domingo, 25 de outubro de 2026

Os candidatos passam. Os amigos ficam.

 



Há conversas que precisamos ter, não para discutir quem ganhou ou perdeu uma eleição, mas para refletir sobre o comportamento que tivemos durante a campanha. Afinal, na tentativa de defender nossas convicções, será que não ultrapassamos alguns limites?

É com você que votou em Flávio Bolsonaro ou em Lula e, na ânsia de conquistar votos para seu candidato, exagerou na dose, que quero ter uma conversa sincera.

Faço questão de esclarecer que escrevi este texto antes da votação, para que minhas palavras não fossem influenciadas pelo resultado das urnas. O artigo foi publicado no meu blog, onde é possível conferir a data para quem desejar conferir.

Portanto, meu foco não são os candidatos nem o resultado da eleição, mas o comportamento de alguns eleitores, tanto lulistas quanto bolsonaristas.

Vamos começar pelo básico: todo cidadão tem o direito de escolher livremente em quem votar. É natural que João, eleitor de Flávio Bolsonaro, tente convencer Antônio, que prefere Lula, a mudar de ideia. E vice-versa. Isso faz parte da democracia.

O problema começa quando João, sem argumentos suficientes, dispara:

— Lula é ladrão, e quem vota nele também é! Você é cego? Não enxerga o que está acontecendo?

Antônio, ofendido, devolve:

— Quem vota em Bolsonaro é fascista! É miliciano! É idiota! É gado!

Pronto! A discussão deixa de ser sobre política e se transforma em uma troca de ofensas. Cada um tenta ferir o outro, como se humilhar o adversário fosse uma maneira de provar que está certo.

O ambiente fica desagradável, os ressentimentos se acumulam e, muitas vezes, a discussão termina afastando pessoas que convivem há anos. Afinal, João e Antônio podem ser amigos de longa data, parentes ou colegas de trabalho.

Como chegamos ao ponto de permitir que uma divergência eleitoral coloque tudo isso em risco?

Não pretendo condenar quem agiu dessa maneira. Vivemos um momento particular da história política brasileira. As transformações tecnológicas mudaram a maneira como recebemos e compartilhamos informações. Em segundos, uma mentira pode alcançar milhares de pessoas, assim como uma informação verdadeira. Nesse ambiente, as emoções frequentemente se sobrepõem à razão.

Mas vale uma reflexão: o que houve de tão equivocado nesta campanha?

Em vez de apresentar as qualidades do próprio candidato, muita gente preferiu atacar o adversário e desqualificar quem pensa diferente. Como se apontar os defeitos do outro fosse suficiente para demonstrar as virtudes daquele que defendemos.

Dizemos defender a democracia, mas nem sempre respeitamos o direito de alguém pensar de maneira diferente. Queremos liberdade para expressar nossas opiniões, mas, quando contrariados, esquecemos que essa liberdade também pertence ao outro.

Democracia não é a obrigação de concordar. É a capacidade de conviver com a discordância.

Por isso, pergunto: faz sentido romper uma amizade de décadas por causa de uma disputa eleitoral? Faz sentido dividir uma família por causa de um candidato?

Afinal, o que é mais importante: a família, as amizades ou quem vai ocupar a Presidência da República?

Passada a eleição, o vencedor e o derrotado seguirão suas vidas, enquanto nós continuaremos enfrentando os desafios cotidianos. Teremos contas para pagar, problemas para resolver, alegrias para compartilhar e dificuldades para superar.

E quem estará ao nosso lado? Os amigos e familiares, justamente aqueles que corremos o risco de afastar por causa de uma discussão política.

O candidato que defendemos talvez jamais saiba que existimos. Já o amigo que ofendemos poderá guardar por muito tempo a mágoa de nossas palavras.

Por isso, independentemente de quem venceu ou perdeu, deixo uma sugestão: se você reconhece que passou dos limites, dê o primeiro passo.

Procure aquele amigo de quem se afastou. Retome o contato. Peça desculpas pelas ofensas, mesmo que continue convencido de que estava certo em suas opiniões políticas. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Reúna a família e mostre que as diferenças políticas não precisam destruir os laços afetivos.

Não é preciso mudar de opinião para fazer as pazes. É preciso reconhecer que o outro também tem o direito de pensar diferente.

Isso é respeito. Isso é civilidade. E isso também é uma forma de amor: amor ao próximo.

Mas não confunda essa reflexão com um convite ao afastamento da política. Muito pelo contrário!

Como diz uma frase bastante conhecida, quem não se interessa por política acaba sendo governado por quem se interessa.

Precisamos participar, discutir ideias, fiscalizar governantes e legisladores, cobrar resultados e defender aquilo em que acreditamos.

Quem se identifica com a direita ou com o conservadorismo deve conhecer melhor seus princípios e propostas. Quem se identifica com a esquerda ou com o progressismo deve fazer o mesmo. Mais do que repetir palavras de ordem, precisamos compreender as ideias que defendemos, distinguir fatos de boatos e avaliar propostas e resultados.

Uma democracia saudável exige uma direita e uma esquerda capazes de exercer seus papéis. Quando uma força política assume o governo, a outra precisa ter condições de fiscalizar, apontar falhas e apresentar alternativas. O equilíbrio entre governo e oposição é fundamental para o aperfeiçoamento das instituições.

Não precisamos concordar em tudo. Precisamos aprender a discordar sem transformar o adversário político em inimigo pessoal. Afinal, ninguém está cem por cento certo, assim como ninguém está cem por cento errado. Como diz o velho ditado: cada cabeça é uma sentença.

O amadurecimento político de uma sociedade não se mede apenas pelo resultado das eleições, mas também pela capacidade de seus cidadãos de participar, cobrar, propor e contribuir para melhorar as instituições.

Se você acredita que pode contribuir diretamente para melhorar a política, filie-se a um partido, participe das discussões e considere disputar uma eleição. Se não tem essa vocação, organize-se com outras pessoas, participe de movimentos, utilize as redes sociais e apoie candidatos que realmente representem suas ideias.

A tecnologia nos oferece inúmeras ferramentas para isso.

A eleição não pode ser o começo e o fim da participação política, resumida ao momento de votar a cada dois anos. Ela deve fazer parte de um processo contínuo de amadurecimento democrático.

Construir um país mais justo e próspero dá trabalho. Exige participação, responsabilidade, diálogo e disposição para ouvir quem pensa diferente.

Ficar apenas atirando pedras não resolve absolutamente nada.

Podemos gastar horas tentando provar que nosso candidato é melhor do que o do outro. Mas, se essa energia não se transformar em participação, fiscalização e propostas concretas, o que teremos conseguido além de alimentar ressentimentos?

Talvez João e Antônio continuem discordando sobre política. Na próxima eleição, podem até estar novamente em lados opostos. Isso não precisa mudar. O que precisa mudar é a maneira como lidam com suas diferenças.

Que João defenda suas ideias sem ofender Antônio. Que Antônio conteste João sem desqualificá-lo. E que ambos compreendam que uma amizade construída ao longo de tantos anos não deveria ser sacrificada por uma disputa eleitoral.

Afinal, as eleições se repetem, os candidatos mudam e os governos terminam. A vida, porém, segue seu curso, e não sabemos quanto tempo teremos para desfrutar das pessoas que amamos.

Por isso, deixo duas perguntas para sua reflexão:

Vale mesmo a pena ganhar uma discussão política e perder um amigo?

Vale a pena vencer uma eleição e contribuir para dividir a própria família?

Pense nisso.

Os candidatos passam. Os governos passam. As eleições passam.

Mas os vínculos que construímos ao longo da vida merecem durar muito mais do que uma disputa política.