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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Brasil versus Vorcaro: a torcida dividida pela "Copa” da delação

 



 

Na Copa do Mundo deste ano, os jogos não estarão no centro das atenções dos brasileiros como acontecia antes. Tradicionalmente, a maioria acompanhava a seleção e ignorava quase tudo o que acontecia no país.

 

Na maior "Copa" de todos os tempos, porém, estima-se que cerca de 140 milhões de brasileiros — 68%, fruto da polarização, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira — também estarão atentos a outro espetáculo: a expectativa de que Daniel Vorcaro resolva "jogar m* no ventilador". Para isso, haverá torcida dos dois lados: metade lulista, metade bolsonarista. O detalhe é que essa torcida estará, em tese, unida em favor do Brasil, mas por objetivos opostos. Cada lado espera que uma eventual delação atinja apenas o adversário.

 

Os bolsonaristas esperam que das revelações de Vorcaro surjam elementos capazes de atingir mortalmente as pretensões políticas de Lula, demonstrar a participação de integrantes do PT da Bahia no esquema e confirmar suspeitas envolvendo ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Já os lulistas desejam que a delação revele uma eventual participação de Bolsonaro na autorização, sem lastro, para o funcionamento irregular do Banco Master; esclareça se a destinação dos recursos solicitados por Flávio Bolsonaro teria sido para manter o irmão Eduardo nos EUA; e atinja grandes lideranças do Centrão. Caso o banqueiro "dê com a língua nos dentes", quais seriam as consequências?

 

Se as expectativas petistas forem confirmadas, o bolsonarismo sofrerá um duro golpe, pois isso atingiria o coração da bandeira anticorrupção que alimentou boa parte do sentimento antipetista. Seria um caso de "elas por elas". Muitos líderes do Centrão perderiam prestígio, embora o tradicional modus operandi de utilizar a máquina pública em benefício próprio continuasse fazendo parte de sua rotina.

 

Por outro lado, se o sonho bolsonarista se concretizar, pouca coisa mudará para o PT. Não seria nenhuma novidade, ou, como diz a expressão muito usada antigamente em Itapira, seria apenas "mais uma verruga para a Corola". O partido já enfrentou diversos escândalos de corrupção, e a reeleição de Lula continuará dependendo, sobretudo, do desempenho da economia e da aprovação de seu governo.

 

Entretanto, a possibilidade de uma delação com o alcance imaginado por ambos os lados parece cada vez mais distante. Ao criar uma teia de "amigos" influentes nos dois espectros políticos e no Poder Judiciário, Vorcaro tinha consciência das irregularidades e de que, em algum momento, poderia ser descoberto; por isso, construiu essas pontes para utilizá-las a seu favor no momento oportuno. Ao não entregar os ditos cujos ao cadafalso, ele pode estar apostando que Lula, caso seja reeleito e conte com o respaldo do STF, lhe conceda algum tipo de benefício que o livre do cumprimento integral da pena; ou que Flávio, se sair vitorioso, articule, com o apoio do Centrão, uma anistia ou algo semelhante. São hipóteses que alimentam as especulações nas rodas de cafezinho de Brasília.

 

O problema de Vorcaro, porém, estará na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República. Diante de documentos, transferências financeiras, registros eletrônicos e arquivos encontrados em diversos aparelhos celulares, seu futuro pode se tornar bastante complicado. Talvez seja difícil receber ajuda de quem quer que seja. Será que ele estaria mais preocupado com os anéis do que com os dedos? Eis a questão.

 

Afinal, o escândalo do Banco Master, atualmente estimado em cerca de R$ 60 bilhões, superaria a soma dos últimos grandes escândalos de corrupção do país: Mensalão (R$ 200 milhões), Petrolão/Lava Jato (R$ 43 bilhões) e fraudes no INSS (R$ 6,3 bilhões), que juntos totalizariam R$ 49,5 bilhões. Curiosamente, só não seria maior do que os R$ 61 bilhões em emendas parlamentares previstos para este ano. Em 2025, foram R$ 50 bilhões — recursos sobre os quais frequentemente recaem questionamentos quanto à transparência e à destinação.

 

Com tanta torcida organizada dos dois lados, existe apenas uma forma de o Brasil sair derrotado desse jogo: basta que tudo termine em pizza.

 

Em tempo: termina nesta sexta-feira o prazo concedido pelo ministro André Mendonça, do STF, para que a defesa de Daniel Vorcaro tenha acesso, das 9h às 17h, aos termos necessários para estruturar a delação premiada. A partir do dia seguinte, o contato dos advogados será limitado a 30 minutos, e há a expectativa de que ele seja transferido de volta para uma cela comum.

 

 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Bandido bom é bandido inteligente

 



Não é de hoje que discordo do mantra “bandido bom é bandido morto” em todas as suas vertentes. Dentre os meus pontos de discordância, destaca-se a forma como a palavra "bom" é interpretada nesse contexto.

O adjetivo “bom” carrega múltiplos significados: qualidade, bondade, saúde e prazer. Se as duas últimas definições obviamente não se aplicam ao caso, as duas primeiras merecem uma análise mais profunda.

Se considerarmos "bom" sob a ótica da bondade, talvez o "Bom Ladrão" da tradição bíblica, crucificado ao lado de Jesus, possa ser enquadrado, afinal, foi perdoado e subiu aos céus. Outro exemplo seria o lendário Robin Hood, famoso por sua generosidade para com os camponeses pobres e oprimidos em sua luta contra a tirania. Trazendo para a realidade atual, talvez se encaixem aqui os chefes de facções e milícias que dominam determinados territórios. Ao oferecerem aos moradores uma suposta proteção, além de mimos e festas sazonais, eles criam uma blindagem social. Com isso, a polícia dificilmente chega até eles, que se mantêm bem vivos e ainda conseguem força política para eleger vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e, quem sabe, até o presidente da República.

Por outro lado, quando olhamos a criminalidade pela lente da qualidade, o "bandido bom" é aquele que executa seu trabalho de forma tão impecável que ninguém percebe. Comete crimes, enriquece às custas de sonegação, corrupção e golpes financeiros bem-sucedidos, e passa a vida incólume. Ou, quando é pego tardiamente, o estrago já é monumental.

Atualmente, acompanhamos as peripécias criminosas de Daniel Vorcaro, operador daquele que se desenha como o maior crime financeiro da nossa história. Não há como negar-lhe uma assombrosa inteligência. O rombo provocado, que até o momento bate na casa dos 60 bilhões de reais, gerou prejuízos incalculáveis a investidores e ao erário público. Para atingir tal façanha, ele arquitetou uma verdadeira engenharia de transferências monetárias por meio de fundos e das chamadas fintechs.

Vorcaro começou a construir seu império arregimentando políticos graduados e membros do Poder Judiciário. Conseguiu, há cerca de sete anos, que as fintechs pudessem emprestar dinheiro de forma totalmente independente dos bancos tradicionais, sem submissão às mesmas regras. Com total liberdade nas operações de crédito, essas plataformas se associaram a fundos que garantem o sigilo dos investidores, facilitando a entrada de recursos oriundos do crime organizado e da corrupção.

Enquanto o Banco Master arrecadava recursos no mercado, seja com promessas de juros elevados, captando dinheiro de contas de previdência privada complementar de servidores públicos ou vendendo carteiras de crédito sem lastro, Vorcaro, supostamente, desviava esses ativos. Quando a situação da instituição começou a ruir e o negócio passou a "cheirar mal", ele tentou, com o apoio de políticos amigos, fazer com que o Banco de Brasília (BRB), envolvido até os dentes nas falcatruas, absorvesse o ativo e o passivo da combalida instituição. O Banco Central atuou e a manobra falhou. O Banco Master sofreu liquidação e Vorcaro, hoje preso, aguarda as investigações e poderá ver o sol nascer quadrado por um bom tempo.

A inteligência de Vorcaro, somada a uma montanha de dinheiro alheio, ajudou-o a construir uma extensa rede de influência para garantir sua proteção. Ele promovia festas nababescas e gravava tudo, estrategicamente, para ter os participantes em mãos. Distribuía gordas mesadas a políticos de todas as esferas, a membros do Judiciário, a agentes da Polícia Federal e a diretores do Banco Central. Ele não apenas montou um forte esquema midiático com influenciadores para atacar o Banco Central e seus inimigos, como também financiava grupos de intimidação contra jornalistas e críticos que cruzassem o caminho de seus interesses.

Teve a audácia de contratar figuras dos dois lados do espectro político: de ministros ligados ao governo atual a ex-ministros da gestão anterior, passando pela esposa de um ministro do STF e pelo financiamento do filme de um ex-presidente. Caberá à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República identificar eventuais contrapartidas para que essa cama de gato seja totalmente desvendada.

Felizmente, apesar de toda a inteligência empregada pelo crime, o país deu um passo importante e conseguiu colocar um freio na engrenagem. Quando olhamos para trás, situações semelhantes envolvendo agentes financeiros, empreiteiras e indústrias desonestas costumavam ter melhor sorte. No entanto, o caso Vorcaro evidencia uma realidade histórica do Brasil: boa parte do eleitorado condena a corrupção no discurso, mas, nas urnas, segue reelegendo políticos envolvidos em práticas corruptas, sobretudo para o Congresso Nacional.

Afinal, como bem esclarecem os altos comandos da criminalidade brasileira, bandido que morre ou é preso é como político pego com a boca na botija: burro.