Por Nino Marcati #08/06/2026 ➖ O relatório do Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR) cita o Pix brasileiro 20 vezes como exemplo
de prática comercial desleal. Com base nessa investigação — na qual os
argumentos da defesa brasileira foram sumariamente desconsiderados —, foi
proposta uma tarifa de 25% sobre mercadorias vindas do Brasil.
Entre as preocupações apontadas por Washington está
o suposto prejuízo causado às operadoras de cartão de crédito e às Big Techs.
Para os Estados Unidos, a gratuidade reduz as margens de lucro de gigantes
norte-americanas dos setores financeiro e tecnológico, como Visa, Mastercard,
Apple Pay, Google Pay e WhatsApp Pay. Na visão do governo Trump, o sistema
brasileiro obriga empresas estrangeiras a oferecer vantagens e visibilidade ao
Pix sem que haja compensação de mercado ou concorrência em igualdade de
condições. Em suma: no entendimento deles, o Pix não pode ser de graça.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban)
contesta veementemente as críticas e as ameaças de sanções comerciais. A
entidade rebate as acusações em quatro pontos principais: primeiro, o Pix não é
um produto comercial criado para competir com Big Techs ou bandeiras de cartão,
tampouco para criar reserva de mercado; segundo, trata-se de um modelo aberto e
não discriminatório, que não impõe barreiras ao capital estrangeiro; terceiro,
as críticas americanas baseiam-se em informações incompletas sobre as
diretrizes do sistema; e, por fim, o Pix é um poderoso instrumento de inclusão
financeira que reduziu drasticamente os custos transacionais, bancarizou
milhões de pessoas e trouxe agilidade aos pequenos e grandes negócios,
beneficiando toda a economia nacional.
Mas, afinal, as operadoras de cartão e as Big Techs
americanas de fato sofreram prejuízos com a implantação do Pix?
Os dados mostram o contrário. O Pix movimentou R$
35,3 trilhões no ano passado e nem sequer arranhou o volume operado pelos
cartões de pagamento no Brasil. Em 2019, as transações por cartão somavam R$
1,75 trilhão; em 2025, alcançaram R$ 4,27 trilhões — um crescimento expressivo
de 144%, muito acima da inflação acumulada no período, que foi de
aproximadamente 38%.
O que explica esse fenômeno? Graças ao Pix, milhões
de brasileiros foram incluídos no sistema bancário, provocando uma queda
drástica no uso de dinheiro em espécie. Em vez de canibalizar o mercado, o Pix
o expandiu, aumentando a circulação total de recursos.
Se o sistema não prejudicou os negócios americanos,
por que Trump insiste em atacá-lo?
Elementar, meus caros Flávios e Eduardos: a
intenção é retirar o protagonismo do Banco Central e transferir o controle dos
pagamentos eletrônicos para bancos privados, bandeiras de cartão e Big Techs,
replicando o modelo americano. Nessas condições, as empresas passariam a cobrar
pelo serviço. Em outras palavras: mais lucro para eles, mais custos para nós.
Além disso, o grande incômodo — aquele que de fato
parece tirar o sono de Washington — é a soberania operacional. Ao reduzir a
dependência de redes privadas estrangeiras e de carteiras digitais controladas
por Big Techs, o Brasil se blinda. Isso enfraquece a capacidade de empresas e
do próprio governo dos EUA de ditarem padrões, tarifas e formas de
intermediação no mercado global de pagamentos.
E isso está longe de ser pouca coisa. Uma taxa
aparentemente modesta de 2% sobre os R$ 35,3 trilhões movimentados pelo Pix
teria gerado, apenas em 2025, algo próximo de R$ 700 bilhões em receitas. Seria
uma transferência colossal de riqueza: dinheiro retirado do bolso de milhões de
cidadãos para inflar o caixa de meia dúzia de corporações bilionárias. Bonito,
né?
