segunda-feira, 8 de junho de 2026

Para Trump, o Pix não pode ser de graça. Você sabe por quê?

 


 

Por Nino Marcati #08/06/2026 O relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) cita o Pix brasileiro 20 vezes como exemplo de prática comercial desleal. Com base nessa investigação — na qual os argumentos da defesa brasileira foram sumariamente desconsiderados —, foi proposta uma tarifa de 25% sobre mercadorias vindas do Brasil.

 

Entre as preocupações apontadas por Washington está o suposto prejuízo causado às operadoras de cartão de crédito e às Big Techs. Para os Estados Unidos, a gratuidade reduz as margens de lucro de gigantes norte-americanas dos setores financeiro e tecnológico, como Visa, Mastercard, Apple Pay, Google Pay e WhatsApp Pay. Na visão do governo Trump, o sistema brasileiro obriga empresas estrangeiras a oferecer vantagens e visibilidade ao Pix sem que haja compensação de mercado ou concorrência em igualdade de condições. Em suma: no entendimento deles, o Pix não pode ser de graça.

 

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contesta veementemente as críticas e as ameaças de sanções comerciais. A entidade rebate as acusações em quatro pontos principais: primeiro, o Pix não é um produto comercial criado para competir com Big Techs ou bandeiras de cartão, tampouco para criar reserva de mercado; segundo, trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, que não impõe barreiras ao capital estrangeiro; terceiro, as críticas americanas baseiam-se em informações incompletas sobre as diretrizes do sistema; e, por fim, o Pix é um poderoso instrumento de inclusão financeira que reduziu drasticamente os custos transacionais, bancarizou milhões de pessoas e trouxe agilidade aos pequenos e grandes negócios, beneficiando toda a economia nacional.

 

Mas, afinal, as operadoras de cartão e as Big Techs americanas de fato sofreram prejuízos com a implantação do Pix?

 

Os dados mostram o contrário. O Pix movimentou R$ 35,3 trilhões no ano passado e nem sequer arranhou o volume operado pelos cartões de pagamento no Brasil. Em 2019, as transações por cartão somavam R$ 1,75 trilhão; em 2025, alcançaram R$ 4,27 trilhões — um crescimento expressivo de 144%, muito acima da inflação acumulada no período, que foi de aproximadamente 38%.

 

O que explica esse fenômeno? Graças ao Pix, milhões de brasileiros foram incluídos no sistema bancário, provocando uma queda drástica no uso de dinheiro em espécie. Em vez de canibalizar o mercado, o Pix o expandiu, aumentando a circulação total de recursos.

 

Se o sistema não prejudicou os negócios americanos, por que Trump insiste em atacá-lo?

 

Elementar, meus caros Flávios e Eduardos: a intenção é retirar o protagonismo do Banco Central e transferir o controle dos pagamentos eletrônicos para bancos privados, bandeiras de cartão e Big Techs, replicando o modelo americano. Nessas condições, as empresas passariam a cobrar pelo serviço. Em outras palavras: mais lucro para eles, mais custos para nós.

 

Além disso, o grande incômodo — aquele que de fato parece tirar o sono de Washington — é a soberania operacional. Ao reduzir a dependência de redes privadas estrangeiras e de carteiras digitais controladas por Big Techs, o Brasil se blinda. Isso enfraquece a capacidade de empresas e do próprio governo dos EUA de ditarem padrões, tarifas e formas de intermediação no mercado global de pagamentos.

 

E isso está longe de ser pouca coisa. Uma taxa aparentemente modesta de 2% sobre os R$ 35,3 trilhões movimentados pelo Pix teria gerado, apenas em 2025, algo próximo de R$ 700 bilhões em receitas. Seria uma transferência colossal de riqueza: dinheiro retirado do bolso de milhões de cidadãos para inflar o caixa de meia dúzia de corporações bilionárias. Bonito, né?