As primeiras projeções de que o El Niño retornaria
neste ano começaram a ser traçadas por meteorologistas em março de 2026. Em
maio, o fenômeno foi oficialmente confirmado, trazendo a expectativa de que
poderá ser um dos mais intensos desde 1950. A probabilidade de sua persistência
ao longo do segundo semestre supera 80%, podendo estender-se até o início de
2027.
O El Niño é um fenômeno climático cíclico que
ocorre há milhares de anos, alternando entre o aquecimento das águas do Oceano
Pacífico e o seu resfriamento — fase conhecida como La Niña. Nos últimos anos,
porém, passou a preocupar ainda mais o Brasil em razão do aquecimento global,
que atua como um combustível adicional. Como a atmosfera e as águas oceânicas
já estão entre 1°C e 1,5°C mais quentes em decorrência das mudanças climáticas,
os episódios recentes do fenômeno começam em um patamar térmico muito mais
elevado.
Esse ponto de partida mais quente potencializa os
efeitos do El Niño, gerando secas severas, tempestades destrutivas e impactos
diretos sobre a economia, a geração de energia e a agricultura, com efeitos que
variam conforme a região do país.
Em nossa região, a tendência se traduz em ondas de
calor mais intensas e prolongadas, além de estiagens severas e queda acentuada
na umidade relativa do ar. Na agricultura, o desequilíbrio hídrico pode
comprometer tanto o plantio quanto o desenvolvimento das lavouras.
A combinação do inverno seco com a fumaça
proveniente de focos de incêndio — agravados pelo calor opressor — deteriora a
qualidade do ar, ampliando problemas respiratórios, especialmente entre
crianças e idosos. Contudo, há uma nuance para este ano: diante da previsão de
chuvas históricas no Sul do país, meteorologistas estimam que frentes de
umidade possam avançar para a nossa região. Isso poderá trazer dias mais úmidos
ou precipitações acima da média, o que ajudaria a retardar ou atenuar a
expansão de grandes queimadas.
O cenário exige seriedade. O ministro Edson Fachin,
presidente do Supremo Tribunal Federal, declarou nesta semana que a crise
climática transcende a esfera da mera política pública, configurando também um
dever jurídico do Estado. Essa postura reforça a necessidade de ações imediatas
e concretas do poder público diante de eventuais omissões.
Em Campinas, apesar de a cidade já integrar a
Operação SP Sem Fogo, a prefeitura apresentou nesta quarta-feira, dia 17, um
robusto plano de contingência para reduzir os impactos do fenômeno, com o
objetivo de proteger a população, a infraestrutura urbana e os serviços
essenciais.
Itapira, que também participa do programa estadual,
foi contemplada com um lote de equipamentos de combate a incêndios florestais,
Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e treinamentos especializados. Além
disso, áreas de vegetação e rodovias locais já contam com a tecnologia Muralha
do Fogo, que cruza dados de satélite e inteligência artificial para detectar
focos de incêndio em tempo real.
Entretanto, o El Niño deste ano promete ser
rigoroso, e o combate aos incêndios representa apenas uma face do problema.
Para proteger a população de forma integral, Itapira pode — e deve — se
preparar ainda mais.
Algumas medidas possíveis incluem a instalação de
tendas com distribuição gratuita de água em pontos de grande circulação de
pedestres e o reforço no acolhimento de pessoas em situação de rua durante as
horas mais quentes do dia. Também seria importante o reforço imediato de soro,
inaladores e medicamentos broncodilatadores na rede básica de saúde (UBSs e
UPAs), a fim de suprir o aumento da demanda por atendimentos respiratórios.
Outras ações relevantes seriam promover campanhas
de uso consciente da água e fiscalizar eventuais desperdícios; orientar
escolas, canteiros de obras e serviços urbanos para limitar atividades físicas
intensas ou trabalhos pesados ao ar livre entre 11h e 16h nos dias de calor
extremo; além de realizar a poda preventiva de árvores localizadas próximas à
fiação elétrica.
Itapira não deve esperar pelo pior. Precisa estar
preparada.
