No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?
Seríamos
incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas
mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos
indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria
fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu
caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra
"preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo
arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não
carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como
as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.
Levei
essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos
distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e
frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais
zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos
ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira
conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres
de guerras pessoais e conflitos mundiais.
Minha
divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de
nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que,
possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados
em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não
para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e
quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.
O
mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais,
outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo
verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.
