Nunca passou pela minha cabeça morar longe de
Itapira. Afastei-me da minha terra em apenas duas ocasiões, exclusivamente por
motivos de estudo. Ainda assim, raramente passava mais de uma semana sem
retornar ao aconchego do meu lar. Sempre fui um torcedor entusiasmado da nossa
cidade, desejando vê-la prosperar e oferecer cada vez mais qualidade de vida
aos seus moradores.
Na semana passada, contudo, a realidade nos
desferiu um golpe duro. O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, que desde
2024 mede a qualidade de vida nos 5.570 municípios do país por meio de 57
indicadores socioambientais, colocou Itapira na 855ª posição nacional. O
resultado acendeu um sinal de alerta preocupante.
Daí pode surgir um argumento conformista: “Mas
ainda existem mais de 4.700 cidades atrás de nós; não estamos no lucro?”.
Não, não estamos. Quando estreitamos a análise para o Estado de São Paulo,
ocupamos a amarga 411ª posição. Atrás de nós, restam apenas 234 municípios
paulistas.
O que mais assusta é a velocidade do declínio. Em
2024, Itapira ocupava a 220ª posição nacional e a 130ª estadual. Em apenas dois
anos, despencamos 635 posições no país e 281 no estado. O resultado de 2026 não
foi um acidente de percurso; foi a confirmação de uma tragédia anunciada pelo
boletim de 2025, que já nos rebaixava para a 660ª posição nacional e a 344ª
estadual.
Para agravar o quadro, basta olhar para a nossa
vizinha. Em 2024, Itapira e Mogi Mirim caminhavam praticamente lado a lado
(220ª contra 230ª posição). Dois anos depois, a vantagem de apenas dez posições
que tínhamos transformou-se em um abismo de 599 colocações contra nós, com Mogi
ocupando a 256ª posição nacional. No ranking estadual, os mogimirianos
permaneceram relativamente estáveis, passando da 136ª para a 158ª posição.
A pergunta que deve ecoar na mente de qualquer
cidadão atento é inevitável: o que aconteceu com Itapira? O que será do nosso
futuro?
Apontar o dedo para o prefeito é o esporte mais
fácil do mundo. Evidentemente, o chefe do Executivo detém as rédeas da
administração e carrega a maior parcela de responsabilidade pelos rumos do
município, mas a população também não pode se eximir. Afinal, quem digita o
voto na urna? Quem participa da vida cotidiana da cidade? Quem se posiciona
diante dos desacertos?
Olhando para o passado, é possível identificar que
o grande câncer local pode estar na velha e desgastante polarização do “nós
contra eles”. O eterno embate entre “totonhistas” e “antitotonhistas” acabou
cegando parte da cidade. Quando um lado tentava construir, o outro, movido por
vaidade, ego ou mera rivalidade política, procurava sabotar. Quantas boas
iniciativas deixaram de ser executadas? Quantas foram modificadas ou pioradas?
O mais irônico é que, do ponto de vista
institucional, há sinais de que o ambiente político parece ter se acalmado
recentemente. A oposição ao prefeito na Câmara, mesmo sendo maioria, não
utilizou seu poder de voto para travar a máquina pública, como ocorreu em
outros momentos. Se, mesmo com uma oposição mais moderada e responsável, a
cidade caiu tanto e tantos problemas estão expostos, imagine se a escolha dos
opositores tivesse sido pela paralisia da administração municipal.
É provável que a derrocada no IPS não seja culpa
exclusiva de um único mandato; talvez seja o resultado acumulado de pequenas
disputas históricas que sangraram a cidade ao longo dos anos, independentemente
de quem estivesse no governo.
Agora, porém, não adianta chorar pelo leite
derramado. Ouso arriscar que 2028 poderá representar uma virada de chave para
Itapira. Talvez seja o fim da figura do candidato surpresa, apresentado apenas
às vésperas do período eleitoral. Os prefeituráveis realmente competitivos
tendem a ser aqueles que começarem a pavimentar seus caminhos desde já.
Além de demonstrar capacidade de diálogo e
convivência respeitosa com pensamentos divergentes, esses futuros postulantes
precisarão revelar uma visão genuína de cuidado para com o município e sua
população. Também precisarão construir, desde cedo, pontes políticas
consistentes, escolhendo aliados capazes de estabelecer conexões produtivas com
as esferas estadual e federal. Afinal, uma andorinha só não faz verão.
Na política que se desenha, os espaços para o
confronto tendem a diminuir. Os futuros governantes eleitos dependerão cada vez
menos de grupos fechados e mais daqueles que se colocam como independentes e
defendem projetos sólidos, capazes de oferecer melhores condições de vida nas
áreas da saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana e cultura, em
sintonia com as políticas públicas estaduais e federais.
Resumindo: será preciso somar esforços, abandonar
velhos conflitos e construir caminhos transparentes, seguros e responsáveis
rumo ao desenvolvimento que a nossa gente merece.
Em tempo: a construção de uma candidatura não acontece da
noite para o dia. Entre inúmeras etapas, é necessário demonstrar liderança
natural, atuar de forma ativa na comunidade, dialogar com as pessoas para
compreender suas necessidades, construir apoios, atrair candidatos a vereador
e, acima de tudo, manter-se acessível.
