Há conversas que
precisamos ter, não para discutir quem ganhou ou perdeu uma eleição, mas para
refletir sobre o comportamento que tivemos durante a campanha. Afinal, na
tentativa de defender nossas convicções, será que não ultrapassamos alguns
limites?
É com você que
votou em Flávio Bolsonaro ou em Lula e, na ânsia de conquistar votos para seu
candidato, exagerou na dose, que quero ter uma conversa sincera.
Faço questão de
esclarecer que escrevi este texto antes da votação, para que minhas palavras
não fossem influenciadas pelo resultado das urnas. O artigo foi publicado no meu
blog, onde é possível conferir a data para quem desejar conferir.
Portanto, meu foco
não são os candidatos nem o resultado da eleição, mas o comportamento de alguns
eleitores, tanto lulistas quanto bolsonaristas.
Vamos começar pelo
básico: todo cidadão tem o direito de escolher livremente em quem votar. É
natural que João, eleitor de Flávio Bolsonaro, tente convencer Antônio, que
prefere Lula, a mudar de ideia. E vice-versa. Isso faz parte da democracia.
O problema começa
quando João, sem argumentos suficientes, dispara:
— Lula é ladrão, e
quem vota nele também é! Você é cego? Não enxerga o que está acontecendo?
Antônio, ofendido,
devolve:
— Quem vota em
Bolsonaro é fascista! É miliciano! É idiota! É gado!
Pronto! A discussão
deixa de ser sobre política e se transforma em uma troca de ofensas. Cada um
tenta ferir o outro, como se humilhar o adversário fosse uma maneira de provar
que está certo.
O ambiente fica
desagradável, os ressentimentos se acumulam e, muitas vezes, a discussão
termina afastando pessoas que convivem há anos. Afinal, João e Antônio podem
ser amigos de longa data, parentes ou colegas de trabalho.
Como chegamos ao
ponto de permitir que uma divergência eleitoral coloque tudo isso em risco?
Não pretendo
condenar quem agiu dessa maneira. Vivemos um momento particular da história
política brasileira. As transformações tecnológicas mudaram a maneira como
recebemos e compartilhamos informações. Em segundos, uma mentira pode alcançar
milhares de pessoas, assim como uma informação verdadeira. Nesse ambiente, as
emoções frequentemente se sobrepõem à razão.
Mas vale uma
reflexão: o que houve de tão equivocado nesta campanha?
Em vez de
apresentar as qualidades do próprio candidato, muita gente preferiu atacar o
adversário e desqualificar quem pensa diferente. Como se apontar os defeitos do
outro fosse suficiente para demonstrar as virtudes daquele que defendemos.
Dizemos defender a
democracia, mas nem sempre respeitamos o direito de alguém pensar de maneira
diferente. Queremos liberdade para expressar nossas opiniões, mas, quando
contrariados, esquecemos que essa liberdade também pertence ao outro.
Democracia não é a
obrigação de concordar. É a capacidade de conviver com a discordância.
Por isso, pergunto:
faz sentido romper uma amizade de décadas por causa de uma disputa eleitoral?
Faz sentido dividir uma família por causa de um candidato?
Afinal, o que é
mais importante: a família, as amizades ou quem vai ocupar a Presidência da
República?
Passada a eleição,
o vencedor e o derrotado seguirão suas vidas, enquanto nós continuaremos
enfrentando os desafios cotidianos. Teremos contas para pagar, problemas para
resolver, alegrias para compartilhar e dificuldades para superar.
E quem estará ao
nosso lado? Os amigos e familiares, justamente aqueles que corremos o risco de
afastar por causa de uma discussão política.
O candidato que
defendemos talvez jamais saiba que existimos. Já o amigo que ofendemos poderá
guardar por muito tempo a mágoa de nossas palavras.
Por isso,
independentemente de quem venceu ou perdeu, deixo uma sugestão: se você
reconhece que passou dos limites, dê o primeiro passo.
Procure aquele
amigo de quem se afastou. Retome o contato. Peça desculpas pelas ofensas, mesmo
que continue convencido de que estava certo em suas opiniões políticas. Uma
coisa não tem nada a ver com a outra.
Reúna a família e
mostre que as diferenças políticas não precisam destruir os laços afetivos.
Não é preciso mudar
de opinião para fazer as pazes. É preciso reconhecer que o outro também tem o
direito de pensar diferente.
Isso é respeito.
Isso é civilidade. E isso também é uma forma de amor: amor ao próximo.
Mas não confunda
essa reflexão com um convite ao afastamento da política. Muito pelo contrário!
Como diz uma frase
bastante conhecida, quem não se interessa por política acaba sendo governado
por quem se interessa.
Precisamos
participar, discutir ideias, fiscalizar governantes e legisladores, cobrar
resultados e defender aquilo em que acreditamos.
Quem se identifica
com a direita ou com o conservadorismo deve conhecer melhor seus princípios e
propostas. Quem se identifica com a esquerda ou com o progressismo deve fazer o
mesmo. Mais do que repetir palavras de ordem, precisamos compreender as ideias
que defendemos, distinguir fatos de boatos e avaliar propostas e resultados.
Uma democracia
saudável exige uma direita e uma esquerda capazes de exercer seus papéis.
Quando uma força política assume o governo, a outra precisa ter condições de
fiscalizar, apontar falhas e apresentar alternativas. O equilíbrio entre
governo e oposição é fundamental para o aperfeiçoamento das instituições.
Não precisamos
concordar em tudo. Precisamos aprender a discordar sem transformar o adversário
político em inimigo pessoal. Afinal, ninguém está cem por cento certo, assim
como ninguém está cem por cento errado. Como diz o velho ditado: cada cabeça é
uma sentença.
O amadurecimento
político de uma sociedade não se mede apenas pelo resultado das eleições, mas
também pela capacidade de seus cidadãos de participar, cobrar, propor e
contribuir para melhorar as instituições.
Se você acredita
que pode contribuir diretamente para melhorar a política, filie-se a um
partido, participe das discussões e considere disputar uma eleição. Se não tem
essa vocação, organize-se com outras pessoas, participe de movimentos, utilize
as redes sociais e apoie candidatos que realmente representem suas ideias.
A tecnologia nos
oferece inúmeras ferramentas para isso.
A eleição não pode
ser o começo e o fim da participação política, resumida ao momento de votar a
cada dois anos. Ela deve fazer parte de um processo contínuo de amadurecimento
democrático.
Construir um país
mais justo e próspero dá trabalho. Exige
participação, responsabilidade, diálogo e disposição para ouvir quem pensa
diferente.
Ficar apenas
atirando pedras não resolve absolutamente nada.
Podemos gastar
horas tentando provar que nosso candidato é melhor do que o do outro. Mas, se
essa energia não se transformar em participação, fiscalização e propostas
concretas, o que teremos conseguido além de alimentar ressentimentos?
Talvez João e
Antônio continuem discordando sobre política. Na próxima eleição, podem até
estar novamente em lados opostos. Isso não precisa mudar. O que precisa mudar é
a maneira como lidam com suas diferenças.
Que João defenda
suas ideias sem ofender Antônio. Que Antônio conteste João sem desqualificá-lo.
E que ambos compreendam que uma amizade construída ao longo de tantos anos não
deveria ser sacrificada por uma disputa eleitoral.
Afinal, as eleições
se repetem, os candidatos mudam e os governos terminam. A vida, porém, segue
seu curso, e não sabemos quanto tempo teremos para desfrutar das pessoas que amamos.
Por isso, deixo
duas perguntas para sua reflexão:
Vale mesmo a pena
ganhar uma discussão política e perder um amigo?
Vale a pena vencer
uma eleição e contribuir para dividir a própria família?
Pense nisso.
Os candidatos
passam. Os governos passam. As eleições passam.
Mas os vínculos que
construímos ao longo da vida merecem durar muito mais do que uma disputa
política.
