É surpreendente, mas 75 em cada
100 brasileiros seguem pelo menos 10 influenciadores digitais — índice que
coloca o país no topo dos rankings mundiais de engajamento com criadores de
conteúdo. Quando o recorte se concentra nos jovens entre 16 e 24 anos, a taxa
atinge impressionantes 90%, segundo levantamentos como o Digital Brazil Report 2024 e a TIC Kids Online Brasil.
Esse fenômeno ajuda a explicar o
sucesso do mercado de influência no Brasil, tanto no campo econômico quanto no
cultural. Ele estabelece novas bases para o comportamento de consumo e
interfere, muitas vezes de forma preocupante, na formação da opinião pública.
Basicamente, os influenciadores se
dividem em três grandes grupos: mega-influenciadores
e celebridades, que atuam nas áreas de humor, bastidores da fama e
entretenimento geral; especialistas,
que buscam atender a necessidades técnicas e específicas de seus seguidores; e microinfluenciadores de nicho,
que produzem conteúdo voltado para segmentos bem delimitados, como cinema,
esportes, literatura, culinária e política. Cabe esclarecer que, embora muitos
se apresentem como especialistas, nem todos possuem qualificação formal na área
que abordam.
Quanto aos ganhos, dependem
diretamente do número de seguidores e do engajamento. Segundo levantamentos de
mercado, apenas 0,1% dos criadores (o chamado top tier) supera a marca de R$ 1 milhão por campanha
ou por mês.
Aqui cabe perfeitamente uma
adaptação do velho ditado popular: “Todo mundo vê as pingas que o influenciador
toma, mas ninguém vê os tombos que ele leva”. À primeira vista, a atividade
desperta a ilusão de um mar de rosas: viagens cinematográficas, dinheiro
abundante e uma rotina impecável. A realidade, porém, é bem diferente: além da
constante instabilidade financeira e da carga excessiva de trabalho, há uma
pressão psicológica monumental.
Milhares de pessoas ingressam
nesse mercado diariamente e o público, além de exigir novidades
ininterruptamente, raramente é fiel — basta surgir algo mais interessante para
que o criador anterior seja abandonado. Diante disso, a taxa de sobrevivência
na carreira é baixa: muitos não resistem sequer a um ano; boa parte não passa
de três; raríssimos ultrapassam cinco anos de relevância contínua.
É justamente nessa corda bamba que
residem os maiores perigos. Na urgência de monetizar ou manter a audiência,
alguns criadores se associam a fraudes financeiras, ao crime organizado, a
jogos de azar ou ao sensacionalismo da pior espécie. Outros passam a oferecer
métodos milagrosos, receitas infalíveis e até orientações de saúde sem qualquer
base técnica ou respaldo legal.
Já nas esferas política, religiosa
ou comportamental, muitos exploram nichos específicos para inflamar crenças e
ideologias — tática usada para aumentar o número de seguidores e radicalizar a
fidelização.
A grande pergunta é: o que leva
tanta gente a buscar conselhos e orientações com influenciadores?
A primeira resposta é que, apesar
do bombardeio de informação disponível em tempo integral, a solidão e a dúvida
ocupam lugar de destaque na sociedade moderna. Antigamente, as referências
vinham de amigos, familiares e especialistas locais respeitados. Essa dinâmica
mudou com a digitalização.
Sob uma ótica positiva, essa busca
desenfreada democratizou o acesso ao conhecimento. Assuntos antes restritos às
salas de aula, aos livros acadêmicos e aos consultórios — como educação
financeira, medicina, saúde mental, treinamentos físicos, direitos, alimentação
e maternidade — hoje estão ao alcance de um clique. A internet entrega
"conselhos" gratuitos e imediatos. Há também a insegurança na hora de
consumir: ouvir o relato de quem já testou um produto ou serviço confere mais
segurança à tomada de decisão. Além disso, as celebridades (antes distantes e
intocáveis) humanizaram-se ao compartilhar o próprio cotidiano, gerando uma
forte sensação de proximidade e identificação.
Por fim, talvez o aspecto mais
complexo seja o desejo de pertencimento. O seguidor busca fazer parte de um
grupo que compartilha as mesmas dores ou ideias ou crenças ou ambições. É
exatamente assim que nascem as bolhas digitais, conforme o conceito de câmaras
de eco e polarização algorítmica descrito por Eli Pariser em O Filtro Bolha (2011).
Como não existe bônus sem ônus, os
efeitos colaterais dessa dinâmica aparecem mais cedo ou mais tarde. O consumo
excessivo de conteúdos curtos e superficiais sobre saúde, por exemplo, induz ao
autodiagnóstico, gerando alarmismo desnecessário e favorecendo a automedicação
perigosa.
Como o caos e a dor também
constituem mercados altamente lucrativos, há influenciadores que criam falsos
problemas — ou os exageram — para depois vender soluções mágicas, seja por meio
de cursos, seja por interesses políticos e financeiros. O resultado para o
seguidor que executa essas fórmulas em busca da riqueza ou do corpo prometido
costuma ser a colisão com a realidade, o que abre portas para a ansiedade, a
frustração e a baixa autoestima, conforme demonstram pesquisas sobre comparação
social nas redes (Vogel et al., 2014) e o fenômeno do Fear of Missing Out (FOMO).
Existe uma demanda massiva por
felicidade "instagramável", soluções fáceis e respostas imediatas
para tudo: desde crises existenciais até a "pinta suspeita que apareceu no
braço". O mercado da influência se aproveita dessa urgência para vender
facilidades e falsas certezas.
O filósofo Clóvis de Barros Filho
desenvolve um pensamento que se encaixa perfeitamente aqui: ninguém conhece
completamente outra pessoa. Somos seres complexos, contraditórios e em
constante transformação. Nem nós mesmos nos conhecemos por inteiro. Mas isso
não significa que devamos terceirizar nossas escolhas ou conceder a terceiros o
poder de decidir o que é melhor para nossas vidas: “Se existe alguém que detém
o maior conhecimento sobre você, esse alguém é você mesmo — afinal, ninguém
convive com você há mais tempo”.
Em suma, influenciadores digitais
podem informar, inspirar e entreter — mas nunca devem substituir nossas
decisões pessoais e, muito menos, o nosso pensamento crítico.
