segunda-feira, 29 de junho de 2026

Por que a seleção brasileira já não desperta mais a mesma paixão?

 


Cadê todas aquelas bandeiras brasileiras hasteadas nas casas e nos veículos? Onde foi parar aquela agitação contagiante na cidade em dias de jogo? O que aconteceu com as decorações nas ruas? Será que o gato comeu? Definitivamente, o clima de Copa do Mundo já não é mais o mesmo de antigamente.

Faz sentido ver brasileiros torcendo contra a própria seleção, secando sua permanência no torneio e, em alguns casos, até torcendo por outras seleções durante uma Copa do Mundo?

É, no mínimo, estranho. Seria como ver um corintiano torcendo para o Corinthians se dar mal ou, pior ainda, desejando que o Palmeiras levante a taça do Brasileirão. Por pior que seja a fase do time do coração, dificilmente um torcedor distribuirá flores aos rivais.

Num primeiro momento, cheguei a pensar que essa aversão à seleção canarinho tivesse como pano de fundo a atual polarização política. Lembrei dos tempos da ditadura, quando os governos militares tentaram se apropriar da imagem da seleção e utilizá-la como instrumento de propaganda. Mas abandonei essa hipótese ao perceber que essa onda de distanciamento não é algo recente.

Comecei a acompanhar a seleção aos 15 anos, na Copa do México, em 1970. Saímos daquela competição com a alma lavada. Ainda assim, como vínhamos de uma participação decepcionante em 1966 — apesar de contarmos com um grande time —, a seleção de João Saldanha e, depois, de Zagallo despertava mais desconfiança do que confiança. Ao conquistar o tricampeonato, o Brasil tornou-se o primeiro país, desde a criação da Copa, a erguer a taça três vezes. Para nós, não havia dúvida: o Brasil praticava o melhor futebol do mundo.

No entanto, passamos 24 anos sem conquistar um Mundial. Foi nesse intervalo que começou a crescer a descrença no futebol brasileiro. Até então, os craques construíam suas histórias nos clubes nacionais e chegavam à seleção já consagrados. Após 1970, porém, a exportação de jogadores se intensificou. Ano após ano, o número de transferências aumentou. Muitos talentos passaram a ser negociados antes mesmo de estrearem profissionalmente por seus clubes de origem. Estouravam longe dos nossos olhos.

Sem identificação com esses jogadores, a cada Copa a seleção passou a parecer, para muitos, um “time de estrangeiros” nascidos no Brasil. Aos poucos, passamos a enxergar atletas aparentemente mais preocupados com marcas pessoais, redes sociais, cortes de cabelo e ostentação do que com entrega em campo vestindo a camisa amarela.

Estávamos acostumados ao futebol-arte, ao espetáculo e até à malandragem saudável que caracterizava gerações passadas. Em 2014, quando esperávamos a redenção do trauma de 1950, veio a humilhação histórica: a derrota por 7 a 1 para a Alemanha.

Por essas e outras razões, a torcida brasileira, além de perder parte do encantamento pela seleção, passou a adotar comportamentos curiosos. Há os que demonstram descaso, acompanham de longe e repetem que o time não irá muito adiante, transferindo todo o favoritismo para outras seleções.

A psicologia oferece uma explicação interessante: quando alguém tem aversão ao fracasso, tende a antecipar a derrota como mecanismo de defesa. Se ela vier, a pessoa sente que já estava preparada: “Eu avisei”. Se não vier, comemora como qualquer torcedor.

Lidar com a possibilidade de ganhar ou perder é um desafio emocional profundo. Isso mexe com a autoestima, com a tolerância à frustração e com as chamadas crenças de autorreferência.

A derrota dói. Rejeição e fracasso ativam áreas cerebrais associadas à dor física, além de reforçarem o viés da negatividade, que faz um resultado ruim parecer maior do que todas as vitórias anteriores somadas.

Mas a vitória também produz efeitos intensos: provoca uma descarga de dopamina no cérebro, gerando prazer e sensação de recompensa. Talvez por isso, quando nosso time vence, sentimos que nossa torcida, mesmo diante da televisão, fez parte daquele resultado.

O problema é que a vitória também infla o ego e pode gerar dependência emocional. Passamos a desejar apenas vitórias e, não raramente, abandonamos o jogo, ou até a torcida, quando a derrota se aproxima.

Ganhar e perder fazem parte da vida. Talvez o verdadeiro teste de maturidade não esteja em comemorar nas vitórias, mas em permanecer presente nas derrotas. Afinal, enquanto a vitória nos dá a ilusão do quase perfeito e, muitas vezes, pode frear a evolução, a derrota escancara vulnerabilidades e nos obriga a melhorar.