Os casos envolvendo os deputados Sóstenes e Jordy, frequentemente apresentados como representantes da direita brasileira, demonstram mais uma vez que a corrupção não tem ideologia, não tem religião e não obedece ao lema “dessa água não beberei”. Há pouco tempo, a esquerda brasileira também navegava na onda de denúncias contra os corruptos da direita, mas logo passou a compartilhar do mesmo sistema. As notícias que emergem no campo político conservador são, certamente, apenas a ponta do iceberg e tendem a minar a já escassa confiança que a população ainda deposita nos políticos dessa linha.
Assim como não foi uma estratégia sustentável para a
esquerda, não o será para a direita.
A corrupção no Brasil é sistêmica. Não se resume a atos
isolados de indivíduos; está entranhada em práticas, relações e mecanismos que
se repetem em diferentes esferas e níveis de governo, com a participação de
empresários, servidores públicos e até cidadãos comuns que emprestam seus nomes
para abertura de empresas de fachada ou contas bancárias. Enquanto o combate à
corrupção servir apenas como bandeira eleitoral, o problema não retrocederá.
Não faltam aos corruptos mecanismos criativos para
enriquecimento ilícito, sempre às custas das dificuldades enfrentadas pela
população: emendas parlamentares excessivas e pouco transparentes;
direcionamento de verbas para obras superfaturadas ou não realizadas; desvios
em empresas estatais como Petrobras, Eletrobras e Caixa Econômica Federal;
fraudes no INSS e em fundos soberanos; licitações adulteradas com editais direcionados,
conluio entre licitantes e superfaturamento; uso de empresas de fachada e
“laranjas”; empresas abertas em paraísos fiscais; operações com doleiros e
lavagem de dinheiro; além da lentidão do sistema judicial e do excesso de
recursos que perpetuam a impunidade.
Para quem enxerga a corrupção como um câncer a ser extirpado, uma coisa
é certa: discurso não resolve, como nunca resolveu. Não há “bala de prata”,
apenas medidas consistentes, inspiradas em experiências internacionais
bem-sucedidas, como as recomendadas pela Transparência Internacional, Banco
Mundial e OCDE. Entre elas: Fortalecimento das instituições de controle e
Justiça, com colaboração efetiva entre agências; Agilidade e eficiência do
Judiciário; Proteção real a testemunhas e denunciantes; Transparência radical e
dados abertos; Controle social, com participação da sociedade civil e da
imprensa no monitoramento; Governo aberto, com consultas públicas qualificadas;
Compras públicas eletrônicas, auditáveis e com menos discricionariedade; Reforma
política e eleitoral, com redução de custos de campanha e fim do uso
eleitoreiro de recursos públicos.
Contudo, a ação mais decisiva deve nascer na sociedade: é preciso
cultivar ética, cidadania, integridade e valorizar a função pública. É urgente
abandonar ideias como “todo mundo faz” ou o “jeitinho brasileiro”, que
naturalizam práticas nocivas que prejudicam a todos e beneficiam poucos.
Reduzir a corrupção exige, portanto, uma combinação de leis rigorosas,
instituições autônomas e tecnologia com uma sólida cultura de integridade,
educação e valores. Essa é uma tarefa coletiva, que depende da compreensão de
que não haverá um salvador da pátria — apenas uma sociedade vigilante e ativa
pode transformar essa realidade.
