segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Queda de Itapira: um diagnóstico que não podemos ignorar

 



Nunca passou pela minha cabeça morar longe de Itapira. Afastei-me da minha terra em apenas duas ocasiões, exclusivamente por motivos de estudo. Ainda assim, raramente passava mais de uma semana sem retornar ao aconchego do meu lar. Sempre fui um torcedor entusiasmado da nossa cidade, desejando vê-la prosperar e oferecer cada vez mais qualidade de vida aos seus moradores.

Na semana passada, contudo, a realidade nos desferiu um golpe duro. O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, que desde 2024 mede a qualidade de vida nos 5.570 municípios do país por meio de 57 indicadores socioambientais, colocou Itapira na 855ª posição nacional. O resultado acendeu um sinal de alerta preocupante.

Daí pode surgir um argumento conformista: “Mas ainda existem mais de 4.700 cidades atrás de nós; não estamos no lucro?”. Não, não estamos. Quando estreitamos a análise para o Estado de São Paulo, ocupamos a amarga 411ª posição. Atrás de nós, restam apenas 234 municípios paulistas.

O que mais assusta é a velocidade do declínio. Em 2024, Itapira ocupava a 220ª posição nacional e a 130ª estadual. Em apenas dois anos, despencamos 635 posições no país e 281 no estado. O resultado de 2026 não foi um acidente de percurso; foi a confirmação de uma tragédia anunciada pelo boletim de 2025, que já nos rebaixava para a 660ª posição nacional e a 344ª estadual.

Para agravar o quadro, basta olhar para a nossa vizinha. Em 2024, Itapira e Mogi Mirim caminhavam praticamente lado a lado (220ª contra 230ª posição). Dois anos depois, a vantagem de apenas dez posições que tínhamos transformou-se em um abismo de 599 colocações contra nós, com Mogi ocupando a 256ª posição nacional. No ranking estadual, os mogimirianos permaneceram relativamente estáveis, passando da 136ª para a 158ª posição.

A pergunta que deve ecoar na mente de qualquer cidadão atento é inevitável: o que aconteceu com Itapira? O que será do nosso futuro?

Apontar o dedo para o prefeito é o esporte mais fácil do mundo. Evidentemente, o chefe do Executivo detém as rédeas da administração e carrega a maior parcela de responsabilidade pelos rumos do município, mas a população também não pode se eximir. Afinal, quem digita o voto na urna? Quem participa da vida cotidiana da cidade? Quem se posiciona diante dos desacertos?

Olhando para o passado, é possível identificar que o grande câncer local pode estar na velha e desgastante polarização do “nós contra eles”. O eterno embate entre “totonhistas” e “antitotonhistas” acabou cegando parte da cidade. Quando um lado tentava construir, o outro, movido por vaidade, ego ou mera rivalidade política, procurava sabotar. Quantas boas iniciativas deixaram de ser executadas? Quantas foram modificadas ou pioradas?

O mais irônico é que, do ponto de vista institucional, há sinais de que o ambiente político parece ter se acalmado recentemente. A oposição ao prefeito na Câmara, mesmo sendo maioria, não utilizou seu poder de voto para travar a máquina pública, como ocorreu em outros momentos. Se, mesmo com uma oposição mais moderada e responsável, a cidade caiu tanto e tantos problemas estão expostos, imagine se a escolha dos opositores tivesse sido pela paralisia da administração municipal.

É provável que a derrocada no IPS não seja culpa exclusiva de um único mandato; talvez seja o resultado acumulado de pequenas disputas históricas que sangraram a cidade ao longo dos anos, independentemente de quem estivesse no governo.

Agora, porém, não adianta chorar pelo leite derramado. Ouso arriscar que 2028 poderá representar uma virada de chave para Itapira. Talvez seja o fim da figura do candidato surpresa, apresentado apenas às vésperas do período eleitoral. Os prefeituráveis realmente competitivos tendem a ser aqueles que começarem a pavimentar seus caminhos desde já.

Além de demonstrar capacidade de diálogo e convivência respeitosa com pensamentos divergentes, esses futuros postulantes precisarão revelar uma visão genuína de cuidado para com o município e sua população. Também precisarão construir, desde cedo, pontes políticas consistentes, escolhendo aliados capazes de estabelecer conexões produtivas com as esferas estadual e federal. Afinal, uma andorinha só não faz verão.

Na política que se desenha, os espaços para o confronto tendem a diminuir. Os futuros governantes eleitos dependerão cada vez menos de grupos fechados e mais daqueles que se colocam como independentes e defendem projetos sólidos, capazes de oferecer melhores condições de vida nas áreas da saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana e cultura, em sintonia com as políticas públicas estaduais e federais.

Resumindo: será preciso somar esforços, abandonar velhos conflitos e construir caminhos transparentes, seguros e responsáveis rumo ao desenvolvimento que a nossa gente merece.

Em tempo: a construção de uma candidatura não acontece da noite para o dia. Entre inúmeras etapas, é necessário demonstrar liderança natural, atuar de forma ativa na comunidade, dialogar com as pessoas para compreender suas necessidades, construir apoios, atrair candidatos a vereador e, acima de tudo, manter-se acessível.