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segunda-feira, 3 de março de 2025

“Ainda estou aqui” desbancou até o Carnaval

Quem poderia imaginar? A cerimônia de premiação de um filme rivalizando com o carnaval, a maior festa popular do planeta. Uma celebração que mobiliza diretamente e indiretamente mais da metade da população brasileira, tornando-se o assunto predominante em conversas e noticiários.

Não se trata de uma premiação trivial. Estamos falando do Oscar, que se aproxima de um século de existência, estabelecido para homenagear anualmente as mais notáveis produções cinematográficas dos EUA e do globo. O longa-metragem brasileiro "Ainda estou aqui" conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, um feito que reflete o julgamento de cerca de 10 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Vale ressaltar que o voto é exclusivo para aqueles que assistiram às obras em tela grande, garantindo uma avaliação imersiva.

Esta é a primeira vez que um filme brasileiro alcança tal honraria. Para dimensionar a magnitude dessa conquista, desde a criação da categoria, apenas três outros países das Américas receberam a cobiçada estatueta: a Argentina, com duas vitórias, e o México e o Chile, cada um com uma.

Na seleção do vencedor, são ponderados critérios rigorosos: a excelência artística e técnica, incluindo roteiro, direção, atuações, fotografia, entre outros aspectos; o impacto emocional e narrativo da obra; sua relevância cultural e social; além de originalidade e inovação cinematográfica. Uma particularidade desta premiação é que, diferentemente de outras categorias, o prêmio é atribuído ao país representado pelo filme.

O brilho do momento estendeu-se também à indicação de Fernanda Torres na categoria de Melhor Atriz, além do filme ter sido reconhecido entre os 10 Melhores do ano.

"Ainda estou aqui" não apenas celebra uma vitória significativa para o cinema brasileiro, mas também desempenha um papel crucial ao desvelar para muitos uma realidade histórica até então ignorada por uma parcela significativa da nossa população, ao mesmo tempo em que compartilha com o mundo as nuances de viver sob o véu opressivo de uma ditadura.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Mas é Carnaval...

Para quem tem mais de cinquenta anos, o carnaval de outrora, aquele que pulsava com vigor e autenticidade, parece ter perdido seu brilho, restando apenas um misto de saudosismo e esforços para reavivar memórias de tempos dourados.

O carnaval, com suas raízes que se entrelaçam entre práticas pagãs e a tradição cristã de celebração antes da quaresma, é uma das mais expressivas festas populares globais. Marcado por uma explosão de música, dança, cores vibrantes e uma sensação de liberdade irrestrita, ele ainda resplandece em muitas cidades brasileiras que preservaram a cultura e a história, como o Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda, além de outras localidades menores que mantêm vivas suas tradições.

Em 2025, estima-se que mais da metade da população brasileira, cerca de 120 milhões de pessoas, se envolverá nos festejos carnavalescos. Isso contrasta com os anos 70, por exemplo, quando o número não ultrapassava 30 milhões, refletindo uma população majoritariamente rural e com acesso limitado a tais celebrações.

A transformação do carnaval é um ponto de convergência para a minha geração: a percepção de que a festa perdeu qualidade. Contudo, é natural que os interesses culturais da sociedade evoluam com o tempo. Nos anos 70, o carnaval era um evento central, uma vez que as opções de entretenimento eram mais restritas. Atualmente, ele surge quase como uma surpresa inesperada. De repente!

Antigamente, o carnaval funcionava como uma válvula de escape, um momento em que as rigidezes familiares, as tensões sociais e políticas eram temporariamente suspensas, permitindo expressões e interações que rompiam com a monotonia do cotidiano. Era um período de reinicialização, um recarregar das energias para o ano que se seguiria. Hoje, com avanços nas relações familiares, maior abertura nos relacionamentos humanos e a vivência em um ambiente democrático, esses aspectos perderam relevância no contexto carnavalesco.

A música "Noite dos Mascarados" (1967), de Chico Buarque, encapsula com precisão a essência do carnaval de antigamente: "Mas é Carnaval. Não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar. Deixa o barco correr."