Um lado gostou, o
outro detestou. E agora, José?
Para o filósofo
estoico Sêneca, os acontecimentos em si são neutros, não sendo inerentemente
bons nem maus. O que transforma um fato ou uma notícia em algo “bom” ou “ruim”
é o nosso julgamento, a maneira como o interpretamos. Já para o filósofo
racionalista Gottfried Leibniz, que investigou como o bem e o mal coexistem no
mundo, um acontecimento negativo pode fazer parte de um contexto necessário
para que um bem maior seja compreendido ou alcançado.
Nas últimas
eleições, o campo conservador foi, sem dúvida, o grande vencedor. A esquerda
não gostou, mas há um aspecto que merece destaque sob a perspectiva
democrática: a direita e a extrema-direita poderão ser reconhecidas e
identificadas com maior clareza pelo eleitorado. E isso é muito bom. Até bem
pouco tempo, boa parte da direita fingia-se de morta ou se dizia de centro,
posição que, em tese, permitiria pender para um lado ou para o outro, sem
cerimônia.
Nenhuma democracia
se fortalece sem correntes políticas relevantes, capazes de disputar o poder e
apresentar projetos distintos para o país. O essencial é que todas respeitem
rigorosamente as regras do jogo democrático.
No campo
progressista, os resultados das eleições legislativas mostram que esse grupo
conseguiu preservar seu espaço: não perdeu terreno e ainda ampliou a
representação feminina. Isso não significa, porém, que possa se acomodar. Para
os próximos pleitos, a esquerda precisará rever práticas, estratégias e
conceitos.
Já o grande
perdedor foi o Centrão. Partidos tradicionais desse bloco, como União Brasil,
PP, MDB, Republicanos e PSD, encolheram em relação a 2022. Perdeu cadeiras na
Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Esse encolhimento,
contudo, não torna o Centrão insignificante. Ele continuará sendo fundamental
para a formação de maiorias no Congresso Nacional e, por isso, seguirá no
centro das articulações e disputas presidenciais. Só resta saber até que ponto
a direita se sujeitará aos caprichos do grupo.
Ao perder força, o
Centrão abre espaço para uma mudança institucional relevante: o Parlamento
poderá, daqui em diante, expor com mais transparência as reais posições e
orientações ideológicas de seus integrantes. Desde a redemocratização, a
política brasileira convive com alianças pragmáticas que frequentemente
embaralham as fronteiras ideológicas e dificultam a responsabilização dos que
tomam as decisões. É possível que esse movimento também contribua para uma
redução significativa do número de partidos. Que assim seja!
Quanto mais claras
forem as posições dos partidos e de seus representantes, maior será a
capacidade do eleitor de avaliar, comparar e cobrar. Afinal, só assim a escolha
nas urnas poderá refletir, de fato, o Brasil que cada cidadão deseja construir.
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