Não é de hoje que discordo do
mantra “bandido bom é bandido morto” em todas as suas vertentes. Dentre os meus
pontos de discordância, destaca-se a forma como a palavra "bom" é
interpretada nesse contexto.
O adjetivo “bom” carrega múltiplos
significados: qualidade, bondade, saúde e prazer. Se as duas últimas definições
obviamente não se aplicam ao caso, as duas primeiras merecem uma análise mais
profunda.
Se considerarmos "bom"
sob a ótica da bondade, talvez o "Bom Ladrão" da tradição bíblica,
crucificado ao lado de Jesus, possa ser enquadrado, afinal, foi perdoado e
subiu aos céus. Outro exemplo seria o lendário Robin Hood, famoso por sua
generosidade para com os camponeses pobres e oprimidos em sua luta contra a
tirania. Trazendo para a realidade atual, talvez se encaixem aqui os chefes de
facções e milícias que dominam determinados territórios. Ao oferecerem aos
moradores uma suposta proteção, além de mimos e festas sazonais, eles criam uma
blindagem social. Com isso, a polícia dificilmente chega até eles, que se
mantêm bem vivos e ainda conseguem força política para eleger vereadores,
prefeitos, deputados, senadores, governadores e, quem sabe, até o presidente da
República.
Por outro lado, quando olhamos a
criminalidade pela lente da qualidade, o "bandido bom" é aquele que
executa seu trabalho de forma tão impecável que ninguém percebe. Comete crimes,
enriquece às custas de sonegação, corrupção e golpes financeiros bem-sucedidos,
e passa a vida incólume. Ou, quando é pego tardiamente, o estrago já é monumental.
Atualmente, acompanhamos as
peripécias criminosas de Daniel Vorcaro, operador daquele que se desenha como o
maior crime financeiro da nossa história. Não há como negar-lhe uma assombrosa
inteligência. O rombo provocado, que até o momento bate na casa dos 60 bilhões
de reais, gerou prejuízos incalculáveis a investidores e ao erário público.
Para atingir tal façanha, ele arquitetou uma verdadeira engenharia de
transferências monetárias por meio de fundos e das chamadas fintechs.
Vorcaro começou a construir seu
império arregimentando políticos graduados e membros do Poder Judiciário.
Conseguiu, há cerca de sete anos, que as fintechs pudessem emprestar dinheiro de forma
totalmente independente dos bancos tradicionais, sem submissão às mesmas
regras. Com total liberdade nas operações de crédito, essas plataformas se
associaram a fundos que garantem o sigilo dos investidores, facilitando a
entrada de recursos oriundos do crime organizado e da corrupção.
Enquanto o Banco Master arrecadava
recursos no mercado, seja com promessas de juros elevados, captando dinheiro de
contas de previdência privada complementar de servidores públicos ou vendendo
carteiras de crédito sem lastro, Vorcaro, supostamente, desviava esses ativos.
Quando a situação da instituição começou a ruir e o negócio passou a
"cheirar mal", ele tentou, com o apoio de políticos amigos, fazer com
que o Banco de Brasília (BRB), envolvido até os dentes nas falcatruas,
absorvesse o ativo e o passivo da combalida instituição. O Banco Central atuou
e a manobra falhou. O Banco Master sofreu liquidação e Vorcaro, hoje preso,
aguarda as investigações e poderá ver o sol nascer quadrado por um bom tempo.
A inteligência de Vorcaro, somada
a uma montanha de dinheiro alheio, ajudou-o a construir uma extensa rede de
influência para garantir sua proteção. Ele promovia festas nababescas e gravava
tudo, estrategicamente, para ter os participantes em mãos. Distribuía gordas
mesadas a políticos de todas as esferas, a membros do Judiciário, a agentes da
Polícia Federal e a diretores do Banco Central. Ele não apenas montou um forte
esquema midiático com influenciadores para atacar o Banco Central e seus
inimigos, como também financiava grupos de intimidação contra jornalistas e
críticos que cruzassem o caminho de seus interesses.
Teve a audácia de contratar figuras dos dois lados do espectro
político: de ministros ligados ao governo atual a ex-ministros da gestão
anterior, passando pela esposa de um ministro do STF e pelo financiamento do
filme de um ex-presidente. Caberá à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da
República identificar eventuais contrapartidas para que essa cama de gato seja
totalmente desvendada.
Felizmente, apesar de toda a
inteligência empregada pelo crime, o país deu um passo importante e conseguiu
colocar um freio na engrenagem. Quando olhamos para trás, situações semelhantes
envolvendo agentes financeiros, empreiteiras e indústrias desonestas costumavam
ter melhor sorte. No entanto, o caso Vorcaro evidencia uma realidade histórica
do Brasil: boa parte do eleitorado condena a corrupção no discurso, mas, nas
urnas, segue reelegendo políticos envolvidos em práticas corruptas, sobretudo
para o Congresso Nacional.
Afinal, como bem esclarecem os altos
comandos da criminalidade brasileira, bandido que morre ou é preso é como
político pego com a boca na botija: burro.
