quarta-feira, 29 de julho de 2026

Rápida viagem à antiga Itapira em dezembro de 2100

 



Quando menino, eu esperava ansiosamente pelas noites em que a TV Tupi exibia Túnel do Tempo. Depois vieram De Volta para o Futuro e tantas outras histórias que alimentaram uma velha mania: imaginar que o tempo pudesse ser percorrido como quem atravessa uma rua.

Talvez por isso eu nem tenha pensado duas vezes quando a Universidade de Connecticut abriu inscrições para uma experiência de viagem temporal. Inscrevi-me mais por curiosidade do que por esperança. Contra todas as probabilidades, fui escolhido.

Recebi apenas uma recomendação: observar. Nada de conversar, interferir ou tentar melhorar o mundo — missão, aliás, que nunca deu muito certo nem para quem permaneceu no próprio tempo.

Poderia visitar qualquer época. Preferi o futuro. E, sendo livre para escolher qualquer lugar do planeta, fui direto para a Itapira de 2100.

Não me perguntem por quê. Quem nasce numa cidade do interior carrega um estranho defeito: pode conhecer o mundo inteiro, mas continua querendo saber como estará a rua onde aprendeu a andar de bicicleta.

Mal pisquei e já estava na praça central.

"A antiga praça central, onde outrora se localizava uma igreja suntuosa, está totalmente concretada, tendo como decoração alguns cubos e poliedros metálicos. Bem no centro da quadra, um estádio coberto e uma concha acústica de material transparente refratário à luz solar."

Subi ao prédio mais alto da cidade, exatamente onde um dia existiu o Centrão. Do quadragésimo andar, Itapira parecia outra. Contei mais de cem edifícios, quase todos desafiando o céu com seus trinta ou quarenta andares.

Curiosamente, o trânsito havia desaparecido. Os automóveis já pertenciam aos museus. O transporte era feito por teletransporte: o cidadão desaparecia de um ponto e reaparecia em outro. A fumaça dos combustíveis fósseis tornara-se apenas um verbete nas enciclopédias.

Resolvi caminhar até o Parque Juca Mulato, que permanecia intacto, como se o tempo tivesse decidido respeitá-lo. Até os velhos paralelepípedos da Rua Ribeiro de Barros continuavam no mesmo lugar, talvez por terem adquirido a dignidade das coisas que sobreviveram às modas.

Segui pela Avenida dos Biris. À minha esquerda, uma cena jamais imaginada: "Toda a baixada dos antigos bairros do Cubatão e Prados está tomada por um imenso reservatório de água, previsão acertada para uma futura vida subaquática."

Procurei saber o destino dos antigos moradores. Descobri que todos haviam sido indenizados e reassentados antes da formação do reservatório. Enquanto pesquisava outras curiosidades, encontrei uma notícia alvissareira.

O Laboratório Cristália figurava entre as cinco maiores indústrias farmacêuticas do planeta. A polilaminina abrira caminho para tratamentos que transformaram doenças antes devastadoras — como a Esclerose Lateral Amiotrófica, o Parkinson, o Alzheimer e tantos cânceres agressivos e letais — em capítulos encerrados da história da medicina.

Foi aí que levei o maior susto da viagem: minha neta trabalhava ali como cientista. Pensei duas vezes. Depois, desobedeci à prudência e fui até o laboratório. Consegui chegar ao setor onde ela trabalhava. Conversamos por alguns minutos. Ela respondeu a todas as minhas perguntas com a serenidade que talvez só os cientistas e os avós consigam cultivar.

Não revelei quem eu era; as regras proibiam. Confesso que foi difícil. Também descobri que ela ainda estava longe da aposentadoria — aos 76 anos de idade, ainda lhe restavam quatorze anos de labuta. Foi justamente quando a conversa se tornava mais interessante que senti o mundo desaparecer outra vez. Meu tempo havia acabado. Voltei.

Ainda hoje penso naquela sexta-feira, último dia de dezembro de 2100, entrada para um novo século. Não vi fogos, nem festas, nem a velha ansiedade da virada. Talvez o futuro tenha descoberto que o calendário muda sozinho e que a esperança não precisa esperar a meia-noite.

Nota: Este texto nasceu inspirado em um artigo de Jácomo Mandato, publicado em junho de 1973 no JoJo, jornalzinho do IEEESO, sob o título "Rápida viagem à antiga Itapira em dezembro de 2000". Se estivesse entre nós, Jácomo teria completado esta semana 93 anos. Os dois trechos entre aspas foram reproduzidos exatamente como ele os escreveu. É uma pequena homenagem a quem soube imaginar o futuro quando ele ainda estava muito distante.