segunda-feira, 11 de maio de 2026

A Cartilha do Descarte: Quando a Extrema Direita Ignora Riscos Sanitários



A extrema direita não desperdiça oportunidades para disseminar seus princípios, mesmo quando isso coloca em risco a saúde pública. Recentemente, sob o pretexto de defender uma gigante do setor de higiene e limpeza, o discurso radical ressurgiu com força. Entre os que abraçaram a causa, nota-se desde cidadãos desinformados até articuladores conscientes de uma agenda perigosa.

 

Na cartilha da extrema direita, idosos e doentes crônicos são frequentemente reduzidos a um "fardo econômico". Essa visão deturpada trata a deficiência como mera ausência de produtividade e flerta com a eugenia ao sugerir a segregação ou eliminação daqueles considerados "improdutivos" em prol de uma suposta "pureza e força" da população. Sob essa ótica, políticas públicas de saúde e segurança alimentar seriam apenas mecanismos para manter a pobreza viva, sem retorno financeiro ao Estado.

 

Essa retórica não é nova. Durante a pandemia de COVID-19, vimos postagens atrozes sugerindo que o vírus faria uma "limpeza" social. Assistimos a debates desumanos sobre a ocupação de leitos hospitalares, onde a lógica do "custo-benefício" propunha preterir idosos em favor de pacientes jovens. Atualmente, partidos de extrema direita na Europa e nas Américas reforçam essa ideia, defendendo que pensões e assistência médica sejam exclusivas para nativos considerados "produtivos".

 

Utilizando-se de falsos especialistas ou médicos alinhados à ideologia, esses grupos produzem conteúdos desinformativos, especialmente contra as vacinas. O resultado é trágico: o retorno de doenças outrora controladas ou erradicadas, como sarampo, poliomielite, coqueluche e rubéola.

 

O episódio recente envolvendo a Anvisa ilustra o ápice dessa distorção. A agência — reconhecida internacionalmente por seu rigor técnico comparável aos órgãos dos países mais desenvolvidos, determinou a suspensão de produtos de limpeza após identificar falhas graves de fabricação e risco de contaminação microbiológica.

 

A decisão fundamentou-se em fatos concretos: em novembro de 2025, a própria fabricante realizou um recall voluntário após detectar a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Entre 27 e 30 de abril de 2026, técnicos da Anvisa identificaram o descumprimento de Boas Práticas de Fabricação (BPF), incluindo corrosão em equipamentos e falhas no controle de qualidade.

 

Apesar dos riscos de contaminação por microrganismos patogênicos, a extrema direita mobilizou-se nas redes sociais para defender a continuidade do uso dos produtos, alegando "perseguição política".

 

É fundamental desmistificar a tese de viés partidário. A diretoria colegiada da Anvisa é composta por três diretores indicados pelo governo atual e dois pelo governo anterior, todos sabatinados pelo Senado. Mais relevante ainda: a nota técnica que fundamentou a suspensão foi assinada pelo diretor responsável pela área de fiscalização (GGFIS), indicado durante a gestão de Jair Bolsonaro. Isso esvazia qualquer narrativa de retaliação política.

 

O recado por trás dessas manifestações ideológicas é nítido e cruel: a manutenção de uma narrativa política vale mais do que a vida dos vulneráveis. Ao incentivar o uso de produtos condenados pela vigilância sanitária, a extrema direita sinaliza que o adoecimento ou a morte daqueles que não se encaixam em sua métrica de produtividade é um dano colateral aceitável. C.Q.D.

 

Para pensar na cama: quantas pessoas próximas que você conhece seriam consideradas como “fardo econômico” pela extrema direita?