No último fim de
semana, Itapira assistiu estarrecida a mais um lamentável episódio de violência
política: após um bate-boca, dois adultos agrediram um idoso de 70 anos.
Discutir política
faz parte da nossa tradição, mas agressão física é crime. Causar danos à saúde
ou integridade de um idoso enquadra-se no Artigo 129 do Código Penal, com pena
agravada pela idade da vítima. Pelo Estatuto da Pessoa Idosa, a ação penal é
pública e incondicionada — o Ministério Público tem o dever de agir sem
depender da autorização da vítima ou de sua família.
Injustificável
sob qualquer pretexto, a agressão física se torna ainda mais estarrecedora
quando acompanhada pela conivência e pelo apoio prestado aos agressores.
Embora casos
semelhantes venham sendo relatados nas redes sociais locais e nas nossas ruas,
essa intolerância não é exclusiva de Itapira. Segundo o estudo “Medo do Crime e
Eleições” (FBSP/Datafolha), cerca de 60% dos brasileiros têm medo de sofrer
violência física por suas posições políticas — índice que chega a 65% entre as
mulheres.
A realidade, porém,
é subnotificada. As ONGs Terra de Direitos e Justiça Global registraram 134
episódios de violência política no primeiro turno (um a cada 9 horas), com duas
mortes. No segundo turno, o cenário agravou-se: o Ministério da Justiça
contabilizou 45 ocorrências graves a partir de 24 de outubro, culminando em 10
mortes.
Paralelamente, o
ambiente corporativo registrou um salto inédito de assédio. O Ministério
Público do Trabalho (MPT) acumulou 3.396 denúncias de assédio eleitoral em 2026
— quase metade nos três dias após o segundo turno. São Paulo liderou o ranking,
seguido por Minas Gerais e Paraná.
Historicamente, a
violência política no Brasil concentrava-se em disputas entre elites, repressão
estatal ou eliminação de lideranças. O cidadão comum raramente era alvo. Nos
últimos anos, porém, o extremismo migrou para o cotidiano, atingindo vizinhos, amizades,
colegas de trabalho e familiares em discussões banais motivadas unicamente por
posicionamento político.
Essa escalada é
alimentada por lideranças que recusam o resultado das urnas e insuflam teses de
fraude. Sentindo-se enganada, a militância perde a racionalidade. Mesmo com a
vitória de Lula reconhecida por 112 países (incluindo França, Alemanha, China,
EUA e Japão) e órgãos como ONU, UE e OEA, o candidato derrotado persiste em
discursos sem provas, inflamando radicais.
Torcer por uma
candidatura faz parte da democracia. No entanto, recusar a vitória legítima do
adversário atenta contra o próprio regime democrático — e, quando a civilidade
cede espaço ao radicalismo, as consequências tornam-se imprevisíveis para toda
a sociedade.
