segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O algoritmo de 1984 e a resistência à cegueira

 


Quando observo as redes sociais, tenho a sensação de que um Grande Líder exerce controle absoluto sobre parte das pessoas que por ali transitam, influenciando suas opiniões, seus comportamentos e até a maneira como interpretam a realidade.

Imagino que, em suas casas, nos locais de trabalho e nos espaços de lazer, por meio de computadores e celulares equipados com câmeras e microfones, essas pessoas recebam, ininterruptamente, mensagens destinadas a orientar seus pensamentos e comportamentos, enquanto seus sons, imagens e movimentos são monitorados.

Percebo que a língua portuguesa, tão rica em palavras e possibilidades de expressão, vem sendo reduzida, como se o vocabulário dessas pessoas estivesse sendo progressivamente podado. Com menos palavras e ideias cada vez mais repetitivas, torna-se mais difícil formular pensamentos críticos, questionar as orientações recebidas e, sobretudo, rebelar-se contra elas.

Vejo também a aceitação voluntária de contradições evidentes, como se duas crenças opostas pudessem ser verdadeiras ao mesmo tempo. É a submissão às três afirmações perturbadoras: “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão e Ignorância é Força”.

Essas pessoas parecem acreditar na verdade proclamada pelo Grande Líder, que, paradoxalmente, trabalha para apagar a própria verdade. Quer registros históricos, jornais e documentos reescritos para eliminar fatos inconvenientes, ocultar erros e crimes. O passado é alterado para que corresponda ao discurso do presente, como se a realidade pudesse ser modificada pela simples imposição de uma narrativa.

É como se essas pessoas fossem submetidas diariamente aos obrigatórios “Dois Minutos de Ódio”, durante os quais a raiva e as frustrações reprimidas são direcionadas contra os inimigos do Grande Líder. A indignação deixa de ser fruto da reflexão e passa a ser um instrumento de manipulação, alimentando a hostilidade contra aqueles que ousam pensar de maneira diferente.

Mas também vejo pessoas conscientes dessas manipulações. Elas travam uma luta de resistência, tentando impedir que a mentira se consolide como verdade. Publicam mensagens, apresentam fatos e procuram despertar consciências, embora nem sempre sejam lidas, compreendidas ou sequer consideradas por aqueles que permanecem presos à narrativa dominante.

Quem leu o romance 1984, de George Orwell, percebeu similaridades e se lembra de que, no final, todas as tentativas de luta de preservar a individualidade dos cidadãos de Oceania fracassam. Submetidos a torturas e à lavagem cerebral, os resistentes passaram, também, a amar o Grande Irmão.

O livro é um alerta de Orwell: a vitória do totalitarismo não acontece apenas quando as pessoas obedecem por medo, mas quando perdem a capacidade de reconhecer a própria opressão e passam a amar aquilo que as domina.

Particularmente, não acredito que estejamos condenados a repetir o mesmo destino. Tampouco acredito que a cegueira que parece dominar parte do povo brasileiro seja capaz de prevalecer indefinidamente sobre a realidade, o conhecimento, a liberdade e a democracia.

Afinal, o maior problema não está na tentativa de nos impor mentiras, mas em quando deixamos de procurar a verdade — ou, pior, quando passamos a amar quem nos engana.