Diz o ditado que a língua é o chicote do corpo, mas
há dias em que ela funciona como o raio-X da alma. Quando Paulo Figueiredo
limpou a garganta para vociferar que "mulher vota estatisticamente
mal", e Valdemar Costa Neto, com a complacência de quem comenta o futebol
no botequim, soltou que "mulher arruma enguiço com 20", nenhum dos
dois sofreu um lapso linguístico. Sabiam exatamente o que faziam.
Ao conquistarem o voto, as mulheres cometeram a
audácia de invadir feudos que os homens guardavam a sete chaves. Veio a
independência financeira, veio a autonomia, e a soberania masculina — vendida
durante séculos como lei natural — desmoronou.
Hoje, a extrema direita global padece de uma
profunda nostalgia do século XIX. O grande projeto que ganha corpo em nichos
radicais não é apenas geopolítico; é doméstico. Para que o mundo volte a fazer
sentido na cabeça desses senhores, a mulher precisa deixar de ser cidadã e
voltar a ser paisagem.
Nos Estados Unidos, essa utopia regressiva atende
pelo nome de "voto por família". A ideia é dar um único voto por
casa, exercido, claro, pelo "chefe". Como rasgar a Constituição
americana é quase impossível, o plano avança pelas beiradas com a SAVE Act.
Sob o pretexto de excluir imigrantes não cidadãos, a proposta vai criar barreiras
burocráticas para quem mudou de sobrenome ao casar ou divorciar — ou seja,
cerca de 80% das mulheres. Num país onde o voto não é obrigatório, o cansaço da
fila é a arma perfeita para silenciar milhões de eleitoras.
No Brasil, essa
tese ganha força nos altares e nichos patriarcais. Para esses grupos, o voto
autônomo da mulher representa uma insubordinação metafísica. Se ela pensa por
si mesma diante da urna, comete o pecado da discórdia. A harmonia do lar
exigiria, portanto, a anulação da autonomia intelectual feminina.
Ouvir que "mulher não sabe votar" em
pleno século XXI é voltar a um passado distante. São os mesmos velhos
argumentos: falta de capacidade intelectual, ausência de aptidão para o comando
e excesso de emoção.
O diagnóstico real por trás do pânico desses homens
é simples: as mulheres tornaram-se independentes e, para o desespero do status
quo, incontroláveis. Perder o controle sobre o bolso e o voto alheio causa
vertigem. No fundo, eles temem a equivalência. Temem que elas, um dia, governem
o jogo por completo. E para quem passou a vida inteira no topo de um poleiro
artificial, a igualdade de condições sempre vai parecer o fim do mundo.
