Vinha eu de volta para casa, depois do nosso encontro de 45 anos
de formados e, como em outras ocasiões, comecei a pensar no texto que
refletiria, sob a minha perspectiva, os momentos vivenciados.
Pensei em escrever sobre a minha fala no “Esta é sua vida”, do velho
Maurício, mas sem repetir a mesma estrutura. Faltava-me, porém, aquela pegada
que favorece as conexões e dá liga ao texto.
Ao passar por Pouso Alegre, apelei para São Fernando, protetor dos
desamparados. E nada!
Ao passar por Borda da Mata, lembrei-me de Santo Eduardo e de que,
dois dias depois, em 13 de outubro, seria o dia dele. Arrisquei. Neca de
pitibiribas!
Ao passar diante daquele meninão encostado na baita porteira na
entrada de Ouro Fino, apelei para São Narciso, a quem se atribui a
transformação da água em óleo para uso nas lamparinas do templo. Roguei para
que me desse uma luz.
Logo na primeira reta da estrada, alcancei um caminhão que trazia,
no para-choque traseiro, uma frase até então desconhecida para mim: “Sonhar
custa caro. Desistir custa um sonho.”
Iluminado, gritei:
— Bingo! É com esta que eu vou!
Quando prestei vestibular para o Inatel, entre tantos sonhos, o
maior era me tornar engenheiro. Mal as aulas começaram, porém, um novo sonho brotou
no meio: criar uma escola. Quando me formei, o embrião da minha escola já
estava criado. O sonho intrometido se realizaria em 1986.
Durante muitos anos, imaginei que, apesar de ter realizado o sonho
de criar uma escola, o de ser engenheiro não havia se concretizado. Cheguei a
me perguntar se os cinco anos dedicados ao Inatel teriam valido a pena. Afinal,
nunca fui engenheiro de fato.
Até que, um belo dia, vasculhando uma gaveta reservada a
documentos importantes, deparei-me com meu diploma. Foi quando me dei conta de
que lá estava escrito, com todas as letras: Engenheiro Eletricista.
Lembrei-me também de ter solicitado, logo depois de receber o diploma, meu
registro no CREA, que emitiu minha carteira profissional. Enfim, eu não exercia
a engenharia, mas era engenheiro de direito.
Aliás, sempre soube que a Engenharia é um curso reconhecido por
desenvolver forte capacidade analítica, raciocínio lógico e habilidade para
resolver problemas complexos. Essas competências são tão valorizadas que, ao
pesquisar, descobri que muitos formados na área acabam trabalhando em outros
setores, levando consigo, acima de tudo, o chamado "perfil de
engenheiro". Acionei o lé com cré e pensei: quantas decisões devo ter
tomado com base nos estudos no Inatel sem que eu percebesse?
Depois disso, mandei emoldurar meu diploma. Lá está ele, na parede
do escritório-biblioteca da minha casa. Até hoje, não passa um dia sem que eu
olhe para ele pelo menos uma vez, com muito orgulho. Mas o caso não se
encerrava aqui.
Passei a resgatar, de diferentes maneiras, a minha ligação com o
Inatel. Na primeira viagem que fiz a São Lourenço, em 2010, aproveitei a
passagem por Santa Rita do Sapucaí para levar meus filhos para conhecer o
Inatel, a praça central e a república onde morei.
Senti a necessidade de me reconectar com os amigos com os quais
convivi por quase cinco anos sobre o mesmo teto: Álvaro, Moysés e Thiago. Nos encontramos em janeiro e dezembro de 2016
e novamente em outubro de 2017. O próximo passo era me reaproximar dos demais
colegas.
Em outubro de 2018, participei do encontro de 37 anos de formados.
Desde então, estive presente em todos os encontros. Só faltei em 2023, porque a
data coincidiu com uma viagem adiada desde a época da pandemia e, na
redefinição das datas, não tive muitas possibilidades de escolha.
Em todos esses encontros, era evidente, entre os presentes, o
orgulho de ser engenheiro do Inatel. Todos eles estão registrados em vídeos e
fotos, devidamente armazenados e catalogados.
Com meu sonho de ser engenheiro realizado com todas as pompas e
circunstâncias, a minha história não foi truncada.
O Inatel não havia sido um acidente de percurso, como tantas vezes
cheguei a imaginar. Fez parte da minha vida pessoal e profissional. Penso que
nada da nossa história deve ser renegado ou esquecido. O Inatel foi o lugar
onde vivi, aprendi, errei, acertei, fiz amigos, enfrentei desafios e,
principalmente, comecei a construir a pessoa que viria a ser na transição entre
a juventude e a vida adulta.
Minha vida profissional tomou outro caminho, mas isso não
aconteceu por acaso. Esse caminho foi construído a partir de tudo aquilo que
veio antes.
Ao reconhecer a importância do Inatel na minha história,
restabeleci minha identidade.
E, ao participar dos nossos encontros, reconectei-me com um
passado que eu pensava não ser meu.
Encerro recorrendo a Nietzsche, para quem o amor ao destino — o amor
fati — é uma expressão da grandeza humana. Trata-se de amar a vida
exatamente como ela é, sem desejar que nada tenha sido diferente: nem no
passado, nem no presente, nem na eternidade.
Não se trata de conformismo, mas de uma atitude ativa diante da
existência: amar a própria história tão intensamente a ponto de transformar o
peso do destino em matéria-prima para a liberdade e a soberania pessoal.
Concluo dizendo que viver é um ato onde a realidade, apesar dos
nossos sonhos, se impõe. Os custos da nossa existência são cobrados ou
recompensados independentemente das entregas. Sonhar e não desistir é pagar
para ver a realidade sonhada. Já o custo da desistência de um sonho é
impagável.
