domingo, 21 de dezembro de 2025

Corrupção sistêmica: quando esquerda e direita nadam no mesmo rio

 


Os casos envolvendo os deputados Sóstenes e Jordy, frequentemente apresentados como representantes da direita brasileira, demonstram mais uma vez que a corrupção não tem ideologia, não tem religião e não obedece ao lema “dessa água não beberei”. Há pouco tempo, a esquerda brasileira também navegava na onda de denúncias contra os corruptos da direita, mas logo passou a compartilhar do mesmo sistema. As notícias que emergem no campo político conservador são, certamente, apenas a ponta do iceberg e tendem a minar a já escassa confiança que a população ainda deposita nos políticos dessa linha.

Assim como não foi uma estratégia sustentável para a esquerda, não o será para a direita.

A corrupção no Brasil é sistêmica. Não se resume a atos isolados de indivíduos; está entranhada em práticas, relações e mecanismos que se repetem em diferentes esferas e níveis de governo, com a participação de empresários, servidores públicos e até cidadãos comuns que emprestam seus nomes para abertura de empresas de fachada ou contas bancárias. Enquanto o combate à corrupção servir apenas como bandeira eleitoral, o problema não retrocederá.

Não faltam aos corruptos mecanismos criativos para enriquecimento ilícito, sempre às custas das dificuldades enfrentadas pela população: emendas parlamentares excessivas e pouco transparentes; direcionamento de verbas para obras superfaturadas ou não realizadas; desvios em empresas estatais como Petrobras, Eletrobras e Caixa Econômica Federal; fraudes no INSS e em fundos soberanos; licitações adulteradas com editais direcionados, conluio entre licitantes e superfaturamento; uso de empresas de fachada e “laranjas”; empresas abertas em paraísos fiscais; operações com doleiros e lavagem de dinheiro; além da lentidão do sistema judicial e do excesso de recursos que perpetuam a impunidade.

Para quem enxerga a corrupção como um câncer a ser extirpado, uma coisa é certa: discurso não resolve, como nunca resolveu. Não há “bala de prata”, apenas medidas consistentes, inspiradas em experiências internacionais bem-sucedidas, como as recomendadas pela Transparência Internacional, Banco Mundial e OCDE. Entre elas: Fortalecimento das instituições de controle e Justiça, com colaboração efetiva entre agências; Agilidade e eficiência do Judiciário; Proteção real a testemunhas e denunciantes; Transparência radical e dados abertos; Controle social, com participação da sociedade civil e da imprensa no monitoramento; Governo aberto, com consultas públicas qualificadas; Compras públicas eletrônicas, auditáveis e com menos discricionariedade; Reforma política e eleitoral, com redução de custos de campanha e fim do uso eleitoreiro de recursos públicos.

Contudo, a ação mais decisiva deve nascer na sociedade: é preciso cultivar ética, cidadania, integridade e valorizar a função pública. É urgente abandonar ideias como “todo mundo faz” ou o “jeitinho brasileiro”, que naturalizam práticas nocivas que prejudicam a todos e beneficiam poucos.

Reduzir a corrupção exige, portanto, uma combinação de leis rigorosas, instituições autônomas e tecnologia com uma sólida cultura de integridade, educação e valores. Essa é uma tarefa coletiva, que depende da compreensão de que não haverá um salvador da pátria — apenas uma sociedade vigilante e ativa pode transformar essa realidade.

sábado, 29 de novembro de 2025

Reconhecimento póstumo: “Seu Zé Martelli”

 


Perdemos nesta semana o Seu Zé, após noventa e três anos bem vividos. Ele partiu sem que eu lhe dissesse, em voz alta, a lição que me ensinou.

Conheci Martelli ainda adolescente, quando ele trabalhava como caixa no Banco do Brasil. Naquela época, a agência ficava na esquina da Comendador João Cintra com a Bento da Rocha, no mesmo local e prédio onde funcionou, até alguns meses atrás, a agência da Caixa Econômica Federal. Para mim, ele tinha uma aparência severa. Sério no trabalho que realizava, não brincava em serviço e quase sempre mantinha uma expressão carrancuda. Eu não frequentava a agência todos os dias, mas, nas poucas vezes em que estive lá, via nele um funcionário compenetrado e de pouca conversa — alguém que parecia estar sempre brigado com o mundo.

O destino quis que, ao longo dos anos, eu me tornasse amigo dos filhos dele. Mesmo assim, eu insistia na impressão de que Seu Zé era uma pessoa rígida e de poucos amigos, sempre falando com firmeza. Era, na minha cabeça, a personificação do mais puro conservadorismo itapirense.

Com o tempo, já adulto, passei a conversar mais com ele. E, pouco a pouco, fui percebendo que minha imagem inicial continha equívocos profundos. Não demorou para eu descobrir que ele tinha um humor afiado, apreciava boas conversas e brincadeiras, além de possuir uma visão de mundo progressista e um nível de informação admirável. De conservador, só restava o amor quase vitalício por seu Corcel branco e o hábito de beber cerveja, todos os dias, em temperatura ambiente.

Aprendi com ele que, para conhecer alguém, é preciso muito mais do que um olhar atento: é preciso diálogo. Os ouvidos, e não os olhos, são os instrumentos mais adequados para essa tarefa. O olhar, quase sempre, apenas reforça nossos preconceitos. Certamente, cometi erros semelhantes ao julgar outras pessoas, mas nem todas me deram a chance de revisar minhas impressões antes que eu aprendesse a lição.

Obrigado, Seu Zé!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A História Não Absolve


Que ninguém ignore: a História é implacável com os acontecimentos políticos e será fundamental para a nossa lucidez civilizatória. Sem os registros capturados e seu entrelaçamento global, o futuro repetiria os mesmos erros, negando às novas gerações a chance de compreender suas próprias origens. Além disso, abriria espaço para que aqueles que quisessem reescrever o passado o fizessem na tentativa de controlar a vida das pessoas.

A História não é contada por uma só pessoa; é uma construção coletiva que reúne verdades e memórias para os que virão depois de nós. É assim que a humanidade vem construindo este "mundão de Deus".

A História funciona como um arquivo definitivo, impedindo que ações e decisões políticas caiam no esquecimento ou sejam distorcidas. É o estudo das escolhas humanas e suas consequências, cujos registros nos permitem entender “quem somos”, “de onde viemos” e “para onde vamos”. Ela reflete o ciclo coletivo das nossas vidas e da humanidade.

Tudo o que acontece hoje e que pode impactar o futuro tem lugar de destaque na História, abrindo cenários para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Essa evolução não se baseia, em geral, em teorias abstratas, mas nas práticas e exemplos cotidianos.

Vivemos, nesta terça-feira, 25 de novembro de 2025, um dos momentos mais relevantes dos 525 anos de Brasil. O peso político de Bolsonaro não será decisivo para colocá-lo na primeira fila dos personagens mais relevantes. Os generais que participaram de mais uma tentativa de golpe – finalmente julgados, condenados e encarcerados – serão os destaques principais. Esse episódio anuncia que as Forças Armadas, daqui em diante, saberão ocupar o papel que lhes cabe, permitindo que a sociedade civil escolha seus próprios destinos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nas Cavernas do Preconceito

 



No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?

Seríamos incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra "preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.

Levei essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres de guerras pessoais e conflitos mundiais.

Minha divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que, possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.

O mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais, outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Inatel, 44 outonos depois

 


Quarenta e quatro anos se passaram na estrada,
Desde que o mundo ganhou novos engenheiros em oitenta e um.
Mas a nossa história começou em setenta e sete, na dura bancada
Cinco era o ideal, por conta da barriga, quatro e mais nenhum.

No tablado, desfilavam mestres de ciência e temor:
Chicão, com seu Cálculo, um gigante a assombrar;
Zé Abel e sua Álgebra, nos colocava a suplicar;
Luis Antonio, tinha a Geometria a nos desvendar;
Fredmark na Química; Ivan, o metodólogo, a doutrinar;
Luiz Gomes Junior, nas curvas do terreno a nos guiar;
E Rocha, o atleta, a quem pude, com atestado, evitar.

Outros vieram depois, uma procissão sem fim:
Constanti, Goulart, Djalma, Mokarzel, Luiz Francisco,
Hermeto, Adonias, Saran, Cury, Fux, Zulcy, Rizzi,
Jocélio, Fregosi, Falsarella, Robinson, Navantino,
Fernando, Aroldo, Pedro Sérgio, Bahiano, Dovanir, François...
Uma galáxia de nomes a marcar nossos anos.

Mas dois brilham mais forte na minha memória guardada:
Baeta, no começo, tinha a turma descontente.
Em aula, abri uma queixa, uma fala até ousada,
E da crítica, ele fez um amuleto, pacientemente.
Não guardou rancor, fez da dor um degrau,
E tornou-se, para mim, um grande mestre e um amigo leal.

E Justino, o grande Justino, filósofo e guia,
Nos ensinou que o saber é uma viagem sem fim.
A abrir a mente, a ver o mundo com clara poesia,
Sem jamais perder o humor, que é o mais sábio jardim.
A viver construindo a serena alegria –
Mestre maior, que em nossa alma para sempre inspiraria.

E neste fim de semana, outubro a florescer,
Estávamos lá de novo, quarenta e quatro anos depois.
É certo, por alguns anos, o tempo separou, mas não nos fez esquecer:
Cada um seguiu seu rumo, com seus constróis.
Mas no grupo ativo, a chama se manteve acesa,
Um fio contínuo de amizade e surpresa.

E todo ano é um reencontro, um voltar ao começo,
Aos fins dos anos setenta, ao alvorecer dos oitenta.
Reconstruímos memórias, num doce retrocesso,
Trocamos o sério pela graça, pela risada opulenta.
Um "reset" da alma, um abraço a renovar
As energias para as jornadas, continuar.

Que bom sentir o valor desta história compartilhada!
Que bom por estes colegas, abnegados, de alma aberta,
Que se jogam de corpo e alma, numa entrega sagrada,
Para que este laço jamais se perca ou se deserta.
Que bom por este grupo base, este porto seguro,
Que não nega fogo, e preserva este doce futuro.

Futuro com bons frutos!


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

HMI: o que seria de nossa cidade sem ele?

 


Neste 30 de setembro de 2025, o Hospital Municipal de Itapira celebra 35 anos de dedicação e serviço à saúde da população. Recordo-me vividamente dos tempos em que, apesar de algumas reservas em relação às políticas de Barros Munhoz, engajei-me fervorosamente nesta causa. Contribuí, assim como tantos outros itapirenses, sem ter plena certeza de que a empreitada seria bem-sucedida. No entanto, estava convencido de que era o único caminho viável para proporcionar uma assistência hospitalar de qualidade em nossa cidade.

Naquela época, muitas pessoas, inclusive algumas da área médica, duvidavam que Itapira seria capaz de construir e manter um hospital com padrões aceitáveis de qualidade. Havia uma corrente de pessimismo de oposição, com indivíduos indiferentes ao impacto negativo que o fracasso dessa iniciativa teria sobre a população, desejando apenas que Totonho Munhoz não alcançasse sucesso. Em contrapartida, muitos cidadãos e empresas abraçaram a causa. Sabíamos que as contribuições não seriam suficientes para concretizar o projeto. Foi a capacidade de Barros Munhoz como articulador político e seu prestígio junto ao governo estadual que viabilizaram os investimentos necessários, transformando o sonho em realidade.

Atualmente, o HMI não só atende a população de Itapira, mas também é um recurso vital para cidades vizinhas. Quando analisamos o desempenho do nosso hospital em comparação com a média dos hospitais municipais brasileiros, é evidente que o HMI se destaca na vanguarda.

Nunca precisei utilizar os serviços do HMI, mas conheço inúmeras pessoas que o fizeram e não poupam elogios ao atendimento recebido. Isso nos leva a refletir: o que seria de Itapira sem o Hospital Municipal? É uma questão que todo itapirense já deve ter ponderado em algum momento.

A inauguração do hospital, em 30 de setembro de 1990, após cinco anos de obras, marcou um divisor de águas na saúde pública local. Barros Munhoz, em diversas ocasiões, destacou que o verdadeiro plano de saúde do município é o hospital municipal, uma afirmação que se prova cada dia mais verdadeira, impactando diretamente na salvação de vidas e no tratamento digno das pessoas.

domingo, 21 de setembro de 2025

Só é tolo quem quer!


Há quem argumente que o povo brasileiro carece de habilidade para votar adequadamente. Alguns afirmam que o eleitor opta por candidatos em troca de pequenos favores, que parecem significativos diante da escassez de benefícios proporcionados pelos poderes constituídos. Outros juram que, apesar do eleitor tentar escolher o melhor, ele acaba caindo nas armadilhas retóricas e tendenciosas dos políticos tradicionais ou dos oportunistas. Por fim, há aqueles que sustentam que o voto não é tão ingênuo quanto parece, mas sim reflexo de uma identificação do eleitor com candidatos que espelham sua própria visão, como se dissessem: "se eleito, faria exatamente o mesmo!".

Essa última perspectiva, caso verdadeira, revela uma sociedade desvinculada do conceito fundamental de buscar e aprimorar o bem comum. Historicamente, observa-se pouca evolução na qualidade das escolhas eleitorais, com indícios de uma piora progressiva. O atual Congresso é um exemplo de calamidade.

Admitindo que escolher um representante legislativo é uma tarefa complexa, na qual só percebemos nossos erros quando os escândalos vêm à tona, temos uma base sólida para negar nosso valioso voto nas eleições de 2026. Vejamos:

Candidatos à reeleição que outrora condenavam a corrupção com veemência, criticavam o uso indevido de verbas públicas, repudiavam as ações do crime organizado, defendiam que "bandido bom é bandido morto" e reclamavam de perseguição judicial por uso inadequado de emendas parlamentares, mostraram a verdadeira face ao votar SIM pela aprovação da PEC da BLINDAGEM. Essa atitude expõe a hipocrisia de seus discursos e evidencia que não merecem continuar como nossos representantes.

Embora negar o voto a tais candidatos não garanta acertos nas escolhas, é uma maneira clara e contundente de afirmar que não somos tolos. É hora de demonstrar que o eleitorado brasileiro pode, sim, discernir entre discurso e ação, e que não tolerará mais a indecência e a falta de compromisso com o bem comum.

#Pec Da Blindagem, #Ped Da Bandidagem, #Camara Federal, #Senado Federal, #Democracia