quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Espelho da Praça Henricão: O Racismo em Itapira Entre o Passado e o Presente

 



Recentemente, o busto da Mãe Preta, na Praça Henricão, foi vandalizado. Para deixar explícita a motivação do ato, o criminoso deixou um recadinho: um macaco de brinquedo. Não há como ignorar o significado do gesto. É um ato que tem nome e sobrenome: racismo escancarado.

O busto vandalizado havia sido instalado em substituição ao original, que fora furtado por seu valor em bronze — provavelmente vendido em algum ferro-velho clandestino da cidade.

Diante de uma evidência tão contundente de racismo, precisamos nos perguntar: que caminho Itapira está tomando nestes tempos sombrios, em que a empatia, o respeito e a convivência com a diversidade parecem perder relevância?

A história da população negra em Itapira é repleta de nuances. Como cidade de forte vocação agrícola, seus grandes proprietários de terra se beneficiaram, durante muito tempo, da mão de obra escravizada. Muitos resistiram ao movimento abolicionista e receberam com revolta a decisão brasileira de extinguir oficialmente a escravidão.

Como nos relata Jácomo Mandato, em seu livro O Mártir da Abolição, Joaquim Firmino, delegado que protegia escravizados fugitivos, despertou a ira de fazendeiros locais e da região. Eles recrutaram assassinos para invadir sua casa. Joaquim tentou fugir, mas foi alcançado e espancado até a morte.

O caso teve repercussão nacional, e há quem sustente que o assassinato contribuiu para acelerar a assinatura da Lei Áurea. A antiga Penha do Rio do Peixe, profundamente marcada pela vergonha do episódio, mudaria de nome para Itapira dois anos depois.

A abolição foi recebida com revolta por parte dos grandes agricultores. Em vez de incorporar os negros libertos como trabalhadores remunerados, muitos optaram por expulsá-los de suas terras. A maioria acabou se estabelecendo na periferia de Itapira, especialmente nos morros além do Ribeirão da Penha e da região da várzea, que mais tarde se tornaria a Vila Ilze.

Em razão da grande concentração de população negra, a Vila Ilze ficou conhecida pejorativamente como “Risca-Faca”, associando preconceituosamente seus moradores à violência, às brigas e à criminalidade.

Durante quase um século, a Vila Ilze permaneceu praticamente esquecida. Faltavam luz elétrica, água tratada, coleta de esgoto e pavimentação. A urbanização começou a avançar a partir dos anos 1970, especialmente durante o primeiro mandato de Totonho Munhoz. Foi também nesse período que a expressão “Risca-Faca” começou a cair em desuso.

Por muito tempo — talvez ainda sob o peso do constrangimento provocado pelo assassinato do delegado Joaquim Firmino — o racismo em Itapira não se manifestava de maneira tão escancarada. Havia interação e um aparente respeito entre brancos e negros. Mas o preconceito estava presente no cotidiano e aparecia em frases que eram ditas abertamente, como “preto de alma branca”, “quando preto não caga na entrada, caga na saída” ou “olha a cor dele”, entre tantas outras manifestações que, durante muito tempo, foram tratadas como brincadeira ou costume.

No mercado de trabalho, os brancos também eram, em geral, privilegiados nas contratações. E a segregação aparecia até nos espaços de convivência.

Itapira tinha quatro clubes que, na prática, refletiam a divisão social e racial da cidade: o Centrão, frequentado pela classe média; o Clube XV, pelos mais endinheirados; a Sociedade Operária, pelos remediados; e o Salão do Dito Negrinho, destinado aos negros. Brancos de um lado, negros do outro.

Hoje, felizmente, a participação da população negra e a ocupação dos espaços públicos e sociais são realidades conquistadas com muita luta. Itapira evoluiu como sociedade e houve avanços importantes na convivência e na integração. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. É justamente por isso que o vandalismo na Praça Henricão é tão preocupante.

Seria apenas um ato isolado, praticado por um racista empedernido? Ou estamos diante de um sinal de que, em meio à intolerância que cresce em diferentes partes da sociedade, há quem queira refrear o processo civilizatório e ressuscitar velhas divisões — brancos de um lado, negros do outro?

O racismo é crime no Brasil, e a Constituição e a legislação brasileira o tratam com especial gravidade, considerando-o inafiançável e imprescritível.

Como nos ensinou Martin Luther King Jr.: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”

Que Itapira não permita que a intolerância nos faça andar para trás.