quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Quem sou eu para condenar o voto de alguém?

Decididamente, ao que parece, muita gente ainda não consegue entender a natureza do voto: a escolha deste ou daquele candidato. Eu tenho uma teoria que diz que quando não entendemos as escolhas dos outros, provavelmente, enfrentamos dificuldades para entender as nossas próprias escolhas. Por consequência, tendemos a colecionar más escolhas, não necessária e somente as eleitorais.

Tenho observado os torcedores dos dois candidatos que disputarão o segundo turno deste ano tecendo críticas desrespeitosas aos que dedicaram votos discordantes, como se estes tivessem a chave do voto perfeito ditada pelos tais críticos. Essa atitude ultrapassa o limite da torcida, que deve ser finalizada no encerramento da votação, considerando os preceitos de civilidade e de cidadania.

O máximo que podemos esperar é que a urna mostre o chamado voto consciente. Aquele que foi pensado, estudado, pesquisado e definido. Podemos esperar, também, que feita a escolha, o eleitor se disponha a acompanhar os nomes escolhidos ou aqueles que foram beneficiados com os votos dados. Como se sabe, nas eleições proporcionais, os deputados eleitos dependeram da soma dos votos dados aos candidatos do partido ou à legenda. Podemos esperar, ainda, que aqueles que votaram nos nomes majoritários não vitoriosos reconheçam o desejo da vontade popular, e, ponto final. Além dessa esperança, não podemos exigir nada mais além. Cada um vota como bem entende. Detalhe: não é esse desrespeito que fará o eleitor contrário a mudar o voto seguinte, na prática, acaba reforçando os princípios da escolha feita. A base do voto é o conjunto da obra, princípios e tarefas.  

Quando torcemos o nariz para determinados candidatos, podemos até fazer campanha contraria na tentativa de convencer as outras pessoas, mas não podemos esperar ou exigir que as escolhas alheias não fujam daquilo que entendemos ser o melhor caminho.

Quando pregamos o voto consciente, não podemos imaginar que a consciência alheia é semelhante à nossa. O máximo que podemos afirmar é que o voto inconsciente é o voto não pensado do ponto de vista coletivo, normalmente, com baixa intensidade. A maioria vota de acordo com a consciência, escolhendo candidatos que tenham visões de mundo semelhantes. Aquele que vota em candidato envolvido em corrupção, por exemplo, pode não ter acreditado nesse envolvimento ou, simplesmente, não colocar a corrupção como um problema para a vida dele; aquele que vota em candidato contrário à preservação do meio ambiente, certamente, não coloca esse tema como preocupação principal; aquele que vota em nome da religião, acredita que o religioso é seu melhor representante; aquele que vota em candidato avesso às políticas sociais, aposta que os pobres conseguem superar suas dificuldades desde que tenham força de vontade, descartando a interferência governamental como fundamental. Enfim, tantos outros exemplos poderiam ser elencados, o fato é que o voto é individual, uma vez dado, só ganha força quando a maioria seguir o mesmo caminho. Senão, é voto perdedor, que deve ser respeitado, assim como o voto vencedor. A vitória eleitoral não é individualista, é coletiva.

Ao tentar entender como é o processo de escolha do voto, reforçamos os critérios das nossas escolhas. O respeito, em qualquer situação, é essencial nos relacionamentos humanos. O desrespeitoso, mais cedo ou mais tarde, um dia entra no grupo dos não confiáveis e faltará com respeito até para os mais próximos.

Para concluir, valho-me do pensamento do filósofo Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Então, volto a perguntar: “quem sou eu para condenar o coração de alguém? ”