segunda-feira, 13 de julho de 2026

A mulher na urna e o pecado de pensar

 



Diz o ditado que a língua é o chicote do corpo, mas há dias em que ela funciona como o raio-X da alma. Quando Paulo Figueiredo limpou a garganta para vociferar que "mulher vota estatisticamente mal", e Valdemar Costa Neto, com a complacência de quem comenta o futebol no botequim, soltou que "mulher arruma enguiço com 20", nenhum dos dois sofreu um lapso linguístico. Sabiam exatamente o que faziam.

Ao conquistarem o voto, as mulheres cometeram a audácia de invadir feudos que os homens guardavam a sete chaves. Veio a independência financeira, veio a autonomia, e a soberania masculina — vendida durante séculos como lei natural — desmoronou.

Hoje, a extrema direita global padece de uma profunda nostalgia do século XIX. O grande projeto que ganha corpo em nichos radicais não é apenas geopolítico; é doméstico. Para que o mundo volte a fazer sentido na cabeça desses senhores, a mulher precisa deixar de ser cidadã e voltar a ser paisagem.

Nos Estados Unidos, essa utopia regressiva atende pelo nome de "voto por família". A ideia é dar um único voto por casa, exercido, claro, pelo "chefe". Como rasgar a Constituição americana é quase impossível, o plano avança pelas beiradas com a SAVE Act. Sob o pretexto de excluir imigrantes não cidadãos, a proposta vai criar barreiras burocráticas para quem mudou de sobrenome ao casar ou divorciar — ou seja, cerca de 80% das mulheres. Num país onde o voto não é obrigatório, o cansaço da fila é a arma perfeita para silenciar milhões de eleitoras.

No Brasil, essa tese ganha força nos altares e nichos patriarcais. Para esses grupos, o voto autônomo da mulher representa uma insubordinação metafísica. Se ela pensa por si mesma diante da urna, comete o pecado da discórdia. A harmonia do lar exigiria, portanto, a anulação da autonomia intelectual feminina.

Ouvir que "mulher não sabe votar" em pleno século XXI é voltar a um passado distante. São os mesmos velhos argumentos: falta de capacidade intelectual, ausência de aptidão para o comando e excesso de emoção.

O diagnóstico real por trás do pânico desses homens é simples: as mulheres tornaram-se independentes e, para o desespero do status quo, incontroláveis. Perder o controle sobre o bolso e o voto alheio causa vertigem. No fundo, eles temem a equivalência. Temem que elas, um dia, governem o jogo por completo. E para quem passou a vida inteira no topo de um poleiro artificial, a igualdade de condições sempre vai parecer o fim do mundo.