A extrema direita não
desperdiça oportunidades para disseminar seus princípios, mesmo quando isso
coloca em risco a saúde pública. Recentemente, sob o pretexto de defender uma
gigante do setor de higiene e limpeza, o discurso radical ressurgiu com força.
Entre os que abraçaram a causa, nota-se desde cidadãos desinformados até
articuladores conscientes de uma agenda perigosa.
Na cartilha da extrema
direita, idosos e doentes crônicos são frequentemente reduzidos a um
"fardo econômico". Essa visão deturpada trata a deficiência como mera
ausência de produtividade e flerta com a eugenia ao sugerir a segregação ou
eliminação daqueles considerados "improdutivos" em prol de uma
suposta "pureza e força" da população. Sob essa ótica, políticas
públicas de saúde e segurança alimentar seriam apenas mecanismos para manter a
pobreza viva, sem retorno financeiro ao Estado.
Essa retórica não é nova.
Durante a pandemia de COVID-19, vimos postagens atrozes sugerindo que o vírus
faria uma "limpeza" social. Assistimos a debates desumanos sobre a
ocupação de leitos hospitalares, onde a lógica do "custo-benefício"
propunha preterir idosos em favor de pacientes jovens. Atualmente, partidos de
extrema direita na Europa e nas Américas reforçam essa ideia, defendendo que
pensões e assistência médica sejam exclusivas para nativos considerados
"produtivos".
Utilizando-se de falsos
especialistas ou médicos alinhados à ideologia, esses grupos produzem conteúdos
desinformativos, especialmente contra as vacinas. O resultado é trágico: o
retorno de doenças outrora controladas ou erradicadas, como sarampo,
poliomielite, coqueluche e rubéola.
O episódio recente
envolvendo a Anvisa ilustra o ápice dessa distorção. A agência —
reconhecida internacionalmente por seu rigor técnico comparável aos órgãos dos
países mais desenvolvidos, determinou a suspensão de produtos de limpeza após
identificar falhas graves de fabricação e risco de contaminação microbiológica.
A decisão fundamentou-se em
fatos concretos: em novembro de 2025, a própria fabricante realizou um recall
voluntário após detectar a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Entre 27 e
30 de abril de 2026, técnicos da Anvisa identificaram o descumprimento de Boas
Práticas de Fabricação (BPF), incluindo corrosão em equipamentos e falhas
no controle de qualidade.
Apesar dos riscos de
contaminação por microrganismos patogênicos, a extrema direita mobilizou-se nas
redes sociais para defender a continuidade do uso dos produtos, alegando
"perseguição política".
É fundamental desmistificar
a tese de viés partidário. A diretoria colegiada da Anvisa é composta por três
diretores indicados pelo governo atual e dois pelo governo anterior, todos
sabatinados pelo Senado. Mais relevante ainda: a nota técnica que fundamentou a
suspensão foi assinada pelo diretor responsável pela área de fiscalização (GGFIS),
indicado durante a gestão de Jair Bolsonaro. Isso esvazia qualquer narrativa de
retaliação política.
O recado por trás dessas
manifestações ideológicas é nítido e cruel: a manutenção de uma narrativa
política vale mais do que a vida dos vulneráveis. Ao incentivar o uso de
produtos condenados pela vigilância sanitária, a extrema direita sinaliza que o
adoecimento ou a morte daqueles que não se encaixam em sua métrica de
produtividade é um dano colateral aceitável. C.Q.D.
Para pensar
na cama: quantas pessoas próximas que você conhece seriam consideradas como “fardo
econômico” pela extrema direita?
