sábado, 17 de dezembro de 2022

Bella Ciao

Perdoem-me os discordantes, mas não renuncio à democracia. Quem ama a liberdade, na mais ampla acepção da palavra; quem venera o direito de ser como é; quem valoriza as próprias escolhas; quem não abre mão do ir e vir; quem quer saber sobre tudo o que afeta a sua vida, de seus familiares, de seus amigos e da sua comunidade; quem é respeitador das leis que regem o país ou quem, em caso de eventuais discordâncias, almeja ou batalha, do jeito certo, para as devidas correções; não pode e não deve, também, renunciar à democracia, por mais que uma proposta alternativa se apresente extremamente sedutora.

Nunca haverá uma proposta que, depois de implementada, atenda as necessidades e gostos de todos, simplesmente, por não existir essa possibilidade. A inteligência nos diferencia. A democracia, pode, com participação efetiva, levar qualquer proposta a chegar perto da maioria. Nunca uma ideia afeita à minoria fará um país prosperar, a ser feliz, a se orgulhar.

A nossa democracia ainda é frágil, é jovem, não está consolidada, vivemos em uma democracia incompleta quando nos deparamos com as desigualdades sociais, com as diferenças de oportunidades, com as saraivadas de preconceitos atormentantes... A democracia é uma conquista que depende de defesa firme e de batalhas constantes, da manutenção e ampliação dos direitos conquistados, da garantia de participação ampla, da imprensa livre, dos ouvidos atentos dos nossos legisladores, da sintonia e competência dos governantes, do respeito às instituições e ao poder judiciário e, fundamentalmente, do nosso olhar crítico e cobrador.

Permanece viva a frase atribuída a Winston Churchill: a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais. Viva a democracia!

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

É a vida que segue!


Pelo andar da carruagem, acho que algumas pessoas esperavam que os bloqueios nas estradas estabelecessem o caos e estimulassem grandes manifestações nas ruas, na maioria das cidades, contestando as eleições e o resultado, diante da possibilidade:

de demissões em massa orquestrada pelas empresas apoiadoras do atual presidente;

de forte aumento nos preços dos alimentos;

de governadores estaduais não moverem uma palha para garantir o direito de ir e vir;

do despencar da bolsa de valores;

da explosão do dólar;

de intervenção das forças armadas;

de isolamento da classe política direcionado ao presidente eleito;

Mas quis o destino que:

nenhuma empresa demitisse, além da normalidade;

os preços dos alimentos ficassem na mesma trajetória;

os governadores colocassem a PM para liberar as estradas, rapidamente, forçando a Polícia Rodoviária Federal a fazer o mesmo;

as bolsas subissem 8%, desde o resultado da eleição;

o dólar depois de fechar na sexta-feira, 28, em R$ 5,29, na semana, despencasse para R$ 5,05;

as forças armadas continuassem abraçadas à Constituição Federal;

a classe política isolasse o atual presidente.

Demonstração clara de que a maioria do povo brasileiro, democraticamente, reconheceu o resultado das urnas. 

É a vida que segue!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Viva a democracia! É hora de agradecer.

Agradeço aos amigos que votaram em Bolsonaro e que se dignaram a discutir política com seriedade durante todo o processo eleitoral. O resultado deste domingo nos garante que poderemos continuar divergindo. Isso é sensacional. Viva a democracia!

Agradeço aos amigos que votaram em Lula e se alinharam comigo a maior parte do tempo. Daqui em diante, devemos nos manter vigilantes. A vitória não pode e não deve nos cegar. Não cometamos os mesmos erros dos bolsonaristas. A reconstrução deste país será difícil, mas não será impossível, já vivemos momentos piores. Precisamos apoiar as boas iniciativas e criticar os eventuais deslizes. Viva a democracia!

Em 2018, logo após a declaração da vitória de Bolsonaro, mesmo não tendo votado nele, postei que a minha torcida era para que ele fizesse um bom governo. Mesmo contrariado no meu voto, como brasileiro, não poderia querer atirar no meu próprio pé. Agora, que as urnas revelaram um novo presidente, o desejo de todos, principalmente, os que se classificam como patriotas, deve ser a favor do Brasil. Ser a favor do Brasil não significa apoio inconteste, só não pode valer-se das Fake News e da falta de verificação.  

A eleição foi apertada, é verdade, mas é assim que funciona a democracia, ora uma diferença maior, ora uma diferença menor, aqui como em qualquer país democrático do mundo. Por isso, o conceito de maioria, que usamos para todas as decisões que tomamos, inclusive no dia a adia, 50% + 1, é respeitado.

A divisão do Brasil, tão propalada em função do resultado eleitoral, não deverá ser um problema para Lula, afinal, quem entra nessa disputa deve estar preparado para enfrentar todas as diversidades e não ficar culpando o último presidente, o tempo todo, como se não soubesse da situação quando decidiu se candidatar. Além disso, é preciso considerar que muitos votos contrários foram conquistados por conta de medidas populares tomadas, principalmente, no segundo semestre. Nos próximos dias, as pesquisas começarão a mostrar redução nessa divisão.  

Em toda disputa, ganhar ou perder, faz parte do jogo. Não aceitar a derrota é característica dos maus jogadores.

Lula é o primeiro brasileiro a presidir o Brasil três vezes através do voto e Bolsonaro é o primeiro presidente a não conseguir a reeleição. Isso, certamente, a história fará suas considerações, no futuro.

Vivemos um momento histórico. A nossa democracia se fortaleceu, não apenas em função do resultado, mas diante de todas as investidas que sofreu: a sociedade resistiu; a classe política, inclusive a aliada, resistiu; as Forças Armadas resistiram e o mundo se curvou: EUA, Europa, China, Rússia, América Latina e países emergentes já reconheceram os resultados.

Viva a democracia!   




quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Quanto valerá seu voto no dia 30?

Depende. Antes da apuração, valerá um. Depois, se vencedor, poderá valer muito, talvez o caminho entre a bem-aventurança e a tragédia; se perdedor, não produzirá nenhum efeito imediato.

Os votos eleitorais são como a morte: são todos iguais. Nem mais, nem menos. Pode ser homem ou mulher; rico ou pobre; preto ou branco; morador de cidade grande ou pequena, urbano ou rural; gostar ou não gostar do governante em exercício; letrado ou analfabeto; bonito ou feio; forte ou fraco; jovem ou velho. Todos iguais.

Algumas pessoas, talvez por ignorância ou arrogância, acreditam que o voto de uns é mais valioso do que o de outros. Houve um tempo em que esse pensamento fazia sentido: os coronéis manipulavam as eleições; os patrões exigiam que seus empregados votassem nos candidatos indicados por eles; o sistema eleitoral era falho e corrompido; as fraudes eram visíveis, provadas e comprovadas. Tempo de um Brasil que patinava, atraso total.

Alguns ranços dos velhos tempos ainda dão as caras. Há quem aposte na figura do medo para vencer a consciência do eleitor. Há quem use temas desconexos de um programa de governo para ludibriar a escolha. Há quem use Deus indevidamente como cabo eleitoral. Ainda não se sabe até que ponto as estratégias, usadas na velha república, irão funcionar. É sabido que a eleição deste ano será uma verdadeira prova de fogo para a democracia e para o futuro do Brasil, qualquer que seja o resultado. Lições serão tiradas. Gostando ou não, é assim que uma sociedade evolui politicamente.  

O voto é como o átomo: é a unidade fundamental da matéria (democracia), cada qual com sua própria identidade; pode gerar reações; é minúsculo, eterno e indivisível; ora se combina, ora se desagrega; é movido por forças da natureza e pode determinar as características futuras.

Quanto valerá seu voto no dia 30?

domingo, 23 de outubro de 2022

Uma festa inesquecível: 50 anos de amizade

Não é novidade para ninguém o fato de que estamos vivenciando divergências com pessoas próximas motivadas pela polarização política, onde muitos colocam os candidatos acima dos amigos e parentes. Até bem pouco tempo, uma reunião para celebrar as amizades era um evento normal, nem virava notícia. Hoje, beira o surreal.   

É nesse contexto que a festa realizada na Chácara Andrea, no Bairro do Tanquinho, neste dia 8 de outubro, ganhou relevância ao reunir pessoas com a finalidade de celebrar meio século de amizade. 
A reunião começou no final da tarde sábado e se estendeu até a madrugada de domingo. Entre os amigos reunidos, muitos não se viam há tempos, como foi o caso do Paulo Pugina, radicado na capital paulista, há mais de 40 anos não mantinha contato com a turma. Durante o encontro, Pugina não se conteve, repetindo diversas vezes: “que maravilha essa festa, esse encontro, precisamos fazer isso sempre. Que tal pelo menos uma vez por mês?”.

O encontro foi organizado pelo chamado grupo raiz, formado em 1972, por Antonio Carlos Guerreio (Guega), Antonio Carlos Marcati (Carlinhos), Carlos Henrique Maciel (Surica), João Batista Bacchin,  Julio Cruz (Beba), José Humberto Marcati (Nino), José Luiz Bellini (Brito), Zoroastro Marcos Viola e Wilson Breda (ver Box) que se reunia para uma boa conversa nos bares da época, em especial, no Bar do Edifício (andar térreo do edifício da Praça Bernardino) e para curtir a boa música brasileira, nos locais onde era permitido. Na esteira do tempo, outros amigos foram agregados. O grupo foi batizado pelos próprios integrantes como “Os Paralelos do Ritmo” em alusão às paralelas que nunca se encontram, no caso, o ritmo.
“Até um bolo decorado com a frase 50 anos de amizade foi providenciado para o Parabéns a Você”, contou Bacchin.

A festa foi regada com muito chopp e comida de boteco do chef Tina. Teve música ao vivo, começando com o saxofonista Brito para recepcionar os participantes, depois o cantor Paraná, para animar a noite. Em dado momento, para relembrar as rodas de samba e as serenatas nos anos 70, os Paralelos do Rítmo se apresentaram: o cantor Wilson, com Brito na timba, Bacchin no pandeiro e Guega na caixa de fósforos.
"Essa amizade cinquentenária haverá de se projetar para a eternidade. Agradecemos a Deus." (Wilson)

O grupo raiz continuou se reunindo, nos últimos tempos passou a alimentar a ideia de ampliar os encontros, reunindo todos aqueles que participaram das cantorias nos anos 70.  Neste ano, o sonho começou a ser cristalizado no dia 4 de junho quando os primeiros passos foram alinhavados e no dia 28 de junho quando a festa foi configurada e os contatos iniciados para reunir a moçada.

O primeiro grande desafio foi levantar os nomes e os contatos, daqueles que participaram das nossas rodas de samba. Muitos buscaram outras cidades para morar e trabalhar, enquanto isso, o grupo de organização cuidava de detalhes como o serviço de buffet, contratação de música ao vivo, elaboração de um banner comemorativo para marcar a data, o grande encontro, disse Nino, um dos coordenadores.
“Emoção! Amizade é esperança, sequência de boas lembranças!” (Zoroastro)

Ao final da noite, unanimidade total. Alegria era a marca do encontro. Todos agradeceram e elogiaram a organização, pedindo que outros encontros sejam realizados para que aqueles que não puderam estar presente, possam participar do próximo. “Foi uma noite para lavar a alma. Estar ao lado de amigos, reviver os bons tempos, para mim, foi um momento abençoado.”, concluiu Carlinhos.

Nesta semana, na terça-feira, os organizadores se reuniram para avaliar a festa e marcar, atendendo pedidos, o próximo encontro para o dia 18 de fevereiro, para marcar outro grande momento desses amigos: o carnaval.

Como tudo começou?

O grupo raiz formado por Bacchin, Brito, Carlinhos, Guega, Nino, Wilson e Zoroastro começou a tomar corpo em 1972. Eram alunos colegiais do IEEESO, período noturno. Os primeiros encontros aconteceram no pátio da Escola. Depois, na Praça Bernardino de Campos, no Bar do Edifício, no Sitio do Guega, na Pizzaria Sebastião Bar, na Churrascaria Rio-Guaçu e tantos outros lugares. Em junho/72, criaram o jornal impresso da Escola, o “JOJÔ”, que circulou até novembro/73 (1973 foi o último ano). O jornal foi um verdadeiro sucesso. Registrou a vida da maioria dos alunos, a releitura é obrigatória para quem estudou naquela época (brevemente todas as edições estarão disponíveis no site do grupo).

Em setembro/72, o grupo raiz decidiu apresentar uma chapa ao Centro Cívico do IEEESO (naquela época, os grêmios estudantis eram proibidos) composta por alunos do período noturno. No dia 8 de outubro de 1972, a chapa do grupo, a nº1, foi eleita com 563 votos, contra 294 dados à segunda colocada, a chapa nº 4. Para comemorar a vitória, os eleitos se reuniram no Sebastião Bar para saborear as deliciosas e inesquecíveis pizzas (esse bar ficava na Rua José Bonifácio/Centro). Não demorou para que a música começasse a rolar. De repente, surgiu o Surica, que morava nas proximidades, com seu violão. Juntaram a fome com a vontade de comer. Foi nesse momento inesquecível que eles combinaram o próximo encontro musical, dando vida às futuras rodas de samba, que passaria a ter frequência semanal, no final das noites de sábado ou nas vésperas de feriados, nos bares onde era permitido. O Bar do Coli (Avenida Saldanha Marinho/Santa Cruz), era o mais complacente, lá aconteceu a maioria dos eventos. Das rodas de samba às serenatas foi um pulo. Zoroastro, com sua kombi, era o transportador oficial da tropa. O Nino tinha a tarefa de conversar com os donos dos bares para que eles permitissem a roda de samba. No ano seguinte, o último integrante do grupo raiz, Beba integrou o grupo.    

Vale destacar que essa moçada, durante a gestão do Centro Cívico, revolucionou a Escola no quesito participação. Com recursos próprios, instalou um sistema de som no pátio para execução de músicas nos intervalos, adquiriu novos instrumentos para a fanfarra e um novo corpo de bandeiras, todos os estados brasileiros, que passou a ser utilizado nos desfiles, a partir do 7 de setembro de 1973. “Fizemos história no Centro Cívico do IEEESO. Até então, em Itapira como maioria das cidades, era uma entidade decorativa, com poucas ações, sem grandes iniciativas”, declarou Neto Coloço, então, presidente.

“A canção “Pela Madrugada”, letra e música do nosso cantor Wilson até hoje representa o espírito da nossa turma que tinha nas madrugadas dos dias de folga o refúgio alegre da semana cansada, estudada e trabalhada”, lembrou Nino.

O Brito, conta que a cada roda de samba, novos amigos se aproximavam e apreciavam a nossa música: “em algumas ocasiões, chegamos a reunir mais de 50 amigos nos bares ou nos churrascos que organizávamos. Modéstia no lixo, onde a nossa turma estava, virava uma grande festa!” 

O Guega concluiu com chave de ouro: “o nosso grupo não se declara nostálgico, mas sim como exemplo de quem soube, como poucos, atravessar a adolescência construindo e mantendo uma amizade que vara meio século e assim vai continuar”.

Os nove integrantes do Grupo Raiz: Bacchin, Surica, Guega, Nino, Carlinhos, Brito, Wilson, Beba e Zoroastro 

 

O bolo em comemoração aos 50 anos de amizade

 

Foto oficial do encontro: Brito, Violeta, Guega, Wilson, Tião, Pugina, Genésio, Francisca, Val, Nino, Neuza, Thié, Silvia, Sirlei, Zoraia, Marisa, Claudete, Lena, Sonia, Adriana, Carlinhos, Graciela, Edna, Magali, Bacchin, Katia, Bras e Sonia. 

 

Os Paralelos do Ritmo

Abraçando o Zoroastro

Muita conversa, grandes recordações

Saudade de fazer bagunça




quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Quem sou eu para condenar o voto de alguém?

Decididamente, ao que parece, muita gente ainda não consegue entender a natureza do voto: a escolha deste ou daquele candidato. Eu tenho uma teoria que diz que quando não entendemos as escolhas dos outros, provavelmente, enfrentamos dificuldades para entender as nossas próprias escolhas. Por consequência, tendemos a colecionar más escolhas, não necessária e somente as eleitorais.

Tenho observado os torcedores dos dois candidatos que disputarão o segundo turno deste ano tecendo críticas desrespeitosas aos que dedicaram votos discordantes, como se estes tivessem a chave do voto perfeito ditada pelos tais críticos. Essa atitude ultrapassa o limite da torcida, que deve ser finalizada no encerramento da votação, considerando os preceitos de civilidade e de cidadania.

O máximo que podemos esperar é que a urna mostre o chamado voto consciente. Aquele que foi pensado, estudado, pesquisado e definido. Podemos esperar, também, que feita a escolha, o eleitor se disponha a acompanhar os nomes escolhidos ou aqueles que foram beneficiados com os votos dados. Como se sabe, nas eleições proporcionais, os deputados eleitos dependeram da soma dos votos dados aos candidatos do partido ou à legenda. Podemos esperar, ainda, que aqueles que votaram nos nomes majoritários não vitoriosos reconheçam o desejo da vontade popular, e, ponto final. Além dessa esperança, não podemos exigir nada mais além. Cada um vota como bem entende. Detalhe: não é esse desrespeito que fará o eleitor contrário a mudar o voto seguinte, na prática, acaba reforçando os princípios da escolha feita. A base do voto é o conjunto da obra, princípios e tarefas.  

Quando torcemos o nariz para determinados candidatos, podemos até fazer campanha contraria na tentativa de convencer as outras pessoas, mas não podemos esperar ou exigir que as escolhas alheias não fujam daquilo que entendemos ser o melhor caminho.

Quando pregamos o voto consciente, não podemos imaginar que a consciência alheia é semelhante à nossa. O máximo que podemos afirmar é que o voto inconsciente é o voto não pensado do ponto de vista coletivo, normalmente, com baixa intensidade. A maioria vota de acordo com a consciência, escolhendo candidatos que tenham visões de mundo semelhantes. Aquele que vota em candidato envolvido em corrupção, por exemplo, pode não ter acreditado nesse envolvimento ou, simplesmente, não colocar a corrupção como um problema para a vida dele; aquele que vota em candidato contrário à preservação do meio ambiente, certamente, não coloca esse tema como preocupação principal; aquele que vota em nome da religião, acredita que o religioso é seu melhor representante; aquele que vota em candidato avesso às políticas sociais, aposta que os pobres conseguem superar suas dificuldades desde que tenham força de vontade, descartando a interferência governamental como fundamental. Enfim, tantos outros exemplos poderiam ser elencados, o fato é que o voto é individual, uma vez dado, só ganha força quando a maioria seguir o mesmo caminho. Senão, é voto perdedor, que deve ser respeitado, assim como o voto vencedor. A vitória eleitoral não é individualista, é coletiva.

Ao tentar entender como é o processo de escolha do voto, reforçamos os critérios das nossas escolhas. O respeito, em qualquer situação, é essencial nos relacionamentos humanos. O desrespeitoso, mais cedo ou mais tarde, um dia entra no grupo dos não confiáveis e faltará com respeito até para os mais próximos.

Para concluir, valho-me do pensamento do filósofo Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Então, volto a perguntar: “quem sou eu para condenar o coração de alguém? ”

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A pílula do dia seguinte à eleição

O dia da eleição sempre foi e sempre será, para mim, um dia de festa. Festa da democracia. É prazeroso ver as pessoas, os eleitores, caminhando em direção aos locais de votação e se colocando em fila à espera do momento de votar, quase todos com semblante revelando seriedade no voto que dará. Em cada cabeça uma sentença à espera de que a cada escolha se revele como a escolha da maioria, acreditando ser ela o melhor para o país. A festa se consagra quando ela transcorre em clima de paz, com participação e ordem, relegando à torcida o prazo final no encerramento da votação para dar aos resultados o respeito que eles merecem. Afinal, eles revelam o desejo da maioria. Isso é democracia!

Sobre as pesquisas eleitorais cabem algumas considerações sobre as divergências entre as tendências e a apuração. Primeiramente, a de considerar que nenhuma pesquisa séria se apresenta como uma bola de cristal, antecipando a vontade popular, se assim fosse, eleições seriam totalmente desnecessárias. Mas vamos lá: as principais pesquisas registradas, por exemplo, giraram entre 48% e 50% para Lula; e, entre 36% e 40% para Bolsonaro. Considerando a margem de erro, dentro da faixa, Lula poderia ter entre 46% e 52%, teve 48,43%. Bolsonaro poderia ter entre 34% e 42%, teve 43,20%. Os institutos levantaram que entre 12% e 15% dos eleitores poderiam mudar o voto diante da urna.  Os indecisos costumam distribuir os votos de acordo com as tendências já levantadas, quem tem maior probabilidade de vencer, tende a receber o maior número de votos. Nessa eleição, os números indicam, que essa migração não ocorreu conforme a tradição. Quais seriam os motivos para essa guinada?

As pesquisas não influenciam de forma significativa o resultado, se assim fosse, nunca assistiríamos às mudanças. Elas revelam a fotografia do momento e indicam a tendência. É verdade que alguns eleitores votam naqueles que estão em primeiro, mas também é verdade que outros eleitores votam no segundo colocado para impedir que os primeiros ganhem. Os institutos não conseguem capturar as migrações das intenções que ocorrem do sábado para o domingo, assim como não podem detectar com precisão os votos brancos e nulos (este ano, 4,41%; em 2018, 8,8%) e a taxa de abstenção, este ano maior em comparação a 2018, 20,95% contra 20,3%, fatores que podem alterar os prognósticos. Mesmo considerando as divergências com significância, é preciso ressaltar que elas indicaram as tendências, apontando os dois primeiros lugares no país e nos estados, entre tantos candidatos, na maioria dos casos a partir de uma amostra que variava de dois a seis mil entrevistados num universo de mais de 156 milhões.

Aliás, nenhum candidato forte deixou de contratar institutos de pesquisa para estabelecer as estratégias de campanha como: temas a serem abordados, cidades a serem visitadas, participar ou não dos debates, quais grupos sociais devem ser atacados com prioridade etc. Portanto, candidato forte não só acredita, como usa as pesquisas para tentar ganhar a eleição.

Agora vamos para o segundo turno. Será uma nova eleição. Tanto Bolsonaro como Lula não poderão repedir as mesmas estratégias do primeiro turno, precisarão se apresentar palatáveis aos que destinaram seus votos para os outros candidatos, já que um tirar voto do outro será uma tarefa mais difícil. De onde eles tirarão os subsídios? Das pesquisas que eles contratarem.

Em suma, teremos quatro semanas de emoções fortes. Aguenta coração!               

domingo, 2 de outubro de 2022

Haverá Fake News depois das eleições?

Nas eleições deste ano não estarão em jogo apenas o futuro do Brasil, mas, provavelmente, o futuro das Fake News tal qual as conhecemos. Não morrerão, mas não serão mais as mesmas.

As Fake News ganharam relevância ao adotarem temas políticos, usadas, sem parcimônia, por todos os espectros, da extrema direita à extrema esquerda, mas nenhum assunto fica fora dos seus radares. Elas não são fenômenos da modernidade, da tecnologia. Antes, eram conhecidas como: fofoca, mexerico, boato, babado, bisbilhotice, disse me disse, falatório, futrica, fuxico... A vida alheia e os assuntos polêmicos sempre estiveram na boca do povo, uns partindo de algum rastilho de verdade enveredando para o exagero ou para a mentira, outros, na total maledicência, com a finalidade de prejudicar uns e beneficiar outros. A diferença básica, nesse caminhar do tempo, é que hoje, com o auxílio das redes sociais e seus algoritmos, elas atingem mais pessoas interessadas de forma rápida e num curtíssimo espaço de tempo. Em qualquer época, paradoxalmente, as notícias falsas, por algum tempo, são mais acreditadas do que as verdadeiras. Processo explicado pela busca por informações que vão ao encontro das crenças, de qualquer natureza, das pessoas que descartam toda e qualquer ideia que as contrariem. Para esses, o importante não é necessariamente a verdade, mas a sincronização com as suas visões de mundo, nem sempre ética e muito menos recheadas de informações fundamentadas.

As Fake News versam de tudo: das receitas caseiras, às teorias da conspiração; das montagens criminosas, às informações desencontradas; da vida das celebridades às inspirações negacionistas; enfim, tudo que poderá provocar interesse e adesão. Antigamente, os boateiros eram considerados como gente que não tinha mais nada o que fazer na vida. Hoje, os principais agentes de Fake News são: os criadores de conteúdo que ganham muito dinheiro nas redes sociais e sites, às custas da incredulidade ou da falta de conhecimento; os defensores de causas políticas por convicção ou contratados para tais finalidades; os humoristas que usam a mentira e a sátira como profissão ou sobrevivência; e, também, aqueles que não tem outra coisa para fazer na vida. Em suma, a maioria dos fofoqueiros da atualidade fizeram da mentira um meio para ganhar dinheiro ou para levar a obscuridade aos incautos. Depois da enorme visibilidade proporcionada pela internet, além de prejudicar pessoas comuns atingidas, as de cunho político passaram a influenciar o futuro de diversas nações, assim como ocorreu na Itália, Reino Unido, EUA e Brasil. Será que elas manterão esse mesmo status?

As Fake News, segundo estudos, continuarão gozando de audiência com redução gradativa da influência que exercem. A prática está fazendo com que o público aprenda a lidar com elas, estabelecendo os limites de veracidade e de influência. À medida que o tempo passa, a mentira sucumbe e a verdade se revela, tal qual as famosas fofocas que caíram na vala do descrédito para a maioria.

Das Fake News que assolaram o país nos últimos tempos, muitas já caíram em desgraça: as que diziam que a Terra era plana; as que afirmavam que a pandemia da Covid seria debelada rápida e naturalmente, sem qualquer perigo para as pessoas; as campanhas negacionistas em geral. Outras estão no caminho do esquecimento, como as que indicam que as urnas poderão fraudar os resultados ou as que colocam pesquisas falseadas ou inventadas, tão logo as urnas mostrarem os resultados reais dentro das tendências apontadas pelos principais institutos.

A produção de fatos mentirosos ou modificados para atender interesses escusos, os boatos, faz parte da história da humanidade e assim continuarão, como divertimento. A boa notícia é que a cada dia as Fake News terão reduzidas as suas capacidades de influenciar as pessoas. Como tudo nessa vida, a evolução da inteligência e a busca pela informação confiável fazem parte do processo natural.    

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Declaração de voto 2022



Eu sei que o voto é secreto, que tem o sigilo garantido pela Constituição e é regulamentado pelo Código Eleitoral. É um direito, não uma obrigação. Há pelo menos vinte anos, abro publicamente o meu voto. Por que eu faço isso?

Lamentavelmente, a maioria dos eleitores brasileiros supervaloriza os cargos executivos em detrimento aos legislativos. Não há dúvida, esse é um grave erro para a evolução política de uma nação. Pesquisa recente destacou que mais de 60% dos eleitores dizem que não se lembram dos nomes votados para os cargos legislativos (Assembleia, Câmara e Senado) em 2018, mostrando que, passada as eleições, a maioria não se preocupa com o que acontece nas casas legislativas. É o chamado voto não comprometido ou equivocado. É claro que não tem o menor cabimento voltarmos nossos olhos, o tempo todo, para os nossos legisladores, mas não podemos deixá-los “a la vonté”, soltos como uma gazela, ou, para ser mais preciso, como vira-latas cuidando da nossa linguiça.

É através do poder legislativo que as leis que afetam o nosso dia a dia são construídas ou reparadas. É onde a fiscalização das ações do executivo, quando necessárias, podem ser mais rapidamente investigadas. Como se essas duas prerrogativas não bastassem, o legislador é responsável, por exemplo, pela aprovação dos nomes para os tribunais (Contas, TJ, STF etc.) e, diante de fortes evidências, aprovar o impedimento do governador ou presidente.  Quero dizer, parafraseando um antigo comercial de TV: “não basta votar, tem que acompanhar”.

Ao declarar meu voto, não o faço para influenciar quem quer que seja, pois entendo que a escolha deve ser estritamente pessoal e consciente. Tento com este gesto mostrar que vale a pena estudar os possíveis escolhidos para que eles estejam mais próximos da nossa visão de mundo. Se eu quero que os candidatos que escolho me representem e se comportem de forma aproximada do meu comportamento cotidiano, não posso votar de qualquer jeito, como se a minha decisão não refletisse na vida da população em geral.

Só poderei me orgulhar (ou me arrepender) se os meus votos foram pensados e justificados para a minha consciência. É assim que exercemos a nossa cidadania com plenitude. Não existe ouro caminho para conquistarmos o Brasil dos nossos sonhos. Não esperemos pelos salvadores da pátria que de vez em quando aparecem. Depende de nós. Por isso:

Para deputado estadual votarei em Barros Munhoz pensando na minha cidade. A lista de candidatos ao cargo deve apresentar outros nomes merecedores, mas nenhum deles reunirá todos esses atributos: ser inquieto quando o assunto é Itapira; ser incansável quando trabalha para conquistar benefícios para o nosso município; ter prestígio e força política para alcançar os pleitos que nos interessam. Só Munhoz tem história por testemunha.

Para a Câmara Federal votarei em Marina Silva pensando no Meio Ambiente. É mais do que reconhecido que nos últimos anos o Brasil retrocedeu nos cuidados ambientais com desmatamento crescente, liberações impensadas de agrotóxicos prejudiciais à saúde e afrouxamento na legislação e fiscalização. Para recuperar o tempo perdido, entendo que o nome de Marina é muito forte, tem voz para ser ouvida pelos demais deputados federais, pelos brasileiros e pelo mundo afora.

Para o Senado votarei em Marcio França pensando na necessária experiência e capacidade de articulação legislativa. Marcio foi vereador, prefeito, deputado federal, vice-governador e governador de São Paulo e é reconhecidamente um exímio articulador político, além de uma consistente visão social. Ele saberá cumprir o cargo com maestria.

Para o executivo, parto do princípio que nenhum governo é 100% certo, nem 100% errado, deve sempre ser avaliado pelo conjunto da obra, desde que tenha visão social suficiente para melhorar as condições de vida da população, sem abrir mão do desenvolvimento econômico sustentável.

Para governador votarei em Haddad pensando na necessidade da alternância de poder no governo estadual. Vejo em Haddad todos os pré-requisitos necessários. Também não gostaria de contribuir para que se estabeleça em São Paulo a mesma linha divisionista com indiferença social implantada pelo atual presidente da república. Quero um governador disposto a governar para todos, principalmente para os mais pobres.

Para presidente votarei em Lula pensando no futuro do meu país. Lula é o único candidato capaz de derrotar o presidente Bolsonaro e suas tresloucadas atitudes e decisões. É preciso restabelecer a paz; o retorno saudável da discussão política; afastar o sentimento de ódio constante como ferramenta de persuasão; salvar as nossas florestas; extirpar o incentivo amalucado ao armamento doméstico e miliciano; retomar a imagem do Brasil junto às nações estrangeiras; entre tantos outros desacertos que não contam com a minha concordância.

Ao declarar o meu voto, dou transparência ao meu pensamento político, ou seja, me permite conversar com as pessoas, elas sabendo das minhas preferências. Para mim, a discussão saudável é sempre bem-vinda e promissora, não excluo e nunca excluirei ninguém que tenha preferências diferentes das minhas. É respeito à diversidade cognitiva da sociedade em que vivo.  

Sou defensor ferrenho do Estado de Direito. Só a democracia pode resolver os problemas de um país de forma consistente. Por exemplo, com ela, a corrupção pode ser combatida com a imprensa cumprindo seu papel, com polícia investigando, com o ministério público denunciando e a com a justiça julgando e condenando. Num governo autocrático, a corrupção não é combatida: a imprensa é desqualificada ou silenciada, a polícia controlada, o ministério público amordaçado e a justiça não tem o que fazer.  

Quaisquer que sejam as nossas escolhas eleitorais, elas serão sempre uma expectativa de futuro que poderão ou não ser confirmadas, é exercício cidadão, faz parte do aprendizado. Não posso predizer que todos os meus votos serão vitoriosos, mas posso dizer que eles foram muito bem pensados, logo, não serão esquecidos.


Ah! Essas pesquisas. Dá para acreditar?

 As pesquisas, tal qual como são realizadas, fazem mais parte da nossa vida do que muita gente imagina. Para muitos, elas só existem nas eleições. De fato, é quando ganham maior visibilidade. Elas são utilizadas para diversos fins, além das opiniões das pessoas sobre os candidatos, pesquisam informações sobre produtos e serviços; como as pessoas avaliam uma marca ou negócio; a aceitação de um novo produto; tendência dos leitores e da audiência aos meios de comunicação; o que as pessoas pensam sobre determinados assuntos etc. Enfim, o tempo todo, as pesquisas estão rolando em algum canto, sobre algo que diz respeito ao nosso dia a dia.

Conceitualmente, pesquisa de opinião é um levantamento científico e estatístico a partir de uma amostra específica em cima de um determinado público-alvo. Para apresentar bons resultados, depende da metodologia utilizada, das perguntas formuladas, da pesquisa de campo que pode ser presencial, nas ruas ou em casas, ou por telefone ou via internet. As presenciais são as mais consideradas, e, finalmente, a consolidação dos dados levantados com base no perfil socioeconômico oficial.

Os institutos mais conhecidos, há mais tempo no mercado, trabalham com pesquisas o ano todo e prestam serviços, majoritariamente, para as grandes empresas. Nenhuma empresa privada contrata um instituto sem a garantia de que a metodologia seja adequada e aponte para resultados confiáveis. O custo das pesquisas eficientes é alto. Ninguém gosta de jogar dinheiro fora.

Talvez, o grande erro daqueles quem não entendem o como as pesquisas funcionam é imaginá-las como uma bola de cristal, aquela que advinha o futuro. Toda e qualquer pesquisa confiável mede a tendência do momento e não o resultado final. Não é a pesquisa que muda a opinião, mas a opinião que provoca as variações nas pesquisas.

Mas afinal, as pesquisas eleitorais são ou não são confiáveis? A resposta é: depende do instituto. Aqueles que se preocupam com o “após o período eleitoral” e prestam serviços, majoritariamente, para as grandes empresas, com certeza, são confiáveis. Basta um risco de manipulação para perderem credibilidade. As grandes marcas não arriscariam seus futuros nos institutos que não trabalhassem nos seus restritos códigos de ética e de metodologia. Uma empresa que vende seus prognósticos eleitorais aos interesses deste ou daquele candidato, por exemplo, dificilmente terão serviços adquiridos depois. Isso já ocorreu no Brasil pela desconfiança ao Instituto Gallup. 

Outro erro cometido por aqueles que não entendem como as pesquisas eleitorais funcionam é imaginar que elas influenciam, de forma significativa, o resultado de uma eleição. É verdade, que parte dos eleitores acaba votando naquele que está melhor posicionado, mas é verdade, também, que outros votam no segundo colocado para evitar que o primeiro vença. Ou seja, o eleitor usa a pesquisa, como ela deve ser usada, como meio de informação para decidir se muda o voto ou não de acordo com a sua conveniência. Resumindo, estar em primeiro nas pesquisas, não significa vitória certa, principalmente quando as pesquisas realizadas nas últimas semanas e véspera apresentarem variações significativas, momento de definição do voto.

A história das pesquisas eleitorais, tanto no Brasil como nos demais países democráticos, mostra que nem sempre aquele que sai na frente é o vencedor final, e isso não significa que elas erraram, mas que os eleitores mudaram de opinião.

As pesquisas eleitorais acabam contando a história da eleição. Nenhum candidato que não aparecer em primeiro lugar admitirá, e com razão, que as pesquisas desfavoráveis estão certas, isso esfriaria os apoiadores. Os principais concorrentes, contudo, em função dos resultados apontados por elas, ajustam o rumo da campanha, definem as cidades e as regiões que devem ser visitadas, os grupos sociais que merecem atenção etc.. Prova de que as pesquisas devem ser levadas a sério para quem quer sair vitorioso. Ignorá-las é um erro primário.

Vida sem respeito, nada vale

 Na história da humanidade, a barbárie é presente desde o princípio dos tempos. A morte matada, tão costumeira, fazia (e ainda faz) a vida valer absolutamente nada. Por muitos anos, a maioria das pessoas a perdia antes de meio século. A matança não faz parte do desejo animal de assassinar pessoas, como muitos pensam. Faz parte, da falta de respeito humano que leva ao desrespeito à vida. Melhoramos, no entanto.

Com o passar do tempo, o respeito ao próximo evoluiu, em séculos a fim. Um dos impulsionadores foi o mandamento de Cristo que diz "amem-se uns aos outros como eu os amei". Evoluiu lentamente, à medida em que os que se diziam cristãos percebiam que não respeitar o outro era o mesmo que não acreditar que Cristo nos amou, também, em interpretação literal do referido mandamento. Conquistamos, quase todos, o condão da civilidade.

A maioria dos cristãos descobriu que ao faltar com respeito ao próximo era o mesmo que renegar o cristianismo. Os seres humanos e civilizados, religiosos ou não, começaram a refletir sobre as próprias convicções, de qualquer natureza, e perceberam que aquele que não é um “maria-vai-com-as-outras” sabe respeitar as convicções alheias, as diferenças, as individualidades...

Quem constrói convicções sólidas, sabe que elas não caem do céu, que não se instalam num piscar de olhos, por isso, diante das diferenças de pensamento, somente este consegue entender e respeitar as convicções alheias. Questão de conhecimento, experiência e segurança.

Quando respeitamos o outro, apesar das eventuais discordâncias, veneramos a vida que faz sentido: não acreditamos piamente estar sempre certos ou com razão total, não nos colocamos acima de ninguém, não matamos, não desqualificamos, não segregamos, não escravizamos, não exploramos, não inferiorizamos, não rejeitamos, não desprezamos...

Reconhecemos que somos iguais, as diferenças são características da individualidade. Empatia presente. Coisa de gente!


O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS IMÓVEIS

 O presidente, irmãos e filhos negociaram 107 imóveis, dos quais pelo menos 51 foram adquiridos total ou parcialmente com uso de dinheiro vivo.

 

Comprar com dinheiro vivo é permitido, por enquanto, mas é uma forma de transação (principalmente diante do volume de imóveis adquiridos) usada por comprador que faz uso de dinheiro ilícito. Aquele que ele não consegue comprovar a origem. Obviamente, para o plano dar certo, usa-se o artifício de registrar as escrituras abaixo do valor real e só finalizam a compra com essa condição. Logo, além da possibilidade de corrupção, o clã Bolsonaro poderá ter sido beneficiado com a sonegação, não pagando os impostos devidos.

 

As compras registradas nos cartórios totalizaram R$ 13,5 milhões. Em valores corrigidos (IPCA), este montante equivale, nos dias atuais, a R$ 25,6 milhões”. Considerando um deságio médio de 50% nos valores originais dos imóveis, o montante real poderá ultrapassar a casa dos R$ 50 milhões.

 

Curiosamente, um projeto que tramita no Senado Federal desde 2019, que proíbe o uso de dinheiro vivo para transações imobiliárias, tem encontrado dificuldade para avançar diante da má vontade do presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania), Davi Alcolumbre (União-AP).

 

Mais curioso, ainda, nessa história é o senador Flávio Bolsonaro ser o único senador declarar contrariedade ao projeto.

 

Para elucidar tal milagre, presidente, irmãos e filhos devem prestar os devidos esclarecimentos, apontando de forma transparente e fiel a origem do dinheiro empregado. Para quem comanda um país e prega o fim da corrupção, quanto antes esclarecerem, melhor para a construção de um Brasil mais justo e honesto.  

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A política e o desencanto

A política e o desencanto

Vejo muitas pessoas desencantadas com a política. Pior do que isso é ver outras acreditando que alguém poderá aparecer para salvar o nosso país das suas eternas amarguras, instantaneamente.  

Entre os desencantados, 70% dos jovens de 16 a 24 anos se mostraram, em uma pesquisa realizada no ano passado, não ter nenhum interesse em participar da vida política, 85% mantém distância do movimento estudantil, menos de 7% atuam em movimentos sociais, audiências públicas e conselhos municipais. A quem pertence o futuro deste país?

É mais do que justificável o crescimento do desencanto dos brasileiros pela política: nela não falta desonestidade, nela sobra incompetência, nela há exagero na arte de mentir, nela não há compromisso com o futuro da cidade e da nação, nela o gasto não se preocupa com o dia seguinte e nela se contrata pessoal além da necessidade. 

Não podemos nos desencantar com a política, assim abandonamos o Brasil à sua própria sorte. Há 2350 anos, Platão, filósofo grego, dizia: “o castigo dos bons que não fazem política é serem governados pelos maus”. Há 250 anos Kant acreditava que a razão humana pode definir o que é certo ou errado. Por isso, o melhor caminho é fazer o que é certo.

Juntando os dois filósofos, podemos até abandonar os políticos, mas jamais a política, caso contrário estaremos contribuindo para um país cada vez pior, eternizando a pobreza, a insegurança e a violência.

Se encantar com a política, se envolver com a política, fazer política, não significa se apresentar como candidato a qualquer cargo, significa estar ligado às ações políticas que impactam a vida de todos nós, opinando, criticando, sugerindo, e, sobretudo, acompanhando e cobrando os governantes e legisladores eleitos. É ser um povo que vive a política além dos períodos eleitorais e, desse povo, certamente sairá, progressivamente, políticos melhores.

Fazer política é aprender a conversar e negociar, saber que ninguém tem a verdade absoluta do que é melhor para todos. Saber que o importante é navegar entre os diversos interesses e encontrar o desejo da maioria, tendo como objetivo os benefícios comuns e os recuos necessários para o entendimento.

Devemos todos despertar para a importância da política em nossas vidas e batalhar por melhorias coletivas, não individuais, garimpando informações confiáveis para discutir com familiares, amigos e conhecidos. Podemos ser melhorados participando das associações de bairro, das organizações não governamentais, dos conselhos municipais, enfim, de qualquer entidade que trabalhe em busca do bem comum.

A política nos tira da zona de conforto? Com certeza! Mas também nos tira da posição incomoda que é criticar sem fazer nada para melhorar aquilo que a gente critica.

Generalização: erro imperdoável que pode ser devastador

 

Todos clamam por justiça, mas muitos podem cometer injustiças quando generalizam. A generalização, carregada de desprezo e ódio, se tornou prática frequente nos últimos tempos. Através dela as pessoas querem definir o caráter, a honestidade, o pensamento e a tendência política dos outros. Pior, quando julgam e condenam.

Nem todo jovem é vagabundo ou usuário de drogas.

Nem todo homem é safado ou violento contra as mulheres.

Nem toda mulher é interesseira ou gastona.

Nem todo advogado é desonesto.

Nem todo juiz vende sentença.

Nem todo promotor evita casos espinhosos.

Nem todo médico só quer ganhar dinheiro.

Nem todo patrão é explorador.

Nem todo empregado faz corpo mole.

Nem todo funcionário público é corrupto.

Nem todo político é ladrão.

Nem todo cozinheiro é sujo.

Nem todo pedreiro é enrolador.

Nem todo pobre quer roubar do rico.

Nem todo preto é criminoso.

Basta imaginar o que seria deste país se as nossas generalizações representassem a maioria da população. Nem é bom pensar.

As generalizações também abarcam temas como religião, artes, alimentação, esportes, legalização das drogas e do aborto, identidades de gênero e por aí afora.

Quando generalizamos, atribuímos às pessoas ou aos assuntos aquilo que imaginamos conhecer por conta de experiências passadas, ou nem sempre, fazendo abstração a partir de detalhes particulares não totalmente conhecidos. Generalizamos por indução de maneira inconsciente ou de maneira deliberada.

Enfim, quando generalizamos e ainda condenamos, a injustiça tem grande chance de estar presente. Aquela história de “conheço o cara pela cara” é apenas uma história.

O aniversário da minha cidade

 


No dia 24 de outubro celebramos a data de fundação de Itapira. Não é um dia qualquer. É o aniversário da minha cidade. No bolo, 201 velhinhas.

Itapira recebeu os meus antepassados, imigrantes italianos. Aqui meus pais nasceram, viveram, faleceram e onde estão sepultados. Neste lugar nasci, me criei, formei a minha família e construí grandes amizades. Nunca imaginei, nem por brincadeira, morando em outro lugar e o que faria se tivesse que partir, um dia, de mala e cuia.

Não contando os meus primeiros anos de vida, estou há 60 anos pisando neste chão - testemunha das minhas andanças – e participando direta ou indiretamente ou como espectador da maioria dos acontecimentos que escreveram a história recente da minha cidade.

Observo que Itapira vem mudando a cada ano. O “24 de outubro” de hoje não é tão festivo como o de antigamente. Noutros tempos, nessa data, eu tinha a sensação de que a cidade inteira se reunia na Praça Bernardino e na Rua José Bonifácio. De manhã, nos desfiles. À noite, nos shows. Era uma das datas mais esperadas do ano. O carnaval colocava o povo nos salões e nos desfiles de rua. A moçada marcava presença todos os sábados e domingos na praça central. As ruas com pedras foram trocadas pelo asfalto. Os velhos casarões, pouco a pouco, são substituídos por construções modernas. A Itapira da minha infância e adolescência quase não existe mais, mas está salva na minha memória que conta com obras primorosas de historiadores dedicados como Jácomo Mandato e Arlindo Bellini.

Em 1960, a população do município de Itapira girava em torno de 37 mil habitantes, mas na cidade não passávamos de 17 mil. Em 1970, subimos para 25 mil. Era uma maravilha. Pouco trânsito. Não tínhamos problemas com a falta de segurança, meia dúzia de soldados dava conta do recado. As madrugadas eram para quem quisesse curti-las. Hoje, com a população urbana está quadriplicada, o desenvolvimento nos beneficiou, mas trouxe problemas que não tínhamos a tiracolo.  

A minha Itapira de hoje sente falta de tanta gente que partiu, da praça cheia de gente, dos bares que não existem mais. A minha Itapira nunca foi só minha, pois nada pude fazer para mantê-la do jeito que eu queria. É que ela é de todos que aqui nasceram ou dos que a adotou como sua, principalmente, daqueles que aqui nasceram depois de mim, gente com novas ideias, com novas expectativas. É a trilha inexorável da evolução, goste eu ou não. Que assim seja e assim será para sempre!

O Baile dos Mascarados

 


É incrível, mas todas as gerações que passaram por este mundo fizeram o mesmo que a atual tenta fazer sem sucesso: manter o mundo imutável, do jeito que conheceu, sem mudanças significativas. Eu me refiro às mudanças sociais, que mexe com as configurações e com as estruturas da sociedade, alterando as referências culturais, os padrões de comportamento e os valores que regulam as relações individuais. Mudanças que vão dando aos mais velhos a dimensão de que realmente ficaram mais velhos. Essas mudanças nem sempre são acertadas, mas certamente são corrigidas ao longo do tempo, pois a motivação é a busca por mundo melhor. O mundo não deixa de mudar só para não contrariar os que não querem as mudanças, por mais ardorosa que seja a torcida contraria.

Até o início do século XX, entrava geração, saía geração, pouca coisa mudava. A partir de 1925 seis gerações transformaram o mundo: Veteranos, Baby Boomer, X, Y, Z e Alfa. Cada uma delas, com características próprias, impôs mudanças socialmente mais agressivas, renovando conceitos, apesar de muita resistência. O mundo é totalmente diferente do que há cem anos. Descobrimos que somos seres em transformação, que somos levados pela natureza, pela sociedade, pelas etapas da vida e pelo nosso crescimento pessoal. Somos mais escolarizados e mais conectados com o mundo. A cada avanço, as resistências caem. Os mais resistentes, mais cedo ou mais tarde, são vencidos. Quem não se rende acaba sofrendo por mais tempo. É a lei da evolução social que exige adaptação.

O termo “mascarado”, para ficarmos em um simples e corriqueiro exemplo, na minha vida aparece em quatro momentos distintos. O primeiro, nas brincadeiras de mocinho e bandido e nos bailes carnavalescos; só alegria. O segundo me faz lembrar dos amigos e conhecidos bons de bola ou bons de escola ou bons de qualquer outra coisa que, dependendo da postura arrogante, a gente chamava de “mascarado”; pura dor de cotovelo. O terceiro vem dos bandidos que usavam máscaras (muitos ainda usam) para a prática de crimes reais ou nos filmes; motivo de preocupação. Finalmente, o quarto, a máscara que veio para reduzir a propagação do vírus e nos proteger da Covid-19; medo de morrer.

Quando se fala em um mundo em transformação, devemos considerar: os fenômenos atmosféricos e climáticos; os grandes conflitos de poder, terra ou religião; a fome; as investidas ditatoriais, os arroubos da juventude e as pandemias que impactaram a humanidade: Peste Negra, século XIV, onde cerca de 150 milhões de pessoas morreram e a Gripe Espanhola, de 1918, que matou cerca de 50 milhões de pessoas. A máscara foi ajudante fundamental.

Hoje ninguém mais associa em primeiro plano a máscara como um adereço de brincadeira ou de carnaval ou de bandidagem. A máscara mais famosa é a que quase todo mundo está usando e que poderá ser um acessório presente nas nossas vidas daqui em diante.

O Baile dos Mascarados pode não terminar quando o Sol raiar. Depende de nós!

Amigo é coisa para se falar


Eu estava entretido com meu celular, esperava minha mulher que fazia compras, quando uma pessoa conhecida bateu na janela do meu carro. Compenetrado, levei um baita susto. Abri o vidro e ele me falou: “gosto de ler as coisas que você escreve, vou pedir para você escrever sobre os amigos e o quanto eles são importantes nas nossas vidas”. Pus-me a pensar!

Intempestivamente, mas o Dia do Amigo já passou. Pensei mais um pouco. Como não? É reconhecido que as datas comemorativas oficiais são importantes e provocam mais reflexões do que nos demais dias. Me questionei: é preciso ter um dia burocrático para refletirmos sobre o papel das mães, dos pais, dos amigos? Decididamente, não.

Eu construí amizades ao longo da vida. As principais somam quarenta, cinquenta anos. Nossos encontros aconteciam em restaurantes, churrascos, nas nossas casas, nas chácaras de recreio, nas viagens... O último deles aconteceu em uma pizzaria há 385 dias. Fomos separados pela pandemia. Nesse tempo, a gente se falava ao telefone ou por mensagens. Nos encontrávamos de vez em quando, guardando distância, cada um com sua máscara. Mas nada como estar juntos, discutindo assuntos sérios ou jogando conversa fora, trocando experiências na maior confiança, compartilhando alegrias e tristezas, comemorando as conquistas e não perdendo nenhuma oportunidade para zoar com a cara do outro.

Aos meus amigos, faço minhas as palavras de Vinicius de Moraes: “Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida”.   

Nessa pandemia muita gente perdeu parentes, amigos e conhecidos. Mais gente, ainda, teve parentes, amigos e conhecidos que sofreram ou ainda sofrem com essa doença. Tudo isso é muito triste. Assim como é triste saber que quase todo mundo ficou, de um jeito ou de outro, tanto tempo sem poder encontrar com seus amigos.

Felizmente, e assim quero crer, estamos na reta final dessa pandemia. Com a vacinação avançando, falta pouco para voltar os encontros presenciais com amigos. Andei fazendo umas contas, acho que levaremos uns três ou quatro anos para colocar a conversa em dia, festejar os aniversários não festejados, os churrascos não “churrascados”, as saideiras não tomadas. Partiremos felizes para esse sacrifício!