quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nas Cavernas do Preconceito

 



No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?

Seríamos incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra "preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.

Levei essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres de guerras pessoais e conflitos mundiais.

Minha divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que, possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.

O mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais, outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.