quarta-feira, 17 de junho de 2026

O retorno do El Niño: Como Itapira está se preparando?


 


As primeiras projeções de que o El Niño retornaria neste ano começaram a ser traçadas por meteorologistas em março de 2026. Em maio, o fenômeno foi oficialmente confirmado, trazendo a expectativa de que poderá ser um dos mais intensos desde 1950. A probabilidade de sua persistência ao longo do segundo semestre supera 80%, podendo estender-se até o início de 2027.

O El Niño é um fenômeno climático cíclico que ocorre há milhares de anos, alternando entre o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e o seu resfriamento — fase conhecida como La Niña. Nos últimos anos, porém, passou a preocupar ainda mais o Brasil em razão do aquecimento global, que atua como um combustível adicional. Como a atmosfera e as águas oceânicas já estão entre 1°C e 1,5°C mais quentes em decorrência das mudanças climáticas, os episódios recentes do fenômeno começam em um patamar térmico muito mais elevado.

Esse ponto de partida mais quente potencializa os efeitos do El Niño, gerando secas severas, tempestades destrutivas e impactos diretos sobre a economia, a geração de energia e a agricultura, com efeitos que variam conforme a região do país.

Em nossa região, a tendência se traduz em ondas de calor mais intensas e prolongadas, além de estiagens severas e queda acentuada na umidade relativa do ar. Na agricultura, o desequilíbrio hídrico pode comprometer tanto o plantio quanto o desenvolvimento das lavouras.

A combinação do inverno seco com a fumaça proveniente de focos de incêndio — agravados pelo calor opressor — deteriora a qualidade do ar, ampliando problemas respiratórios, especialmente entre crianças e idosos. Contudo, há uma nuance para este ano: diante da previsão de chuvas históricas no Sul do país, meteorologistas estimam que frentes de umidade possam avançar para a nossa região. Isso poderá trazer dias mais úmidos ou precipitações acima da média, o que ajudaria a retardar ou atenuar a expansão de grandes queimadas.

O cenário exige seriedade. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, declarou nesta semana que a crise climática transcende a esfera da mera política pública, configurando também um dever jurídico do Estado. Essa postura reforça a necessidade de ações imediatas e concretas do poder público diante de eventuais omissões.

Em Campinas, apesar de a cidade já integrar a Operação SP Sem Fogo, a prefeitura apresentou nesta quarta-feira, dia 17, um robusto plano de contingência para reduzir os impactos do fenômeno, com o objetivo de proteger a população, a infraestrutura urbana e os serviços essenciais.

Itapira, que também participa do programa estadual, foi contemplada com um lote de equipamentos de combate a incêndios florestais, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e treinamentos especializados. Além disso, áreas de vegetação e rodovias locais já contam com a tecnologia Muralha do Fogo, que cruza dados de satélite e inteligência artificial para detectar focos de incêndio em tempo real.

Entretanto, o El Niño deste ano promete ser rigoroso, e o combate aos incêndios representa apenas uma face do problema. Para proteger a população de forma integral, Itapira pode — e deve — se preparar ainda mais.

Algumas medidas possíveis incluem a instalação de tendas com distribuição gratuita de água em pontos de grande circulação de pedestres e o reforço no acolhimento de pessoas em situação de rua durante as horas mais quentes do dia. Também seria importante o reforço imediato de soro, inaladores e medicamentos broncodilatadores na rede básica de saúde (UBSs e UPAs), a fim de suprir o aumento da demanda por atendimentos respiratórios.

Outras ações relevantes seriam promover campanhas de uso consciente da água e fiscalizar eventuais desperdícios; orientar escolas, canteiros de obras e serviços urbanos para limitar atividades físicas intensas ou trabalhos pesados ao ar livre entre 11h e 16h nos dias de calor extremo; além de realizar a poda preventiva de árvores localizadas próximas à fiação elétrica.

Itapira não deve esperar pelo pior. Precisa estar preparada.