Os números são preocupantes: 66% dos estudantes brasileiros relatam não ler textos com mais de 10 páginas durante o ano letivo. (OCDE/PISA)
Entre os adultos, o cenário também
assusta: 29% são classificados como analfabetos funcionais. Leem
palavras, frases curtas e manchetes, mas têm dificuldade para compreender
textos mais complexos. E apenas 12% conseguem ler e compreender com facilidade
textos longos. (INAF)
Agora leve isso para a internet.
Estamos diante de estímulos, notificações, vídeos, imagens e textos curtos.
Resultado? Pulamos. Rolamos. Reagimos. Mas lemos?
Segundo pesquisas do Nielsen
Norman Group, 81% dos usuários tendem a “varrer” os textos na tela, em
vez de lê-los palavra por palavra. E aqui começa o problema.
A neurocientista Maryanne Wolf alerta para algo que deveria nos
preocupar: ler profundamente não é simplesmente decodificar palavras.
É uma atividade cerebral complexa, que exige atenção, memória, reflexão e
capacidade de estabelecer relações. Quando nos acostumamos a
consumir tudo em pedaços, rapidamente, nosso cérebro se adapta a esse padrão. E
aquilo que não exercitamos... enfraquece.
Agora pense nisso.
Como desenvolver pensamento crítico se não conseguimos permanecer
alguns minutos diante de uma ideia? Como compreender um argumento se
abandonamos o texto antes do terceiro parágrafo? Como identificar uma mentira
se só lemos a manchete? Como formar uma opinião própria se passamos o dia
consumindo opiniões prontas?
O problema não é apenas a leitura.
É o que pode estar acontecendo com a nossa capacidade de pensar.
Menos leitura profunda pode
significar: menos pensamento crítico; menor capacidade de concentração; dificuldade
para compreender argumentos complexos; redução do vocabulário; maior
vulnerabilidade à desinformação; mais impulsividade.
E talvez exista uma consequência
ainda mais perigosa: uma sociedade que perde o hábito de pensar profundamente
pode continuar extremamente informada. E, ainda assim, ser facilmente manipulada.
