quinta-feira, 25 de junho de 2026

Além dos likes: o impacto dos Influenciadores nas nossas vidas

 



É surpreendente, mas 75 em cada 100 brasileiros seguem pelo menos 10 influenciadores digitais — índice que coloca o país no topo dos rankings mundiais de engajamento com criadores de conteúdo. Quando o recorte se concentra nos jovens entre 16 e 24 anos, a taxa atinge impressionantes 90%, segundo levantamentos como o Digital Brazil Report 2024 e a TIC Kids Online Brasil.

Esse fenômeno ajuda a explicar o sucesso do mercado de influência no Brasil, tanto no campo econômico quanto no cultural. Ele estabelece novas bases para o comportamento de consumo e interfere, muitas vezes de forma preocupante, na formação da opinião pública.

Basicamente, os influenciadores se dividem em três grandes grupos: mega-influenciadores e celebridades, que atuam nas áreas de humor, bastidores da fama e entretenimento geral; especialistas, que buscam atender a necessidades técnicas e específicas de seus seguidores; e microinfluenciadores de nicho, que produzem conteúdo voltado para segmentos bem delimitados, como cinema, esportes, literatura, culinária e política. Cabe esclarecer que, embora muitos se apresentem como especialistas, nem todos possuem qualificação formal na área que abordam.

Quanto aos ganhos, dependem diretamente do número de seguidores e do engajamento. Segundo levantamentos de mercado, apenas 0,1% dos criadores (o chamado top tier) supera a marca de R$ 1 milhão por campanha ou por mês.

Aqui cabe perfeitamente uma adaptação do velho ditado popular: “Todo mundo vê as pingas que o influenciador toma, mas ninguém vê os tombos que ele leva”. À primeira vista, a atividade desperta a ilusão de um mar de rosas: viagens cinematográficas, dinheiro abundante e uma rotina impecável. A realidade, porém, é bem diferente: além da constante instabilidade financeira e da carga excessiva de trabalho, há uma pressão psicológica monumental.

Milhares de pessoas ingressam nesse mercado diariamente e o público, além de exigir novidades ininterruptamente, raramente é fiel — basta surgir algo mais interessante para que o criador anterior seja abandonado. Diante disso, a taxa de sobrevivência na carreira é baixa: muitos não resistem sequer a um ano; boa parte não passa de três; raríssimos ultrapassam cinco anos de relevância contínua.

É justamente nessa corda bamba que residem os maiores perigos. Na urgência de monetizar ou manter a audiência, alguns criadores se associam a fraudes financeiras, ao crime organizado, a jogos de azar ou ao sensacionalismo da pior espécie. Outros passam a oferecer métodos milagrosos, receitas infalíveis e até orientações de saúde sem qualquer base técnica ou respaldo legal.

Já nas esferas política, religiosa ou comportamental, muitos exploram nichos específicos para inflamar crenças e ideologias — tática usada para aumentar o número de seguidores e radicalizar a fidelização.

A grande pergunta é: o que leva tanta gente a buscar conselhos e orientações com influenciadores?

A primeira resposta é que, apesar do bombardeio de informação disponível em tempo integral, a solidão e a dúvida ocupam lugar de destaque na sociedade moderna. Antigamente, as referências vinham de amigos, familiares e especialistas locais respeitados. Essa dinâmica mudou com a digitalização.

Sob uma ótica positiva, essa busca desenfreada democratizou o acesso ao conhecimento. Assuntos antes restritos às salas de aula, aos livros acadêmicos e aos consultórios — como educação financeira, medicina, saúde mental, treinamentos físicos, direitos, alimentação e maternidade — hoje estão ao alcance de um clique. A internet entrega "conselhos" gratuitos e imediatos. Há também a insegurança na hora de consumir: ouvir o relato de quem já testou um produto ou serviço confere mais segurança à tomada de decisão. Além disso, as celebridades (antes distantes e intocáveis) humanizaram-se ao compartilhar o próprio cotidiano, gerando uma forte sensação de proximidade e identificação.

Por fim, talvez o aspecto mais complexo seja o desejo de pertencimento. O seguidor busca fazer parte de um grupo que compartilha as mesmas dores ou ideias ou crenças ou ambições. É exatamente assim que nascem as bolhas digitais, conforme o conceito de câmaras de eco e polarização algorítmica descrito por Eli Pariser em O Filtro Bolha (2011).

Como não existe bônus sem ônus, os efeitos colaterais dessa dinâmica aparecem mais cedo ou mais tarde. O consumo excessivo de conteúdos curtos e superficiais sobre saúde, por exemplo, induz ao autodiagnóstico, gerando alarmismo desnecessário e favorecendo a automedicação perigosa.

Como o caos e a dor também constituem mercados altamente lucrativos, há influenciadores que criam falsos problemas — ou os exageram — para depois vender soluções mágicas, seja por meio de cursos, seja por interesses políticos e financeiros. O resultado para o seguidor que executa essas fórmulas em busca da riqueza ou do corpo prometido costuma ser a colisão com a realidade, o que abre portas para a ansiedade, a frustração e a baixa autoestima, conforme demonstram pesquisas sobre comparação social nas redes (Vogel et al., 2014) e o fenômeno do Fear of Missing Out (FOMO).

Existe uma demanda massiva por felicidade "instagramável", soluções fáceis e respostas imediatas para tudo: desde crises existenciais até a "pinta suspeita que apareceu no braço". O mercado da influência se aproveita dessa urgência para vender facilidades e falsas certezas.

O filósofo Clóvis de Barros Filho desenvolve um pensamento que se encaixa perfeitamente aqui: ninguém conhece completamente outra pessoa. Somos seres complexos, contraditórios e em constante transformação. Nem nós mesmos nos conhecemos por inteiro. Mas isso não significa que devamos terceirizar nossas escolhas ou conceder a terceiros o poder de decidir o que é melhor para nossas vidas: “Se existe alguém que detém o maior conhecimento sobre você, esse alguém é você mesmo — afinal, ninguém convive com você há mais tempo”.

Em suma, influenciadores digitais podem informar, inspirar e entreter — mas nunca devem substituir nossas decisões pessoais e, muito menos, o nosso pensamento crítico.