Se você saísse
por aí perguntando às pessoas que encontrasse pelo
caminho o que elas
mais valorizam — a verdade ou a mentira —, a resposta provavelmente seria
unânime: a verdade.
Essa resposta revela que temos consciência da
importância da verdade como fundamento da confiança, da estabilidade emocional
e do progresso social. A sinceridade é a base dos relacionamentos, sejam de
amizade, amorosos ou profissionais, e também orienta nossas escolhas. Quando
acreditamos em mentiras, escolhemos errado.
No entanto, basta observar a internet com um olhar
crítico para perceber que, na prática, a verdade muitas vezes é colocada em
segundo plano. Notícias falsas vencem de goleada quando comparadas aos
conteúdos verdadeiros. Segundo estudo realizado pelo Massachusetts Institute of
Technology (MIT) e publicado na prestigiada revista Science, em 2018,
notícias falsas se espalham 70% mais rápido, de forma mais profunda e com maior
alcance do que as verdadeiras. Uma postagem verdadeira atinge, em média, mil
pessoas, enquanto uma falsa pode alcançar até 100 mil.
No
Brasil, 90% dos brasileiros admitem já ter acreditado em notícias falsas. O
mais preocupante é que muitos, mesmo desconfiando da veracidade do conteúdo, o
compartilham sem qualquer verificação ou peso na consciência, contribuindo,
assim, para gerar milhões de reais em receita aos produtores desse tipo de
conteúdo. Apenas 54 em cada 100 pessoas conseguem distinguir com precisão o que
é verdadeiro do que é falso, o que coloca o país entre aqueles com menor índice
de letramento digital em pesquisas globais.
O que explica essa forte atração pela mentira?
A mentira é sedutora porque oferece benefícios
imediatos. Funciona como mecanismo de pertencimento a determinados grupos,
serve para obter vantagens rápidas ou evitar sofrimentos e desconfortos. Cria a
ilusão de controle. Evita punições, julgamentos precipitados e conflitos desagradáveis.
Também ajuda a melhorar a imagem social de quem a utiliza. Em muitos casos,
facilita a obtenção de benefícios materiais ou vantagens competitivas, seja nos
relacionamentos pessoais, no campo comercial ou profissional, ou até em
campanhas eleitorais.
Além disso, a mentira tem o poder de construir uma
realidade artificial mais agradável do que os fatos. Dissemina ideologias de
forma distorcida, destrói a imagem de artistas, esportistas, políticos e até de
pessoas anônimas. Muitas pessoas acreditam mais em narrativas falsas quando
estas confirmam seus preconceitos, crenças ou desejos.
Diariamente, mais de 3 mil portais de notícias
falsas são rastreados por monitores de mídia. Muito desse material é gerado
inteiramente por inteligência artificial, produzindo milhares de artigos
fraudulentos para monetizar anúncios. Segundo levantamentos do Poynter
Institute, com apoio do Google, quatro em cada dez brasileiros afirmam receber
fake news todos os dias em seus celulares.
Como se isso não bastasse, a disseminação por robôs
e contas inautênticas gera milhões de menções e postagens falsas diariamente,
inflando artificialmente temas e manipulando algoritmos para ampliar o alcance
da desinformação.
Enquanto a verdade ganha força com o passar do
tempo, a mentira não se sustenta de forma permanente. Ela é temporária e
depende de circunstâncias específicas para sobreviver. A falsidade se apoia em
mecanismos sociais e psicológicos poderosos. Como a mente humana tende a
acreditar em afirmações falsas quando elas são repetidas à exaustão, cria-se
uma enganosa sensação de familiaridade.
Diz o velho ditado que mentira tem perna curta. A
razão é simples: a falsidade exige a criação de novas mentiras para se
sustentar, gerando contradições inevitáveis, nem sempre percebidas por aqueles
que são enganados. A verdade, por outro lado, não necessita de manutenção:
permanece idêntica a si mesma e pode ser verificada repetidamente por qualquer
pessoa por meio de evidências e fatos.
Não resta dúvida de que estamos atravessando mais
uma fase desafiadora, como tantas outras enfrentadas pela humanidade ao longo
da história.
Com a prensa de Johannes Gutenberg, no fim da Idade Média,
surgiu o temor de que a produção em massa de material impresso facilitasse a
disseminação de ideias baseadas em desinformação, capazes de provocar rebeliões
e difundir heresias. Durante a
Revolução Industrial, quando os trens a vapor apareceram, boatos afirmavam que
o corpo humano não suportaria viajar a 50 km/h. Alguns médicos diziam que o
cérebro poderia “derreter” e que mulheres sofreriam complicações no útero. No final do século XIX, durante a transição da
iluminação a gás para a energia elétrica, circularam boatos de que a
eletricidade vazava pelas tomadas e atrairia raios.
Na trajetória da humanidade, boatos e desinformação
sempre fizeram parte do cotidiano. Ainda assim, as mentiras não resistiram ao
tempo. O mesmo tende a ocorrer com as falsidades que hoje assolam as redes
sociais.
Embora as redes sociais tenham superado a imprensa
tradicional como principal fonte de informação no mundo, a confiança nas
notícias nelas veiculadas continua baixa. Segundo relatório do Reuters
Institute, considerado uma das pesquisas mais respeitadas sobre o tema, a
confiança geral nas notícias caiu para o menor nível já registrado: 37%. Quando
se trata especificamente de conteúdos vistos nas redes sociais, o índice
despenca para apenas 22%.
O receio do público em relação ao que é falso ou
enganoso na internet subiu para 62% em nível global. No Brasil, levantamentos
da Pyxys/Opinion Box e do DataSenado mostram que apenas 17% dos brasileiros
afirmam confiar no conteúdo que consomem nas redes sociais.
A longevidade dos veículos que disseminam
desinformação varia substancialmente. Há portais caça-cliques de curta duração,
estruturados para monetização rápida via anúncios, tráfego viral ou campanhas
sazonais, como eleições e crises. Contudo, quando respaldados por financiamento
político, militância engajada ou nichos fiéis, esses canais conseguem operar
por anos.
Nesse cenário, os
veículos híbridos representam o desafio
mais complexo no combate à desinformação. Ao intercalar notícias verídicas com
manipulações, meias-verdades e enquadramentos distorcidos, preservam uma
fachada de credibilidade que assegura sua permanência no ecossistema midiático.
Consolida-se, assim, um paradoxo: a falência desses
canais raramente é motivada pela mentira, mas sim pela perda de relevância. O
desmentido sistemático não necessariamente reduz o público; em muitos casos,
atua como elemento de engajamento, reforçando o vínculo com seguidores que
passam a interpretar checagens e críticas como perseguição política.
Embora os
brasileiros utilizem as redes sociais como fonte de informação, 90% dos
entrevistados ainda afirmam confiar em
emissoras de TV, rádio e grandes portais de jornalismo para distinguir o que é
real daquilo que é desinformação. Isso demonstra que as redes sociais tendem a
ser usadas muito mais como espaço de entretenimento e relacionamento do que
como ambiente de busca por informação de qualidade.
Com o tempo, a verdade resiste; a mentira caduca.
