domingo, 23 de agosto de 2026

Arlindo Bellini, Itapira reconhece e agradece o seu trabalho

 



Diz a sabedoria popular que “ninguém é melhor que ninguém”. Uma frase simples, mas que carrega uma ideia profunda: nenhum ser humano deveria se imaginar superior a outro.

Essa ideia vem sendo construída ao longo dos séculos e encontra respaldo em diversos textos bíblicos. Em Gálatas 3:28, por exemplo, encontramos a afirmação: "Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus".

Isso, naturalmente, não significa negar o reconhecimento àqueles que, por suas habilidades, dedicação ou talento, conseguem se destacar nas mais diversas áreas da vida. Há artistas, cientistas, profissionais liberais, empresários, políticos e tantos outros que deixam marcas importantes em seu tempo. Há, sobretudo, aqueles que dedicam parte de suas vidas ao bem comum e à construção de uma sociedade melhor.

Itapira, ao longo de sua história, teve — e continua tendo — muitas dessas pessoas. Por isso, não poderia deixar de registrar a solenidade realizada nesta sexta-feira, 21 de agosto, no Circolo Italo-Brasiliano di Itapira, quando nosso historiador Arlindo Bellini recebeu o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo, a mais alta condecoração concedida pela Assembleia Legislativa paulista, por iniciativa do deputado Barros Munhoz.

Há homenagens que reconhecem uma trajetória. E há aquelas que, além disso, nos fazem olhar para trás e perceber a dimensão do caminho percorrido.

A história de Arlindo começa cedo. Ainda adolescente, começou a trabalhar em uma tipografia responsável pela impressão do semanário Folha de Itapira. Ali, descobriu que a palavra, antes de chegar aos olhos do leitor, precisava ser construída letra por letra, palavra por palavra, frase por frase. Talvez tenha sido ali, entre tipos de chumbo, tinta e papel, que alguma coisa começou a se formar dentro dele.

Conheceu os colaboradores do jornal, aqueles que produziam as notícias, escreviam as histórias e ajudavam a transformar acontecimentos em memória. E, quem sabe, foi naquele ambiente que nasceu o gosto por registrar no papel as histórias e as ideias que iam passando por sua cabeça. Seis anos depois, o destino lhe apresentou outro caminho: o comércio.

Arlindo agarrou a profissão de vendedor com unhas e dentes e nela permaneceu muito além da merecida aposentadoria. Mas a chama dos tempos da Folha de Itapira nunca se apagou.

Dedicou-se a preservar a memória daqueles que nasceram ou vieram morar em Itapira. Fez isso por meio de crônicas, poesias e histórias que percorrem os mais diferentes cantos da vida da cidade: do futebol às festas populares, dos acontecimentos pitorescos aos personagens anônimos do cotidiano. Famílias inteiras passaram por seu olhar. Tudo devidamente eternizado nas páginas do jornal Tribuna de Itapira.

Tudo isso, por si só, já seria motivo suficiente para que a cidade reconhecesse seu trabalho. E reconheceu. Afinal, quem registra a memória de uma comunidade presta um serviço que o tempo, sozinho, não consegue fazer. Mas há algo a mais no trabalho de Arlindo Bellini.

Quando olhamos para a historiografia brasileira, principalmente aquela produzida longe dos grandes centros, percebemos que durante muito tempo a história foi contada, sobretudo, a partir dos que tinham poder, dinheiro, sobrenome ou posição social. Os demais apareciam, quando apareciam, como personagens secundários. Nem todos eram considerados iguais.

Arlindo fez diferente, olhou para todos. Deu memória aos que poderiam ser esquecidos.

E talvez seja justamente isso que torne seu trabalho tão especial. Porque uma cidade não é feita apenas de seus prefeitos, vereadores, empresários, médicos, advogados ou personalidades ilustres. Uma cidade também é feita do homem que acordava cedo para trabalhar, da mulher que criou os filhos, do jogador de várzea, do comerciante da esquina, da família que chegou de longe e aqui criou raízes. É feita, enfim, de gente.

Gente que nasceu, trabalhou, amou, sofreu, festejou, errou, acertou e, de alguma maneira, ajudou a construir o lugar que hoje chamamos de nossa terra. Arlindo Bellini entendeu isso. E passou décadas contando essas histórias.

Não é pouca coisa. Aliás, talvez seja uma das coisas mais importantes que alguém possa fazer por uma cidade. Porque o tempo tem um defeito terrível: ele apaga. Apaga nomes, rostos, histórias e até acontecimentos que um dia pareceram inesquecíveis.

É por isso que o trabalho de Arlindo não deveria permanecer apenas nas estantes, nas gavetas ou arquivos particulares. Precisa atravessar o tempo. E talvez tenha chegado a hora de transformar esse patrimônio restrito aos leitores do Tribuna em patrimônio coletivo.

Com a autorização do autor e respeitados todos os direitos legais, seria importante reunir, digitalizar, organizar e disponibilizar na Internet todo o material produzido por Arlindo ao longo de décadas. Não apenas para preservá-lo, mas para torná-lo pesquisável e acessível às novas gerações.

Quem sabe, aprovar uma lei que tornasse todo o acervo em Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Itapira.

Caberia à Câmara Municipal, à Prefeitura e às demais forças vivas da cidade unir esforços para que esse acervo seja devidamente preservado, protegido e disponibilizado, ad aeternum.

Talvez esse seja, afinal, o sentido mais bonito da homenagem recebida nesta sexta-feira: reconhecer não apenas o trabalho de um homem, mas a importância de preservar aquilo que ele passou a vida inteira tentando salvar do esquecimento.