A cada eliminação, abre-se a temporada nacional de
caça às bruxas. Apontam-se dedos e a sentença é proferida com o fígado:
"Faltou raça". É um veredicto cômodo, mas preguiçoso. Assim como na vitória
os louros não são de um único herói, na derrota não há naufrágio sem
responsabilidade compartilhada.
Nutrimos a ilusão de um direito divino ao topo do
pódio. Das 22 Copas desde 1930, cinco são nossas. No entanto, Alemanha e Itália
têm quatro; Argentina, três; França e Uruguai, duas; Inglaterra e Espanha, uma.
No universo de 211 países da FIFA, apenas oito ergueram a taça.
Houve um tempo, é
verdade, em que a nossa terra brotava craques como capim. Jogávamos por
instinto, e o mundo assistia, estupefato. Hoje, no entanto, a nossa peneira já
não se mostra tão pródiga e o cenário mudou drasticamente. O futebol virou uma
engrenagem financeira bilionária. Empresas de material esportivo e corporações
globais transformaram o esporte em uma vitrine de luxo; garimpam-se talentos
nos cinco continentes antes mesmo que eles aprendam a amarrar as chuteiras
sozinhos. O resultado? O talento mundial concentra-se nos clubes europeus e, de
quatro em quatro anos, essa legião retorna para defender suas pátrias. Antigamente,
o Brasil fazia escola; hoje, assistimos à França, à Alemanha, à Espanha e à
Inglaterra ditando o ritmo e o tom da modernidade.
As grandes potências do futebol não jogam dados com
o destino. Elas se preparam com a paciência dos monges. O ciclo dura quatro
anos no mínimo, com o treinador vigiando o sono, as lesões, a musculatura e o
gráfico tático de cada atleta. Treina-se o imponderável: o pênalti no último
minuto, a inferioridade numérica, a bola parada salvadora. Para vencer uma Copa
moderna, já não basta reunir talentos por alguns meses e esperar que o peso da
camisa resolva. A lógica pune o amadorismo. Enquanto a Argentina pensava nos
franceses, nós parecíamos despreparados para o rigor tático do Japão.
Não faltou esforço aos nossos atletas, mas
estabilidade. Nos bastidores, a CBF viveu escândalos, trocas sob suspeita e uma
dança das cadeiras com quatro técnicos em um único ciclo — quatro filosofias
conflitantes. A fragilidade ruiu de vez quando o comando se viu pressionado a
convocar um jogador ainda baleado sob o ultimato silencioso de que, sem Neymar,
qualquer fracasso seria de sua culpa exclusiva. Em um ambiente asfixiado pelo
medo, passar de fase já era lucro.
O apito final da última eliminação ainda ecoa, mas
a vida exige que limpemos as chuteiras. É hora de seguir em frente, guardando
no peito o orgulho das glórias do passado — que ninguém nos tira —, mas
limpando os olhos para enxergar o presente com a lucidez necessária. O
renascimento do nosso futebol não virá de um milagre ou de um drible salvador;
virá da competência, do planejamento e do trabalho silencioso. Que venha 2030,
não com a soberba de quem se acha dono do mundo, mas com a humildade e o brio
de quem quer reaprender a conquistá-lo.
