domingo, 9 de agosto de 2026

A mentira não precisa virar verdade. Basta parecer verdade.

 

É assim que sociedades inteiras podem ser enganadas. E ninguém está imune, nem os mais espertos!

“Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade.” A frase é frequentemente atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista. A autoria exata é controversa, mas a lógica por trás dela é antiga: Não é preciso provar. É preciso tornar a mentira familiar. E existe uma explicação científica para isso.

Um estudo publicado na Nature Communications, coordenado pelo pesquisador Grégoire Borst, da Université Paris Cité, analisou dados de mais de 31 mil participantes, reunidos em pesquisas realizadas entre 1977 e 2025.

A conclusão é preocupante: Quanto mais uma informação é repetida, maior pode ser a percepção de que ela é verdadeira. É o chamado efeito da verdade ilusória.

O cérebro usa a familiaridade como um atalho. “Eu já ouvi isso antes.” E, sem perceber, podemos completar: “Então deve ser verdade.” Não. Não é! Mas é assim que a armadilha funciona.

E as redes sociais transformaram essa velha técnica em uma máquina de repetição: Uma mentira aparece. Alguém compartilha. Outro comenta. Um influenciador reproduz. Um grupo de militantes espalha. Um perfil falso reforça. Um bot multiplica.

E, de repente, aquilo que nasceu como uma mentira passa a parecer uma informação amplamente conhecida. A mentira já não precisa de um autor. Ela passa a caminhar sozinha. Pior: os algoritmos ajudam.

Conteúdo que provoca raiva, medo, indignação ou escândalo chama mais atenção. Mais atenção gera mais interação. Mais interação gera mais distribuição. Mais distribuição gera mais repetição. E mais repetição produz familiaridade. É um círculo vicioso.

Agora acrescente a inteligência artificial. Uma fotografia pode ser fabricada. Uma voz pode ser clonada. Um vídeo pode ser manipulado. Uma pessoa pode aparecer dizendo algo que jamais disse. A mentira ganhou imagem, voz e aparência de realidade. Mas ainda existe algo pior.

A mentira pode deixar de ser apenas uma mentira individual e se transformar em verdade coletiva. É nesse momento que o problema deixa de ser apenas desinformação. Passa a ser um problema social.

Instituições são desacreditadas. A ciência vira “opinião”. A imprensa vira “inimiga”. O adversário político vira “ameaça”. E fatos passam a ser rejeitados simplesmente porque incomodam aquilo em que alguém escolheu acreditar. Quando isso acontece, deixamos de discutir ideias. Passamos a disputar realidades.

E uma sociedade que não consegue concordar sobre os fatos básicos do presente dificilmente conseguirá construir um futuro comum.

Essa talvez seja a maior ameaça da desinformação. A mentira não precisa convencer todo mundo. Precisa apenas convencer gente suficiente. Não precisa destruir a verdade. Basta fazer com que ninguém mais saiba em quem acreditar.

E quando tudo vira “narrativa”... Quando qualquer evidência pode ser descartada como “opinião”...  Quando a realidade passa a depender do grupo ao qual pertencemos... a verdade deixa de ser o ponto de partida.

E aí começa o verdadeiro perigo. Porque quem não consegue enxergar a realidade... não consegue resolver os problemas que a realidade apresenta.

Uma sociedade pode sobreviver a muitas mentiras. O que ela não pode perder é a capacidade de reconhecer a verdade.