândalos financeiros e de abuso sexual com medidas concretas e uma postura de intolerância à má conduta. Ele defendeu vigorosamente uma Igreja inclusiva e misericordiosa, enfatizando o acolhimento sem julgamento, e estendeu essa visão a grupos frequentemente marginalizados, como divorciados e a comunidade LGBTQIA+.

A crítica contundente à desigualdade econômica e à pobreza foi uma constante em sua vida clerical, e como papa, ele ampliou essa luta para incluir a defesa ativa contra a mudança climática. Francisco sublinhou a responsabilidade moral da humanidade em preservar o meio ambiente e proteger os mais vulneráveis, reafirmando que cuidar da Terra é um dever intrínseco à fé. Da mesma forma, ele se posicionou firmemente em favor dos direitos dos imigrantes e refugiados, apelando para a abertura de fronteiras e para um tratamento digno e compassivo aos que buscam uma nova vida.

Embora tenha enfrentado resistência significativa dentro da hierarquia eclesiástica, especialmente de setores conservadores, o Papa Francisco buscou sempre a relevância e a atuação da Igreja nos complexos desafios do nosso tempo. Ao despedir-se desta vida, deixa um exemplo de liderança que transcende dogmas e se concentra na essência do evangelho: o amor ao próximo e a busca pela justiça social.


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Não se formam mais cristãos como antigamente

 A tradição sugere que durante a Semana Santa, especialmente na Sexta-feira da Paixão, deve-se observar uma postura de abstinência, com um tom mais reflexivo, menos eufórico, favorecendo a oração, o silêncio e a introspecção. Em tempos passados, as famílias aderiam a um recolhimento doméstico, optando por uma dieta quase vegetariana ao evitar carne, e mantinham um ambiente de respeito e sobriedade, o que se refletia até mesmo na tranquilidade das ruas.

Essas práticas alimentares tinham um propósito além da devoção: reduzir despesas para que os recursos economizados pudessem ser destinados à caridade, auxiliando os menos afortunados. Era um momento de solidariedade e de lembrar-se daqueles que vivem em condições precárias.

Contudo, a realidade contemporânea apresenta um cenário bem distinto. Supermercados e bares estão repletos na Quinta-feira Santa, enquanto a Sexta-feira é marcada por estradas congestionadas, tudo isso em busca de entretenimento e prazer. O consumo de pescados caros no almoço substituiu a antiga prática de economia para fins caritativos.

Essa transformação não é recente, pois tais mudanças já se consolidaram há pelo menos trinta anos. Mais alarmante, porém, é a crescente tendência de cristãos desconsiderarem um dos mandamentos centrais de Jesus Cristo: "Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei". Infelizmente, observa-se uma contradição flagrante, com indivíduos que professam o cristianismo proferindo discursos de ódio e justificando a pobreza pela suposta falta de diligência dos pobres, em um equívoco que desvirtua o espírito de compaixão e amor ao próximo.

Não é minha intenção julgar ou condenar quem escolhe celebrar a Semana Santa com festividades gastronômicas ou viagens. Cada pessoa é capaz de discernir o que melhor se aplica a si e aos seus entes queridos. O que merece reflexão crítica, entretanto, é o comportamento daqueles que se autodenominam cristãos, mas não incorporam os valores e ensinamentos que essa fé representa. A verdadeira essência do cristianismo parece ser negligenciada por muitos que se esquecem de que a prosperidade espiritual também depende do respeito e da prática dos ensinamentos de Cristo.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Coleta de Lixo: vamos trocar seis por meia dúzia?

A prefeitura de Itapira anunciou, no mês passado, uma nova licitação para substituir a empresa responsável pela coleta de lixo, devido a falhas constantes. Dado o histórico, podemos esperar sucesso da nova contratada?

Antes dos anos 90, a terceirização de serviços essenciais era rara nos municípios brasileiros. Com a onda privatista, que prometia melhor qualidade e custos reduzidos, muitos prefeitos aderiram à prática em setores-chave.

A alta demanda atraiu empresários desonestos, gerando uma máfia que corrompe servidores e prefeitos. O crime organizado e políticos corruptos logo viram nisso uma oportunidade para lavagem de dinheiro. Embora não se deva generalizar, a honestidade nessas áreas tornou-se rara, e muitas empresas estão sob investigação do Ministério Público e da Polícia Federal.

Os serviços terceirizados têm sido criticados pela população por sua baixa qualidade, como ocorre com a coleta de lixo em nossa cidade. Esperar que a próxima empresa vencedora cumpra o contrato com a prometida eficiência parece otimista.

Com a insatisfação popular, aumentam os pedidos nas redes sociais para a municipalização dos serviços de coleta de lixo. Talvez a solução esteja no equilíbrio.

Um departamento pequeno, com um coordenador especializado, poderia terceirizar a mão de obra e alugar equipamentos, mantendo a prefeitura responsável pela qualidade. Essa ideia poderia reduzir custos e melhorar a eficiência.

A redução do lixo e o aumento da reciclagem são essenciais. Contudo, as empresas terceirizadas lucram com o volume coletado. Para elas, mais lixo significa mais lucro, o que nos coloca em um dilema.

sábado, 8 de março de 2025

Pelo fim do Dia Internacional da Mulher

Não se trata de uma campanha machista, mas de uma reflexão essencial.

Enquanto o 8 de março for uma data marcada como especial, é um sinal de que os direitos das mulheres ainda clamam por respeito em todo o mundo. O propósito desta data transcende seu significado histórico, servindo como um lembrete das disparidades flagrantes no tratamento entre homens e mulheres.

As mulheres têm alcançado vitórias significativas desde aquele trágico 8 de março, quando muitas perderam suas vidas em prol da luta por igualdade. Contudo, os desafios persistem, e são diversos:

As mulheres enfrentam uma gama de desafios e desigualdades em relação aos homens, que variam conforme o contexto cultural, social, econômico e político. Estes são problemas históricos e estruturais, que resistem apesar dos avanços recentes. 

As mulheres frequentemente recebem salários inferiores aos dos homens para desempenhar as mesmas funções. A ascensão a cargos de liderança e diretoria é repleta de obstáculos, e há a necessidade constante de equilibrar o trabalho remunerado com as obrigações domésticas.

Elas são desproporcionalmente afetadas pela violência física, psicológica e sexual, tanto no ambiente doméstico quanto fora dele. A violência de gênero, incluindo feminicídios, assédios e tráficos para exploração sexual e trabalho forçado, permanece alarmante.

Em algumas regiões, meninas e jovens mulheres são excluídas da educação básica e superior. O acesso a cuidados de saúde, particularmente na área reprodutiva, é limitado, e muitas enfrentam tratamento desumano ou abusivo durante o parto. A falta de acesso a métodos contraceptivos e a ausência de opções para aborto seguro resultam em gravidezes não planejadas. A cultura do estupro, que culpa a vítima em casos de violência sexual, ainda é uma realidade dolorosa.

No século XXI, é inaceitável que mulheres ainda enfrentem barreiras que restringem suas oportunidades e direitos em comparação aos homens. Estas barreiras estão enraizadas nas estruturas sociais, culturais e econômicas. Encorajadoramente, muitos homens têm se unido à luta pela igualdade de gênero, mas o machismo persiste, mostrando-se resistente a mudanças.

segunda-feira, 3 de março de 2025

“Ainda estou aqui” desbancou até o Carnaval

Quem poderia imaginar? A cerimônia de premiação de um filme rivalizando com o carnaval, a maior festa popular do planeta. Uma celebração que mobiliza diretamente e indiretamente mais da metade da população brasileira, tornando-se o assunto predominante em conversas e noticiários.

Não se trata de uma premiação trivial. Estamos falando do Oscar, que se aproxima de um século de existência, estabelecido para homenagear anualmente as mais notáveis produções cinematográficas dos EUA e do globo. O longa-metragem brasileiro "Ainda estou aqui" conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, um feito que reflete o julgamento de cerca de 10 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Vale ressaltar que o voto é exclusivo para aqueles que assistiram às obras em tela grande, garantindo uma avaliação imersiva.

Esta é a primeira vez que um filme brasileiro alcança tal honraria. Para dimensionar a magnitude dessa conquista, desde a criação da categoria, apenas três outros países das Américas receberam a cobiçada estatueta: a Argentina, com duas vitórias, e o México e o Chile, cada um com uma.

Na seleção do vencedor, são ponderados critérios rigorosos: a excelência artística e técnica, incluindo roteiro, direção, atuações, fotografia, entre outros aspectos; o impacto emocional e narrativo da obra; sua relevância cultural e social; além de originalidade e inovação cinematográfica. Uma particularidade desta premiação é que, diferentemente de outras categorias, o prêmio é atribuído ao país representado pelo filme.

O brilho do momento estendeu-se também à indicação de Fernanda Torres na categoria de Melhor Atriz, além do filme ter sido reconhecido entre os 10 Melhores do ano.

"Ainda estou aqui" não apenas celebra uma vitória significativa para o cinema brasileiro, mas também desempenha um papel crucial ao desvelar para muitos uma realidade histórica até então ignorada por uma parcela significativa da nossa população, ao mesmo tempo em que compartilha com o mundo as nuances de viver sob o véu opressivo de uma ditadura.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Mas é Carnaval...

Para quem tem mais de cinquenta anos, o carnaval de outrora, aquele que pulsava com vigor e autenticidade, parece ter perdido seu brilho, restando apenas um misto de saudosismo e esforços para reavivar memórias de tempos dourados.

O carnaval, com suas raízes que se entrelaçam entre práticas pagãs e a tradição cristã de celebração antes da quaresma, é uma das mais expressivas festas populares globais. Marcado por uma explosão de música, dança, cores vibrantes e uma sensação de liberdade irrestrita, ele ainda resplandece em muitas cidades brasileiras que preservaram a cultura e a história, como o Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda, além de outras localidades menores que mantêm vivas suas tradições.

Em 2025, estima-se que mais da metade da população brasileira, cerca de 120 milhões de pessoas, se envolverá nos festejos carnavalescos. Isso contrasta com os anos 70, por exemplo, quando o número não ultrapassava 30 milhões, refletindo uma população majoritariamente rural e com acesso limitado a tais celebrações.

A transformação do carnaval é um ponto de convergência para a minha geração: a percepção de que a festa perdeu qualidade. Contudo, é natural que os interesses culturais da sociedade evoluam com o tempo. Nos anos 70, o carnaval era um evento central, uma vez que as opções de entretenimento eram mais restritas. Atualmente, ele surge quase como uma surpresa inesperada. De repente!

Antigamente, o carnaval funcionava como uma válvula de escape, um momento em que as rigidezes familiares, as tensões sociais e políticas eram temporariamente suspensas, permitindo expressões e interações que rompiam com a monotonia do cotidiano. Era um período de reinicialização, um recarregar das energias para o ano que se seguiria. Hoje, com avanços nas relações familiares, maior abertura nos relacionamentos humanos e a vivência em um ambiente democrático, esses aspectos perderam relevância no contexto carnavalesco.

A música "Noite dos Mascarados" (1967), de Chico Buarque, encapsula com precisão a essência do carnaval de antigamente: "Mas é Carnaval. Não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar. Deixa o barco correr."

domingo, 16 de fevereiro de 2025

O problema do lixo em Itapira

O tema é persistente e causa frequente descontentamento: a coleta de lixo doméstico, um serviço essencial, frequentemente não é realizada conforme o esperado. A empresa contratada para essa função não cumpre suas obrigações, um problema que, infelizmente, não é exclusividade local. A questão que se impõe é: até quando essa situação perdurará?

Em Itapira, outrora a coleta de lixo era gerida diretamente pela prefeitura. Naquela época, qualquer interrupção no serviço refletia imediatamente na responsabilidade do prefeito, o que, evidentemente, tornava as falhas menos comuns.

Com a terceirização dos serviços, um mecanismo amplamente adotado pelas prefeituras nos últimos anos, a figura do prefeito foi, de certa forma, blindada das reclamações diretas. Setores cruciais como gestão de lixo, limpeza pública, transporte urbano, saúde e fornecimento de merenda escolar foram transferidos para o setor privado. Embora essa estratégia tenha aliviado a pressão sobre os prefeitos, ela introduziu incertezas e preocupações para os cidadãos. Passados um quarto de século, os problemas não só persistem como se agravam.

Além da má qualidade, foram abertas brechas para irregularidades como superfaturamento, uso de cargos para fins eleitorais, contratações fictícias e desvio de recursos públicos. Como se não bastasse, o crime organizado infiltrou-se nesse cenário, envolvendo-se em atividades ilícitas como lavagem de dinheiro e financiamento de campanhas políticas, com o intuito de expandir sua influência.

Enquanto isso, muitas prefeituras parecem inerte em aprimorar os editais de licitação e os contratos, de modo a selecionar melhor as empresas e estabelecer cláusulas que garantam soluções eficazes para cobrir eventuais lacunas. A incompetência seria a explicação para essa inação? Ou existem outros fatores subjacentes que perpetuam esse ciclo vicioso?

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Viver mais? Talvez... Viver bem? Com certeza!

Reconhecemos a morte como inevitável. Ainda que acreditemos em algo positivo após ela, buscamos prolongar nossa vida ao máximo. Evitar pensar na morte nos ajuda a seguir em frente, enfrentando desafios e apreciando os aspectos prazerosos da existência. O otimismo em relação ao futuro é sustentado pela visão da morte como um evento distante, o que preserva nossos sonhos.

Felizmente, os indivíduos com mais de sessenta anos vivem hoje uma realidade mais favorável que gerações antecessoras, beneficiados pelos progressos da medicina e da indústria farmacêutica. Observa-se um crescente movimento de pessoas dessa faixa etária adotando um estilo de vida mais moderado, com menor consumo de álcool e alimentos e uma redução no ritmo laboral.

A passagem do tempo traz consigo uma série de declínios físicos e mentais, como perda muscular, diabetes, hipertensão, problemas sensoriais, cognitivos e emocionais, além de dificuldades de mobilidade e imunidade. Embora medicamentos possam atenuar alguns desses efeitos, eles não são suficientes por si sós.

Enquanto jovens se exercitam motivados pelo prazer, diversão e estética, idosos cada vez mais aderem a atividades físicas regulares, como caminhadas e academia, focados em benefícios cardíacos, circulatórios, no controle de peso e na saúde mental, prevenindo doenças crônicas e melhorando a qualidade de vida.

A atividade física constante e uma dieta equilibrada são essenciais para a saúde e podem até estender nosso tempo vida, mas não devem ser vistas apenas como meios para adiar o fim. Afinal, a vida pode cessar inesperadamente. Assim, os cuidados com o envelhecimento devem visar sempre ao bem-estar, promovendo um estilo de vida ativo e significativo.

 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Era só o que faltava: café fake!

 

Tem gosto de café, cor de café, cheiro de café, mas não é café. Um novo produto tem chamado a atenção nos supermercados: o 'cafake', preço bem abaixo do tradicional.

A empresa responsável assegura que se trata de um subproduto do café. A embalagem esclarece tratar-se de uma bebida à base de café, autorizada pela Anvisa. Com mais de três décadas de atuação no mercado, a Master Blends não parece ser uma empresa aventureira, talvez oportunista.

O preço elevado do café, influenciado pela redução da oferta devido as ondas de calor e a valorização do dólar, criou um cenário propício para o surgimento de alternativas. Este é um reflexo direto das leis do capitalismo, onde a escassez leva ao aumento de preços, e com isso, consumidores buscam opções mais acessíveis.

Não é novidade. Grandes e renomadas empresas frequentemente oferecem produtos alternativos quando os preços dos originais se tornam proibitivos. Por exemplo: misturas de requeijão com amido substituindo o requeijão cremoso tradicional; bebidas lácteas fermentadas no lugar de iogurtes integrais; queijos frescais com soro de leite competindo com o queijo minas padrão; alimentos à base de glucose de milho em vez de mel de abelha; misturas lácteas condensadas mais em conta que o leite condensado integral; achocolatados para o chocolate em pó e bombons com coberturas que imitam o chocolate.

Contrariando a ideia de que as empresas podem fixar preços arbitrariamente, é a dinâmica de oferta e demanda que realmente governa o mercado. Quando um produto se torna financeiramente inacessível para uma parcela dos consumidores, observa-se uma queda na demanda ou uma busca por substitutos. Geralmente, após a crise que causou a elevação dos preços, as vendas não retornam aos níveis anteriores. Por essa razão, muitas empresas preferem ajustar a quantidade de produto para manter os preços competitivos.

A composição do 'cafake', segundo a Master Blends, inclui café e polpa de café torrado e moído. No entanto, a ABIC levanta suspeitas, indicando que o pó com sabor de café pode ser derivado de partes da planta de café que não a semente, como cascas, palha, folhas e outros componentes.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A vida veio do Céu!

 


Desde tempos imemoriais, questionamentos como "De onde viemos?" e "Para onde vamos?" capturam a imaginação humana. A investigação sobre a origem da vida é tão antiga quanto nossa própria história. Essa jornada espelha a curiosidade intrínseca do homem em desvendar sua existência e o universo.

Na Pré-História, mitos surgiram para dar sentido à criação. A Idade Média europeia favoreceu a narrativa bíblica da criação divina, destacando o homem como coroa da criação, à imagem de Deus. Para os ufólogos, a vida na Terra é resultante das visitas de extraterrestres.

Na ciência moderna, a Teoria da Evolução Química, aceita desde 1924, postula que a vida derivou de reações químicas há cerca de 3,5 a 4 bilhões de anos.

Esta semana, um artigo, publicado na respeitadíssima “Nature”, apresentou análise das amostras do asteroide Bennu, revelando compostos orgânicos essenciais, como 14 aminoácidos e bases do DNA — adenina, guanina, citosina e timina —, além de minerais que sugerem a presença de água. A sonda Osiris Rex, da NASA, lançada em 2023, coletou aproximadamente 120 gramas de material de Bennu, um asteroide que orbita próximo à Terra a cada seis anos.

Essas descobertas reforçam a hipótese de que asteroides podem ter trazido água e compostos orgânicos vitais à Terra, fundamentais para o surgimento dos oceanos e da vida, em uma época de intensos bombardeios no início do Sistema Solar.

Embora haja divergências nas interpretações sobre a origem da vida terrestre, uma ideia converge: a vida, de alguma forma, veio do Céu.