Diz a sabedoria popular que “ninguém é melhor que
ninguém”. Uma frase simples, mas que carrega uma ideia profunda: nenhum ser
humano deveria se imaginar superior a outro.
Essa ideia vem sendo construída ao longo dos
séculos e encontra respaldo em diversos textos bíblicos. Em Gálatas 3:28, por
exemplo, encontramos a afirmação: "Não há judeu nem grego, nem escravo nem
livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus".
Isso, naturalmente, não significa negar o
reconhecimento àqueles que, por suas habilidades, dedicação ou talento,
conseguem se destacar nas mais diversas áreas da vida. Há artistas, cientistas,
profissionais liberais, empresários, políticos e tantos outros que deixam
marcas importantes em seu tempo. Há, sobretudo, aqueles que dedicam parte de
suas vidas ao bem comum e à construção de uma sociedade melhor.
Itapira, ao longo de sua história, teve — e
continua tendo — muitas dessas pessoas. Por isso, não poderia deixar de
registrar a solenidade realizada nesta sexta-feira, 21 de agosto, no Circolo
Italo-Brasiliano di Itapira, quando nosso historiador Arlindo Bellini recebeu o
Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo, a mais alta
condecoração concedida pela Assembleia Legislativa paulista, por iniciativa do
deputado Barros Munhoz.
Há homenagens que reconhecem uma trajetória. E há
aquelas que, além disso, nos fazem olhar para trás e perceber a dimensão do
caminho percorrido.
A história de Arlindo começa cedo. Ainda
adolescente, começou a trabalhar em uma tipografia responsável pela impressão
do semanário Folha de Itapira. Ali, descobriu que a palavra, antes de
chegar aos olhos do leitor, precisava ser construída letra por letra, palavra
por palavra, frase por frase. Talvez tenha sido ali, entre tipos de chumbo,
tinta e papel, que alguma coisa começou a se formar dentro dele.
Conheceu os colaboradores do jornal, aqueles que
produziam as notícias, escreviam as histórias e ajudavam a transformar
acontecimentos em memória. E, quem sabe, foi naquele ambiente que nasceu o
gosto por registrar no papel as histórias e as ideias que iam passando por sua
cabeça. Seis anos depois, o destino lhe apresentou outro caminho: o comércio.
Arlindo agarrou a profissão de vendedor com unhas e
dentes e nela permaneceu muito além da merecida aposentadoria. Mas a chama dos
tempos da Folha de Itapira nunca se apagou.
Dedicou-se a preservar a memória daqueles que
nasceram ou vieram morar em Itapira. Fez isso por meio de crônicas, poesias e
histórias que percorrem os mais diferentes cantos da vida da cidade: do futebol
às festas populares, dos acontecimentos pitorescos aos personagens anônimos do
cotidiano. Famílias inteiras passaram por seu olhar. Tudo devidamente
eternizado nas páginas do jornal Tribuna de Itapira.
Tudo isso, por si só, já seria motivo suficiente
para que a cidade reconhecesse seu trabalho. E reconheceu. Afinal, quem
registra a memória de uma comunidade presta um serviço que o tempo, sozinho,
não consegue fazer. Mas há algo a mais no trabalho de Arlindo Bellini.
Quando olhamos para a historiografia brasileira,
principalmente aquela produzida longe dos grandes centros, percebemos que
durante muito tempo a história foi contada, sobretudo, a partir dos que tinham
poder, dinheiro, sobrenome ou posição social. Os demais apareciam, quando
apareciam, como personagens secundários. Nem todos eram considerados iguais.
Arlindo fez diferente, olhou para todos. Deu
memória aos que poderiam ser esquecidos.
E talvez seja justamente isso que torne seu
trabalho tão especial. Porque uma cidade não é feita apenas de seus prefeitos,
vereadores, empresários, médicos, advogados ou personalidades ilustres. Uma
cidade também é feita do homem que acordava cedo para trabalhar, da mulher que
criou os filhos, do jogador de várzea, do comerciante da esquina, da família
que chegou de longe e aqui criou raízes. É feita, enfim, de gente.
Gente que nasceu, trabalhou, amou, sofreu,
festejou, errou, acertou e, de alguma maneira, ajudou a construir o lugar que
hoje chamamos de nossa terra. Arlindo Bellini entendeu isso. E passou décadas
contando essas histórias.
Não é pouca coisa. Aliás, talvez seja uma das
coisas mais importantes que alguém possa fazer por uma cidade. Porque o tempo
tem um defeito terrível: ele apaga. Apaga nomes, rostos, histórias e até
acontecimentos que um dia pareceram inesquecíveis.
É por isso que o trabalho de Arlindo não deveria
permanecer apenas nas estantes, nas gavetas ou arquivos particulares. Precisa
atravessar o tempo. E talvez tenha chegado a hora de transformar esse
patrimônio restrito aos leitores do Tribuna em patrimônio coletivo.
Com a autorização do autor e respeitados todos os
direitos legais, seria importante reunir, digitalizar, organizar e
disponibilizar na Internet todo o material produzido por Arlindo ao longo de
décadas. Não apenas para preservá-lo, mas para torná-lo pesquisável e acessível
às novas gerações.
Quem sabe, aprovar uma lei que tornasse todo o
acervo em Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Itapira.
Caberia à Câmara Municipal, à Prefeitura e às
demais forças vivas da cidade unir esforços para que esse acervo seja
devidamente preservado, protegido e disponibilizado, ad aeternum.
Talvez esse seja, afinal, o sentido mais bonito da
homenagem recebida nesta sexta-feira: reconhecer não apenas o trabalho de um
homem, mas a importância de preservar aquilo que ele passou a vida inteira
tentando salvar do esquecimento.
