Perdemos nesta semana o Seu Zé, após noventa e três anos bem vividos. Ele
partiu sem que eu lhe dissesse, em voz alta, a lição que me ensinou.
Conheci Martelli ainda adolescente, quando ele
trabalhava como caixa no Banco do Brasil. Naquela época, a agência ficava na
esquina da Comendador João Cintra com a Bento da Rocha, no mesmo local e prédio
onde funcionou, até alguns meses atrás, a agência da Caixa Econômica Federal.
Para mim, ele tinha uma aparência severa. Sério no trabalho que realizava, não
brincava em serviço e quase sempre mantinha uma expressão carrancuda. Eu não
frequentava a agência todos os dias, mas, nas poucas vezes em que estive lá,
via nele um funcionário compenetrado e de pouca conversa — alguém que parecia
estar sempre brigado com o mundo.
O destino quis que, ao longo dos anos, eu me
tornasse amigo dos filhos dele. Mesmo assim, eu insistia na impressão de que
Seu Zé era uma pessoa rígida e de poucos amigos, sempre falando com firmeza.
Era, na minha cabeça, a personificação do mais puro conservadorismo itapirense.
Com o tempo, já adulto, passei a conversar
mais com ele. E, pouco a pouco, fui percebendo que minha imagem inicial
continha equívocos profundos. Não demorou para eu descobrir que ele tinha um
humor afiado, apreciava boas conversas e brincadeiras, além de possuir uma
visão de mundo progressista e um nível de informação admirável. De conservador,
só restava o amor quase vitalício por seu Corcel branco e o hábito de beber
cerveja, todos os dias, em temperatura ambiente.
Aprendi com ele que, para conhecer alguém, é
preciso muito mais do que um olhar atento: é preciso diálogo. Os ouvidos, e não
os olhos, são os instrumentos mais adequados para essa tarefa. O olhar, quase
sempre, apenas reforça nossos preconceitos. Certamente, cometi erros
semelhantes ao julgar outras pessoas, mas nem todas me deram a chance de revisar
minhas impressões antes que eu aprendesse a lição.
Obrigado,
Seu Zé!
