quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Brasil e Argentina: por que a "receita choque" não se aplica ao nosso país

Alguns brasileiros defendem para o Brasil as mesmas medidas — ou até outras mais radicais — adotadas na Argentina. Será que seria um bom negócio? Estaria o país preparado para enfrentar as consequências?

Em primeiro lugar, cabe perguntar: o Brasil vive a mesma realidade que a Argentina enfrentava antes da posse de Javier Milei?

Na Argentina, a inflação havia atingido níveis extremos; no Brasil, apesar dos desafios, ela está sob controle.

As reservas internacionais argentinas eram de aproximadamente US$ 21,5 bilhões, contra cerca de US$ 370 bilhões do Brasil atual.

A dívida externa argentina girava em torno de US$ 280 bilhões, mais de 13 vezes o valor de suas reservas. No Brasil, o montante está na casa dos US$ 398 bilhões, pouco mais do que o valor de nossas reservas.

O risco-país argentino havia chegado a 4.281 pontos-base. O brasileiro, neste mês, está em 112 pontos-base, um dos menores níveis dos últimos anos.

As diferenças são expressivas. Não dá para comparar as duas situações como se fossem equivalentes. O Brasil enfrenta problemas fiscais e juros elevados, mas não depende de um socorro do Fundo Monetário Internacional como a Argentina. Além disso, o país passou de devedor do FMI em 2005 a credor externo líquido em 2009, condição que manteve a partir de então, embora isso não signifique que tenha deixado de possuir dívida externa, porém não mais considerada impagável como no início deste século.

Antes da posse de Javier Milei, em dezembro de 2023, a Argentina devia cerca de US$ 44 bilhões ao FMI. Atualmente, sua dívida com o Fundo gira em torno de US$ 57 bilhões, mantendo o país na posição de maior devedor da instituição.

Enquanto correntes liberais defendem que o rigor fiscal argentino poderia trazer benefícios ao Brasil, especialistas alertam que as diferenças estruturais entre os dois países tornam arriscada a simples importação desse modelo, com possíveis consequências recessivas e sociais.

Seus defensores do modelo argentino apontam benefícios como a redução drástica do déficit público, o controle mais rigoroso das despesas estatais, o combate a privilégios e a diminuição da burocracia, com o objetivo de estimular investimentos privados.

Por outro lado, economistas e especialistas em políticas sociais alertam para os riscos de ajustes extremos: queda acentuada do consumo interno, aumento da pobreza e perda do poder aquisitivo. Também apontam que uma flexibilização excessiva das relações de trabalho pode ampliar a informalidade e a vulnerabilidade dos trabalhadores, enquanto cortes severos de gastos podem comprometer universidades, ciência e infraestrutura.

Para o mercado financeiro e os investidores internacionais, medidas duras de ajuste são vistas como um remédio amargo, porém necessário, para melhorar a sustentabilidade da dívida pública e criar condições para o crescimento futuro.

Para uma parcela expressiva da população e para especialistas em desenvolvimento, entretanto, o custo humano e social pode ser alto demais, comprometendo conquistas históricas sem que isso represente, necessariamente, a melhor solução para os problemas fiscais brasileiros. Afinal, o Brasil não enfrenta o mesmo quadro de colapso econômico e financeiro que a Argentina vivia antes de Milei.

Qual seria, então, o melhor caminho para o Brasil?

A orientação defendida por muitos analistas econômicos e por organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, passa pela sustentabilidade fiscal e pelo aumento da produtividade. Isso exige buscar o equilíbrio das contas públicas de maneira consistente e crível, enfrentando o crescimento estrutural das despesas obrigatórias e melhorando a qualidade dos gastos.

Essa tarefa, porém, não depende apenas da vontade do futuro presidente. Exige diálogo e cooperação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, respeitadas suas competências constitucionais.

Uma política fiscal mais consistente pode contribuir para reduzir as pressões inflacionárias e criar condições para que o Banco Central diminua os juros. Também será fundamental implementar eficientemente a Reforma Tributária, simplificando o sistema e reduzindo distorções que oneram os investimentos e as exportações.

O que não faz sentido é apostar em alternativas drásticas sem considerar seus efeitos sobre os menos favorecidos. Cortes profundos e indiscriminados nos gastos públicos, ainda que apresentados como necessários ao equilíbrio fiscal, podem comprometer serviços essenciais, ampliar desigualdades e prejudicar o próprio desenvolvimento econômico.

O Brasil deixa de arrecadar R$ 620,8 bilhões por ano com subsídios e desonerações fiscais, o que equivale a mais de 22% de toda a receita esperada. Diante desse cenário, por exemplo, um corte gradual e linear de 10% ao ano nesses benefícios às empresas não seria a alternativa mais viável e responsável para equilibrar as contas públicas? Além de restabelecer a igualdade de condições entre as empresas, essa medida propiciaria uma redução generalizada na carga tributária, sem afetar os necessários benefícios sociais, a previdência, a Saúde e a Educação.

Medidas responsáveis, aplicadas com inteligência e sensibilidade social, podem colocar o Brasil em condições de competir com as economias mais dinâmicas do mundo emergente, como China e Índia, integrantes do BRICS.

Diante das economias desenvolvidas, como as dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, o país também poderá fortalecer sua credibilidade internacional e consolidar sua imagem como um destino seguro e atraente para investimentos.

O Brasil merece. E todos os brasileiros também.