Cadê todas aquelas bandeiras brasileiras hasteadas nas casas e nos veículos? Onde foi parar aquela agitação contagiante na cidade em dias de jogo? O que aconteceu com as decorações nas ruas? Será que o gato comeu? Definitivamente, o clima de Copa do Mundo já não é mais o mesmo de antigamente.
Faz sentido ver brasileiros torcendo contra a
própria seleção, secando sua permanência no torneio e, em alguns casos, até
torcendo por outras seleções durante uma Copa do Mundo?
É, no mínimo, estranho. Seria como ver um corintiano
torcendo para o Corinthians se dar mal ou, pior ainda, desejando que o
Palmeiras levante a taça do Brasileirão. Por pior que seja a fase do time do
coração, dificilmente um torcedor distribuirá flores aos rivais.
Num primeiro momento, cheguei a pensar que essa
aversão à seleção canarinho tivesse como pano de fundo a atual polarização
política. Lembrei dos tempos da ditadura, quando os governos militares tentaram
se apropriar da imagem da seleção e utilizá-la como instrumento de propaganda.
Mas abandonei essa hipótese ao perceber que essa onda de distanciamento não é
algo recente.
Comecei a acompanhar a seleção aos 15 anos, na Copa
do México, em 1970. Saímos daquela competição com a alma lavada. Ainda assim,
como vínhamos de uma participação decepcionante em 1966 — apesar de contarmos
com um grande time —, a seleção de João Saldanha e, depois, de Zagallo
despertava mais desconfiança do que confiança. Ao conquistar o tricampeonato, o
Brasil tornou-se o primeiro país, desde a criação da Copa, a erguer a taça três
vezes. Para nós, não havia dúvida: o Brasil praticava o melhor futebol do
mundo.
No entanto, passamos 24 anos sem conquistar um
Mundial. Foi nesse intervalo que começou a crescer a descrença no futebol
brasileiro. Até então, os craques construíam suas histórias nos clubes
nacionais e chegavam à seleção já consagrados. Após 1970, porém, a exportação
de jogadores se intensificou. Ano após ano, o número de transferências
aumentou. Muitos talentos passaram a ser negociados antes mesmo de estrearem
profissionalmente por seus clubes de origem. Estouravam longe dos nossos olhos.
Sem identificação com esses jogadores, a cada Copa
a seleção passou a parecer, para muitos, um “time de estrangeiros” nascidos no
Brasil. Aos poucos, passamos a enxergar atletas aparentemente mais preocupados
com marcas pessoais, redes sociais, cortes de cabelo e ostentação do que com
entrega em campo vestindo a camisa amarela.
Estávamos acostumados ao futebol-arte, ao
espetáculo e até à malandragem saudável que caracterizava gerações passadas. Em
2014, quando esperávamos a redenção do trauma de 1950, veio a humilhação
histórica: a derrota por 7 a 1 para a Alemanha.
Por essas e outras razões, a torcida brasileira,
além de perder parte do encantamento pela seleção, passou a adotar comportamentos
curiosos. Há os que demonstram descaso, acompanham de longe e repetem que o
time não irá muito adiante, transferindo todo o favoritismo para outras
seleções.
A psicologia oferece uma explicação interessante:
quando alguém tem aversão ao fracasso, tende a antecipar a derrota como
mecanismo de defesa. Se ela vier, a pessoa sente que já estava preparada: “Eu
avisei”. Se não vier, comemora como qualquer torcedor.
Lidar com a possibilidade de ganhar ou perder é um
desafio emocional profundo. Isso mexe com a autoestima, com a tolerância à
frustração e com as chamadas crenças de autorreferência.
A derrota dói. Rejeição e fracasso ativam áreas
cerebrais associadas à dor física, além de reforçarem o viés da negatividade,
que faz um resultado ruim parecer maior do que todas as vitórias anteriores
somadas.
Mas a vitória também produz efeitos intensos:
provoca uma descarga de dopamina no cérebro, gerando prazer e sensação de
recompensa. Talvez por isso, quando nosso time vence, sentimos que nossa
torcida, mesmo diante da televisão, fez parte daquele resultado.
O problema é que a vitória também infla o ego e
pode gerar dependência emocional. Passamos a desejar apenas vitórias e, não
raramente, abandonamos o jogo, ou até a torcida, quando a derrota se aproxima.
Ganhar e perder fazem parte da vida. Talvez o
verdadeiro teste de maturidade não esteja em comemorar nas vitórias, mas em
permanecer presente nas derrotas. Afinal, enquanto a vitória nos dá a ilusão do
quase perfeito e, muitas vezes, pode frear a evolução, a derrota escancara
vulnerabilidades e nos obriga a melhorar.
