A contradição entre o senso comum e os dados revela que a chave para combater a violência está na força das instituições e no pacto social. O resto não passa de discurso que conduz ao nada.
Por Nino
O senso comum tende a nos indicar que, quanto mais
religioso é um país, menores serão as suas taxas de criminalidade. Não é mesmo?
Pois bem, essa premissa consolada pelo imaginário popular não se verifica
diante da realidade dos fatos.
Levantamentos globais sobre pertencimento
religioso, crença em divindades e a importância da fé na vida cotidiana mostram
que os países com as menores taxas de religiosidade do mundo — onde a adesão
varia entre 10% e 30% da população — apresentam também os menores índices de
criminalidade e homicídios por 100 mil habitantes, quando comparados às nações
com maior adesão religiosa.
No Brasil, os dados da Secretaria Nacional de
Políticas Penais (SENAPPEN), referentes a 31 de dezembro de 2025, indicam uma
população de 960.976 pessoas privadas de liberdade. Embora não existam censos
oficiais definitivos sobre a religiosidade de todos os encarcerados e
cumpridores de pena em regime domiciliar, levantamentos indicam que cerca de
60% se declaram evangélicos, 20% católicos, 8% praticantes de outras religiões
e 12% sem religião.
“Embora a fé exerça um forte apelo na inibição
individual de condutas criminosas, a segurança de um país depende da força de
suas instituições, do vigor econômico e da coesão social.”
Apesar de as evidências estatísticas parecerem
desfavoráveis à religião no âmbito macro, estudos de criminologia e psicologia
social mostram, de forma consistente, que no nível individual a religiosidade
tende a estar associada a menores taxas de criminalidade e desvios de conduta.
A explicação para essa aparente contradição reside
no fato de que as taxas de criminalidade e violência estão diretamente ligadas
a variáveis socioeconômicas, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a
desigualdade de renda, a eficácia policial e o acesso à educação e ao emprego.
Em cenários de alta vulnerabilidade, a população recorre à religião como fonte
de amparo emocional, segurança comunitária e suporte social — condição que
eleva o índice de religiosidade geral de uma nação. Por outro lado, países com
baixa desigualdade, forte equidade e serviços públicos de excelência tendem à
secularização, afastando o dogma da gestão da educação, da saúde e do sistema
jurídico, regendo esses setores por normas estritamente civis.
Assim, embora a fé exerça um papel individual
inibidor, a criminalidade global de uma nação é dependente da força de suas
instituições, da economia e da coesão social.
Essa mesma lógica se reflete no interior do sistema
prisional: entre os detentos de alta periculosidade nas penitenciárias
brasileiras, verifica-se uma adesão intensa à fé. Declarar-se abertamente
religioso confere um status diferenciado que resguarda o indivíduo em guerras
internas e preserva sua vida. Além disso, crimes graves geram um peso
psicológico brutal, e a ideia de um Deus que perdoa o que a sociedade condena
serve como um refúgio para a sanidade mental.
Diante disso, a redução da criminalidade e da
violência figura entre as maiores preocupações do Brasil, mas as soluções
frequentemente propostas resvalam na ingenuidade, quando não no desconhecimento
técnico.
O caminho eficiente consiste em aplicar estratégias
consolidadas internacionalmente, focadas no fortalecimento do pacto social. Ao
reduzir as disparidades sociais, fortalece-se o sentimento de pertencimento e a
adesão voluntária às leis. Nos territórios onde o poder público garante
serviços básicos e presença ostensiva, o crime organizado perde a capacidade de
atuar como provedor e de exercer controle sobre a população vulnerável.
Por fim, vale destacar que o tratamento digno no
cumprimento da pena não é mero ato de benevolência com o infrator, mas uma
estratégia pragmática de segurança pública: o condenado cumprirá sua pena e,
inevitavelmente, retornará ao convívio social. A forma como o Estado o trata
durante o cárcere determina se ele sairá da prisão reintegrado ou ainda mais
perigoso do que quando entrou.
