domingo, 5 de julho de 2026

A Vila Gato e a Copa do Mundo

 



Dizem que saudade não tem idade, e eu concordo. Basta um apito final no último jogo do Brasil para que eu seja sumariamente arremessado de volta aos meus onze anos. Fecho os olhos e lá estou: na Vila Gato, o palco sagrado das minhas traquinagens de infância e pré-adolescência.

 

Para quem não conheceu, a Vila Gato ficava ali perto de casa, na Rua Embaixador Pedro de Toledo — logo à esquerda de onde o morro morre, um respiro antes da ponte sobre o ribeirão. Aquele pedaço de chão era o nosso parque de diversões particular. O nome peculiar, reza a lenda, vinha do hábito macabro de um morador que caçava felinos para o almoço. Eram tempos em que a sensibilidade ecológica e o respeito aos animais passavam longe dos debates públicos. Se a história era fato ou puro folclore, até hoje não sei. Mas o nome pegou.

 

O rio nos dava tudo. Tinha a Prainha e o Porto do Luca, onde a gente desafiava a correnteza e nadava até os dedos enrugarem, além dos cantos certos onde os peixes sempre fisgavam. Logo ao lado, um campinho de gramado rebelde e irregular testemunhava nossas peladas épicas. Quando a noite caía, o ponto de encontro era um velho poste de madeira, deitado estrategicamente no canto do muro. Ali, se surgisse um violão, a gente soltava a voz; se não, a diversão era desfiar histórias de assombração ou correr até cansar: latinha, pega-pega e balança-caixão. Que tempo bom.

 

Hoje, quem passa por lá encontra outra geografia. O casario de um lado resiste, embora maquiado por reformas e reconstruções. Já o outro lado, que margeava o ribeirão, sumiu do mapa: foi desapropriado para dar passagem ao progresso, hoje batizado de Avenida dos Italianos.

 

Mas, afinal, o que a Vila Gato tem a ver com a Copa do Mundo?

 

Corria o ano de 1966. Estávamos todos no campinho quando, vindo da casa de Seu Nelson e Dona Abigail, do outro lado da rua, o som de um rádio invadiu o ar. Era a estreia do Brasil. No exato instante em que a rede balançou com o gol brasileiro contra a Bulgária, uma sinfonia de estalos de caramurus pipocou pelo bairro. Tomados pelo fervor patriótico, estufamos o peito e entoamos o hino da nossa soberania, herdado da conquista de 1958: “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem possa...”

 

Mal sabíamos que os rojões daquele dia seriam os únicos. A nossa "seleção de ouro" tropeçou nas duas partidas seguintes e voltou mais cedo para casa, deixando o campinho em silêncio.

 

Até aquela, o torneio atendia pelo pomposo nome de “Taça do Mundo”. Depois daquele ano, misteriosamente, virou “Copa”. Na minha cabeça, aquilo pareceu uma retaliação mesquinha da mídia internacional: “Quem esses sul-americanos pensam que são para decretar que a taça é deles?”

 

Ora, romanticamente falando, o correto era manter a tradição. O termo original, nascido na França, era Coupe du Monde. E coupe, em bom português, sempre foi e sempre será, literalmente, taça.

 

Diz a história que, com a chegada das transmissões ao vivo da TV na Copa de 1970 e pela forte influência, onde se anunciava World Cup ou Copa del Mundo, o vocábulo estrangeiro acabou engolindo o nosso. E, para que a nossa rendição à supremacia linguística de fora não ficasse tão feia, nós, brasileiros, criamos um jeitinho: "Copa" virou o nome do campeonato; "Taça", o objeto de desejo erguido pelos campeões.

 

Aquela tarde dourada no campinho já completou sessenta anos. A Taça mudou de nome, a Vila Gato virou recordação na memória da cidade. Mas, curiosamente, quando o juiz apita o fim de um jogo da Seleção na televisão, o cheiro do ribeirão quase limpo volta e parece que foi ontem.