Recentemente, o busto da Mãe Preta, na Praça
Henricão, foi vandalizado. Para deixar explícita a motivação do ato, o
criminoso deixou um recadinho: um macaco de brinquedo. Não há como ignorar o
significado do gesto. É um ato que tem nome e sobrenome: racismo escancarado.
O busto vandalizado havia sido instalado em
substituição ao original, que fora furtado por seu valor em bronze —
provavelmente vendido em algum ferro-velho clandestino da cidade.
Diante de uma evidência tão contundente de racismo,
precisamos nos perguntar: que caminho Itapira está tomando nestes tempos
sombrios, em que a empatia, o respeito e a convivência com a diversidade
parecem perder relevância?
A história da população negra em Itapira é repleta
de nuances. Como cidade de forte vocação agrícola, seus grandes proprietários
de terra se beneficiaram, durante muito tempo, da mão de obra escravizada.
Muitos resistiram ao movimento abolicionista e receberam com revolta a decisão
brasileira de extinguir oficialmente a escravidão.
Como nos relata Jácomo Mandato, em seu livro O
Mártir da Abolição, Joaquim Firmino, delegado que protegia escravizados
fugitivos, despertou a ira de fazendeiros locais e da região. Eles recrutaram
assassinos para invadir sua casa. Joaquim tentou fugir, mas foi alcançado e
espancado até a morte.
O caso teve repercussão nacional, e há quem
sustente que o assassinato contribuiu para acelerar a assinatura da Lei Áurea.
A antiga Penha do Rio do Peixe, profundamente marcada pela vergonha do
episódio, mudaria de nome para Itapira dois anos depois.
A abolição foi recebida com revolta por parte dos
grandes agricultores. Em vez de incorporar os negros libertos como
trabalhadores remunerados, muitos optaram por expulsá-los de suas terras. A
maioria acabou se estabelecendo na periferia de Itapira, especialmente nos
morros além do Ribeirão da Penha e da região da várzea, que mais tarde se
tornaria a Vila Ilze.
Em razão da grande concentração de população negra,
a Vila Ilze ficou conhecida pejorativamente como “Risca-Faca”, associando
preconceituosamente seus moradores à violência, às brigas e à criminalidade.
Durante quase um século, a Vila Ilze permaneceu
praticamente esquecida. Faltavam luz elétrica, água tratada, coleta de esgoto e
pavimentação. A urbanização começou a avançar a partir dos anos 1970,
especialmente durante o primeiro mandato de Totonho Munhoz. Foi também nesse
período que a expressão “Risca-Faca” começou a cair em desuso.
Por muito tempo — talvez ainda sob o peso do
constrangimento provocado pelo assassinato do delegado Joaquim Firmino — o
racismo em Itapira não se manifestava de maneira tão escancarada. Havia
interação e um aparente respeito entre brancos e negros. Mas o preconceito
estava presente no cotidiano e aparecia em frases que eram ditas abertamente,
como “preto de alma branca”, “quando preto não caga na entrada, caga na saída”
ou “olha a cor dele”, entre tantas outras manifestações que, durante muito
tempo, foram tratadas como brincadeira ou costume.
No mercado de trabalho, os brancos também eram, em
geral, privilegiados nas contratações. E a segregação aparecia até nos espaços
de convivência.
Itapira tinha quatro clubes que, na prática,
refletiam a divisão social e racial da cidade: o Centrão, frequentado pela
classe média; o Clube XV, pelos mais endinheirados; a Sociedade Operária, pelos
remediados; e o Salão do Dito Negrinho, destinado aos negros. Brancos de um
lado, negros do outro.
Hoje, felizmente, a participação da população negra
e a ocupação dos espaços públicos e sociais são realidades conquistadas com
muita luta. Itapira evoluiu como sociedade e houve avanços importantes na
convivência e na integração. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. É
justamente por isso que o vandalismo na Praça Henricão é tão preocupante.
Seria apenas um ato isolado, praticado por um
racista empedernido? Ou estamos diante de um sinal de que, em meio à
intolerância que cresce em diferentes partes da sociedade, há quem queira
refrear o processo civilizatório e ressuscitar velhas divisões — brancos de um
lado, negros do outro?
O racismo é crime no Brasil, e a Constituição e a
legislação brasileira o tratam com especial gravidade, considerando-o
inafiançável e imprescritível.
Como nos ensinou Martin Luther King Jr.: “A
injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”
Que Itapira não permita que a intolerância nos faça
andar para trás.
