Quando menino, eu esperava ansiosamente pelas
noites em que a TV Tupi exibia Túnel do Tempo. Depois vieram De Volta
para o Futuro e tantas outras histórias que alimentaram uma velha mania:
imaginar que o tempo pudesse ser percorrido como quem atravessa uma rua.
Talvez por isso eu nem tenha pensado duas vezes
quando a Universidade de Connecticut abriu inscrições para uma experiência de
viagem temporal. Inscrevi-me mais por curiosidade do que por esperança. Contra
todas as probabilidades, fui escolhido.
Recebi apenas uma recomendação: observar. Nada de
conversar, interferir ou tentar melhorar o mundo — missão, aliás, que nunca deu
muito certo nem para quem permaneceu no próprio tempo.
Poderia visitar qualquer época. Preferi o futuro.
E, sendo livre para escolher qualquer lugar do planeta, fui direto para a
Itapira de 2100.
Não me perguntem por quê. Quem nasce numa cidade do
interior carrega um estranho defeito: pode conhecer o mundo inteiro, mas
continua querendo saber como estará a rua onde aprendeu a andar de bicicleta.
Mal pisquei e já estava na praça central.
"A antiga praça central, onde outrora se
localizava uma igreja suntuosa, está totalmente concretada, tendo como
decoração alguns cubos e poliedros metálicos. Bem no centro da quadra, um
estádio coberto e uma concha acústica de material transparente refratário à luz
solar."
Subi ao prédio mais alto da cidade, exatamente onde
um dia existiu o Centrão. Do quadragésimo andar, Itapira parecia outra. Contei
mais de cem edifícios, quase todos desafiando o céu com seus trinta ou quarenta
andares.
Curiosamente, o trânsito havia desaparecido. Os
automóveis já pertenciam aos museus. O transporte era feito por teletransporte:
o cidadão desaparecia de um ponto e reaparecia em outro. A fumaça dos
combustíveis fósseis tornara-se apenas um verbete nas enciclopédias.
Resolvi caminhar até o Parque Juca Mulato, que
permanecia intacto, como se o tempo tivesse decidido respeitá-lo. Até os velhos
paralelepípedos da Rua Ribeiro de Barros continuavam no mesmo lugar, talvez por
terem adquirido a dignidade das coisas que sobreviveram às modas.
Segui pela Avenida dos Biris. À minha esquerda, uma
cena jamais imaginada: "Toda a baixada dos antigos bairros do Cubatão e
Prados está tomada por um imenso reservatório de água, previsão acertada para
uma futura vida subaquática."
Procurei saber o destino dos antigos moradores.
Descobri que todos haviam sido indenizados e reassentados antes da formação do
reservatório. Enquanto pesquisava outras curiosidades, encontrei uma notícia
alvissareira.
O Laboratório Cristália figurava entre as cinco
maiores indústrias farmacêuticas do planeta. A polilaminina abrira caminho para
tratamentos que transformaram doenças antes devastadoras — como a Esclerose
Lateral Amiotrófica, o Parkinson, o Alzheimer e tantos cânceres agressivos e
letais — em capítulos encerrados da história da medicina.
Foi aí que levei o maior susto da viagem: minha
neta trabalhava ali como cientista. Pensei duas vezes. Depois, desobedeci à
prudência e fui até o laboratório. Consegui chegar ao setor onde ela
trabalhava. Conversamos por alguns minutos. Ela respondeu a todas as minhas
perguntas com a serenidade que talvez só os cientistas e os avós consigam
cultivar.
Não
revelei quem eu era; as regras proibiam. Confesso que foi difícil. Também
descobri que ela ainda estava longe da aposentadoria — aos 76 anos de idade,
ainda lhe restavam quatorze anos de labuta. Foi justamente quando a conversa se
tornava mais interessante que senti o mundo desaparecer outra vez. Meu tempo
havia acabado. Voltei.
Ainda hoje penso naquela sexta-feira, último dia de
dezembro de 2100, entrada para um novo século. Não vi fogos, nem festas, nem a velha
ansiedade da virada. Talvez o futuro tenha descoberto que o calendário muda
sozinho e que a esperança não precisa esperar a meia-noite.
Nota: Este texto nasceu inspirado em um artigo de Jácomo
Mandato, publicado em junho de 1973 no JoJo, jornalzinho do IEEESO, sob o
título "Rápida viagem à antiga Itapira em dezembro de 2000". Se
estivesse entre nós, Jácomo teria completado esta semana 93 anos. Os dois trechos
entre aspas foram reproduzidos exatamente como ele os escreveu. É uma pequena
homenagem a quem soube imaginar o futuro quando ele ainda estava muito
distante.
